A HIDROVIA PARAGUAI-PARANÁ E O PATRIMÔNIO ARQUEOLÓGICO BRASILEIRO:
ANÁLISE DE UM DIAGNÓSTICO
Jorge Eremites de Oliveira
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, Brasil
Em fevereiro de 1996, um grupo de arqueólogos, composto em sua
maioria por colegas argentinos, publicaram um estudo preliminar
acerca dos impactos negativos, diretos e indiretos da Hidrovia Paraguai-Paraná
sobre o patrimônio arqueológico platino (vide Balcom et al.,
1996). Segundo informações recebidas junto ao Instituto do Patrimônio
Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), do Brasil, o arqueólogo
argentino Rafael Goñi foi quem esteve no país para avaliar os impactos
da Hidrovia Paraguai-Paraná sobre o patrimônio arqueológico brasileiro;
mas isto aconteceu sem o encaminhamento de um projeto de pesquisa
para o IPHAN, com o propósito de obter a autorização necessária
para sua realização, conforme determina a legislação brasileira
de proteção ao patrimônio cultural.
Ainda no segundo semestre de 1996, a 11ª Sub-Regional II do IPHAN,
com sede em Campo Grande (MS), solicitou-me um parecer sobre o diagnóstico
de Balcom et al. (1996); o parecer foi elaborado e divulgado
para a comunidade de arqueólogos brasileiros e para demais interessados
(vide Oliveira 1997a e 1997c). Assim sendo, apesar das considerações
aqui apresentadas não serem inéditas, acredito que é importante
discuti-las com os colegas da Red Ant-Arq, sobretudo com os colegas
bolivianos, argentinos, paraguaios e uruguaios, companheiros que
diretamente têm interesse no assunto.
O trabalho de Balcom et al. (1996) contém um resumo de informações
obtidas sobre os recursos arqueológicos, principalmente os resultados
de seus trabalhos de campo na área abrangida pela hidrovia;
seu propósito é comprovar um modelo preditivo que é largamente
utilizado em Arqueologia para diagnosticar recursos arqueológicos
em áreas que sofrerão impactos por obras de engenharia, bem como
em pesquisas de outros níveis (vide Kipnis, 1997). No caso específico
do diagnóstico analisado, o modelo preditivo foi empregado para
identificar e prever áreas mais sensíveis ao impacto do empreendimento,
sobretudo a dragagem dos rios que afetará direta, indireta e negativamente
o patrimônio arqueológico platino. Mas, ponderando esta proposta
metodológica, os autores citados chamam a atenção para a dificuldade
de cobrir quase 3.500 km de via fluvial; deixam claro que se torna
impossível revelar a potencialidade de toda a área: "Por
esta razón, se há buscado evaluar cuáles son las áreas de mayor/menor
potencialidad arqueológica y/o las de mayor/menor densidad de sitios
arqueológicos. Conociendo cuáles son las áreas de mayor potencialidad
y/o densidad arqueológica, podremos asumir cuáles serían las áreas
que se verían más afectadas por las obras, si esto ocurriese. Para
realizar esta tarea se buscó desarrollar una línea metodológica
que nos proveyese de los medios para evaluar y predecir potencialidad
arqueológica en diferentes áreas. Para este fin se elaboraron modelos
predictivos y/o proyectivos [...], basados en la información
preexistente" (Balcom et al., 1996, p. 6-1 e
6-2) [grifo meu].
Tal proposta metodológica baseia-se em duas premissas fundamentais.
Primeira, as áreas escolhidas pelos grupos pré-históricos
para seus assentamentos estavam muito influenciadas ou condicionadas
pelas características do meio natural. Segunda, fatores naturais
que influenciaram tais escolhas estão, ao menos indiretamente, contemplados
em mapas modernos de variação ambiental das áreas de interesse (Balcom
et al., 1996, p. 6-2).
