Para uma Ecologia Humana - Sedovém
Álvaro Campêlo
CEAA
Universidade Fernando Pessoa - Portugal
O trabalho que apresentamos tem por base uma investigação em antropologia
aplicada desenvolvida no lugar de Sedovém, na freguesia de Apúlia,
concelho de Esposende, no litoral norte de Portugal. Esta investigação,
liderada pelo autor, está ainda a realizar-se, e conta com a participação
de antropólogos, arqueólogos, um biólogo, e uma arquitecta. Procurou-se,
assim, delinear um projecto de intervenção multidisciplinar, onde
o «olhar» antropológico fosse central, de modo a instaurar paradigmas
novos de actuação ao nível do desenvolvimento de pequenas comunidades,
e que tenham preocupações culturais e ambientais.
O problema que se colocou no início do estudo, tem a ver com a
situação da pequena comunidade de Sedovém: um aglomerado caótico
de construções destinadas a vários fins. Temos aqui construções
para a pesca, para a habitação, e até para restaurantes. Por se
situarem numa área sensível do litoral costeiro, e porque manifestam
um grave desordenamento estrutural, estas construções tinham sido
consideradas pelo POOC (plano governamental denominado Plano
de Ordenamento da Orla Costeira) de destruição obrigatória,
sendo o espaço anteriormente ocupado para uma futura renaturalização.
Logo num primeiro olhar vários factores colidiam com esta pretensão
estatal: um rico património histórico e cultural, construído por
esta pequena comunidade agro-marítima; e uma situação económica
e social que não podia ser esquecida pelos decisores governamentais.
Ao mesmo tempo, era notório que a situação, como se apresentava,
não era sustentável a nível ecológico. Como conciliar as pretenções
dos actores presentes, isto é, como salvar e potencializar uma comunidade
tão peculiar na sua cultura, ao mesmo tempo que se defendia e melhorava
o ambiente? É na tentativa de resolver esta questão que surgiu o
trabalho que apresentamos.
O projecto contemplou uma investigação da zona costeira como espaço
relacional e interdependente, numa simbiose de elementos naturais,
sociais e culturais. Assim sendo, uma consequente intervenção, deveria
potencializar e valorizar esses elementos. Ao compreender a orla
costeira (suas características geográficas, formações geológicas,
ambientais e humanas estruturas e vivências sociais do espaço),
em relação com a plataforma continental (estrutura geológica e características
biológicas), o nosso estudo pretendeu o não isolamento de uma ou
outra questão, mas posicionar a interdependência dos elementos presentes.
A zona costeira que nos diz respeito manifesta-se por uma linha
de fundos rochosos, num notável paralelismo com a linha da
costa (Ribeiro.1945. 207). O litoral português ocidental é
percorrido por uma corrente de norte a sul, cuja temperatura e salinidade
aumenta conforma se caminha para sul, embora com variações não muito
consideráveis. Na zona norte, na sub-área que vai da Caminha a Espinho,
temos um tipo de costa de elevação em que o mar, de forte ondulação,
bate contra uma linha quase recta, dificultando as pescas e zonas
portuárias, interferindo na orla costeira, apesar de ser uma costa
alta. Algumas zonas são alimentadas pelas areias da plataforma continental,
que as correntes litorais empurram para terra, principalmente aquelas
que se seguem a zonas de estuários, como é o caso de Apúlia e o
estuário do Cávado, criando assim portos de pesca do tipo de costa
aberta, tão comuns a sul de Espinho, onde um tipo de costa baixa
e arenosa permite o desenvolvimento de faixas dunares extensas.
Este tipo de costa aberta na Apúlia permitiu o desenvolvimento
das actividades de pesca de tipo local, de características sazonais.
A proximidade de comunidades agrárias, fez com que nascessem aqui
actividades agro-marítimas, como a apanha do sargaço e do pilado,
dando novos sentidos e riquezas à relação com o mar. Estas actividades
agro-marítimas, que ainda hoje são observadas em Sedovém, estão
intimamente ligadas ao processo de desenvolvimento das populações
e actividades marítimas portuguesas, onde se pode distinguir quatro
«ecotipos» (Moreira. 1987:151-152) fundamentais:
1. Camponeses-pescadores. Estes tinham a base
da sua economia doméstica na agricultura, procurando a exploração
do mar como complemento de subsistência ou complemento das actividades
agrícolas (através dos fertilizantes);
2. Pescadores-camponeses. Como o grupo precedente,
são pescadores temporários. No entanto aqui é a pesca a actividade
principal e dominante, sendo as outras actividades um complemento
(note-se que depois de meados do séc. XIX tanto o primeiro como
o segundo «ecotipo» alternam a actividade do mar com outras actividades
que vão para além da agricultura, como os serviços e a indústria);
3. Pescadores-mercadores. Neste padrão a actividade
piscatória está estritamente associada ao comércio do pescado, o
que resulta em grande parte dos incentivos dados no período medieval
(e seguintes) às actividades urbano-mercantis;
4. Pescadores especializados ou marítimos profissionais.
Estes dedicam-se em exclusivo à actividade da pesca, quer a nível
individual, quer ao serviço de outrém (campanhas/empresas).
O que há a realçar nos vários «ecotipos» é a extraordinária natureza
composta e plural da actividade pesqueira. No nosso caso, em Sedovém,
apesar de podermos anotar personalidades que possam estar ligados
a um ou outro «ecotipo», são os dois primeiros que predominam. As
actividades agro-marítimas oferecem simultaneamente segurança e
flexibilidade, pois permitem não só complementar os ganhos, respeitando
a sazonalidade das actividades, como potencializar os rendimentos
agrícolas com a adubação das terras. Em Sedovém há um predomínio
para o primeiro padrão, o qual se constitui como «ecotipo» de alguma
forma definidor das actividades aqui desenvolvidas.
Sendo a apanha do sargaço e do pilado as duas actividades marítimas
que complementam as agrárias, convém aqui distinguir dois tipos
sociológicos: os lavradores e os jornaleiros, cabaneiros,
seareiros ou taraqueiros[1]. Os Lavradores viviam mais para o interior,
e iam ao sargaço para consumo nas próprias terras. Faziam o trabalho
eles próprios, juntamente com os seus familiares ou com um grupo
de vizinhos. Possuíam, na sua maior parte barcos próprios, juntando
à apanha do sargaço e do pilado, a de alguma pesca para consumo
próprio e, algumas vezes, para venda (Baldaque da Silva. 1892: 92).
Já no que respeita aos cabaneiros-sargaceiros, a actividade era
uma oportunidade de recolher mais alguns proventos para sua subsistência,
juntando o trabalho a jornal (pago diariamente), ou o de pequenas
parcelas arrendadas, à pesca e apanha do sargaço para venda. Os
documentos oficiais fazem eco desta distinção[2],
chegando inclusive a classificar e taxar os fregueses das paróquias
diferentemente: nos livros paroquiais de S. Tiago de Amorim
e Santa Eulália de Beiriz, distinguem-se os fregueses que tiram
sargaço para «estercar» terras próprias dentro da respectiva freguesia
(que não têm de pagar dízimos por esse sargaço), e os que o fazem
para venda ou troca «por lenha ou por outra coisa qualquer», ou
os que não têm «terra de seu» e semeiam «pam nas terras alheias»
(que ficam sujeitos àquela tributação) (Oliveira/Galhano /
Pereira. 1990: 17).
