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Casa e Ritual: um estudo sobre os papeís de gênero na construção da sociabilidade
Kaingang
Ricardo Cid Fernandes (USP)
Ledson Kurtz de Almeida (UFSC)
Angela Célia Sacchi (UFSC)· |
Resumo
Este artigo tem por objetivo discutir
aspectos das dicotomias de gênero produzidas nos contextos ritual e doméstico
entre os Kaingang. Nesta discussão inserimos os dados históricos e etnográficos
Kaingang no contexto das teorias antropológicas sobre o dualismo nas sociedades
Jê. A comparação entre as formas da organização social representadas na Casa
e no Ritual permitem o estabelecimento de oposições conceituais e sociológicas,
as quais definem de forma assimétrica a participação de homens e mulheres na
configuração dos padrões de sociabilidade Kaingang.
Palavras-Chave
Dualismo, Ritual, Casa, Gênero, Consangüinidade,
Afinidade
Abstract
This article is intended to discuss
the gender dichotomies constitutive of the Kaingang ritual and domestic contexts.
Throughout this discussion we introduce the Kaingang ethnographic and historic
data into the theoretical framework of the Ge dualism. The comparison between
the forms of social organization present at the domestic and ritual contexts
allows the framing of conceptual and sociological contrasts, which define the
gender asymmetry at the establishing of patterns of sociability among the Kaingang.
Key-words
Dualism, Ritual, Household, Gender,
Consanguinity, Affinity.
Introdução[i]
Os Kaingang habitam os territórios dos Estados de São Paulo, Paraná, Santa
Catarina e Rio Grande do Sul. Segundo dados do ISA[ii]
(1990) a população aproximada dos Kaingang é de 20 mil indivíduos, distribuídos
em 26 Áreas Indígenas, administradas pela FUNAI (Fundação Nacional do Índio).
Mesmo constituindo o ramo meridional das sociedades pertencentes ao tronco lingüístico
Macro-Jê, este grupo não foi incluído nos estudos sobre os Jê desenvolvidos
no "Projeto Harvard Brasil Central"[iii], coordenado por David Maybury-Lewis
e que resultou no livro Dialectical Societies (1979).
Línguas Macro-Jê

O interesse acadêmico dispensado aos Kaingang foi transformado no interesse sobre
os processos de contato. Os estudos sobre a aculturação e a integração dos Kaingang
ocuparam parte central das pesquisas realizadas a partir dos anos 60, as quais
foram desenvolvidas, especialmente, junto às comunidades de Xapecó (SC) e Mangueirinha
(PR)[iv]. Como resposta a tal ênfase
na sociologia do contato, estudos mais recentes tematizaram aspectos esquecidos
da tradição cultural Kaingang. Temas como ritual, xamanismo, medicina tradicional
e parentesco tem sido, por assim dizer, devolvidos à cultura Kaingang.[v]
O presente artigo segue este esforço recente. Através da discussão sobre as
dicotomias de gênero expressas nos contextos ritual e doméstico, procuramos
redimensionar o valor analítico de abordagens etnológicas clássicas no tratamento
da etnografia dos grupos Kaingang. As experiências rituais e domésticas, como
será visto, propiciam o estabelecimento de padrões de sociabilidade que se opõem
e se complementam. Sendo assim, nosso esforço estará voltado à interpretação
dos elementos constitutivos das dicotomias de gênero expressas na Casa Kaingang
e no ritual do Kiki (o culto aos mortos Kaingang). Como pretendemos demonstrar,
homens e mulheres participam desigualmente nestes contextos, conseqüentemente
expressando diferentes pontos de referência com relação à análise da sociedade
Kaingang.
O dualismo Jê: questões e contextos
Assim como os demais grupos Jê, os Kaingang se caracterizam
por apresentar uma organização dualista de princípios sócio-cosmológicos marcada
pela ocorrência de um sistema de metades clânicas subdividas em seções. Entre
os Kaingang as metades originadoras da sociedade recebem os nomes Kamé
e Kairu[vi]. No mito de origem encontra-se
uma versão resumida da cosmologia dualista Kaingang. Neste mito os heróis culturais
Kamé e Kairu produzem as divisões entre os homens, postulam a
exogamia entre as metades como condição de sociabilidade, bem como imprimem
suas marcas sobre a natureza.
"(...) a tradição dos Kaingang diz que os primeiros
de sua nação saíram do solo... em dois grupos chefiados por dois irmãos
... Kamé e Kanyerú ...(Nimuendaju 1986:87) ...
Depois de terem chegado a uma grande planície, reuniram-se
e aconselharam-se como devam casar os filhos. Casaram primeiros os Cayrucrés
com as filhas dos Camés e vice-versa..." (Teschauer 1927; Borba 1882).