O primeiro erro observado está em tentar aplicar um modelo preditivo
exclusivamente para o levantamento de sítios arqueológicos pré-históricos,
pois o patrimônio arqueológico não se restringe a evidências materiais
de populações indígenas pretéritas. Pensar desta maneira é estar
na contramão das discussões internacionais sobre o conceito de patrimônio
arqueológico; é omitir o fato de que o conceito de patrimônio arqueológico
é empregado a todo tipo de evidência material da presença humana
pretérita, desde milhões de anos até os dias atuais. Entretanto,
é notório que a utilização de modelos preditivos é uma possibilidade
metodológica que não pode ser ignorada. Todavia, o maior problema
do trabalho do Balcom et al. (1996) consiste no fato de que,
com relação à área abrangida pelo Pantanal, sobretudo para a parte
que compreende o Estado de Mato Grosso do Sul, os autores não levantaram
junto ao IPHAN todas as fichas de registro de sítios arqueológicos
enviadas pelo arqueólogo Pedro Ignacio Schmitz, coordenador geral
do Programa Arqueológico do MS Projeto Corumbá. Ademais,
não foram consultados trabalhos importantíssimos para suas pesquisas,
já disponíveis ou em fase de conclusão em fins de 1994, tais como:
Bittencourt (1992), Girelli (1994), Oliveira (1994 e 1995), Oliveira
& Peixoto (1993), Passos (1976), Peixoto (1995), Rogge &
Schmitz (1992 e 1994), Schuch (1995) e Schmitz (1993). O mesmo aconteceu,
em parte, para o Estado de Mato Grosso, pois os sítios arqueológicos
mencionados por Balcom et al. (1996) não incluem todos os
sítios registrados no IPHAN para a porção do Pantanal pertencente
aquele Estado. O procedimento metodológico adotado também necessitaria
de um estudo aprofundado acerca de aspectos de natureza paleoambiental
que possibilitam, juntamente com mapas modernos, identificar áreas
com maior probabilidade de ocorrência de sítios arqueológicos, em
especial de culturas indígenas pretéritas, o que não está contido
no diagnóstico.
Outra questão que chama a atenção é o fato de o trabalho não apresentar
um histórico da ocupação humana do Pantanal, desde a partir do início
da Conquista Ibérica da região, especialmente do século XVI ao século
XIX. Isto seria fundamental para melhor inferir sobre possíveis
sítios arqueológicos históricos presentes na região: antigas
fazendas de charqueadas do século passado, missões jesuíticas dos
séculos XVI e XVII, evidências arqueológicas de embarcações de monções
naufragadas no século XVIII, antigos povoados, portos fluviais,
sítios de populações tradicionais etc. Com isso, nota-se também
uma grande fragilidade do trabalho no que se refere aos sítios arqueológicos
históricos e possíveis trabalhos que demandariam uma pesquisa
no subcampo da Arqueologia Subaquática. Além disso, existe uma vastíssima
documentação acerca das populações indígenas que ocuparam o Pantanal
em tempos coloniais, como se pode verificar em Oliveira (1995),
Schuch (1995) e Susnik (1972 e 1978), que não foi devidamente levantada
para a elaboração do diagnóstico.
Caso Rebeca Balcom e sua equipe tivessem consultado o IPHAN, receberiam
não apenas as devidas informações sobre os sítios arqueológicos
registrados para o Pantanal, como também informações sobre os especialistas
que atuam na região. No caso específico de Mato Grosso do Sul seriam
os pesquisadores vinculados, na época da elaboração do diagnóstico,
ao Instituto Anchietano de Pesquisas/UNISINOS (São Leopoldo-RS).
Dessa forma, também poderiam coletar informações sobre os sítios
arqueológicos existentes na região mediante comunicações pessoais
dos investigadores que trabalharam na área, já que isso foi proposto
pelos próprios autores (vide Balcom et al., 1996, p. 6-2).
Na verdade, o estudo de Balcom et al. (1996) está mais consistente,
em tese, para o território argentino. Mas suas deficiências são
visíveis para o território brasileiro e, sobremaneira, para o paraguaio,
uma vez que nesse país vizinho praticamente inexistem pesquisas
arqueológicas sistemáticas ao longo da área da hidrovia. No caso
específico do Brasil, a proposta inicial é dragar alguns pontos
do curso do Alto Paraguai e cortar alguns meandros do rio;
com isto será possível a navegação de grandes barcaças (principalmente
as carregadas com soja) que partirão desde o porto de Cáceres (Estado
de Mato Grosso, Brasil) e poderão chegar ao porto de Nueva Palmira
(Uruguai) em menos tempo de viagem. A idéia parece simples: a hidrovia
do rio Paraguai, que vem sendo utilizada desde milhares de anos
atrás, inicialmente pelos grupos canoeiros do Pantanal e do Gran
Chaco, deverá ser adaptada às necessidades do Mercosul.