Os portos de pesca, ou comunidades piscatórias exclusivamente dedicados
a esta actividade, eram relativamente poucos (Moreira. 1987: 152).
Dado ser uma actividade sazonal, grandes espaços do litoral eram
ocupados apenas numa base temporária (Lobo. 1791: 353), o que originou
um tipo de construção urbana muito própria. A residência temporária
e a complementaridade de actividades permitiu, ou exigiu, a formação
de um tipo de habitação característica em madeira. Em toda a costa,
de Caminha ao Douro, a maior parte das povoações marítimas e agro-marítimas
compunham-se de cabanas. Veja-se o caso da Póvoa, que se desenvolveu
a partir da «pobra» fundada pelos lavradores de Argivai, Gesteira
e Santa Cristina (Barbosa. 1958: 322-323). Estes quando iam ao mar,
e porque as suas residências ficam longe, ergueram na praia barracos
que lhes servissem de abrigo e de recolha de utensílios, acabando
por aí se fixarem, quando as mais valias oriundas do mar se tornaram
mais importantes do que as arrecadadas da terra (talvez por desprovidos
desta). Esta habitação, que adquire vários nomes (como palheiro),
vai servindo para vários fins, numa confusão que ainda hoje perdura
(habitação, armazém, etc.). Foram os cabaneiros-sargaceiros
os principais responsáveis pela criação das raízes de pequenas comunidades
junto do litoral, nas formas precárias antes mencionadas. Esta gente
criou uma cultura muito própria, intensificando a formação de uma
cultura onde os elementos marinhos se vão acentuando cada vez mais.
A estas casas seguiram-se, por vezes, casas de alvenaria, mas com
maior frequência continuaram de tabuado, terreas e acanhadas, com
uma única divisão servindo de habitação e arrecadação da utensilagem
profissional, sem soalho, forno ou chaminé, onde a família dormia
em esteiras e onde também se cozinhava (cf.Moreira. 1987: 187).
As casas de madeira dos pescadores e as cabanas que serviram de
abrigo ou residência temporária a sargaceiros-lavradores (Oliveira
/ Galhano / Benjamim. 1975: 103-112) foram o ponto de partida de
muitos dos aglomerados costeiros, nomeadamente Amorosa, Castelo
de Neiva, Averomar, Mindelo, Vila Chã, Apúlia, Sedovém, ect. Por
vezes estes aglomerados vinham indicados no mapa com o nome de «barracos»
ou «palheiros» das povoações rurais que lhes correspondiam no interior
e nas quais residiam as gentes a quem essas habitações pertenciam
na maior parte (Moreira. 1987: 188). Neste momento não podemos deixar
de salientar, aquilo que para alguns autores se afigura importante
e consequente (Oliveira/Galhano e Pereira. 1990: 15): a actividade
sargaceira constitui um factor essencial de povoamento costeiro!
As características do espaço habitacional marcaram as relações
sociais das comunidades que se constituíram a partir destas ocupações.
A organização do espaço e a natureza primitiva dos barracos (Vasconcelos.
1924: 33-38; Oliveira/Galhano. 1965: 43-64), para além de uma demonstração
de pobreza, era também a causa de uma vivência diferente dos mesmos,
fazendo da rua, do exterior, um verdadeiro complemento da habitação.
Desta forma, a vida quotidiana e as relações sociais estavam marcadas
pelos usos do espaço público. Esta simbolização do espaço público
marcou a vida comunitária das comunidades costeiras, vindo-se a
reflectir nas mais diversas estratégias sociais delineadas pelas
mesmas, como notou Sally Cole (1994) em Vila Chã.
Um dos aspectos mais interessantes, ligado particularmente às comunidades
criadas a partir destas longínquas ocupações temporárias para a
recolha do sargaço e do pilado, está na divisão do trabalho, segundo
o género. É verdade que a actividade da pesca é tipicamente uma
actividade masculina, e a divisão das tarefas se vai especializando
conforma aumenta a diferenciação das actividades marítimas das agrárias.
E se é verdade que, como dizia Santos Graça, referindo-se aos poveiros,
o homem, em princípio, só trabalha no mar, e em terra e em
casa não faz nada; os trabalhos domésticos, a cozinha, o cuidar
dos filhos, etc., e mesmo aqueles que se relacionam com as redes
- «adoçar» e o «encascar» - são feitos por vezes pelas mulheres,
a quem compete a administração do dinheiro, que o homem lhe entrega
integralmente, reservando para si unicamente o «dinheiro das partes»
com que paga os seus cigarros e um copo na taberna (1932:
162 165), já não o é afirmar que as mulheres nunca
trabalham na faina piscatória(Moreira. 1987: 268)! De facto,
encontramos mulheres a pescar em Vila Chã, chegando até uma delas
a mestre de barco (Cole. 1994). Temos fotos de mulheres em «jangadas»
na apanha do sargaço, em Sedovém, o que pode indiciar uma efectiva
participação destas nas actividades marítimas, para além da apanha
do sargaço, comprovado que está a sua capacidade de entrar dentro
do mar. Talvez em Vila Chã o trabalho na pesca tenha sido precedido
da apanha do sargaço. Por outro lado, a mulher das comunidades agro-marítimas
assumia funções na agricultura a que não tinham acesso mulheres
de outras aldeias do concelho, a fim de ficarem livres os maridos
ou patrões o tempo suficiente para a faina do mar.
A apanha do sargaço[3]
A apanha do sargaço, fertilizante abundantemente utilizado pelas
populações costeiras que se dedicam à agricultura, assumiu uma actividade
de capital importância na praia da Apúlia. A esta actividade não
está alheia a facilidade de colheita das algas marinhas neste local,
bem como a abundância das mesmas. As condições da praia e mar da
Apúlia estão dentro das que Oliveira / Galhano e Pereira (1990:
14) definem como as ideais para a apanha das algas: que a costa
seja franjada de penedia onde as algas possam agarrar-se e medrar,
mas de onde, ao mesmo tempo, o movimento das águas superficiais,
nos temporais e marés agitadas e fortes, logre arrancá-las; vemos,
com efeito, que é geralmente em seguida a esses factos que aparece
mais sargaço nas praias. Para que esta actividade se possa exercer,
importa além disso que a costa seja acessível, e que haja amplos
areais ou espaço disponível para a recolha e secagem dessas algas
condições estas, que em conjunto, são características da
orla marítima ao norte do rio Douro, e que não ocorrem com frequência
ao sul desse rio.
Pode considerar-se de velha tradição a recolha de algas na Apúlia.
Nos Portugaliae Monumenta Histórica, Inquisitiones, fascículo
IX, encontram-se documentos que falam do sargaço recolhido pelos
homens de Fonte Má (actualmente Fonte Boa), no couto de Apúlia,
que fornecem normas no que respeita às actividades que se desenrolam
à volta do sargaço. Assim, o documento (1245 1255) proíbe
os habitantes de Fonte Má de passarem pelo couto que era pertença
dos arcebispos de Braga. Os vários interditos que se foram aplicando
à actividade da apanha do sargaço ou tinham a ver com as definições
de área do seu exercício, ou tiveram o âmbito religioso na sua origem,
dado respeitarem à observação dos dias sagrados e da moral sexual.
