(Re)Conhecendo o Patrimônio Arqueológico: Banco de Dados
de Sítios Arqueológicos no Sudeste do Brasil.
Rosana Pinhel Mendes NAJJAR
Arqueóloga da 6ª CR/IPHAN e Professora do Dep. de Arqueologia
da Universidade Estácio de Sá/RJ
Marcia BEZERRA DE ALMEIDA
Arqueóloga contratada pela 6ª CR/IPHAN e Professora do Dep.
de Arqueologia da Universidade Estácio de Sá/RJ
Em 1993 a então área de arqueologia da 6ª Coordenação Regional
do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional deu início
ao projeto de (re)cadastramento dos sítios arqueológicos dos estados
do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Tal iniciativa foi pautada na
necessidade, mais que premente, de se conhecer, ou melhor reconhecer
(no sentido de se atualizar) as informações sobre os sítios arqueológicos
sob nossa responsabilidade constantes em nossos arquivos.
Como é de conhecimento de todos, cabe ao IPHAN preservar
o patrimônio arqueológico brasileiro conforme a legislação vigente.
Deste modo, através de ações contínuas e programadas e, principalmente,
do apoio e participação inestimável de pesquisadores dos dois estados,
demos início a este projeto que reputo como essencial e o realizamos
com sucesso.
Além de estarmos cumprindo com nosso papel institucional
de manter o registro dos sítios enquanto espaço físico a ser preservado,
estamos, também, realizando um outro papel que nos cabe, ao meu
ver tão ou mais importante, que é o de publicizar as informações
de um modo o mais completo e sistemático possível.
Os arquivos do IPHAN são de uma riqueza inquestionável.
Lembramos que alguns tipos de informação sobre os sítios arqueológicos
só existem nele, como as intrínsecas à atividade de preservação.
O pouco ou inexistente hábito de consulta por parte de profissionais
e alunos de arqueologia a este tesouro sempre nos surpreendeu e
preocupou.
Assim, o objetivo prático do projeto é o de alimentar um
banco de dados com informações o mais completas possível, de cada
um dos sítios arqueológicos conhecidos até hoje nos dois estados.
Dos registrados, oficialmente, desde a década de 50 (o nosso mais
antigo registro até agora é de 1958), até os inúmeros não registrados
mas conhecidos nas rodas científicas.
O resultado deste projeto é a criação de um banco de dados
informatizado onde se incluem, principalmente, as informações referentes
a quantidade de sítios arqueológicos que temos oficialmente nos
estados do Rio de Janeiro e Espírito santo, quais ainda existem
(e, portanto, estão sob nossa responsabilidade), quais não existem
mais, sua localização (neste caso a dos existentes ou não), sua
categorização, a produção científica advinda de cada sítio, a produção
leiga e, por último mas não menos importante, o estado de conservação.
O objetivo geral foi o de mensurar o patrimônio arqueológico
dos dois estados, inclusive o não mais existente fisicamente.
Estes dados foram alocados em ficha que não necessariamente
será a utilizada para o registro do sítio, uma vez que estes dados
perpassam as informações necessárias para a nossa atividade de preservação
Estes dados estarão disponíveis ao público, dentre em pouco, através
da INTERNET.
O trabalho é idealizado como ininterrupto, isto é, periodicamente
terá de ser efetuada uma atualização dos dados. O sucesso deste
projeto passa, necessariamente, pela participação ativa e persistente
dos arqueólogos externos à casa cumprindo seu papel de agente de
preservação.
Sua primeira fase, até 1995, compreendeu o recadastramento
físico dos sítios de algumas áreas do estado do Rio de Janeiro e
Espírito Santo. Foram realizadas visitas a sítios arqueológicos
pelos próprios técnicos do IPHAN, e houve a incorporação de dados
fornecidos pelas equipes de pesquisa que trabalham nos dois estados,
através, principalmente, de seus projetos e relatórios. Nesta etapa
o objetivo foi o de localizar, o mais exatamente possível, os sítios
arqueológicos. Para tal utilizamos dados de GPS ou outros modos
de aferir localização.
Um fruto muito promissor da atuação conjunta, FURNAS/PETROBRÁS,
foi a apropriação por este projeto da metodologia que a PETROBRÁS
usa para descrever a rota a ser utilizada para se chegar aos seus
marcos. Neste caso a aplicamos para descrever a rota de acesso aos
sítios arqueológicos. Prático e fácil - utiliza-se do odômetro do
carro - o método mostrou-se bastante adequado para ser implantado
futuramente para sítios do Rio de Janeiro e Espírito Santo.