(...) como estes dois irmãos com a sua gente foram os
criadores das plantas e dos animais, e povoaram a terra com os seus descendentes,
tudo neste mundo pertence ou a metade Kanyerú ou à metade Kamé, conhecendo-se
a sua descendência já pelos traços físicos, já pelo temperamento, já pela pintura:
tudo que pertence a Kanyerú é manchado, o que pertence à Kamé é riscado"
(Nimuendajú 1986:87)
A vinculação cosmológica entre os Kaingang e os heróis mitológicos Kamé e
Kairu fez com que diversos autores identificassem um sistema de metades
clânicas exogâmicas em operação (Nimuendajú, 1913[1993]).
As implicações sociológicas e conceituais
do dualismo constituem um campo disputado da etnologia das sociedades Jê. Esta
é uma razão suficiente para justificar o desenvolvimento de estudos etnográficos
sobre o dualismo Kaingang - o qual não pode ser considerado simplesmente como
um apêndice aos dados e teorias acerca do dualismo Jê. Os dados disponíveis
no presente (VEIGA 1994) indicam que os Kaingang reconhecem uma relação particular
entre concepções dualistas e formas de organização social - ao contrário dos
demais grupos Jê, a terminologia de parentesco Kaingang representa, à perfeição,
a divisão entre as metades (parentes cruzados e paralelos não se confundem)[vii].
Sendo assim, uma etnografia que integre o dualismo Kaingang pode ser considerada
como uma oportunidade para desenvolvimento da reflexão sobre o dualismo Jê e
seus correlatos sociológicos mais intrigantes: as relações entre as metades
(exogâmicas ou não) e as unidades sociais constitutivas de cada sociedade.
Lévi-Strauss em "As organizações dualistas existem?" (1956) propõe
uma agenda teórica para as discussões sobre o dualismo, o qual, para ele, não
se resume à divisão em metades. Na verdade, a este tipo de dualismo o autor
chama de dualismo diametral, que se combina e se contrapõe a outra forma dual:
o dualismo concêntrico. Entre os grupos Jê, citados por Lévi-Strauss, o dualismo
concêntrico assume a forma de uma dicotomia entre centro e periferia. A morfologia
- desprestigiada por Malinowski, critica o autor - é reveladora, em toda parte,
da estrutura social. Entre os Jê, e também entre os Trobriandeses, centro e
periferia são elementos opostos de um dualismo aos quais se agregam outras dicotomias:
sagrado/profano; masculino/feminino. As etnografias dos grupos Jê são férteis
em exemplos destes tipos de dicotomias. Lévi-Strauss ilustra: "
o conjunto
central, formado pela Casa dos Homens e pela praça de dança, é o palco da vida
cerimonial, enquanto a periferia está reservada às atividades domésticas das
mulheres, excluídas por natureza dos mistérios da religião
"(1956:165).
O dualismo concêntrico, segundo o autor, também revela uma desigualdade implícita
entre os termos (ambos estão ordenados com referência ao centro), bem como uma
natureza ternária (centro e periferia se opõem ao meio que os circundam). Para
o autor, o dualismo Jê deve ser analisado enquanto uma máscara de sistemas
assimétricos, nos quais: 1) as estruturas diametrais e concêntricas são sobrepostas,
e mesmo, traduzidas umas nas outras - "Com efeito, o Leste é, ao mesmo
tempo, o Leste e o Centro; o Oeste é, simultaneamente, o Oeste e o Contorno."(LÉVI-STRAUSS
1956[1996]:174); 2) a rigidez do dualismo diametral - "não pode se auto-ultrapassar"
- já que é contraposta à dinâmica do dualismo concêntrico - "traz em si
um triadismo implícito".
David Maybury-Lewis
foi o debatedor privilegiado de Lévi-Strauss[viii].
Para ele as organizações dualistas do Brasil Central "
constituem teorias
sociais abrangentes, interligando cosmos e sociedade, imprimindo nas
culturas Jê e Bororo a sua marca característica ... os sistemas do Brasil Central
não dependem de qualquer instituição particular" (Maybury-Lewis 1992:114[tradução
livre])[ix]. Sendo assim, o dualismo
Jê não pode ser explicado em termos de reciprocidade e de alianças de casamentos
entre grupos de descendência. A reciprocidade, afirma o autor, é uma função
e não uma causa do dualismo. As relações de parentesco, bem como, os grupos
de parentes e, em última instância, o corpo, são, segundo Maybury-Lewis, concebidos
como a porção periférica, conflitiva e desarmoniosa da sociedade. O centro,
ao contrário, é o locus do nome, da vida política e cerimonial, harmoniosa
e valorizada. Maybury-Lewis propõe, enfim, que as variantes institucionais nos
diferentes grupos Jê são o resultado de uma dialética teórica, cujo conteúdo
é formado por contrastes conceituais como: masculino-feminino, centro-periferia,
nome-corpo, social-físico, cerimonial-instrumental, cultural-natural, estrutural-processual
(SEEGER, 1982).