No primeiro caso veja-se o que as posturas camarárias definiam no
século passado:
Pela postura camarária de 20 de Agosto de 1862, dispõe-se
que «toda a pessoa da freguesia da Apúlia que for encontrada na
praia da freguesia da Estela a tirar sargaço a apanhar polvos ou
a lançar espinheis pagará a multa de 4. 000 réis além do perdimento
dos referidos objectos para a despesa da paróquia». Três anos mais
tarde esta proibição especial era revogada, também em relação à
Apúlia e Estela, pela postura camarária de 22 de Março de 1865,
que dispõe que «é permitido aos povos da freguesia da Apúlia, concelho
de Esposende, apanhar sargaço, com armas e utensílios iguais aos
que costumam usar os povos da freguesia da Estela, como também vestidos
com honestidade e decência, compatíveis com aquele emprego, sob
pena de incorrerem na multa de 2.000 réis por pessoa e por cada
transgressão» (Oliveira/Galhano/Pereira. 1990: 28).
As interdições iam ao ponto de delimitar até o espaço que se podia
ultrapassar (Lavra, acta de 1682 do Visitador: « nenhuma pessoa
passe o fieiro para baixo com instrumento algum de tirar ou preocupar
o argaço»).
Já no que respeita às interdições religiosas, que proporcionavam
várias penas (chamadas de «penitências do argaço»), é suficiente
atender às seguintes palavras, que aplicando-se a outras localidades
perto da Apúlia, certamente teriam as mesmas referências nas visitações
a esta terra:
« ...o Visitador multava (com 200 e depois 250 reis) quem na
manhã de Segunda-feira começasse a tirar o sargaço antes do nascer
do sol. Consideraria ele o interdito, de facto, até ao nascer do
do, na segunda-feira, como veio a estabelecer-se ali em 1703, ou
procuraria ele, a pedido dos fregueses, como diz (Lavra, 1674),
anular a causa de discórdias e pelejas entre estes (os que iam a
horas normais protestavam contra os que iam muito cedo e se apossavam
do sargaço que estava em seco, juntando-o em monte e sentando-se
,m cima dele ( Lavra, 1676?). Aliás, mais do que uma vez parece
Ter-se em mente que, nestes dias (e como veremos, ao contrário do
princípio que vigorava em certas partes, como por exemplo na Póvoa
do Varzim) não era permitida a apanha à noite, falando-se de não
se colher o sargaço senão «de sol a sol» (Lavra, 1674), nem «desde
Sábado ou véspera de dia santo» ou «desde o sol posto de Domingo
ou dia santo até o sol nado do dia seguinte» ou «desde vésperas
dos dias santos até de manhã» (Oliveira/Galhano e Pereira.
1990: 35).
Por volta de 1686 o sargaço que fosse recolhido nas noites antecedentes
e consequentes aos dias santos e domingos, e nesses próprios dias,
ficava pertença da igreja paroquial, dado não ser permitido o trabalho
naqueles dias! Mais tarde, antes de 1703, através de um despacho
do Bispo, foi autorizada a apanha do sargaço em dias de preceito.
Contudo, o Visitador voltou a proibir a apanha desde o pôr do sol
de Sábado até ao nascer do mesmo na Segunda-feira. Quem não cumprisse
teria de pagar uma multa de cinco tostões por cada transgressão.
Em 2 de Março de 1720, após a visitação de D. Rodrigo de Moura Teles
à Apúlia, foi decretado que a recolha das algas podia ser feita
nos dias de preceito, desde que tivessem ouvido missa, mas metade
teria que continuar a ser entregue à igreja. Verificando que não
era dado cumprimento ao que estava decretado, em 1743 foi ordenado
ao pároco que elegesse um «olheiro» para que este, a troco de um
ordenado, vigiasse a praia e avisasse as autoridades eclesiásticas
para que estas pudessem estar presentes na altura da venda do sargaço
pertencente à igreja. Muitos foram os «olheiros» admoestados por
se terem corrompido por dinheiro e favores!
Outro dos interditos religiosos caíam sobre as vestes e o decoro
das mulheres (que não podiam trabalhar à noite) na apanha do sargaço.
Mas as mulheres eram necessárias nesta actividade. Os moradores
da Apúlia solicitaram em 1768 que lhes fosse permitido contar com
a colaboração das mulheres à noite. Na sequência deste pedido, o
P. Manuel António Gajo, respondeu ao pedido de informações do ordinário,
dizendo que não havia qualquer desonestidade e que as mulheres faziam
falta nessa actividade. Nos anos que se seguiram as disposições
da igreja foram-se alterando conforme os problemas que se colocavam
aos ordinários e à comunidade, até ao início deste século, quando
a igreja deixou de exercer influência sobre esta actividade. Uma
única norma ainda se manteve por alguns anos: a época de defeso,
que em 1958 ia de 1 de Julho a 1 de Março. A partir dos anos sessenta
deixou de haver qualquer impedimento para se tirar o sargaço, e
os meses mais utilizados para essa actividade são os de Junho, Julho,
Agosto e parte de Setembro.
Um dos momentos importantes da faina da apanha do sargaço e do
pilado é a secagem dos mesmos. Logo depois da apanha, as algas recolhidos
eram levadas para determinados espaços, para serem estendidas a
fim de secarem. Assim, enquanto uns entravam no mar, nas barcas,
nas jangadas ou a pé com o «galhapão» (que alguns chamam de ganhapão)
e a «graveta», e recolhem o sargaço, outros arrastam esses utensílios
já carregados para fora do alcance das ondas, onde depositam as
algas e voltam a entregá-los para novamente serem cheios. A divisão
do trabalho pode ser feita entre homens, grupo de vizinhos, ou par
de amigos, que no fim dividem a apanha pelas famílias envolvidas.
Caso a apanha seja feita por uma só família, os homens vão ao mar
e as mulheres trazem para lugar seguro as algas recolhidas. Isto
não quer dizer que não tenham havido mulheres que se aventurassem
pelo mar em jangadas para a apanha!
Depois de apanhado o sargaço é levado para secagem. Transportado
para os «fieiros» em carrelas ou em tractores (num passado ainda
pouco distante, em carros de bois), é estendido em «camas» manualmente,
para que haja uma camada fina e regular em toda a extensão da «cama».
Em ocasiões de excepção, as dunas ficam plenas de sargaço, chegando
a ocupar caminhos e espaços estranhos a esta actividade. Nesta situação
permanece cerca de três dias, para ficar bem seco, sendo depois
«empadelado» e transportado para as casas ou cabanas, onde é empilhado
em «serras», aguardando a ocasião de ser utilizado ou vendido. Não
havendo espaço nas cabanas, por vezes fazem-se «pilhas» em plena
praia. Aí permanece até ser utilizado.
Dada a manifesta necessidade destes espaços para a secagem do sargaço
e do pilado próximos da praia, as populações ocupavam terrenos sobre
os quais pagavam taxas, dado não lhes pertencerem. No lugar de Sedovém
constituiu-se um baldio nos terrenos pertencentes à Casa de Bragança.