A segunda fase do projeto desenvolveu-se entre 1995 e 1997
e compreendeu o levantamento documental exaustivo, tentando cobrir
toda a gama de fontes documentais existentes, inclusive preenchendo
fichas de registro para os sítios ainda não registrados, existentes
ou não.
É importante frisar que é fundamental para o IPHAN poder
estabelecer uma efetiva política de preservação saber qual é este
patrimônio que tem sob sua responsabilidade. A 6ª Regional vem buscando
estabelecer esta política no âmbito de sua atuação. É fundamental,
também, para melhor atuar na esfera jurídica de ações de preservação,
a existência de duas informações sobre o sítio objeto de processo
administrativo ou judicial: sua localização e área. Portanto temos,
também, como objetivo deste projeto possibilitar a melhor instrução
desses processos, o que viabiliza uma ação mais rápida e eficaz
de preservação.
As informações de localização estão parcialmente solucionadas.
Alerto, entretanto, que as referentes à área só serão solucionadas
com a participação de cada pesquisador.
O Projeto "Levantamento dos Dados Documentais dos Sítios
Arqueológicos dos Estados do Rio de Janeiro e do Espírito Santo
" constituiu a segunda etapa do projeto de (re)cadastramento
dos sítios destes Estados.
O levantamento teve como objetivo preencher as lacunas de
informação relativas aos sítios arqueológicos destes dois estados,
a partir da documentação encontrada nos arquivos do Instituto do
Patrimônio Histórico e Artístico Nacional nas cidades do Rio de
Janeiro e Vitória.
A primeira visita aos arquivos do Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional - IPHAN, de imediato apontou um problema:
por várias décadas, as equipes de Arqueologia no Brasil, haviam
enviado fichas de registro de pesquisa pois não havia fichas específicas
para registro dos sítios arqueológicos encontrados. Tais fichas
cujo modelo havia sido idealizado pelo Museu Nacional da Universidade
Federal do Rio de Janeiro - uma das instituições pioneiras na arqueologia
científica no Brasil - ainda nos anos 60, pretendia reportar o andamento
das pesquisas efetuadas.
A criação da Ficha de Registro de Sítio Arqueológico padronizada
pelo IPHAN na década de 90 aparecia como solução a este problema.
No entanto, durante nosso levantamento deparamo-nos com a ausência
de determinadas informações ou ainda a imprecisão dos dados nestas
fichas. Somado a isto, a partir deste momento a documentação resultante
das pesquisas arqueológicas não mais seria enviada ao Arquivo Noronha
Santos. As Coordenadorias Regionais do IPHAN - 14 ao todo - passaram
a arquivar toda a documentação referente às pesquisas realizadas
em suas áreas de atuação.
Entendemos então a necessidade de realizar levantamento
dos sítios arqueológicos existentes, quer nas fichas de registro
de pesquisa, quer nas fichas de registro de sítio , quer na bibliografia
aonde encontramos referências a sítios que não estão registrados.
O primeiro levantamento totalizou 152 sítios arqueológicos
registrados junto à 6ª CR no Estado do Rio de Janeiro. A consulta
ao trabalho de Mendonça de Sousa (1981) forneceu-nos um total de
339 sítios arqueológicos espalhados pelo Estado! Aonde estariam
os registros dos outros 187 sítios? Alguns deles não poderiam constar
deste total já que nosso levantamento foi feito 14 anos depois desta
publicação, mas ainda assim muitos outros sítios prospectados e
citados nos anos 60 e 70 não constavam de nenhuma das listas disponíveis.
Nosso trabalho passou a se concentrar no Arquivo Central
do Departamento de Informação e Documentação do IPHAN - o Arquivo
Noronha Santos no Rio de Janeiro - destino de toda a documentação
relativa à pesquisa arqueológica até os anos 90. Há registro de
304 sítios arqueológicos no Estado do Rio de Janeiro.
Com o objetivo de nos certificarmos de que essa diferença
no número de sítios não se devia a nenhum erro de avaliação, visitamos
uma instituição de pesquisa no Estado do Rio de Janeiro e observamos
dois pontos pertinentes à questão: 1º) o tempo decorrido entre a
constatação da existência do sítio e seu registro poderia chegar
a 20 anos ; 2ª ) 45.7% dos sítios listados no Estado do Rio de Janeiro
na instituição visitada, não se encontram registrados junto ao IPHAN.
O próximo passo previa então o levantamento minucioso dos
projetos e relatórios de pesquisa quando então esperávamos encontrar
referência a estes sítios assim como informações que pudessem complementar
os dados referentes aos sítios arqueológicos do Rio de Janeiro.
