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ACURI, A PALMEIRA DOS ÍNDIOS GUATÓ:
UMA PERSPECTIVA ARQUEOLÓGICA
Jorge Eremites de Olivera* |
Resumo
A palmeira acuri (Scheelea phalerata Mart.) é
uma das principais espécies vegetais usadas tradicionalmente pelos índios Guató.
Há casos, inclusive, em que esta palmeira pode ser indicador de manejo ambiental,
do ato de transplantá-la para seus assentamentos; esta informação é de grande
relevância para a compreensão da pré-história das áreas inundáveis do Pantanal,
pois em Arqueologia as interpretações teóricas são baseadas em modelos etnográficos.
Resumen
Acuri,
la Palmera de los Indios Guató: Una Perspectiva Arqueológica. La palmera acuri (Scheelea phalerata
Mart.) es una de las principales especies vegetales usadas tradicionalmente
por los indios Guató. Hay casos además de que esta palmera puede ser indicativo
de manejo medioambiental, del acto de trasplantarla para sus asentamientos;
esta información es de gran relevancia para la comprensión de la prehistoria
de las áreas inundadas del Pantanal, porque en Arqueología las interpretaciones
teóricas están basadas en modelos etnográficos.
Résumé
Acuri,
le Palmier de l'Indien Guató: Une Approche Archéologique<. Le palmier acuri (Scheelea phalerata
Mart.) est l'espèce végétale la plus traditionnellement utilisée par l'Indien
Guató. De plus, il y a des cas où ce palmier peut être indicatif de manutention
de l'environnement, puisqu'il était transplanté dans les endroits où ils se
sont fixés et assis; cette information est très significative pour la compréhension
de la préhistoire des terres inondables du Pantanal, parce que, en archéologie,
les interprétations théoriques se basent sur des modéles éthnographiques.
Abstract
Acuri,
the Palm Tree of the Guató Indian: An Archaeological Perspective. The acuri palm tree (Scheelea phalerata
Mart.) is one of the main vegetable species used traditionally by Guató Indian.
There are cases, besides, in which this palm tree can be indicative of environmental
handling, of the act of transplanting it for their settlements; this information
is of great relevance for the understanding of the prehistory of the flooded
areas of the Pantanal, because in Archaeology the theoretical interpretations
are based on ethnographic models.
Considerações Iniciais
"A viola de ximbuva.
Eu nunca mais mexi.
Está num canto abandonada.
No meu ranchinho de yacori".
(Indiazinha - Zé do Mato & Zé do Rancho)
Em Indiazinha, rasqueado
da dupla Zé do Mato & Zé do Rancho, interpretado por Maciel Corrêa (1997),
um dos grandes nomes da música sul-matogrossense, percebe-se que a palmeira
acuri é bastante conhecida regionalmente, embora praticamente nada se saiba
sobre sua utilização por populações indígenas e populações tradicionais no Brasil.
O trabalho Palmeiras brasileiras (Arecaceae): pequena bibliografia comprova
o que estou falando (ver Paiva, 1999a, 1999b, 1999c). Por este e outros motivos,
resolvi tratar deste assunto a partir de dados sistematicamente recolhidos sobre
o uso tradicional da acuri pelos índios Guató.
Antes de mais nada, quero
aqui apresentar um pequeno esclarecimento:
"O nome palmeira é dado a todas as plantas pertencentes à família
das Palmáceas. O povo distingue entre "palmeira" e "coqueiro" segundo a planta
produz frutos comestíveis ou utilitários industrialmente". (Corrêa, 1984:334)
A maioria dos dados primários
aqui analisados, foi encontrada em fontes textuais de interesse à etnologia
e à etnoistória Guató, com destaque para as publicações do etnólogo alemão Max
Schmidt (1914, 1942, 1951 [1974]). Alguns dados, porém, foram obtidos em 1997
e 1998 durante a realização de pesquisas arqueológicas e etnoarqueológicas junto
a duas famílias Guató que vivem ao sul da sub-região de Poconé, em Mato Grosso,
próximo à divisa com Mato Grosso do Sul. Acrescentam-se ainda as informações
obtidas no âmbito do projeto Diagnóstico Sócio-ambiental da Área Indígena
Guató - Ilha Ínsua, desenvolvido pela Ecologia & Ação(ECOA), uma ONG
ambientalista, e a Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS) (ver Bortolotto
& Damasceno Jr., 1998; Oliveira, 1998).