O Baldio dos Sargaceiros da Apúlia foi remido por alguns habitantes
da Apúlia e de Fonte Boa a esta Casa de Bragança para não só aí
estenderem o sargaço e o pilado, mas também para construírem cabanas
onde o pudessem conservar, e casas onde morassem quando efectuavam
estas actividades sazonais. Com o tempo estas casas, como já vimos,
adquiriram estratégias de utilização várias. Desta forma, o espaço
circunscrito ao Baldio dos Sargaceiros é um espaço cheio de história,
onde se sintetizam as memórias e significados ligados às actividades
agro-marítimas desenvolvidos na Apúlia. Se há espaço que possa resumir
e dar um sentido a essa actividade, o do Baldio dos Sargaceiros
é um deles! É a consciência dessa riqueza e da responsabilidade
da comunidade sobre ela, que levou os compartes do Baldio a projectar
para este local um Parque Temático, o qual pretende assumir as vivências,
as memórias e a identidade do povo que se dedicou a tão extraordinária
actividade.
Parque Temático em Sedovém
Os vários elementos que temos vindo a enunciar ao longo desta exposição,
permitem-nos, para além da contextualização do projecto, tomar consciência
de uma identidade cultural, expressa tanto em comportamentos e práticas
muito particulares, como em artefactos e construções relevantes.
A maior parte destas práticas e desta cultura material, se bem que
presente em outros ecossistemas, encontra aqui em Apúlia uma memória
bem actual. Um facto que constatamos é que não existe em Portugal
um espaço onde essa cultura e essas práticas estejam acessíveis
ao público, e onde se preservem memórias e práticas associadas à
apanha do sargaço e do pilado.
É certo que temos um Museu Nacional de Etnologia em Lisboa,
que conserva fotos e artefactos que tratam estas actividades. No
entanto consideramos que a preservação dos mesmos junto das populações
que os utilizaram, interpretando-os partindo da memória que ainda
resta deles, é a melhor forma de termos acesso a uma cultura de
alto significado para a história da agricultura e do povoamento
da costa litoral. Nesta convicção se propõe a criação de um Parque
Temático em Sedovém que integre todos os elementos associados
a estas práticas e satisfaça os interesses de vários públicos:
- os naturais da Apúlia, porque assim vêm conservado
o património que construíram, as práticas que suportavam a sobrevivência
na vida quotidiana, e a identidade em que se revêm;
- os visitantes/turistas, que assim tomam contacto
com uma cultura rica e única, no ecossistema que a originou, possibilitando
uma melhor compreensão da mesma;
- os responsáveis pelo património, dado contarem com
a população local na defesa de artefactos e de práticas de valor
inestimável para a cultura portuguesa.
Suportando a globalidade do Projecto, o Parque Temático justifica
as estruturas necessárias ao seu funcionamento, ao mesmo tempo que
condiciona as estratégias de desenvolvimento e de actuação, ao não
permitir ocupações e práticas que vão contra o sentido social e
cultural do que ali se pretende preservar e valorizar.
Os elementos recolhidos e valorizados neste Parque Temático, serão
articulados com a preservação do ambiente, de modo a que o ecossistema
seja plenamente entendido como um «lugar» construído e, por sua
vez, criador. Desses elementos temos a destacar:
· A descrição das algas recolhidas, suas características
e valor económico; o pilado e demais espécies piscatórias relevantes
na economia local;
· As construções presentes no ecossistema: cabanas, casas
de habitação e de guarda dos artefactos de apanha do sargaço e do
pilado;
· A tecnologia da apanha do sargaço, do pilado e da pesca
, através dos seus artefactos (descrição, recolha, desenho, fotografia,
catalogação e conservação);
· Indumentárias e Folclore associado à apanha do sargaço;
· Os processos da apanha do sargaço e do pilado e sua utilização
na agricultura (recolha das estórias ligadas às actividades agro-marítimas,
recolha de fotografias e pesquisa de documentos histórico/legais
que tratam deste tema, levantamento de filmes e documentários da
apanha do sargaço);
· Discursos sociais, económicos e mítico-religiosos associados
à apanha do sargaço e do pilado.
O Programa de Ordenamento da Orla Costeira (POOC) prevê
e incentiva a construção, definição e divulgação de percursos turísticos.
Com uma Rota Turística do litoral , o POOC pretende salvar o património
natural e cultural pelo valor inerente ao mesmo, responsabilizando
os visitantes na protecção dos mesmos. Ao criar-se um Parque
Temático em Sedovém com o enquadramento que se pretende, os
responsáveis pelo Baldio dos Sargaceiros estão não só a dar uma
resposta positiva a este incentivo do POOC, como a fornecer possibilidades
de o explorar criativamente, de uma forma que valorize e desenvolva
a sua comunidade.
É intenção dos responsáveis do Baldio e da Equipa de Investigação
criar uma lógica de intervenção em que todos os responsáveis sejam
participantes. O espírito de relação que preside a esta
lógica pretende motivar, responsabilizar e respeitar os direitos
e deveres de cada um.
A aplicação do projecto, implicando todos os intervenientes, responsabilizando-os,
obriga a definir quais são:
- A Assembleia de Compartes, o Conselho Directivo
e a Comissão de Fiscalização do Baldio dos Sargaceiros;
- Os actuais residentes e beneficiários do Baldio
dos Sargaceiros;
- O Ministério do Ambiente e os responsáveis pelo
Plano de Ordenamento da Orla Costeira (P.O.O.C.);
- A Área de Paisagem Protegida do Litoral de Esposende
(APPLE);
- A Câmara Municipal de Esposende e os responsáveis
pelo Plano Director Municipal (PDM);
- A Equipa Científica Responsável (CEAA).
- Demais instituições ligadas ao ambiente e ao turismo
que queiram estabelecer protocolos com o Baldio dos Sargaceiros
da Apúlia.
Estado da Situação:
O Baldio dos Sargaceiros da Apúlia, situado na faixa litoral norte,
estende-se por cerca de 170.000 metros quadrados, nos lugares de
Sedovém e Pedrinhas da dita Freguesia, no Concelho de Esposende.
A situação urbana e ambiental deste Baldio reveste-se de uma gravidade
que urge por termo, tanto para respeito das regras definidas pelo
Plano de Ordenamento da Orla Costeira (P.O.O.C.), como para a salvaguarda
dos direitos dos Compartes do mesmo. No momento actual, a maior
parte da zona que compreende o Baldio dos Sargaceiros está ocupada
por construções de vária índole, cujo ordenamento, estética e materiais
de construção criam uma paisagem anárquica, sem qualidade e atentatória
ao meio ambiente. Este ordenamento e ocupação, fora do respeito
de qualquer regra urbana e ambiental, origina um sem fim de situações
que prejudicam o exercício das actividades económicas aí presentes,
privam de qualidade de vida as famílias residentes, não potencializa
novas estratégias de desenvolvimento e de participação dos compartes
do Baldio, assim como originam uma destruição ambiental, nomeadamente
da zona dunar, que em nada dignifica este espaço.