Terence Turner
(1979, 1984), um dos colaboradores do projeto Harvard Brasil Central, discorda
tanto de Lévi-Strauss quanto de Maybury-Lewis a respeito da natureza do dualismo
Jê. Para este autor, a compreensão do dualismo Jê deve ser acompanhada da discussão
sobre a dominação do sogro sobre o genro no contexto da residência matrilocal.
Para Turner, o sistema de metades age como um harmonizador das tensões faccionais
entre núcleos residenciais.
As contribuições de
Lévi-Strauss (dualismo como ideologia), de Maybury-Lewis (dualismo como teoria
social) e de Terence Turner (dualismo como padronização de dominação assimétrica)
podem ser consideradas como as referências teóricas mais influentes para os
estudos das sociedades Jê. Importa agora avaliar em que medida estas perspectivas
teóricas são capazes de oferecer respostas teóricas aos dados etnográficos disponíveis
sobre o ritual do Kiki e sobre as unidades sociais Kaingang.
O Ritual do Kiki
Apesar das transformações provocadas pelo contato entre os Kaingang e a sociedade
nacional, o Kiki se manteve como um centro ritual; uma expressão pragmática
da articulação entre as metades. Em meados da década de 50 houve um abandono
deste ritual, o qual foi retomado, aproximadamente, vinte anos mais tarde apenas
no Posto Indígena Xapecó (Santa Catarina), onde é realizado atualmente. No contexto
de sua retomada, na década de 70, os rituais eram apontados como um dos instrumentos
mais eficazes para sobrevivência e reconhecimento dos diferentes povos indígenas
do Brasil. Assim procediam tanto o órgão tutor, quanto as organizações de apoio
à causa indígena[x]. Não é
por acaso que esta expressão cultural foi tomada como objeto de traços diacríticos
da identidade Kaingang, pois põe em cena importantes aspectos etnológicos desta
sociedade, principalmente no que se refere ao sistema dualista. A partir de
então, o grupo passou a realizar o ritual sempre que pôde contar com alguma
ajuda externa, da FUNAI, do CIMI (Conselho Indigenista Missionário), de universidades
ou outras instituições de apoio.
A realização do Kiki envolve um determinado número de participantes (60 a 100
indivíduos), o qual pode oscilar durante as etapas do processo ritual, podendo
variar de um Kiki a outro. Independente do número de participantes, há funções
determinadas - a reza, o tocar de instrumentos, realização das pinturas faciais
dos participantes, o preparo e distribuição de alimentos e bebidas-, as quais
devem ser preenchidas por um grupo constante de pessoas. Segundo os Kaingang,
o Kiki pode ser realizado entre os meses de janeiro a junho, mas sua etapa mais
intensa deve culminar, preferencialmente, entre os meses de abril e maio, ocorrendo
anualmente ou não. A realização do Kiki depende da solicitação dos parentes
de alguém que veio a falecer no ano anterior ou nos anos anteriores ao Kiki.
É necessário que hajam mortos das duas metades exogâmicas,
Kamé e Kairu.
O processo ritual é marcado pela
reunião dos rezadores em três fogos acesos, em dias diferentes, no terreno
do organizador - local conhecido como praça da dança ou praça dos
fogos. A data do primeiro fogo geralmente ocorre dois meses antes da realização
do terceiro e último fogo. O primeiro fogo antecede o corte (a derrubada)
do pinheiro (Araucaria augustifolia), o qual servirá de konkéi
(cocho), vasilha onde é colocada a bebida que recebe o nome do ritual - kiki.
O terceiro fogo, etapa mais importante do ritual, articula um maior
número de pessoas e eventos. Cerca de dois meses após a colocação da bebida
no konkéi, seis fogos são acesos - três dos Kamé e três
dos Kairu - paralelos ao konkéi. Os rezadores permanecem durante
a noite ao redor dos fogos, acompanhados por outros integrantes das respectivas
metades, entoando cantos e rezas. Durante esta etapa, determinadas mulheres,
as pé~n, realizam as pinturas faciais, cuja finalidade é a proteção dos
participantes contra os espíritos da metade oposta. São estas mulheres que
estão preparadas para entrar em contato com os objetos dos mortos, sem correr
os riscos daí advindos.
As mulheres ficam encarregadas de preparar o hidromel e servir aos rezadores
e as suas auxiliares - as pé~n. Os rezadores também bebem cachaça durante
a noite; cabe às pé~n evitar que eles bebam demais e caiam antes do término
do ritual, para isso, antes de chegar aos rezadores, a cachaça deve ser bebida
pelas pé~n. Durante a noite as rezas são intercaladas por brincadeiras e jogos
de linguagem, geralmente na língua indígena. Na primeira metade da noite a jocosidade
é mais intensa, com brincadeiras envolvendo desafios de cantos entre as metades
com intermediação das pé~n[xi], a segunda metade da noite é
marcada pela reza triste.
Durante a manhã as mesmas mulheres responsáveis por servir o hidromel servem
a comida, espécie de sopa, momento em que as pinturas faciais são reforçadas.