O propósito deste trabalho
é discutir sobre a forma tradicional de uso da palmeira acuri, iacori ou bacuri
(Scheelea phalerata Mart.) pelos índios Guató, que a denominam midjí,
bem como sobre a questão da interferência de populações indígenas pretéritas
na distribuição desta palmácea pela região pantaneira, sobretudo em locais onde
ocorrem sítios arqueológicos. Esta perspectiva não implica, todavia, em afirmar
que a acuri é uma espécie domesticada, isto é, que sua reprodução dependa
da intervenção humana direta, a exemplo do que ocorre com mandiocas (Manihot
spp.), milhos (Zea spp.) e bananas (Musa spp.). Implica, por
outro lado, em considerá-la como uma espécie semidomesticada, ou seja,
transplantada de um lugar para outro, conforme definição de Darrell Posey:
"Emprego o termo "semidomesticada" para indicar plantas que são intencionalmente
manipuladas pelos índios, os quais conscientemente modificam o habitat do
vegetal para estimular-lhe o crescimento. As conseqüências genéticas deste
processo são ainda desconhecidas, mas merecem ser estudadas em profundidade".
(Posey, 1987:175)
Nesta perspectiva, cabe
explicar que pesquisas arqueológicas têm comprovado a presença indígena no Pantanal
desde, ao menos, 8.200 anos atrás (cf. Oliveira, 1997; Oliveira & Viana,
2000; Schmitz et al., 1998). Além disso, na primeira metade do século 16, momento
do início da Conquista Ibérica da região platina, o Pantanal apresentava-se
como um extraordinário mosaico cultural, provável área de confluência
para onde grupos agricultores e ceramistas deslocaram-se desde o período pré-histórico.
Isto significa que a região foi habitada por diferentes grupos étnicos, cujo
modo de vida também esteve intimamente relacionado aos recursos naturais ali
existentes. Esta constatação comprova, principalmente àqueles que pensam ingenuamente
que os índios são desprovidos de qualquer capacidade criativa, que etnias ameríndias
também desenvolveram complexas estratégias de utilização dos recursos naturais
existentes nos ecossistemas pantaneiros, explorando-os através da pesca, caça,
coleta e formas de manejo ambiental, das quais ainda pouco ou praticamente nada
se conhece em profundidade. Daí a relevância da realização de pesquisas nos
campos da antropologia ecológica, arqueologia, etnoarqueologia e etnobotânica,
dentre outros, para uma melhor compreensão de temáticas referentes às relações
entre sociedades indígenas e meio ambiente. Ademais, como bem diz Berta Ribeiro:
"A historiografia brasileira desconhece, praticamente, a imensa contribuição
do aborígene americano no que se refere a práticas de conseqüências genéticas
na domesticação de plantas". (Ribeiro, 1987:34)
O uso de palmeiras por
populações ameríndias é um tema que grosso modo está razoavelmente reconhecido
pela etnologia, haja vista que, segundo Lévi-Strauss (1987) e Ribeiro (1995),
diversas espécies tiveram ¾ algumas ainda têm ¾ papel importante em várias culturas nativas. E mais:
"La família Palmae es una de las mayores unidades taxonómicas, extendidas
por los cinco continentes, con la mitad de las 2000 taxa en el Neotrópico.
Numerosas tribus han contribuido eficazmente a la difusión continental de
las más útiles de estas". (Brücher, 1988:240)
Ainda sobre este assunto,
Berta Ribeiro faz o seguinte esclarecimento:
"Silvestres ou domesticadas, diversas espécies de palmeiras representam substancial
fonte alimentar para os aborígenes, seja o fruto, o palmito, a castanha ¾
da qual se faz azeite para comer, para iluminação, para repelir insetos ¾;
seja para a cobertura das casas, para trançar cestos, esteiras; seja a fibra
mais fina para fio e tecido; ou, finalmente, a madeira para inúmeros fins".