Em 56 projetos, havia referência somente a 33 sítios arqueológicos
e a exceção de três sítios históricos, o restante já havia sido
encontrado durante o levantamento. Nos 126 relatórios de pesquisa
observamos 106 sítios mencionados e destes 8% não aparecem em nenhum
registro.
Muitos sítios arqueológicos foram "localizados"
em artigos, comunicações científicas, ou seja, são citados ao longo
de inúmeros trabalhos, sítios que não constam dos registros oficiais.
Outras questões puderam ser apreciadas como agravantes para
a situação que encontramos , como por exemplo, inúmeros sítios que
recebem o mesmo nome, o que poderia ser resolvido caso as informações
relativas à localização fossem mais precisas. Em alguns casos conseguimos
distinguir os mesmos, em outros não foi possível.
Há casos mais raros mas existentes em que o sítio é conhecido
por um segundo nome, um nome que não corresponde ao dado pelo pesquisador
que o registrou. É este o caso de dois dos mais conhecidos sítios
arqueológicos do Estado do Rio de Janeiro: o Sítio do Corondó e
a Duna Grande como são conhecidos, foram oficialmente registrados
como: Sítio Botafogo e Sítio Arqueológico de Itaipu respectivamente.
Ao todo listamos 539 sítios arqueológicos no Estado do Rio
de Janeiro. Os registros encontrados junto ao IPHAN somam 320, os
outros 219 são citados em várias fontes mas não há registro oficial
dos mesmos.
Para o Estado do Espírito Santo - pouco explorado do ponto
de vista da Arqueologia hoje - há uma quase ausência de informações.
Ao todo reunimos fichas de registro de apenas 63 sítios arqueológicos
encontradas no Arquivo do IPHAN na cidade de Vitória (ES).
Há municípios que são "conhecidos " sob o olhar
da Arqueologia através de sítios sem registro algum como o município
de Rio das Ostras ( RJ). Os gráficos 1 e 2 demonstram a relação
entre sítios registrados no Rio de Janeiro e sítios sem registro
mas citados em várias fontes.
O que vemos, então, é a necessidade urgente de organização
desses dados dispersos em vários arquivos com o objetivo de permitir
acesso público a essa documentação.
O Departamento de Identificação e Documentação do IPHAN,
vem desenvolvendo projeto de formação de banco de dados de todos
os sítios arqueológicos do Brasil. Através do Sistema de Gerenciamento
de Patrimônio Arqueológico- SGPA, será possível acessar toda e qualquer
informação acerca do patrimônio arqueológico brasileiro.
O banco de dados inclui fichas relativas ao sítios arqueológicos
e suas propriedades tais como localização, dados relativos ao meio
ambiente circundante, informações sobre as pesquisas anteriores
realizadas, documentação relativa aos sítios tais como relatórios
de pesquisa, projetos de pesquisa, fotografias, desenhos, mapas,
croquis e descrição minuciosa do sítio que engloba desde o tipo
de sítio, tipo de solo, material encontrado até o seu estado de
conservação.
O banco de dados do Estado do Rio de Janeiro, disponibilizará
informações de 539 sítios arqueológicos, 56 projetos de pesquisa
e 126 relatórios. O Estado do Espírito Santo no banco de dados é
parcamente conhecido em 63 sítios arqueológicos registrados, 12
projetos de pesquisa e 11 relatórios.
O acesso ao banco de dados ainda está em desenvolvimento
e sua conclusão permitirá não só a agilização do trabalho dos arqueólogos
em seus levantamentos, mas, principalmente, possibilitará que o
IPHAN atue efetivamente na preservação de nosso patrimônio.
Não é possível preservar um patrimônio desconhecido. O Brasil
- o maior país em extensão da América do Sul - possui áreas pouco
conhecidas do ponto de vista da Arqueologia e há necessidade urgente
de se saber aonde e como estão os sítios arqueológicos brasileiros.
GRÁFICO 1

GRÁFICO 2

NOTAS
(1) Baseamo-nos principalmente no trabalho de Mendonça de
Souza et alii
" Pré-História Fluminense - Inventário Arqueológico
do Rio de Janeiro " . 1981.INEPAC/SEEC.Rio
de Janeiro.
1er Congreso Virtual de Antropología y Arqueología
Ciberespacio, Octubre de 1998
Organiza: Equipo NAyA - info@naya.org.ar
http://www.naya.org.ar/congreso
Auspicia:
|