Atentos a esta situação, os Compartes deste Baldio, estatutariamente
organizados e legalmente instituídos, solicitaram ao Centro de Estudos
de Antropologia Aplicada (Universidade Fernando Pessoa) um Projecto
Provisório a aplicar no espaço do Baldio, para com ele sensibilizar
as autoridades e os compartes a fim de encontrar uma solução global
para os problemas referidos.
Este Projecto Provisório tem por base três realidades que o justificam:
a)- A capacidade legal da Associação do Baldio dos Sargaceiros
de tomar decisões no que respeita à gerência do espaço e dos equipamentos
delimitados pelo Baldio;
b)- A consciência da urgência em encontrar uma solução para o presente
desordenamento deste espaço, na convicção de que ele representa
para a comunidade uma zona carregada de simbolismo e de história,
onde a memória e a identidade da Apúlia se manifesta;
c)- Procurar essa solução num compromisso de equilíbrio e de mútuo
respeito com as disposições legais de ordenamento da orla costeira.
Esse compromisso propõe-se na firme convicção da importância da
salvaguarda do ambiente, respeitando-o e valorizando-o, e na afirmação
das legítimas aspirações dos compartes do Baldio quanto à sua utilização.
A situação actual do Baldio reflecte-se, principalmente, sobre
as pessoas que aqui residem, e sobre os restaurantes que estão abertos
ao público.
|
Dados sobre as famílias residentes em Sedovém
(Estes dados referem-se a dez agregados familiares, de entre
os 15 existentes em Sedovém)
Agregados / N.º de Elementos / Profissões / Idades / Anos
de Resid.
|
|
A
|
7
|
*Reformada
(viúva)
* 2 G.N.R.
*Emp. De Construção civil
*Emp. fabril
|
* 72
|
* 45 anos
|
|
|
B
|
6
|
* Carteiro
* Doméstica
*2 Electrotécnicos
|
*52
*50
*27
*17
|
*28 anos
|
|
|
C
|
5
|
*Reformada
*Reformada
*Reformada
*Emp. Restaurante
*Criança em idade escolar
|
*87
*N.S.
*37
*40
*10
|
*20 anos
|
|
|
D
|
17
(família cigana)
|
*Feirante
*Feirante
|
*47
*42
Não há mais informações
|
*7 anos
|
|
|
E
|
4
|
*Pescadores
|
*38
*36
*n. s.
*n. s.
|
*30 anos
|
|
|
F
|
3
|
*Pescador
*Doméstica
*Estudante
|
*60
*58
*n. s.
|
*25 anos
|
|
|
G
|
4
|
*Desempregado
*Lojista
*Emp. Construção Civil
|
*55
*52
*25
|
*30 anos
|
|
|
H
|
3
|
*Empregado
Construção Civil (emigrante)
*Doméstica
*Desempregada
|
*48
*46
*17
|
*24 anos
|
|
|
I
|
2
|
*Reformado
*Reformada
(Foram emigrantes em França)
|
?
|
Segundo testemunho da residente, foram dos primeiros a construir
casa aqui.
|
|
|
J
|
2
|
*Reformado
(acamado)
*Reformada
|
*n. s.
*n. s.
|
*30 anos
|
|
Síntese e Objectivos do Projecto:
Sintetizando o sentido fundamental deste projecto, podemos dizer
que ele olha para a situação presente na convicção de que ela só
pode ser interpretada através dos sentidos dos usos do passado,
da sua relevância nas práticas do presente, e das reinterpretações
desses dois momentos no perspectivar do futuro.
O Projecto de Intervenção na Área de Baldio de Sedovém pretende
Salvaguardar e Valorizar os elementos ecológicos, ambientais e humanas
presentes neste espaço. Através de um trabalho sob orientação antropológica,
o projecto irá analisar e procurar uma solução para as áreas mais
sensíveis do Baldio, dentro de uma perspectiva multidisciplinar,
implicando os agentes sociais que interagem aqui e que, de alguma
forma, têm direitos e deveres sobre este espaço.
A interdisciplinaridade, sob orientação antropológica, permitirá
levantar dados e vivências culturais praticadas desde tempos imemoriais
neste espaço, e que marcaram a identidade e a memória da comunidade
humana da Apúlia. O projecto pretende interpretar, comunicar e valorizar
neste espaço essas práticas e memórias, de modo a fazer delas um
capital para o desenvolvimento da comunidade da Apúlia, requalificando
o espaço, dando novas perspectivas aos seus usos e costumes. Por
fim, mas não menos importante, pretende formar as pessoas para uma
compreensão da própria cultura e da riqueza ambiental que a suporta,
de modo a responsabilizá-las na protecção, e a motivá-las numa atitude
positiva de valorização ecológica.
É convicção central dos responsáveis deste projecto que o ambiente
deve ser entendido juntamente com a comunidade humana que dele usufrui.
Colocar em relação a defesa ambiental com a formação e com o desenvolvimento
da comunidade residente em Sedovém, é um dos objectivos do projecto.
Valores e Objectivos que estão na base do projecto:
· Protecção do meio ambiente.
· Valorização das expressões sociais e culturais da comunidade
da Apúlia e de Sedovém.
· Relacionar e potencializar as práticas culturais com a
defesa ecológica, na consciência de que a defesa de uma delas é
a melhor consagração da outra. Fazer um levantamento das realidades
actuais e históricas da ocupação dos espaços em Sedovém
· Enquadrar os dados jurídicos e os direitos dos actores
sociais e instituições públicas e privadas num processo de diálogo,
de forma a chegar a um compromisso que possibilite uma intervenção
responsável de todos, numa estratégia relacional de desenvolvimento.
· Intervir ao nível da recuperação ambiental em todos os
espaços do projecto, com as soluções adequadas a cada um deles.
· Reconversão urbana restrita a edifícios de carácter público,
no espaço de área protegida, com materiais adequados, de modo a
que essa presença urbana sirva para o conhecimento e partilha da
riqueza ambiental. Em escala apropriada, essa reconversão urbana
permitirá uma indústria de lazer e de turismo cultural turismo
da natureza -, bem como servirá para formação ambiental.
· Fazer do espaço do Baldio dos Sargaceiros um encontro com
a identidade desta comunidade da Apúlia, não no sentido de uma mera
memória saudosista, mas no sentido do que melhor tem a tradição
e a memória de um povo: espaço de encontro consigo mesmo, com os
outros que se relacionam com ela, com um futuro que se quer reinventado
e partilhado por todos.
|
Âmbitos de intervenção:
1.Reconversão ambiental e Formação
2.Ocupação do Espaço e Cultura Material
3.Desenvolvimento das Actividades Económicas
4.Desenvolvimento do Turismo Ecológico
5.Estudo etnográfico/museológico
|
Formação ambiental:
Decorrente da especificidade da área abordada, com o rico património
ambiental, e depois da intervenção na recuperação do mesmo, o projecto
prevê acções de formação ambiental. Estas acções, que contarão com
a colaboração de entidades relacionadas com o ambiente, terão três
alvos principais:
a) População que utiliza o Baldio. Só informando aqueles
que ocupam de uma forma mais frequente este espaço podemos ter sucesso
quanto à manutenção da qualidade ambiental e à sua valorização.
b) População estudantil. Fazer do espaço do Baldio dos Sargaceiros
um local pedagógico é condição para o sucesso futuro do mesmo. Cursos
e visitas guiadas para pedagogia ambiental em muito contribuirão
para a defesa do ambiente.
c) Visitantes/turistas. Para estes públicos, é a manutenção
contínua da qualidade ambiental que os levará a valorizar e defender
o ambiente em Sedovém. A criação de uma área museológica com esta
temática em muito contribuirá para os consciencializar da importância
do ecossistema que visitam!