(Ribeiro, 1995:203)
De momento, tendo em vista
que os Guató ainda são pouco conhecidos na literatura etnológica, cabe esclarecer
que eles constituem um grupo étnico diretamente filiado ao tronco lingüístico
Macro-Jê. Encontram-se estabelecidos no Pantanal há mais de 500 anos; a primeira
referência textual sobre eles consta nos relatos do conquistador espanhol Alvar
Ñunez Cabeza de Vaca (1984) que ali esteve em 1543. Ficaram conhecidos como
índios canoeiros devido ao fato de sua mobilidade espacial depender,
quase que exclusivamente, da utilização da canoa como meio de transporte. Tradicionalmente
organizam-se em um provável sistema de patrilocalidade baseado em famílias nucleares
autônomas (independentes umas das outras). Sua área de ocupação limita-se exclusivamente
à região do Pantanal, aproximadamente entre os paralelos de 16º30 a 21º00
e os meridianos de 56º30 a 58º30 de longitude Oeste de Greenwich, em especial
o curso principal do rio Paraguai, rio Paraguai-Mirim, rio Alegre, rio Caracará,
canal D. Pedro II, lagoas Gaíva e Uberaba, morraria dos Dourados, serra do Amolar
e Ilha Ínsua, via de regra em locais associados diretamente a cursos dágua
permanentes que ocorrem na planície de inundação (Oliveira, 1996). Na Noticia
sobre os Indios de Matto-Grosso, escrita em 2/12/1848 por Joaquim Alves
Ferreira, Diretor Geral dos Índios da então Província, há uma interessante descrição
etnográfica dos Guató que corrobora as idéias aqui apresentadas:
"Os Guatós diferem dos seus conterrâneos por uma circunstância essencial:
a de viverem, por assim dizer-se, sobre água. Avalia-se em 500 o numero total
deles. Habitam o rio Paraguai e as adjacentes lagoas desde a boca superior
do Paraguai Mirim até um pouco abaixo do Descalvado. Encontram-se também no
rio S. Lourenço até a foz do Cuiabá; e na estação das águas vagueiam embarcados
pelos campos, inundados pelas águas transbordadas dos rios. As famílias vivem
isoladas ou reunidas em pequenos grupos; constróem com alguns delgados paus
e folhas de palmeiras [acuri] pequenos e baixos ranchos, apenas suficientes
para abrigá-los do sol e da chuva". (Ferreira, 1914 [1848]:90)
A Questão do Manejo Ambiental
"A projeção histórica das atividades de manejo ambiental em direção ao passado,
numa dimensão temporal que deve ultrapassar um período de 2.000 anos, considerando
seu imenso território de domínio e a quantidade de espécies correntemente
utilizadas, é uma prova de que os Guarani contribuíram positivamente na alteração
fitogeográfica e na biodiversidade do sul do Brasil e adjacências". (Noelli,
1998:293)
Uma das questões menos
conhecidas na Arqueologia Brasileira diz respeito à interferência das sociedades
indígenas nos diversos ecossistemas existentes no país. Para exemplificar esta
realidade, pode-se mencionar os conhecidos estudos de Posey (1987) sobre o manejo
da floresta secundária, capoeiras, campos e cerrados pelos índios Kayapó. Os
recentes aportes de Noelli (1998), por seu turno, também são relevantes para
uma compreensão histórica sobre o uso de plantas por índios Guarani, dentre
outros assuntos. Para o Pantanal, em função do pouquíssimo que se conhece sobre
o assunto, normalmente não há inferências, por parte dos especialistas em botânica,
sobre a influência indígena na atual configuração florística da região[1].
Há casos, inclusive, em que as populações indígenas são exageradamente vistas
como exóticas.
"A propósito, ainda não descobrimos qual é o "bodjetó" ou "flor-da-cobra",
a planta dos Guatós para prolongar o orgasmo, pois a descrição (frutinho vermelho)
é vaga demais e não foi guardado um exemplar em herbário!" (Pott & Pott,
1994:15)[2]
É fato, porém, que o Pantanal
foi consideravelmente povoado por grupos lingüisticamente Arawak, Guaicuru,
Jê, Macro-Jê, Tupi-Guarani e Zamuco (Carvalho, 1992; Oliveira, 1997; Susnik,
1978). Logo, não é de se estranhar que eles também tenham interferido nas paisagens
locais ao longo de várias gerações.