Para a porção do Pantanal, os referidos autores obtiveram informações
de apenas 7 sítios arqueológicos, todos localizados em Mato Grosso,
desde a cidade de Cáceres até a Reserva Ecológica de Taiamã. As
informações foram obtidas junto aos trabalhos da arqueóloga Irmhild
Wüst que, em 1996, estava realizando pesquisas na região. São os
seguintes os sítios mencionados: Simão Nunes, Barranco Vermelho,
Índio Grande, Descalvado, Piúva, Jatobá e Aterro Tuiuiú. Com exceção
do Aterro Tuiuiú (sítio com 21 x 25 m que se encontra fora do curso
principal do rio Paraguai), os demais sítios encontram-se em locais
topograficamente elevados, ou seja, terraços com 3 m ou mais de
altura em relação ao nível das águas do rio Paraguai, geralmente
com grandes extensões. Entretanto, sabe-se que estão registrados
junto ao IPHAN vários aterros localizados na sub-região de Poconé,
muitos dos quais registrados pela arqueóloga Maria Lúcia Franco
Pardi, os quais, para não fugir a regra, também não foram mencionados
no trabalho de Balcom et al. (1996).
Os autores consideram que tais sítios possuem cronologias relativamente
recentes, sendo em alguns casos provavelmente históricos,
embora não dispusessem de quaisquer datações radiométricas (C14);
explicam que os sítios já se encontram parcialmente comprometidos
devido à ação das águas e depredação antrópica recente; mencionam
a existência de material cerâmico, restos de alimentação humana,
material lítico e ossos humanos que normalmente estão associados
a "urnas cerámicas dentro de las cuales se efectuaban los
entierros" (Balcom et al., 1996, p. 6-18). Esses
sítios estão sendo estudados por Irmhild Wüst que os classificou
em uma nova tradição tecnológica ceramista, a Tradição Descalvado;
talvez estejam associados a grupos Arawak extintos, quiçá dos próprios
Xaray do período colonial estudados por Schuch (1995), grupo este
com grande complexidade sócio-política. Em Oliveira (1995), Petrullo
(1932), Prous (1992) e Schmidt (1940) há maiores informações sobre
os sítios de Barranco Vermelho e Descalvado, trabalhos estes que
também não foram analisados para a elaboração do diagnóstico.
Destarte, pelas considerações apresentadas, comprova-se que os
resultados atingidos não são satisfatórios para avaliar os impactos
da Hidrovia Paraguai-Paraná sobre o patrimônio arqueológico brasileiro,
seja para o Estado de Mato Grosso, seja para o Estado de Mato Grosso
do Sul, como está sendo demonstrado. O principal motivo reside na
constatação de que a proposta metodológica não foi devidamente aplicada
e, mesmo que fosse, sítios históricos não estariam inclusos
no diagnóstico.
Contribuições para uma avaliação dos impactos da Hidrovia Paraguai-Paraná
sobre o Patrimônio Arqueológico Brasileiro
Balcom et al. (1996, p. 6-18) avaliam que no Pantanal seriam
muito baixas ou nulas as probabilidades de vestígios de sítios arqueológicos
nas áreas baixas ou alagadiças da planície de inundação. Os autores
afirmam que nessas zonas "os sitios arqueológicos son esperables
en sitio tipo túmulo o pequeña elevación sobre área
baja inundable o inundada, como así también en los albardones costeros
correspondientes ya a terrazas de baja altura". Tal avaliação
é seguida da seguinte justificativa: "A medida que la elevación
de las terrazas aumenta, aumentaría la probabilidad de hallar sitios
arqueológicos. Las áreas habitualmente libres de agua o de inundaciones
han sido, probablemente, las de mejores condiciones para asentamientos
humanos en el pasado. Los casos de Simao Nunes y de Barranco Vermelho
son sumamente ilustrativos en este sentido, ya que, por otro lado,
son unas de las pocas terrazas con esas características que se encuentram
en el tramo prospectado y en ambas se encuntran los dos sitios más
grandes observados.Sin embargo, dado que las terrazas más
elevadas son a su vez las potencialmente más aptas para asentamientos
extensos de todo tipo, estos sitios podrían verse más afectados
por una futura utilización durante las obras programadas o con posterioridad"
(Balcom et al., 1996, p. 6-18).