Desenvolvimento do Turismo Ecológico
Um dos maiores desafios do projecto é a reconversão do espaço do
Baldio dos Sargaceiros da Apúlia em espaço de turismo cultural e
ecológico. O turismo já não é unicamente mar e sol. As novas lógicas
do turismo não se compadecem com erros de planeamento nem com a
suposta infantilidade dos visitantes. Estes são cada vez mais exigentes
e cada vez mais bem preparados culturalmente. Uma comunidade que
se queira interveniente no campo turístico não pode deixar de apelar
para a imaginação e para novos produtos que a identifique em relação
aos seus directos concorrentes. Nos últimos tempos foram várias
as mudanças neste campo.
As grandes mudanças nos modelos do turismo, culminam naquilo que
autores como Donaire (1999) classificam de lógica da sustentabilidade.
A Cimeira do Rio (1992) colocou os princípios de um desenvolvimento
sustentável: a) o desenvolvimento sustentável permite responder
às necessidades do presente sem comprometer a capacidade das gerações
futuras responder, por sua vez, às suas; b) o desenvolvimento sustentável
é um processo de mudança que tem em conta, de forma harmónica, a
exploração dos recursos, a orientação dos benefícios, a aplicação
das técnicas, a evolução das instituições e empresas, com o fim
de reforçar o potencial socio-económico, apto para responder às
necessidades e aspirações da humanidade; c) não existe nenhum modelo
ideal de desenvolvimento sustentável, já que os sistemas políticos
e económicos, assim como as realidades ecológicas, variam de lugar
para lugar.
Tendo em conta estes princípios, o turismo sustentável é um turismo
aberto e flexível, tendo em conta a realidade económica, social
e cultural de um determinado lugar. Donaire (1999) propõe sete princípios
básicos que identificam este modelo de desenvolvimento turístico:
1. Turismo planificado. a planificação terá em conta um estudo detalhado das condições do presente
e das perspectivas do futuro, a partir de determinadas variáveis:
económicas, ambientais, sociais e culturais;
2. Turismo integrado. A oferta turística deve ser o resultado natural dos recursos locais: as formas
arquitectónicas, os acontecimentos festivos, a gastronomia, a relação
com o território. Não pode haver turismo alheio à identidade (mesmo
tendo em conta o quanto difícil é definir este termo) do lugar onde
ele se pratica.
3. Turismo aberto. O turismo sustentável está aberto ao seu território. A dimensão local do
turismo assenta nas especificidades locais, na abertura às localidades
vizinhas, propondo assim uma oferta baseada na diversidade;
4. Turismo dimensionado. Não pode haver um turismo sustentável sem estar dimensionado ao tempo em
que se realiza e ao espaço onde se pratica. O fim do conceito de
«estação» turística é importante para reduzir os impactos sobre
o território, a despersonalização da experiência turística. A viabilidade
de um projecto turístico depende de um dimensionamento onde a capacidade
do território e a qualidade da experiência sejam acauteladas.
5. Turismo participativo. Deverão ser incluídos novos sistemas de gestão, através da participação de
todos os agentes que intervêm no processo turístico. É importante
referir que esses agentes não são meramente os profissionais do
turismo, mas também as comunidades locais, as associações comunitárias
e os outros agentes económicos e políticos.
6. Turismo duradouro. O turismo sustentável não se baseia num crescimento a curto prazo, tendo
em conta a procura. Ele deverá Ter em conta o modelo que propõe
e definir a partir dele as estratégias a longo prazo. Assim, o turismo
sustentável deverá integrar o crescimento económico com a preservação
do meio ambiente e da identidade local, as quais são os principais
activos do desenvolvimento turístico.
Pensar em estratégias baseadas na sustentabilidade implica um questionamento
que não tenha somente em conta o equilíbrio do crescimento turístico,
ou a protecção das áreas naturais protegidas. Um turismo sustentado
é um modelo que apela a uma lógica de autenticidade, porque integrador
de sentidos múltiplos e de agentes vários. Para isso, é necessário
alargar a noção de experiência turística para além do olhar do visitante
e da estratégia do vendedor.
O turista é atraído pelo exótico, pelo diferente, pelo «outro»
que se lhe oferece como um estranho a descobrir. Contudo, este posicionamento
requer cuidados redobrados quando nos referimos a mercados turísticos.
Não podemos ultrapassar a questão de que se trata de um «encontro»
de culturas e saberes, onde um deles tende a ser impositivo ao outro,
dado o poder que dispõe ser de uma ordem económica e política afirmadas
como superiores. Desta forma, o espaço turístico desenvolve-se segundo
estratégias exógenas e respondendo a sentidos que lhe são estranhos.
A sociedade contemporânea aborda, a nível teórico, a diferença
cultural de uma forma muito diferente daquilo que se fazia no passado.
A relatividade cultural é um dado adquirido. Contudo, a aproximação
experiencial a esse facto esquece a dimensão construtiva e viva
da cultura de uma comunidade, ou seja, os significados de uma cultura
não podem ser fossilizados. As culturas são complexas e continuamente
reinterpretadas pelos actores sociais, obrigando a uma atenção contínua
e interessada, a qual não se coaduna com imagens e identidades materializadas
numa apropriação narcisista.
A autenticidade, na medida em que ela é possível ainda, exige um
processo de «relação», onde os espaços e os agentes possam explicar
o significado dos discursos que partilham. Contextualizar o turismo
não significa unicamente salientar a dimensão local e estabelecer
as relações com os espaços envolventes, no sentido de turismo aberto.
Contextualizar significa aqui partilhar os «textos» (estratégias
e discursos) de realidades diferentes num espaço comum, de modo
a que os agentes desta relação de partilha possam entender os vários
sentidos presentes. Só dentro desta lógica da relação de partilha
se pode compreender hoje o turismo cultural, nas variadas dimensões
de que ele se reveste. A haver uma ética na indústria turística
actual, ela deverá passar por uma política que privilegie a relação:
1. Dos visitantes com as comunidades locais. A indústria
turística não pode privilegiar unicamente os turistas, esquecendo
que os produtos culturais têm origem em actores sociais, com uma
dignidade intrínseca, e uma palavra a dizer do património e dos
espaços que partilham com aqueles que os visitam. A qualidade de
vida das populações e o enriquecimento mútuo entre população e visitantes
deve ser uma preocupação dos modelos turísticos.
2. Dos actores sociais com o meio ecológico. Não se
pode continuar a desenvolver um turismo ecológico meramente com
a gestão de visitantes e com a defesa do ambiente. Os actores devem
assumir uma experiência de relação com o meio que visitam, em que
o próprio processo turístico seja planeado como forma de o preservar
e valorizar.