A polêmica torna-se maior
quando se discute sobre a origem dos aterros que ocorrem na região. Trata-se
de sítios arqueológicos que muitas vezes apresentam-se na paisagem como elevações
do terreno, total ou parcialmente antrópicas, normalmente em áreas inundáveis
e sob aspecto de capões-de-mato e cordilheiras[3], sendo verdadeiras
ilhas de vegetação, espécies de mini-refúgios para a fauna e, especialmente
no passado, para as populações indígenas. Pesquisas arqueológicas realizadas
no âmbito do Projeto Corumbá sugerem que também houve uma influência
antrópica na formação dos aterros. Acredita-se que em alguns casos populações
indígenas pretéritas contribuíram para a deposição de conchas de moluscos aquáticos
e sedimentos sobre antigas elevações do terreno (Oliveira, 1996, 1997; Schmitz,
1997). Mas o que mais interessa aqui é a hipótese de que o homem também contribuiu,
através do manejo ambiental, para a formação florística de muitos desses sítios
arqueológicos. Neste sentido, vale a pena mencionar que as acuris geralmente
estão presentes nos aterros, na maioria das vezes concentradas em suas bordas,
como é o caso de dezenas de sítios arqueológicos levantados nas sub-regiões
do Abobral, Miranda e Poconé.
"Os capões, nesta sub-região [Abobral], são na sua maioria sítios arqueológicos,
com forma circular ou elíptica, tendo sua origem explicada por fenômenos de
erosão diferencial em paleodiques fluviais e no manejo pelas populações indígenas".
(Damasceno Jr. et al., 1997:5)
Na tentativa de melhor
entender o assunto em questão, é interessante saber como os índios Guató explicam
a presença de palmeiras acuris em seus aterros ou marraboró ¾ que infelizmente ainda não foram alvo de
pesquisas arqueológicas modernas ¾ e como as utilizavam em seu cotidiano. Segundo Schmidt
(1942), os Guató lhe disseram em 1901 que eles próprios retiravam mudas desta
palmácea de alguns lugares próximos aos aterros e ali as transplantavam; explicaram
que seu desenvolvimento é lento e somente após anos se dá a frutificação. A
transplantação ocorria principalmente nas bordas dos sítios, em função da necessidade
de também proteger os aterros da ação das águas durante as cheias periódicas,
a fim de que os mesmos não fossem erodidos. É claro que tais informações devem
ser relativizadas quanto à tentativa de interpretar a presença da acuri em todos
os aterros que ocorrem no Pantanal, pois esta questão também envolve realidades
fitossociológicas complexas. O fato é que tais informações também foram confirmadas
através de informações orais registradas por Oliveira (1996), sendo comparadas
com fontes de natureza diversa como dados etnográficos e iconográficos contidos
na literatura etnológica e em documentos históricos. De qualquer maneira, a
explicação dos Guató chama a atenção para uma visão êmica significativamente
lógica do ponto de vista da engenharia dos aterros. Ademais, transplantar
mudas de acuri para os aterros também atesta o interesse em estimular o crescimento
dessas palmeiras em um local onde o solo é mais fértil.
"Uno de los métodos más primitivos para crear artificialmente un suelo fértil
consiste en la aplicación de tierra fértil sobre el suelo destinado para el
cultivo, que es de por sí estéril y, por eso, no cubierto de vegetación tupida.
Para esta clase de agricultura he elegido el nombre de "cultivo con mounds"
(montículos), pues por la aplicación repetida de tierra fértil se producen
pequeños montículos artificiales que son llamados en América del Norte, por
lo general, "mounds". En la región panatanosa de la desembocadura del Rio
S. Lourenço en el Alto Paraguay y especialmente en los sitios al lado del
pequeño rio Caracará que es un brazo del Rio S. Lourenço inferior, tuve oportunidad
de encontrar y examinar tales montículos que se llaman ahi "aterrados" y que
hasta hoy día son empleados por los indios Guató para plantaciones y especialmente
para el cultivo de la palma acurí. (...). En lo que respecta a estos aterrados
se trata de lugares en pántanos, por su naturaleza ya elevados que han sido
cubiertos de medio metro de mantillo humífero extraido de partes bajas y pantanosas.