O grande problema observado na avaliação está na extrapolação para
a porção sul-matogrossense do Pantanal, feita com base em pouquíssimas
evidências arqueológicas: "Creemos que las expectativas
postuladas hasta aquí, podrían ser proyectadas, bajo condiciones
ambientales similares, a la porción sur de la ecoregión del Pantanal"
(Balcom et al., 1996, p. 6-18). Nota-se claramente que os
autores possuem pouquíssimo conhecimento sobre a ocupação indígena
das áreas inundáveis do Pantanal, em especial no que se refere à
ocupação pré-colonial. Como explica Peixoto (1996), foram realizadas
pesquisas arqueológicas sistemáticas no Pantanal de Mato Grosso
do Sul, especialmente numa área piloto situada entre os paralelos
de 19º00 a 19º30 de latitude Sul e os meridianos de
57º00 a 58º00 de longitude Oeste de Greenwich, através
do Programa Arqueológico do MS Projeto Corumbá. Essa
área abrange grosso modo duas unidades ambientais distintas:
o planalto residual do maciço do Urucum, porção que não sofre as
inundações periódicas do Pantanal, com córregos permanentes, solos
aptos ao cultivo e grande biodiversidade; e a planície de inundação,
porção que compreende grande parte da área estudada, menos favorável
ao cultivo, mas também com grande diversidade de recursos naturais.
No Maciço de Urucum Peixoto (1995) estudou dezenas de assentamentos
Tupiguarani e Oliveira (1995) faz referência a alguns outros sítios
que não se enquadravam nas tradições ceramistas comumente conhecidas
na Arqueologia da América do Sul. Girelli (1994) também estudou
4 sítios com signos rupestres que se assemelham ao Complexo Estilístico
Simbolista Geométrico Horizontal, embora posteriormente tenha
sido encontrado mais um sítio deste tipo. Trata-se, portanto, de
uma região de baixo ou nulo impacto (direto e negativo) pela hidrovia.
Nas áreas inundáveis da região o Projeto Corumbá já levantou
mais de uma centena de aterros, muitos dos quais com vestígios de
ocupações cerâmicas (Fase Corumbá), havendo alguns poucos
com fortes evidências de ocupações acerâmicas, em sua maioria, estratigraficamente
cobertas por ocupações cerâmicas, a Tradição Pantanal. Os
aterros comumente apresentam-se como capões-de-mato e cordilheiras
devido, entre outros motivos, à densa cobertura vegetal que possuem.
Para os sítios mais antigos (acerâmicos) as datações radiométricas
situam-se entre 8.000 e 3.000 anos A. P. (Antes do Presente). De
um modo geral, as populações indígenas que ocuparam a planície de
inundação do Pantanal estabeleceram seus assentamentos sobre terraços,
sopés de escarpas, diques lacustres, diques fluviais, diques marginais,
cordilheiras, capões-de-mato, margens de ilhas lacustres
e fluviais, margens fluviais, margens lacustres, paleodiques, morros
isolados, planícies fluvio-lacustres e demais áreas próximas a serranias.
Vale a pena esclarecer que existem sítios superficiais a céu aberto
da Tradição Pantanal que não são aterros, comumente encontrados
em planícies fluvio-lacustres, como é o caso das lagoas Negra e
Jacadigo, localizadas nas proximidades de Corumbá e Ladário (vide
Oliveira, 1997b).
No total já foram identificados in loco mais de 200 sítios
arqueológicos na região Sul do Pantanal, englobando vários tipos
de vestígios materiais de diferentes manifestações culturais, o
que exemplifica a deficiência do levantamento arqueológico da equipe
de Rebeca Balcom. Ademais, recentemente observei a existência de
vários sítios arqueológicos históricos nas margens do rio
Paraguai, desde Corumbá até a confluência com o rio São Lourenço;
são sítios de alta visibilidade relacionados a populações ribeirinhas
crioullas (tradicionais).
Dessa forma, assim como Peixoto (1996) constata em seu trabalho,
nota-se que o modelo apresentado por Balcom et al. (1996)
não condiz com a realidade regional, pois diz respeito basicamente
a populações horticultoras que ocuparam especialmente os terraços
mais elevados encontrados ao longo do rio Paraguai, como é o caso
dos sítios existentes em Mato Grosso. Todavia, ao contrário do que
supõem Balcom e sua equipe, o Pantanal apresenta-se como uma área
de considerável densidade de sítios arqueológicos, principalmente
de aterros que ocorrem nas áreas inundáveis. Peixoto & Oliveira
(1996), ao estudarem o impacto do Gasoduto Bolívia-Brasil sobre
o patrimônio arqueológico de Mato Grosso do Sul, chegam mesmo a
afirmar o seguinte: "É possível inferir que a região pantaneira
constitui-se numa das regiões de maior concentração de sítios arqueológicos,
especialmente aterros, do território nacional. Sua relevância arqueológica
dá-se, principalmente, pela incolumidade da grande maioria dos sítios
arqueológicos, e estes, por sua vez, devem ser indicadores de uma
considerável densidade de populações indígenas que habitaram a região
em tempos pretéritos. Por outro lado, constata-se a necessidade
urgente de definição de estratégias para sua preservação, enquanto
patrimônio arqueológico, devido a sua relevância aos estudos sobre
a ocupação indígena da América do Sul, bem como para a história
e a cultura da população sul-matogrossense" (Oliveira &
Peixoto, 1996, p. 100).