Dentro de uma perspectiva multidisciplinar, cremos ser do interesse
de todos a inserção urgente da prática antropológica nos mais variados
campos da indústria turística. Quando os sentidos das relações sociais
e culturais são a base da superação da banalidade e do artificial,
a crítica antropológica assume um papel inovador, e, na maior parte
das vezes até, ela proporciona a vivência de mundos desconhecidos
e experiências extraordinárias.
A nível internacional assistimos ao recente alerta da Organização
Mundial de Turismo que, na sua assembleia de 27 de Setembro a 1
de Outubro de 1999, aprovou um Código de Ética onde se afirma que
é necessário salvaguardar o meio ambiente para se obter um crescimento
económico saudável, constante e sustentável. Esse documento
reconhece as novas formas de turismo ligadas à natureza e preconiza
o seu desenvolvimento desde que se respeitem os ambientes naturais,
associem a população local ao seu desenvolvimento e se ajustem à
capacidade de ocupação dos lugares turísticos. Relativamente
ao património cultural aconselha a que as verbas provenientes
das visitas aos locais e monumentos de interesse cultural deverão
destinar-se preferencialmente à manutenção, melhoria e valorização
do património.
Em Sedovém, este tipo de turismo sustentado pode ser uma aposta
rentável no futuro se integrar os elementos que compõem este projecto:
qualidade ambiental, potencializar a paisagem e a história local,
qualificar a gastronomia, criar acções públicas de divulgação da
cultura, como festivais gastronómicos e actividades lúdico/pedagógicas.
Estudo etnográfico/museológico
Numa componente mais próxima da investigação tradicional antropológica
e etnológica, o levantamento das tradições locais, das vivências
e discursos sociais, e dos artefactos, será um complemento essencial
para a lógica global do projecto.
Desta forma o projecto tem como fim:
- Criar espaços museológicos para usufruir da cultura
material das actividades agro-marítimas da Apúlia.
- Proceder à recolha de conteúdos orais, memórias
e artefactos da comunidade.
- Criar um acervo importante de informação sobre a
apanha do sargaço, do pilado e da pesca, o seu imaginário colectivo
costumes e tradições;
- Salientar as relações parentais e os comportamentos
de género, principalmente o papel da mulher nas actividades agro-marítimas
e a importância do género no desenvolvimento.
Recolher as crenças e os discursos culturais a elas associados.
Conclusão
O presente "Projecto de Intervenção no Baldio dos Sargaceiros
da Apúlia" pretende, enquanto projecto preliminar, colocar
duas ordens de questões:
a) A partir da história local e das actividades sociais e culturais
desenvolvidas, desde tempos "imemoriais", pelos habitantes
desta costa litoral, o projecto pretende chamar a atenção dos responsáveis
políticos, técnicos do ordenamento do território, promotores do
desenvolvimento e autoridades que defendem o património cultural,
para uma situação que se pretende alterar. Essa alteração baseia-se
num compromisso de qualidade ambiental com a valorização de uma
cultura excepcional que se quer orientada para o desenvolvimento
da comunidade de Apúlia. É convicção da equipa responsável pelo
projecto que a protecção ambiental faz-se, não por atitudes fundamentalistas
de defesa do "natural", mas pela compreensão de que o
ambiente está interligado com o comportamento cultural das comunidades
que dele usufruem, e que são elas as melhores defendoras do mesmo
quando responsabilizadas na sua preservação.
b) A segunda questão prende-se com a apresentação de propostas
que visam criar estruturas e estratégias de utilização do Baldio
dos Sargaceiros da Apúlia. Estas propostas têm como base a realidade
existente no Baldio e os interesses dos diferentes intervenientes
no processo. Neste âmbito do projecto, muito há a elaborar e a investigar,
sendo o conteúde presentemente fornecido uma base de orientação
e de diálogo para a equipa de trabalho os habitantes de Sedovém,
responsáveis locais e nacionais. Dar à intervenção uma lógica participativa,
onde os diferentes intervenientes se responsabilizem pelas soluções
encontradas, porque colaboradores da construção das mesmas, é a
base onde assenta todo o trabalho realizado e a realizar, como justifica
a estratégia antropológica que o fundamenta.
A partir deste momento abre-se a discussão e o diálogo a outros
responsáveis. Estamos a valorizar e a desenvolver um método do qual
estamos firmemente convictos: apresentando propostas, revendo soluções,
criando um objectivo que satisfaça as convicções, os desejos e as
aspirações dos que participam na construção de um ambiente de qualidade,
numa sociedade justa, e na valorização do património social e cultural,
encontraremos o caminho para o fim que se pretende.
BIBLIOGRAFIA:
ASCANIO, A. 1994. Impacto del turista no residente en la
economia local. Estudios y Perspectivas en Turismo.
3 (2): 115 125.
AZEVEDO, José. 1973. Homens do mar da Póvoa. Póvoa do Varzim.
BAKER, P. L. 1993. Space, time, space-time and society. Sociological
Inquiry, 63 (4): 406 424.
BALDAQUE DA SILVA,A. A. 1887. Pesca marítima e fluvial.
Lisboa: Imprensa Nacional.
1899. Roteiro marítimo da costa ocidental e meridional de Portugal.
Lisboa.
BARBAZA, Y. 1970. Trois types dintervention du turisme dans lorganization de
lespace littoral. Annales de Geographie. 434:
446 469.
BARBOSA, Fernando. 1958. O concelho da Póvoa de Varzim no
séc. XVIII. Póvoa de Varzim. Boletim Cultural, 1
2, pp. 258-343.
BASTIDE, Roger. 1971. Anthropologie Appliquée. Paris: Payot.
BRITO, Raquel Soeiro de. 1960. Palheiros de Mira Formação
e declínio de um aglomerado de pescadores. Lisboa: Centro de
Estudos Geográficos, Instituto de Alta Cultura.
CASTELO-BRANCO, M. 1981. Embarcações e artes de Pesca. Lisboa:
Lisnave.
CATER,E. e LOWMAN, Gw (ed.) 1994. Ecotourisme: A Sustainable Option?. Chichester UK: John Wiley & Sons.
COLE, Sally. 1994. Mulheres da Praia. Lisboa: Dom Quixote.
COSTA, P. António Carvalho. 1706-12. Corografia Portuguesa e
descripçam Topografica do famoso Reyno de Portugal. Lisboa (3
vols).
DELIÈGE, 1992. Anthropologie Sociale et Culturelle. Bruxelles:
De Boeck.
DONAIRE, J.A.. 1999. La geografia del turismo después del
fordismo: turistas en las fábricas, turistas en los centros comerciales.
Sociedade e território, nº 28. Porto, pp.53-68.
DUVIGNEAUD, P. 1980. La synthèse écologique, 2ª ed Doin
Éditeurs,
(Trad. portuguesa A síntese ecológica, Instituto Piaget,
Lisboa).
GALHANO, Fernando. 1960. Apesca do pilado para estrume na
costa de Portugal. Gazeta das Aldeias, 2416.