Como el desgaste de la tierra por la plantación exige la aplicación repetida
de siempre nuevas capas de mantillo, estos aterrados bastante extensos no
han sido levantados sino poco a poco y eso aclara mejor la distribución de
la tierra por varias capas. Aun hoy día los Guató viven durante la época de
la obtención del jugo de las palmas acurí, plantadas en los aterrados y aun
hoy ellos entierran ahí a sus muertos, lo que explica de por sí el aparecer
de esqueletos humanos y de residuos de objetos de cultura en estos aterrados".
(Schmidt, 1951:246)
Diante dos dados apresentados,
torna-se pertinente a idéia de que a presença da palmeira acuri em muitos aterros,
bem como em outros tipos de sítios arqueológicos encontrados na região, pode
ser explicada como sendo o resultado de um conjunto de fatores de ordem natural
e antrópica, dentre os quais o manejo ambiental. Esta hipótese possui maior
segurança para o caso dos aterros ocupados pelos Guató na região do Caracará.
São assentamentos que serviram de verdadeiros quintais (home gardens),
locais para onde também transplantavam mudas de acuri, laboratórios para
a realização de experimentos de formas de manejo e cultivo, dentre outras formas
de seleção genética de vegetais. Ou nas palavras de Eduardo Neves:
"O quintal seria o espaço de experimentação e aperfeiçoamento das espécies
e, a partir daí, teriam se desenvolvido outras formas de cultivo, como as
roças, onde o plantio é mais importante que o transplante de mudas". (Neves,
1995:183)
A Utilização da Palmeira Acuri
"Yo soy un hombre sincero
De onde cresce la palma
Yo sou un hombre sincero
De onde cresce la palma
Y antes de morirme queiro
Cantar mis versos del alma"
(Guantanamera J. Marti, J. Fernandez & A. Angulo)
Palmeiras à parte, em Guantanamera,
canção muitíssimo conhecida na América Latina, a situação dos descendentes do
índio Caetano, aqueles que são os últimos argonautas do Caracará, está razoavelmente
retratada: a idade avançada e as dificuldades advindas do contato com a sociedade
nacional fizeram com que José, Veridiano, Júlia e Vicente sejam atualmente os
últimos canoeiros autênticos nascidos naquela região, lugar onde Max Schmidt
esteve em 1910 e tomou nota de muitos dos dados aqui utilizados. Infelizmente,
José faleceu em fins de 1999.
Além do uso da palmeira
acuri para proteger os aterros da ação das águas, os Guató a utilizavam de várias
outras maneiras. No que diz respeito à subsistência das famílias, dela era produzida
uma bebida chamada mukudá, um tipo de cerveja de acuri feita da seguinte
forma:
"Cada família possuía o seu próprio depósito de palmeiras. Uma picada estreita
e muito sinuosa nos guiava até lá. Prepara-se a acuri de tal maneira que as
folhas maiores se dobram para baixo. Na base superior do tronco, escava-se,
por meio de uma concha ou de um pedacinho de ferro, um orifício, onde se ajunta
a seiva. A bebida leitosa e de bom sabor é sorvida no tronco por meio de um
canudo. Dizem que pela manhã ela ainda é mais embriagadora do que à noite.
Isto se explica pelo fato de, durante a noite, o líquido completar a fermentação.
Todo dia é preciso consumir toda a produção, porque do contrário o resto no
orifício apodreceria, prejudicando a árvore. Logo que o buraco é esvaziado,
à noite, procede-se a nova escavação, pelo que fica sempre mais fundo. Cheguei
a ver buracos até 30 cm de fundo. Logo que as chuvas se intensificam, cessa
o hábito de beber a tchitcha [chicha]. Naturalmente as palmeiras, roubadas
em sua seiva, acabavam morrendo". (Schmidt, 1942:122-123)
A produção dessa bebida,
cujo sabor pode agradar índios e não-índios, leva a palmeira à morte. Com isto,
torna-se necessário transplantar uma muda para o seu lugar, ou deixar que algumas
sementes germinem naturalmente a partir das plantas que existam nas proximidades
e aguardar alguns anos para sua frutificação. O taxidermista Estanislao Pryjemski
(apud Ramires 1987:46) fez a seguinte observação sobre o uso das acuris:
É comum ver perto de um acampamento guató todas as palmeiras em redor descabeçadas,
esgotadas, mortas. Desta forma, verifica-se que a produção deste tipo de
bebida não deveria ser algo muito intenso, ao menos antes do contato com os
não-índios, devido aos prejuízos posteriores oriundos da morte de muitas acuris.