As estratégias de adaptação ecológica para a maior planície de
inundação do globo correspondem, também, a grupos canoeiros de grande
mobilidade espacial associados à tradição Pantanal. Nesse
caso, sua adaptação está fortemente relacionada aos fatores sazonais
ali existentes, com destaque para os períodos de cheia e seca. Por
isso, observa-se que os primeiros grupos humanos (populações acerâmicas)
que chegaram à região ocuparam terraços, diques lacustres, diques
fluviais e planícies lacustres próximas a morrarias, entre 8.000
e 3.000 anos A. P. Posteriormente, talvez em função de um aumento
demográfico associado a mudanças ecológicas e a um maior conhecimento
dos ecossistemas que ocorrem no Pantanal, ocuparam com maior intensidade
áreas de topografia bastante plana que sofrem um maior grau de inundação,
como a sub-região do Abobral. Isso provavelmente aconteceu a partir
de 3.000 anos A. P. quando já dominavam a tecnologia de fabricação
de recipientes cerâmicos. Além disso, estudos de caráter etnológico
e etnoistórico também corroboram a perspectiva de compreender a
complexidade que envolve a ocupação indígena do Pantanal. Carvalho
(1992), Kersten (1968), Métraux (1963), Nimuendajú (1981), Susnik
(1972 e 1978) e Schuch (1995), para não mencionar outros autores,
apontam que em tempos coloniais o Pantanal foi fortemente ocupado
por populações lingüisticamente Arawak, Guaicuru, Macro-Jê (e Jê),
Tupi-Guarani e Zamuco, sendo, ao meu ver, um tipo de mosaico cultural
no centro da América do Sul.
Portanto, as considerações aqui apresentadas exigem a realização
de pesquisas arqueológicas sistemáticas em campo, com o intuito
de, através de um levantamento sistemático, verificar os sítios
que certamente existem ao longo do alto curso do rio Paraguai; talvez
seja mais pertinente que as pesquisas sejam feitas numa extensão
de, no mínimo, 1.000 m ao longo de ambas as margens do rio Paraguai,
como sugere Peixoto (1996). Faz-se mister ainda verificar se nos
meandros a serem retirados com vistas a uma melhor navegabilidade
do rio Paraguai existem sítios arqueológicos, quer assentamentos
permanentes, quer assentamentos provisórios de grupos canoeiros,
a exemplo do grupo étnico Guató estudado por Oliveira (1995 e 1996).
Outro problema está nos locais onde serão depositados os sedimentos
oriundos dos leitos dos rios ou dos meandros e diques a serem destruídos;
os sedimentos devem ser colocados em locais previamente estudados
pelos arqueólogos, reduzindo-se o risco de se destruírem sítios
arqueológicos.
Sobre os possíveis sítios arqueológicos históricos existentes
na área, Balcom et al. (1996, p. 6-7) dizem que a região
do Alto Paraguai foi povoada definitivamente no século XVIII (em
1719 foi fundada a cidade de Cuiabá e 1748 a Capitania de Mato Grosso)
e que a Conquista Ibérica do Pantanal iniciou-se em 1775 com a fundação
do Presídio de Coimbra e em 1778 com o povoado de Albuquerque, atual
Corumbá. Estas considerações estão, em grande parte, equivocadas,
como se pode comprovar em Corrêa Filho (1969), pois durante o século
XVI houve muitas expedições espanholas na região, como por exemplo
se constata nos conhecidos Comentários de Cabeza de
Vaca (1984) e nas informações apresentadas por Guzmán (1980). Além
disso, no século XVII havia missões jesuíticas na região, como se
atesta em Berthod (1952) e no trabalho anônimo intitulado Conflitos
da Missão do Itatim com o bispo de Assunção e com algumas bandeiras
paulistas (1952). Vale ainda lembrar que o povoado de Albuquerque
corresponde ao atual distrito de Albuquerque e não à atual cidade
de Corumbá.