Alimentados e pintados, os participantes partem para buscar as cruzes[xii] nas casas das famílias dos mortos.
Os grupos conduzem as cruzes ao cemitério onde cada metade reza para o morto
da metade oposta. Durante a reza no cemitério algumas mulheres realizam o choro
cerimonial, outras retiram o tipankri, uma erva que representa o "pecado"
do morto. Concluída esta etapa, todos retornam à praça dos fogos e realizam
uma dança na qual os membros das duas metades participam conjuntamente. Kamés
e Kairus dançam e consomem a bebida fermentada que está no konkéi. Quando
o recipiente é esvaziado os rezadores de cada metade se posicionam nas extremidades
do Konkéi para realizar reza final. Por fim o tronco/Konkéi é emborcado e os
participantes batem nele com pedaços de pau.
*.*.*
O ritual do Kiki opera a complementaridade e a assimetria características da
relação entre as duas metades Kamé e Kairu, explicitando assim,
importantes aspectos do dualismo Jê, tais como as oposições Leste/Oeste, baixo/alto
e englobado/englobante[xiii].
Contudo, para os fins deste artigo é importante considerar os tipos de oposições
de gênero em pauta neste cenário ritual. Ao contrário dos principais rituais
descritos em sociedades Tupi-Guarani[xiv], no Kiki homens e mulheres
participam coletivamente das atividades rituais. As distinções de gênero são
marcadas no que diz respeito aos papéis cerimoniais; os dados etnográficos são
claros: rezadores, organizador, cabeças, cantores e instrumentistas correspondem
a papéis desempenhados exclusivamente por homens; o papel de pé~n é reservado
prioritariamente às mulheres; e, a produção e distribuição de comida e bebida[xv],
bem como, o choro cerimonial, são reservadas exclusivamente às mulheres. Sobre
tais papéis cerimoniais se aplicam certas concepções Kaingang de rigidez e de
flexibilidade. Os rezadores e os organizadores, papéis masculinos, são rígidos
(i.e. são desempenhados um grupo determinado, detentores de um conhecimento
específico); os cabeças, cantores e instrumentistas, papéis masculinos,
são flexíveis (i.e. podem ser desempenhados por qualquer um).
Os papéis femininos (pé~n, choro cerimonial, produção e distribuição
de comida e bebida) correspondem a papéis cerimoniais rígidos, sempre ocupadas
pela mesma categoria de mulheres.
Podemos, neste momento, arriscar uma primeira interpretação: o formalismo ritual
que encena o dualismo diametral das metades engloba as distinções de gênero,
conferindo aos homens um papel estruturante e às mulheres um papel funcional.
A função de rezador confere aos homens a propriedade de estender sobre a sociabilidade
presente as prerrogativas instaladas no mito de origem. As mulheres, por sua
vez, através do choro, da produção e distribuição de comida e bebida e da realização
das pinturas faciais, oferecem o suporte social para plena realização mítica.
Este tipo de interpretação estende sobre o campo do gênero os aspectos assimétricos
e complementares do dualismo cosmológico Kaingang. Podemos, portanto, propor
que no contexto do Kiki os homens ocupam o centro e as mulheres a periferia
ritual. Ademais, podemos dizer, acompanhando Maybury-Lewis, que o centro ou
o ritual é a referência para a definição de sociedade; ou seja, assim como entre
os Xavante, os Kaingang, através do Kiki, pensam sua sociedade a partir das
categorias rituais, expressão do locus das categorias masculinas.
Até aqui chegamos a três conclusões relevantes acerca do Kiki: 1) o Kiki constitui
uma referência para o estabelecimento de critérios de sociabilidade (purificando
nomes; ratificando o pertencimento e a relação entre as metades; definindo o
prestígio dos organizadores, dos rezadores e dos mortos); 2) o Kiki manipula
elementos da tradição dualista Kaingang, oferencendo-se como um diacrítico étnico
significativo; 3) homens e mulheres desempenham papéis complementares, os quais
podem ser traduzidos em termos de centro e periferia ritual, respectivamente.
Tais conclusões põem em cena aspectos teóricos da discussão entre Lévi-Strauss
e Maybury-Lewis sobre o dualismo Jê. Resta agora explorar as possibilidades
interpretativas oferecidas pela perspectiva teórica de Terence Turner sobre
os eixos de dominação constitutivos da sociabilidade Jê. Para tanto, seguiremos
com uma análise da Casa Kaingang enquanto um núcleo gerador da organização social.
Casas como unidades sociais estruturantes
Terence Turner (1979) definiu o household (a Casa) como the effective segmentary
unit of the Kayapó (a unidade segmentária efetiva na sociedade Kayapó). Este
será nosso ponto de partida para a análise da Casa Kaingang enquanto uma unidade
social discreta, capaz de articular padrões de sociabilidade que se opõem aos
desdobramentos da experiência ritual.