Os Guató também utilizavam em sua alimentação, embora talvez com pouca freqüência,
o palmito e a amêndoa dos frutos (rica em óleo graxo) que, acompanhados com
alguma carne, geralmente eram preparados sob forma de ensopados gordurosos.
Interessante é que, ainda hoje em dia, populações ribeirinhas do Pantanal, a
exemplo dos mimoseanos, utilizam a amêndoa da acuri como alimento (Silva
& Silva, 1995). Este é um típico exemplo de que parte do conhecimento etnobotânico
das populações indígenas foi assimilado por populações tradicionais da região,
pois elas também descendem das primeiras.
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Figura 1. Família Guató
em sua casa tradicional. Pintura feita
por H. Florence em
dezembro de 1826 (Monteiro & Kaz, 1988).
A pintura de Hercules Florence,
que participou da Expedição Langsdorff, apresenta vários detalhes sobre a cultura
material Guató. No caso, a família retratada morava à margem direita do rio
São Lourenço, próximo ao morro do Caracará e à confluência com o Paraguai. Notam-se
importantes informações sobre o uso da palmeira acuri por esses índios: há uma
grande palmeira atrás da família; palmas foram usadas na cobertura da casa e
como matéria-prima para a fabricação de dois cestos e uma esteira de dormir
situados no interior da mesma (ver Figuras 2, 3 e 4). Há ainda palmas de acuri
no interior da casa, o que sugere material para a fabricação de artefatos, já
que tradicionalmente os Guató dormem sobre esteiras ou peles de animais. Segundo
Costa et al. (1995:84): A família aqui retratada morava às margens do rio
São Lourenço e, a convite do Barão de Langsdorff, acompanhou a expedição até
Cuiabá; no seu retorno foi chacinada pelos Guaná. Quando os Guató ficaram
sabendo do ocorrido, vingaram a morte desta família, episódio este narrado por
Florence (1977).
Recentemente, observei
os irmãos José e Veridiano, que vivem na encosta norte do Morro do Caracará,
local onde ocorre um grande sítio cerâmico a céu aberto (MT-PO-03), preparar
um tipo de massa para a pesca de pequenos peixes que serviram de isca para a
pesca de outros maiores, como a piranha (Pygocentrus nattereri). Eles
coletaram frutos maduros de algumas acuris existentes a poucos metros de distância
de sua casa e os colocaram diretamente sobre as brasas de um fogão feito com
pedras delimitadoras. Após alguns minutos, os frutos estavam assados e a sua
casca foi facilmente retirada com as mãos. Em seguida, retiraram a polpa utilizando
uma pequena faca e a amassaram por alguns minutos até dar consistência à massa;
os cocos sem a polpa foram jogados próximos ao fogão e posteriormente varridos
para algumas lixeiras que ocorrem em volta da casa. Eles me explicaram que essa
massa pode servir para a pesca de pacu (Piaractus mesopotamicus), especialmente
quando da falta de frutos maduros de tucum (Bactris glaucescens), a principal
isca utilizada para a pesca desta espécie. Logo, a própria polpa do fruto maduro
da acuri pode servir à alimentação humana. Pott & Pott (1994) mencionam
que a polpa possui magnésio (0,19%), cobre (10 ppm), outros minerais e proteína
(3% PB).
Atualmente, face à idade
avançada de José e Veridiano, associada ao contato com a sociedade nacional
e à ausência de pressão demográfica na área onde vivem, eles não mais fazem
manejo da acuri, nem sequer produzem a famosa mukudá ou utilizam o palmito,
embora usem as palmas em pequenos reparos feitos nas paredes de sua casa, já
que a cobertura atualmente é feita com telhas de zinco. No entanto, todas as
informações orais deles recebidas vão ao encontro dos dados apresentados por
Max Schmidt, pois no passado praticaram ou testemunharam várias formas de uso
da acuri. Situação semelhante foi registrada por Balick (1988) entre os Apinayé
e Guajajara.
