O LEVANTAMENTO ARQUEOLÓGICO EM LINHAS DE
TRANSMISSÃO
Teresa Cristina de Borges Franco 1
Marcelo Paiva Gatti 2
Considerações gerais :
A Constituição Brasileira de 1988 define patrimônio cultural
como: "os bens de natureza material e imaterial, tomados individualmente
ou em conjunto, portadores de referencia à identidade, à ação, à
memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira,...",
incluindo-se entre outros, "os conjuntos urbanos e sítios de
valor histórico, artístico, paisagístico, arqueológico, paleontológico,
ecológico e científico" (Constituição da República Federativa
do Brasil, capítulo III, seção II, art. 216, 1988). Entre os instrumentos
legais de preservação da memória nacional e de estímulo à pesquisa
há o decreto lei n.º 3924 de 1961 e a resolução do Conselho Nacional
de Meio Ambiente (CONAMA) n.º 001 de 1986, estando esta relacionada
ao controle de implantação de empreendimentos de grande porte que
colocam em risco a integridade do patrimônio cultural. Assim, a
resolução CONAMA 001 prevê que, quando da realização de grandes
empreendimentos tais como rodovias, portos fluviais, ferrovias,
etc., sejam executados o levantamento e o resgate (salvamento) dos
sítios dos sítios arqueológicos na área a ser impactada. No caso
do setor elétrico, até 1996, os programas ambientais relacionados
ao controle de implantação de empreendimentos de grande porte, que
colocam em risco a integridade do patrimônio cultural vinham sendo
aplicados somente nas construções de hidrelétricas. Os empreendimentos
relacionados às linhas de transmissão não contemplavam o patrimônio
arqueológico, não sendo solicitados pelos órgãos ambientais. As
linhas de transmissão de energia elétrica caracterizam-se, principalmente,
por uma sucessão de torres distribuídas regularmente através de
um desenvolvimento linear, não retilíneo, em virtude da existência
de torres vértice. Dependendo de sua extensão, pode haver a necessidade
da implantação de subestações intermediárias cuja área varia de
acordo com a potência da LT. Os locais de implantação das torres
são escolhidos segundo as características do relevo, situando-se
preferencialmente, no topo de elevações e/ou encostas, permitindo
um maior espaço entre as torres (vão) e, por conseguinte, menor
custo, menor número de torres, reduzindo também o intervalo de tempo
para sua implementação. Por suas características pontuais e linearidade,
considerava-se que o dano ao patrimônio era mínimo sendo quase nulas
as chances de o local de escolha para colocação das torres coincidir
com a área de um sítio arqueológico. Nesse sentido, a Linha de Transmissão
Itumbiara/ Brasília Sul, construída em 1996 por Furnas Centrais
Elétricas S.A, foi pioneira, ampliando-se, de forma inédita, o programa
de preservação do patrimônio arqueológico para os empreendimentos
relacionados às linhas de transmissão. Assim, foi implantado o Programa
de Levantamento de Sítios Arqueológicos ao longo desta LT, cuja
extensão é de 330km sendo composta por 890 torres. Implantada na
região Centro-Oeste do Brasil, a linha sai da hidrelétrica de Itumbiara
seguindo em direção a cidade de Brasília até seu ponto de chegada,
a subestação de Samambaia. Este percurso atravessa uma região de
relevo ondulado com elevações de até 1000 metros, coberta originalmente
por vegetação de cerrado, hoje, bastante alterada devido a intensa
atividade agro-pastoril e a proximidade dos centros urbanos.