Os Kaingang, assim como os Kayapó, combinam a descendência patrilinear com
a residência matrilocal. Segundo Turner, este tipo de arranjo social implica
na configuração de dois aspectos fundamentais da organização social dos Jê Centrais:
a dominação do sogro sobre genro; a definição da Casa como um núcleo gerador
de poder e de tensão política. O que está em questão é a capacidade de um household
head (Chefe de Casa) de fazer gravitar outros homens em torno de sua casa,
compensando a ausência de seus filhos homens com o comando sobre seus afins[xvi]. A proposta teórica de Turner
deixa claro que as posições de sogro e de genro constituem ciclos distintos
dentro de um mesmo sistema de dominação. Sistema este no qual os homens conquistam
suas posições ao longo da participação nos processos de produção e de reprodução
articulados ao longo do developmental cycle of the family (ciclo de desenvolvimento
da família). Assim, é no ambiente controlado pelo Chefe da Casa que as alianças
matrimoniais e políticas se concretizam. Vanessa Lea (1992), embora discorde
de Turner quanto à ênfase na tensão estrutural intra e inter-familiar, chega
a uma conclusão semelhante através do estudo das Casas Mebengokre (Kayapó) como
os sujeitos de direitos e deveres[xvii]. Para esta autora, "...o patrimônio
cultural da sociedade Mebengokre é segmentado pelas Casas cujo conjunto forma
um totalidade"(LEA 1992:275)
Embora não exista um estudo que se dedique
especificamente à análise da Casa Kaingang, nos termos apresentados por Lea
para os Kayapó, os registros históricos e as etnografias recentes sugerem que
este conceito é relevante. A maioria das etnografias,
de forma mais ou menos detalhada, descreve as casas Kaingang como um núcleo
residencial formado por uma ou mais habitações (dispostas ao redor da residência
de um casal de velhos), próximas de uma área de cultivo doméstica e de um curso
de água. Geralmente ao lado da casa dos velhos há uma pequena Casa do Fogo (Iñ-Xin),
onde os mais velhos, especialmente os homens, passam boa parte do tempo - é
no Iñ-Xin, ao redor do fogo que os velhos recebem seus visitantes, falam
sobre as histórias dos antigos, comentam sobre assuntos da atualidade, preparam
e consomem a erva-mate, armazenam os produtos de suas roças.
A descrição da habitação tradicional Kaingang,
apresentada pelos registros históricos, guarda semelhanças estruturais com as
Casas do presente. Telêmaco Borba (1882), assim descreveu a casa Kaingang:
"Quando encontram local abundante em caça e mel, constroem
grandes ranchos, 25 a 30 metros de extensão, cobertos e cercados com folhas
de palmeira, sem nenhuma divisão interna, com uma pequena abertura em cada extremidade,
servindo de porta, por onde só pode passar, abaixada, uma pessoa; no centro
destes ranchos accendem os fogos pra cada família; dormem sobre cascas de arvores,
estendidos no solo, com os pés para o lado do fogo, indistinctamente homens,
mulheres e crianças."(BORBA 1882[1908]:9)
Tanto as etnografias atuais, quanto os registros históricos indicam que para
os Kaingang a Casa constitui unidade social fundamental, a qual engendra a instituição
da autoridade política dos Chefes das Casas. Embora estas descrições não explorem
as categorias de parentesco constitutivas da Casa, é possível, a partir do modelo
de Turner, propor que a autoridade dentro dos limites da Casa envolva uma relação
de consangüinidade entre as mulheres e de afinidade entre os homens. Sendo assim,
a autoridade do Chefe das Casas está projetada para o exterior, na direção
dos grupos com os quais estão formadas as alianças matrimoniais e, potencialmente,
políticas. Para os Kayapó, descritos por Lea, a Casa dos Homens é o locus
da negociação política entre Casas, pois "...reunindo membros de todas
as Casas, [a Casa dos Homens] representa um espaço neutro onde é feito um esforço
para harmonizar os interesses particulares e faccionais que ameaçam a integridade
da aldeia."(LEA 1992:275-276). Não obstante a etnografia Kaingang não registre
a ocorrência de aldeamentos circulares ou de Casa dos Homens, há, em toda parte,
um centro político coletivo do qual participam, prioritariamente, os Chefes
das Casas, geralmente os homens mais velhos da comunidade (atualmente estes
conselhos de autoridades locais são chamados genericamente de Liderança; o
espaço destinado a estes encontros é a casa do cacique, ou as instalações da
FUNAI). Entretanto, tal centro político, como bem notou Lea, representa apenas
uma possibilidade de harmonização dos interesses locais, i.e.
dos interesses construídos no universo de cada Casa. Em cada Casa, por sua vez,
a lealdade aos Chefes das Casas cria as condições para o desenvolvimento de
relações políticas intra e inter-grupais de caráter faccionalista. De fato,
disputas faccionalistas foram registradas por diversos observadores da sociedade
Kaingang. Alfred Métraux sintetizou algumas informações bibliográficas e concluiu
que "as disputas entre os grupos Kaingang podem se desenvolver em guerras
regulares" ("Feuds between Caingang groups may develop into
regular warfare."(MÉTRAUX 1946:467[tradução livre]). Segue-se desta argumentação
uma hipótese: as Casas Kaingang constituem unidades sociais discretas em constante
processo de fissão e fusão faccional com as unidades supra-Casa, as aldeias.