Figura 2. Desenho da casa tradicional dos Guató (Schmidt, 1914).
No contexto da cultura
material dos Guató, as palmas e as fibras dos cachos eram de grande importância
para a fabricação de cordoaria, trançados e tecelagem, tais como esteiras de
dormir, abanos para fogo, abanos contra mosquitos, cestos e chapéus. Até hoje
em dia, como pode ser observado na Ilha Ínsua (Bortolotto & Damasceno Jr.,
1998; Oliveira, 1998), as palmas de acuri continuam servindo para a cobertura
das casas, tradicionalmente com um telhado tipo duas-águas (ver Figura 1). As
palmeiras também serviam para pendurar artefatos diversos, como arcos, flechas,
cuias de cabaças e outros. Além disso, locais com grande concentração de palmeiras
acuri, assim como de tucum e carandá (Copernicia alba), funcionavam como
verdadeiras cevas naturais para determinadas espécies de peixes, como o próprio
pacu, tradicionalmente pescado com arco e flecha (Oliveira, 1996). Também não
se pode descartar a possibilidade da caça de quintal (Moran, 1994), atividade
na qual os aterros com grande quantidade de acuris poderiam funcionar como locais
de atração de caça, principalmente de animais que se alimentam dos frutos da
palmeira. A informação abaixo ilustra um pouco esta hipótese: Fruto
[da acuri] é importante alimento de roedores (p. ex. cotia), gado, porco, caititu,
queixada, araras e periquitos, todos dispersores. Jaó e mutum também o comem
(Pott & Pott, 1994:233).
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Figura 3. Abano para fogo e cesto cargueiro Guató (Schmidt, 1942).
Figura 4. Esteira de dormir Guató (Schmidt, 1942).
Outra questão interessante
refere-se à grande concentração de acuris e de outras espécies arbóreas em assentamentos
Guató, como é o caso de seus aterros, o que propicia um tipo de microclima:
durante o verão a temperatura local é mais amena e durante o inverno é mais
quente (proteção contra o chamado vento sul).
Em geral, cada família
possuía seu próprio depósito de palmeiras (Schmidt, 1942:122). Muitas
vezes houve conflitos entre as famílias pela disputa de áreas com maior concentração
de acuris, a exemplo da região abrangida pelo rio Caracará, o que atesta sua
importância para a subsistência do grupo. Ter áreas com grande quantidade de
acuris era questão de status e de sobrevivência para esses índios. Schmidt
(1912) chamou os aterros do Caracará de lugares de descanso dos Guató.
"Na versão de meu principal guia, o cacique Caetano [pai de José e Veridiano],
havia duas regiões com Guatós no rio Caracará, uma na parte inferior e outro
na superior. Ainda em idade mais primitiva havia entre as duas localidades
brigas (guerras) pela posse de certos aterrados [aterros] e estas somente
terminaram com o recuar da região superior do rio". (Schmidt, 1914:267)
Os aterros pertenciam às
famílias e eram transmitidos aos seus descendentes. Quando abandonados durante
a cheia, período em que as famílias possuíam grande mobilidade espacial, esses
lugares poderiam ser momentaneamente ocupados por outras famílias, em geral
por uma noite de descanso no decorrer de uma longa viagem.
"Usados por estes para se alimentarem, pernoitarem etc. Esses lugares se
encontram numa elevação e são uma proteção contra a umidade, havendo uma concentração
de árvores das quais é retirada a lenha para fogo. Existem aí restos das caçadas,
restos de antigas redes e de potes quebrados. Também era possível encontrar
uma ou duas cabanas improvisadas para o abrigo contra um dia de chuva". (Schmidt,
1912:135)
Por tudo o quanto foi explicado,
nota-se que o exemplo da utilização da palmeira acuri pelos índios Guató contribui
para elucidar a complexidade que envolve a atual configuração florística do
Pantanal, especialmente a da planície de inundação. Neste sentido, estudos envolvendo
especialistas de várias áreas do conhecimento (arqueologia, etnobotânica, etnografia,
palinologia etc.) poderão contribuir para um conhecimento mais apurado do meio
ambiente local, tendo em vista que nem tudo o que se apresenta como natural
de fato o é. Seguindo este raciocínio, o conhecimento das populações indígenas
da região é questão fundamental para compreender as atuais configurações florísticas
ali existentes.