Diferentemente dos trabalhos de salvamento em hidrelétricas,
a área a ser pesquisada corre linearmente por uma variada gama de
ambientes, restringindo-se a faixa de servidão, as áreas das subestações
e aos acessos. Por suas características (menor porte, intervenção
pontual, possibilidade de alteração no projeto original, etc.,)
é facilitada a conjugação dos trabalhos de arqueologia com o cronograma
das obras, havendo dois momentos distintos para o início dos trabalhos,
ou seja, logo após a implantação dos marcos das torres ou imediatamente
após a abertura dos acessos. A dificuldade reside no fato de não
se poder planejar o momento de realização dos trabalhos de campo
com o período do ano de maior ou menor incidência de chuvas. A primeira
fase do trabalho foi a de levantamento do potencial arqueológico
ao longo da linha de transmissão. No caso da LT Itumbiara / Brasília
Sul os trabalhos foram realizados logo após a locação dos marcos
e antes da abertura das estradas de acesso, entre os meses de maio
a agosto, período de estiagem na região. Foi realizado, também,
antes da abertura das cavas ou tubulões pelas máquinas (retro-escavadeira
ou perfuratriz). Nessa primeira fase foram realizadas sondagens
nos locais de implantação das torres. Em um universo de 890 torres,
admitiu-se como representativa uma amostragem de 20% deste total
resultando assim em 178 o número de torres prospectadas. Para garantir
a distribuição das torres a serem prospectadas, estabeleceu-se que
em cada série de dez torres duas seriam trabalhadas. A escolha das
torres a serem trabalhadas se deu a partir de sua implantação no
relevo dando-se preferencia àquelas situadas em áreas de baixada
ou próximas aos rios ou córregos, com ângulo de inclinação baixo
ou nulo.

A técnica empregada para a prospecção constituiu-se de:
- abertura de poço teste em cada cava da torre, com 1 m2
de área e 0,5 m de profundidade.
- aprofundamento dos poços com o auxílio do trado com 0,20
m de diâmetro, até 1 m de profundidade.
- sondagens com o trado nas laterais e nos sentidos vante
e ré.
O resultado desta primeira fase foi a localização de quatro
sítios arqueológicos situados exatamente nas áreas destinadas a
colocação das torres. De modo a garantir-lhes a integridade e assim
minimizar o impacto ao patrimônio, optou-se, para a segunda fase,
pelo deslocamento das torres para locais fora das áreas dos sítios.
Assim, os sítios foram delimitados e as torres deslocadas em direção
vante ou ré, conforme o caso. Estas áreas foram temporariamente
interditadas até que fossem executados os trabalhos de delimitação
e seleção das novas áreas de locação das torres.

Considerações Finais:
Embora sejam conhecidos casos em que torres de transmissão
de energia elétrica foram montadas sobre sítios arqueológicos, a
falta de um trabalho preciso que documentasse e demonstrasse a necessidade
de levantamentos arqueológicos neste tipo de empreendimento, contribuía
para a manutenção de uma idéia errônea de que o patrimônio arqueológico
não sofria nenhum tipo de dano, não se justificando sua inclusão
nos Estudos e Relatórios de Impactos Ambientais em Linhas de Transmissão
de Energia Elétrica. A localização de quatro sítios arqueológicos
ao longo da LT Itumbiara / Brasília Sul veio demonstrar a necessidade
de realização de levantamentos arqueológicos neste tipo de empreendimento.
A realização do levantamento arqueológico ainda no início dos trabalhos
da linha dificultou sobremaneira o acesso aos pontos selecionados,
uma vez que neste caso específico, a grande maioria situava-se em
áreas isoladas. Isto se reverteu em atrasos na execução do trabalho,
dificultando o cumprimento do cronograma pré-estabelecido. Por outro
lado, possibilitou a realização das alterações no posicionamento
das torres, pois nesta fase o deslocamento ainda é viável. Outro
ponto importante foi a realização do levantamento antes do início
dos trabalhos de abertura das cavas e tubulões pela retro-escavadeira
ou pela perfuratriz. O percentual utilizado poderá variar de acordo
com a área do empreendimento e a disposição das torres, como no
caso de áreas planas e daquelas entrecortadas por grande quantidade
de cursos d'água. Embora estes tenham sido os procedimentos aplicados
a esta linha, experiências obtidas em outros empreendimentos do
tipo demonstram a necessidade de adaptação dessas estratégias de
acordo com o as características da área e do empreendimento. O objetivo
deste trabalho foi o de colaborar para o desenvolvimento de estratégias
para a verificação de sítios arqueológicos nos empreendimentos relacionados
à implantação de linhas de transmissão e apresentar uma avaliação
dos resultados obtidos.
NOTAS
* Arqueólogos do Departamento de Meio Ambiente de FURNAS
Centrais Elétricas S.A. - DMA.T
* 1e-mail: tfranco@furnas.gov.br
* 2e-mail: mpgatti@furnas.com.br
1er Congreso Virtual de Antropología y Arqueología
Ciberespacio, Octubre de 1998
Organiza: Equipo NAyA - info@naya.org.ar
http://www.naya.org.ar/congreso
Auspicia:
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