As Casas Kaingang constituem o território social e simbólico de famílias extensas
uxorilocais, as quais apesar da patrilinearidade estão organizadas sobre as
relações de consangüinidade entre as mulheres. Nesta configuração da Casa, as
mulheres constituem um grupo capaz de agir solidariamente tanto nas atividades
econômicas (produção de artesanato, trabalho nas roças domésticas) quanto nas
atividades que envolvem a gravidez, o parto e a criação dos filhos. Tommasino,
que estudou os Kaingang da Bacia do Tibagi, observou que apesar das transformações
sociais decorrentes da longa história de contato, a uxorilocalidade se mantém
operante: "na velhice, as mulheres acabam indo morar com uma das filhas
ou passam tempos na casa de cada uma. É comum várias irmãs morarem próximas
entre si, muitas vezes perto ainda da casa de seus pais"(Tommasino 1995:290).
Veiga (1994) apresenta dados semelhantes, para os Kaingang do Posto Indígena
Xapecó: "as companheiras de uma mulher são suas irmãs e as outras mulheres
da casa, ou seja, a avó materna e a mãe."(VEIGA 1994:92).

Como podemos observar no diagrama acima, a descendência patrilinear faz com
que o grupo de mulheres da Casa seja formado por mulheres que pertencem a diferentes
metades. O que caracteriza a relação entre estas mulheres pertencentes a metades
opostas, entretanto, não é a assimetria, a complementaridade ou a afinidade,
mas a consangüinidade e a solidariedade. Estas características podem transformar
o status ritual das mulheres, caso elas recebam a marca das duas metades e se
transformem nas auxiliares rituais, as pé~n - neste caso o grupo corporado
residencial-consangüíneo determina certos padrões de sociabilidade que englobam
as categorias dualistas rituais. De igual forma, os homens de uma Casa pertencem
a metades opostas. Entretanto, devido à matrilocalidade a relação entre estes
homens é marcada pela afinidade e expressa aspectos assimétricos (na relação
sogro e genro) e complementares (na relação avô materno e neto). É certo que
avô e neto são consangüíneos de metades opostas. Entretanto, ao contrário do
que ocorre entre as mulheres, avô e neto não constituem um grupo corporado.
No contexto da Casa, esta é uma relação temporária, a qual se transformará com
o casamento do neto. No entanto, o avô é responsável pela educação e pela socialização
do neto nos conhecimentos e contextos tradicionais, através dos quais o neto
será preparado para sua experiência como um afim na casa de sua esposa.
Considerações Finais
Tal configuração da Casa Kaingang, na qual as mulheres constituem o eixo de
consagüinidade e os homens constituem o eixo de afinidade, indica que a Casa
Kaingang é o cenário de uma inversão das categorias em operação no ritual do
Kiki. Enquanto no Kiki os grupos assumem como critério de definição o pertencimento
às metades, no contexto da Casa a definição de unidade ou grupo social está
articulada a partir da convivência, ora assimétrica, ora complementar, de indivíduos
de ambas metades. Durante o Kiki os grupos que representam as metades utilizam
os termos iambré (parentes por afinidade) e kaitkó (parentes por
consangüinidade) para designar, respectivamente, os indivíduos da metade oposta
e da mesma metade. Em oposição ao contexto da Casa, no Kiki os homens se limitam
a atuar ao lado de seus Koitkó, ao passo que as mulheres (as pe~n,
as responsáveis pela pintura facial e pela retirada do tipankri, e as
produtoras e distribuidoras de alimentos) agem como personagens de ligação entre
os grupos rituais, os quais se definem como afins (iambré). Em outras
palavras, enquanto no Kiki os homens encenam uma negação ritual da afinidade,
na Casa ocorre a afirmação da afinidade entre os homens, via a associação com
os eixos de consangüinidade definidos territorialmente entre as mulheres. Se
este é o caso, então podemos arriscar uma hipótese: no contexto da Casa, as
mulheres desempenham papel estruturante e os homens um papel funcional.
Como suporte etnográfico para esta hipótese podemos indicar a associação concebida
entre as mulheres e as relações políticas entre as unidades sociais Kaingang
ou entre os Kaingang e os brancos. As descrições etnográficas atuais indicam
a participação das mulheres nos contextos políticos, especialmente nos contextos
que envolvem o conjunto da comunidade - este é o caso, por exemplo, das discussões
sobre as reivindicações territoriais, sobre a educação e sobre a saúde da comunidade.