Considerações Finais
"Tem quatro teorias de árvore que eu conheço.
Primeira: que arbusto de monturo agüenta mais formiga.
Segunda: que uma planta de borra produz frutos ardentes.
Terceira: nas plantas que vingam por rachaduras lavra um
poder mais lúbrico de antros.
Quarta: que há nas árvores uma assimilação maior de horizontes".
(Barros, 1998:43)
Assim como é tarefa árdua
analisar um poema de Manoel de Barros (1998), pantaneiro considerado um dos
maiores poetas vivos do Brasil, penso que também será árdua, embora igualmente
fascinante, a tarefa daquele que se interessar por etnobotânica Guató. Na verdade,
pouquíssimo sabemos sobre o uso tradicional de plantas por esses índios e, provavelmente,
jamais conheceremos por completo este extraordinário universo. Todavia, uma
questão está bastante clara sobre o assunto aqui tratado: a presença da palmeira
acuri em aterros comprovadamente Guató também é um indicador de manejo ambiental,
de uma estratégia de adaptação ecológica, isto é, uma forma de interferência
direta do homem na paisagem local com o propósito de favorecer sua própria sobrevivência.
Trata-se, portanto, de uma das espécies vegetais mais importantes para a subsistência
tradicional do grupo e enquadra-se em várias etnocategorias, sendo uma palmácea
de valor multi-uso no modo de ser tradicional dos Guató. Este exemplo etnográfico
é uma das variáveis que devem ser consideradas nos demais aterros que ocorrem
no Pantanal, como é o caso das sub-regiões do Abobral, Miranda e Poconé. Também
é um exemplo do quanto ignoramos sobre os conhecimentos botânicos das populações
ameríndias.
Com efeito, torna-se necessário
ressaltar que não se deve incorrer no erro de realizar uma analogia direta entre
o modelo de adaptação Guató e os demais grupos ceramistas que ocuparam os aterros
da região em tempos anteriores à Conquista Ibérica. Isto não significa dizer
que um modelo etnográfico não possa servir para a interpretação do passado arqueológico;
as contribuições da Nova Arqueologia, por exemplo, são provas concretas
desta possibilidade. Nesta linha de pensamento, áreas com concentrações de acuris
podem ser levadas em conta como uma variável em trabalhos de levantamento probabilístico
de sítios arqueológicos no Pantanal.
Finalmente, quero dizer
que o aprofundamento dessa questão requer a realização de pesquisas interdisciplinares
com o objetivo de inferir acerca da relação existente entre as sociedades indígenas
e os ecossistemas pantaneiros, questão esta que requer a participação de especialistas
de várias áreas, como arqueólogos, etnólogos e botânicos. Todavia, ao meu ver,
não é mais cabível ignorar que populações indígenas também contribuíram para
a distribuição da palmeira acuri pelo Pantanal; delas, os Guató são apenas os
últimos representantes de todos os grupos canoeiros que se estabeleceram nas
áreas inundáveis, não somente do Pantanal, como também de toda a bacia platina.
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NOTAS
* Universidade Federal de Mato Grosso do Sul Campus de Dourados,
Brasil (eremites@zaz.com.br).
[1] O pioneirismo de Bortolotto e Damasceno Jr. (1998) é exceção à regra
e gera expectativas de um maior conhecimento deste assunto, caso, é claro,
suas pesquisas tenham continuidade.
[2] Informação recolhida por Estanislao Pryjemski e publicada em Ramires
(1987:45). Durante meus trabalhos de campo também não consegui nenhuma informação
sobre esta planta.
[3] Capões-de-mato podem ser entendidos como porções de cerrado e/ou
mata ciliar com formato elíptico ou circular, formando ilhas arbóreas nos
campos; cordilheiras, por sua vez, são pequenas elevações de terra
com 1 a 3 metros acima do relevo adjacente, composta por vegetação de cerrado,
cerradão e mata (Francischini, 1996). Ambos são locais ricos em cálcio
devido à ocorrência de moluscos aquáticos e lentes calcárias em muitos desses
locais.
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