1965. A apanha do sargaço no Norte de Portugal. Geographica,
2. Lisboa. pp. 25-37.
GÓMEZ, B. 1988. Turismo en espacio rural. Rehabilitación del
patrimonio sociocultural y la economía local. Madrid: Editorial
Popular.
GRALHEIRO, Jaime. 1990. Comentário À(s) Lei(s) dos Baldios.
Lisboa: Almedina.
GUIMARÃES, Alfredo. 1916. Os sargaceiros (litoral minhoto).
A Terra Portuguesa,1. Lisboa. pp.17-22.
HARDESTY, D.L. 1977. Ecological anthropology. New York: Wiley.
LANKFORD, S. e HOWARD, D. R. 1994. Developing a tourism impact
attitude scale. Annals of Tourism Research, 21 (1):
121 139.
LEAL, A. S. B. Pinho. 1873-90. Portugal antigo e moderno. Lisboa
(12 vols.).
LEITÃO, Joaquim . 1908. Guia Ilustrado de Esposende. Porto.
LOBO, C. B. Lacerda. 1812. As pescarias da Póvoa de Varzim em
1789. Lisboa: Memórias Económicas da Academia Real das Sciencias
de Lisboa.
MARÇAL, Horácio. 1973. O Sargaço na orla marítima entre Leça
de Palmeira e a foz do rio Ave. Matosinhos: E/A..
MATOS, Armando de. 1940. O sargaço. Douro Litoral,
I. Porto. Pp. 68-69.
MATOS, Maria da Conceição Faria. 1969. Apúlia. Íntima comunhão
entre a terra e o mar. Dissertação de Licenciatura em Geografia.
Lisboa: Faculdade de Letras de Lisboa (polc.).
MENDONZA, Eugene L. 1982. Turismo e estratificação na Nazaré.
Análise Social, XVIII (71). pp. 311-329.
MOREIRA, C. D. 1987. Populações Marítimas em Portugal. Lisboa:
Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas.
NASH, D. 1981. Tourism as an Anthropological Subject.
Current Anthropology, 22 (5): 461 481.
1996. Anthropology of tourism. New York: Pergamon.
NETTING, Robert. 1977. Cultural ecology. Memlo Park (Cal.):
Cummings.
ODUM, H.T., ODUM, E.P., BROWN, M.T., LaHART, D., BERSOK, C. &
SENDZIMIR, J. 1988. Environmental Systems and Public Policy.
Ecological Economics Program. Universidade da Flórida.
ODUM, H.T., ODUM, E.P., BROWN, M.T., LaHART, D., BERSOK, C. &
SENDZIMIR, J. 1988. Environmental Systems and Public Policy.
Ecological Economics Program. Universidade da Flórida.
OLIVEIRA, Ernesto Veiga de, e GALHANO, Fernando. 1955. Casas
de pescadores da Póvoa de Varzim. Trabalhos de Antropologia
e Etnografia, XV, 3-4, Porto, pp.219-264.
1958. A apanha do sargaço no norte de Portugal. Trabalhos
de Antropologia e Etnologia, XVI, 1-4. Porto. Pp. 66-170.
1965. Palheiros e barracas do litoral. Geographica,
I, 3. Lisboa.
1995. Arquitectura tradicional Portuguesa. Lisboa: Dom Quixote.
OLIVEIRA, Ernesto Veiga de; GALHANO, Fernando, PEREIRA, Benjamim.
1994. Construções Primitivas em Portugal. Lisboa: Dom Quixote.
1990 (1975). Actividades Agro-marítimas em Portugal.Lisboa:
Dom Quixote.
PEIXOTO, Rocha, 1995. Etnografia Portuguesa. Lisboa: Dom
Quixote.
POLGAR, S. (ed.) 1975. Population, ecology and social evolution.
The Hague: Mouton.
POLONAH, Luís. 1969. Porto Côvo. Uma aldeia de pescadores-lavradores.
Geographica, 20. Lisboa. Pp. 21-23.
RIBEIRO, Orlando. 1945. Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico.
Coimbra: Coimbra Editora.
RODRIGUES, Manuel. 1987. Os Baldios. Lisboa: Editora Caminho.
SABELLI, Fabrizio. 1993. Recherche anthropologique et développement.
Élements pour une méthode. Paris: Éditions de la Maison des
Sciences et de Lhomme.
SANTOS, M. C. A.A. 1968. O estudo etnográfico e folclórico dos
povos do litoral continental. E/A.
SANTOS GRAÇA, A. 1995. O Poveiro. Lisboa: Dom Quixote.
SMITH, Robert C. 1965. Banhos de Mar na Póvoa de Varzim no
séc. XVIII. A Póvoa de Varzim, IV, 2. pp. 239-244.
SMITH, R. L. (ed.) 1972. The ecology of man: an ecosystem approach.
New York: Harper and Row.
TOMÉ MARTIN, p. 1996. Antropologia ecológica: influencias, aportaciones
e insuficiencias: procesos de adaptación en el sistema central.
Avila: Institución Gran Duque de Alba de la Diputación Procincial.
WEARING, S. & J. NEIL. 1999. Ecotourism: Impacts, potentials
and
possibilities.Butterworth-Heinemann.
VANNEY, J. R. e MOUGENOUT, D. 1981. La plateforme continental
du Portugal: analyse geomorphologique. Lisboa: Serviços Geológicos
de Portugal.
VASCONCELOS, J. Leite de. 1924. Casas das Praias de Vieira.
Boletim de Etnografia, III, Lisboa. Pp. 33-38.
1933-82. Etnografia Portuguesa. Tentamen de sistematização.
Lisboa: Imprensa Nacional (7 vols.)
VAYDA, Andrew P. (ed.) 1969. Environments and cultural behavior.
Garden City: Natural History Press.
VIEIRA, José da Silva. 1915. Caderno de apontamentos para a
história do concelho de Esposende. Esposende.
[1] Taraqueiros: «população sem terra ou, caso mais geral, possuindo
uma gleba de área muito pequena menos de 0,1 hectare -,
cujo rendimento é insignificante. Recorrem ao salário em múltiplos
trabalhos: na exploração agrícola, na apanha do argaço ou pilado,
ou, como recurso e quando possuem fracas condições de trabalho,
apenas à apanha de lenha seca, pinhas e gravulha dos pinheiros»
(in Aguçadoura Estudo Económico-agrícola, Junta
de Colonização Interna, Lisboa, 1944, p. 97).
[2] Veja-se a Provisão de D. João V, de 1742, que pretende por
termo à contenda entre os governadores do Castelo da Póvoa de
Varzim e os lavradores ou moradores da Vila (a favor destes últimos),
onde se fala de lavradores que apanhavam sargaço para «únicos
adubos das suas fazendas, sem os quais não dão pão», e em outras
gentes que exerciam essa actividade «por ofício para vender e
comprar pão».
[3] As algas marítimas assumem vários nomes, como sargaço,
limos (mais no sul), sendo o de argaço o mais antigo.
Claudio Basto, Falas e Tradições do Distrito de Viana do
Castelo, Revista Lusitana, XIII, Lisboa 1910, pp.
84 88, entende que argaço não é uma corrupção de
sargaço, mas uma palavra derivada de alga algaço.
Sargaço seria, segundo o autor, uma espécie definida de alga.
|
|