Os registros históricos também indicam a participação feminina nos contextos
políticos, especialmente nos contextos de guerra. Segundo a bibliografia histórica
podemos dividir a participação feminina nas guerras Kaingang em dois aspectos:
1) como guerreiras (elas lutavam, carregavam as flechas, continham os homens,
insultavam e seduziam os inimigos); 2) como motivos de disputas (objeto de raptos,
adultério, responsáveis por intrigas entre grupos e mediadoras dos conflitos
entre os Kaingang arredios e a sociedade nacional). É verdade que a participação
política da mulher Kaingang é um tema que merece um estudo aprofundado. Entretanto,
todos aqueles que conhecem os Kaingang sabem que as mulheres estão na base de
muitas de suas decisões políticas. Para os fins do modelo analítico aqui proposto,
é importante ressaltar que a participação política das mulheres deve ser entendida
como uma extensão de seu poder sobre a constituição das Casas Kaingang e que
o próprio conceito de comunidade está vinculado à mulher - Mulher:Casa::Casa:Comunidade.
Embora as mulheres estejam na origem das Casas e, conseqüentemente, participem
estruturalmente da definição de comunidade, elas não dispõem de um mecanismo
de ritualização deste seu poder. Com efeito, o Kiki ritualiza aspectos estruturais
da afinidade entre os homens. A realização social da afinidade entre os Kaingang
envolve assimetrias e complementaridades, marcadas por hostilidades, prestígio,
vergonha, solidariedade. Não coincidentemente estes são os temas articulados
ao longo das falas rituais. Considerando que as mulheres estão na base dos conflitos
e considerando que as mulheres estão na base da constituição das Casas, podemos
propor que elas constituem a referência para a estruturação de padrões de sociabilidade
assimétricos e complementares ao padrão de sociabilidade construído no contexto
ritual. Assimétricos, pois, ao contrário do ritual, a Casa institui um poder
sobre um território específico construído sobre a consangüinidade entre mulheres
de metades opostas; complementar, já que as Casas constituem as unidades de
troca matrimonial que operacionalizam a exogamia das metades. Com isso, estamos
capacitados a reconsiderar a hipótese de Turner, a qual propõe que a performance
ritual do dualismo e do sistema de metades age como um mecanismo coletivo voltado
à reprodução e padronização das relações intra e inter-familiar. No caso Kaingang
o dualismo está constituído a partir das categorias geradas na dicotomia intra
e inter Casas, ou dicotomia Casa-Comunidade. O ritual do Kiki, enquanto um articulador
dos eixos da sociabilidade construídos nesta dicotomia, redimensiona o valor
da consangüinidade entre os homens a qual resulta, como no mito de origem, na
definição da afinidade estrutural na composição da sociedade Kaingang.
Referências Bibliográficas
BARBOSA, H. O PROBLEMA INDÍGENA NO BRASIL Imprensa Nacional. Rio
de Janeiro. 1947
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NOTAS
·
Ricardo Cid Fernandes - doutorando do Programa de Pós Graduação de Antropologia
Social da Universidade de São Paulo - riccid@cfh.ufsc.br
Ledson Kurtz de Almeida
- doutorando do Programa de Pós Graduação de Antropologia Social da Universidade
Federal de Santa Catarina - ledson@cfh.ufsc,br
Angela Celia Sacchi - mestre em antropologia pelo de Pós Graduação de Antropologia
Social da Universidade Federal de Santa Catarina
Paper apresentado na III Reunion de Antropologia del Mercosur, Posadas, Argentina,
Novembro de 1999.
[i]
Este artigo foi produzido com base nos trabalhos de mestrado realizado pelos
autores entre os anos de 1994 e 1999, junto ao Departamento de Antropologia
da Universidade Federal de Santa Catarina.
[ii]
Censo realizado pelo Instituo SocioAmbiental em 1990.
[iii]
O projeto Harvard Brasil Central representou a primeira iniciativa sistemática
de aplicar sobre os grupos indígenas do Brasil parâmetros contemporâneos da
teoria antropológica. Durante os anos 60 e início dos anos 70 pesquisadores
brasileiros e norte americanos estudaram diversos grupos Jê, explorando aspectos
etnográficos e teóricos do dualismo característico destas sociedades.
[iv]
Dentre os pesquisadores que se dedicaram ao estudo da integração Kaingang
à sociedade Nacional destacam-se os professores Sílvio Coelho dos Santos,
Mª Cecília Helm e Aneliese Nacke.
[v]
É relevante citar alguns trabalhos recentes: Veiga 1994; Tomasino 1995; Oliveira
1996; Crepaux 1995-7; Haverroth 1997; Kurtz de Almeida 1998.
[vi]
A grafia dos nomes das metades varia de autor para autor. Telêmaco Borba,
por exemplo, grafava Camés e Kayrucrés, Baldus utilizava a grafia
Kadnyerú e Kamé. Tais distinções podem ser atribuídas tanto
às variações dialetais da língua Kaingang, quanto aos diferentes períodos
dos registros. Para os fins deste trabalho optamos pela grafia Kamé e
Kairu, conforme utilizada em trabalhos recentes.