Outra questão que merece uma pesquisa exaustiva é a que se refere
à dragagem do rio. Trata-se de uma problemática de grande importância
para a Arqueologia Subaquática, subárea de pesquisa ainda totalmente
inexplorada na região, embora se saiba, para exemplificar, que muitas
embarcações bandeirantes naufragaram ao longo do alto curso do rio
Paraguai, especialmente durante o século XVIII, devido à grande
resistência imposta pelas populações indígenas (notadamente os Payaguá)
aos conquistadores de origem ibérica. Existe até a possibilidade
de destruição de naufrágios da época da "Guerra do Paraguai".
Isso tudo remete a outro problema gravíssimo, pois o patrimônio
arqueológico submerso nem sequer é mencionado por Rebeca Balcom
e sua equipe, o que também se constata em Peixoto (1996). Sobre
este assunto, diz Rambelli: "O Patrimônio Cultural que se
encontra encoberto pela águas é tão digno de preservação quanto
qualquer outro Patrimônio Cultural que se encontra na superfície.
O fato de estar embaixo dágua não o torna inferior, enquanto
testemunho de ações culturais, e nem justifica o desprezo de que
vem sendo vítima" (Rambelli, 1995, p. 564).
Isto posto, é de consignar que a avaliação ora estudada não é pertinente
com a realidade local e, portanto, não avalia os reais impactos
da Hidrovia Paraguai-Paraná sobre o patrimônio arqueológico brasileiro:
ou é um típico caso de sofisma em Arqueologia de Contrato
ou não possui sustentabilidade científica ou os dois casos. O fato
é que a avaliação apresenta uma série de irregularidades do ponto
de vista da ética na pesquisa arqueológica e da legislação brasileira
de proteção ao patrimônio cultural.
Considerações Finais
Se a Hidrovia Paraguai-Paraná será ou não de grande importância
para o desenvolvimento sócio-econômico dos Estados de Mato Grosso
e Mato Grosso do Sul, é questão para ser discutida em outra ocasião.
Fato é que sua viabilidade deve estar de acordo com parâmetros racionais
de desenvolvimento sustentável, em especial em uma região ainda
pouco conhecida sob muitos aspectos naturais, como é o caso do Pantanal.
Também não se pode admitir que uma grande obra de engenharia como
esta seja concluída sem a sociedade organizada participar das discussões;
isto seria uma violência contra a cidadania e um ato de irresponsabilidade
por parte dos governos platinos.
Face a tudo o quanto foi exposto, é de recomendar que seja realizado
um amplo levantamento arqueológico na área a ser impactada pela
Hidrovia Paraguai-Paraná em território brasileiro, sob pena de parte
dos sítios arqueológicos ser destruída pelo empreendimento, seja
em sua área de influência direta, seja na área de influência indireta.
Justifica-se tal proposta em função do estudo elaborado por Balcom
et al. (1996) ser impertinente para a realidade arqueológica
dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul o primeiro
ainda menos conhecido do ponto de vista arqueológico, etnológico
e etnoistórico. Pode-se, também, afirmar que nenhum trabalho de
campo foi verdadeiramente realizado para o levantamento de sítios
arqueológicos existentes na área a ser impactada, mas somente um
deficiente levantamento bibliográfico. A realização de um levantamento
arqueológico in situ é imprescindível para o melhor conhecimento
da história humana na região, mas deve ser realizados em consonância
com a legislação brasileira de proteção ao patrimônio cultural.
Será necessário que as empresas responsáveis pelo empreendimento
possibilitem os necessários estudos, os quais deverão incluir não
somente os sítios arqueológicos de populações indígenas pretéritas
ou contemporâneas, como também os sítios arqueológicos históricos
(incluindo os submersos), sendo que estes últimos também irão requerer
uma exaustiva pesquisa histórica, especialmente sobre a história
colonial e imperial da região. Nesta perspectiva, é importante que
técnicos responsáveis pela obra acompanhem os trabalhos de campo.
Além disso, arqueólogos brasileiros também deverão acompanhar de
perto todas as obras a serem desenvolvidas em função da Hidrovia
Paraguai-Paraná.
Finalmente, quero deixar claro que as críticas aqui apresentadas
não são conseqüências de um chauvinismo, xenofobismo ou algo do
gênero; elas foram tecidas em defesa do patrimônio arqueológico
brasileiro e da ética na Arqueologia.
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1er Congreso Virtual de Antropología y Arqueología
Ciberespacio, Octubre de 1998
Organiza: Equipo NAyA - info@naya.org.ar
http://www.naya.org.ar/congreso
Auspicia:
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