[vii]
Entre os Xerente, por exemplo, as equações M=MZD (termo empregado para mãe
é igual ao termo empregado para filha da irmã da mãe) e FZC=BC (termos para
filhos do irmão e para filhos da irmã do pai são iguais) demonstram que, apesar
da patrilinearidade, membros das duas metades são classificados com os mesmos
termos - esta referência etnográfica faz parte da argumentação de Lévi-Strauss
sobre a natureza triádica das Organizações Dualistas (1952).
[viii]
Maybury-Lewis, além de ter sido o coordenador do Projeto Harvard Brasil Central
(anos 60 e 70), realizou trabalho de campo entre os Xerente e os Xavante (anos
50 e 60).
[ix]
"
are comprehensive social theories, linking cosmos and society, giving
the cultures of the Ge and the Bororo their characteristic stamp
central
Brazilian systems are dependent on no particular institution."(Maybury-Lewis
1992:114)
[x]
O intenso movimento pela autodeterminação e demarcação de terras indígenas
encabeçado pelo CIMI, motivou a criação ou retomada de mecanismos de articulação
política. Dentre as alternativas para os Kaingang do PI Xapecó, o ritual
do Kiki representou uma das mais legítimas. Como parte desta área indígena
estava invadida por agricultores, retirados em 1978, o ritual foi uma das
formas de distinção entre índios e colonos - uma marca para salientar a identidade
indígena
[xi]
As pé~n estão capacitadas a realizar tal intermediação pois elas recebem
a pintura facial das duas metades. Esta característica, dizem os Kaingang,
lhes confere a "força" necessária para tratar com os objetos dos
mortos, bem como com os indivíduos da metade oposta.
[xii]
Estas cruzes provavelmente ocupam o lugar de algum outro objeto ritual tradicional,
o qual atualmente não é mais conhecido.
[xiii]
Estas oposições podem ser observadas nas diversas etapas do ritual, nas quais
os Kamé precedem ou englobam os Kairu. Para uma descrição detalhada do ritual
do Kiki ver Veiga 1994 e Kurtz de Almeida 1998.
[xiv]
Entre os Araweté a dança da Cauinagem Alcoólica marca a posição periférica
das mulheres em oposição à centralidade dos homens (Viveiros de Castro 1986:
327-350)
[xv]
A única exceção a este padrão é produção da bebida ritual, o Kiki, a qual
é produzida pelos homens.
[xvi]
Considerando a importância estrutural das relações entre sogro e genro torna-se
pertinente especular sobre a poligamia dos household heads entre os Kaingang.
A poligamia foi, de fato, descrita como prática comum entre os Kaingang do
século passado. Tais descrições são significativas pois indicam que a poligamia
foi uma prática social Kaingang que ocorreu em tempos e espaços distintos,
envolvendo diferentes aspectos da organização social destes índios. O Padre
Chagas Lima, que acompanhou a conquista dos Campos de Guarapuava registrou,
e condenou, a poligamia de Iongong e de Fingri, ambos líderes
Kaingang. Telêmaco Borba também afirmou que "Estes Indios são polygamos,
cazam-se com quantas mulheres podem e os querem receber, geralmente, porem,
não passam de quatro a seis, e estas quasi sempre da mesma família"(BORBA
1882[1908]:11). O Tenente Coronel Afonso Mabilde, que esteve entre os Kaingang
do Rio Grande do Sul no final do século XIX, associou a poligamia à chefia,
afirmando que só o cacique tinha "o direito de possuir muitas mulheres"
(MABILDE 1897[1983]:153). Horta Barbosa e Maniser, ao descreverem a instituição
da família e do casamento entre os Kaingang de São Paulo, associaram a poligamia
ao espírito empreendedor de alguns Kaingang. Tais descrições constituem indicações
conclusivas a respeito da prática da poligamia entre os Kaingang. A associação
entre a poligamia e a autoridade política é explícita em alguns registros.
Apesar de tais indicações é possível argumentar que a poligamia não implica
em maior número de jovens controlados pelos sogros, haja visto que a poligamia
pode gerar uma situação na qual dois sogros dividam o mesmo genro. Ademais,
parte das descrições da poligamia entre os Kaingang aponta para a prática
da poligamia sororal - homem casa com duas ou mais irmãs - a qual gera uma
relação semelhante ao casamento monogâmico no que diz respeito à relação genro-sogro.
O tema da poligamia acompanha o tema da autoridade política. A associação
entre ambos confunde o leitor, que por vezes se vê inclinado a considerar
a poligamia como uma condição para a construção da autoridade política Kaingang,
e por vezes tende a considerar a poligamia como uma conseqüência da autoridade
política.
[xvii]
Vanessa Lea utiliza a definição de Casa proposta por Lévi-Strauss "
...as Casas tidas pelos etnólogos como meros edifícios, são verdadeiros sujeitos
de direitos e deveres (1984:190)"[tradução da autora] (1992:265)
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