Antropologia nas novas tecnologias: o projeto do Banco de
Imagens e Efeitos Visuais no Laboratório de Antropologia Social
PPGAS/IFCH/UFRGS em Porto Alegre/RS/Brasil
Antrop.. Dra. Ana Luiza Carvalho DA ROCHA - PPGAS - UFRGS - Brasil
Profa. Dra. Cornelia ECKERT - PPGAS - UFRGS - Brasil)
Resumo:
O Banco de Imagem e Efeitos
Visuais consta de um projeto de criação de um museu virtual tendo
por base pesquisas etnográficas sobre itinerários urbanos, formas
de sociabilidade, memórias coletiva na cidade de Porto Alegre. O
projeto de criação de um museu virtual pretende disponibilizar,
aos usuários das redes eletrônicas e digitais, as relações entre
os acontecimentos vividos por grupos e/ou indivíduos em Porto Alegre
e a memória monumental da cidade, na tentativa de investir na presença
de comunidades interpretativas no que se refere à apropriação das
representações e das práticas sociais referidas ao patrimônio etnológico
local. O Banco de Imagem e Efeitos Visuais é um projeto do Laboratório
de Antropologia Social do Programa de Pós Graduação em Antropologia
Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS/Brasil. Atualmente
o PPGAS é coordenado pelo Prof. Dr. Ruben George Oliven. O email
do PPGAS é ppgas@ifch.ufrgs.br. O BIEV é coordenado pelas pesquisadoras
Doutoras Cornelia Eckert e Ana Luiza Carvalho da Rocha, e participam
do projeto o Prof. Luis Antônio Rocha (consultor), a mestranda em
Comunicação UFRGS Vanessa Pereira (consultoria), os bolsistas de
iniciação científica CNPq Rafael Devos e Leandra Mylius, a bolsista
técnica CNPq Thaís Vieira, a bolsista de iniciação científica Fapergs
Rosana Pinheiro Machado, o bolsista Pibic UFRGS/CNPq Olavo Ramalho
Marques, a bolsista Inês Bernal, PROPESQ/UFRGS e os seguintes pesquisadores
voluntários: a doutoranda PPGAS Liliane Guterres, o mestre em antropologia
Rogério Rosa, a mestre em etnomusicologia Luciane Prass. O BIEV
está sediado no Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados,
no Campus do Vale, prédio 43322, sala 108, Av. Bento Gonçalves 9500,
Bairro Agronomia, Porto Alegre, RS, cep 91509-900, Fone (51) 3167158
fax (51) 3167156 e email biev@ilea.ufrgs.br. Este projeto existe
graças ao financiamento da FAPERGS e do CNPq, fundações de amparo
à pesquisa no Brasil.
email: anarocha.ez@terra.com.br
ou cornelia@plug-in.com.br
institucion: Universidade
Federal do Rio Grande do Sul
name: Ana Luiza Carvalho
da ROCHA e Cornelia ECKERT
pais: Brasil
Apresentação
O Banco de Imagem e Efeitos Visuais é um projeto do Laboratório
de Antropologia Social do Programa de Pós Graduação em Antropologia
Social do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre/RS/Brasil. Atualmente
o PPGAS é coordenado pelo Prof. Dr. Ruben George Oliven. O e.mail
do PPGAS é ppgas@ifch.ufrgs.br. O BIEV é coordenado pelas pesquisadoras
Doutoras Cornelia Eckert e Ana Luiza Carvalho da Rocha, e participam
do projeto o Prof. Luis Antônio Rocha (consultor), a mestranda em
Comunicação UFRGS Vanessa Pereira (consultoria), os bolsistas de
iniciação científica CNPq Rafael Devos e Leandra Mylius, a bolsista
técnica CNPq Thaís Vieira, a bolsista de iniciação científica Fapergs
Rosana Pinheiro Machado, o bolsista PIBIC UFRGS/CNPq Olavo Ramalho
Marques, a bolsista PROPESQ Inês Bernal e os seguintes pesquisadores
voluntários: a doutoranda do PPGAS Liliane Guterres, o Mestre em
Antropologia Rogério Rosa, a Mestre em etnomusicologia Luciana Prass.
O BIEV está sediado no Instituto Latino-Americano de Estudos Avançados,
no Campus do Vale, prédio 43322, sala 108, Av. Bento Gonçalves 9500,
Bairro Agronomia, Porto Alegre, RS, cep 91509-900, Fone (51) 3167158
fax (51) 3167156 e email biev@ilea.ufrgs.br. Este projeto só tem
sido possível graças ao financiamento da FAPERGS e do CNPq, fundações
de amparo à pesquisa no Brasil, ao apoio do PPGAS/IFCH/UFRGS, do
ILEA/UFRGS e do CPD/UFRGS.
Considerando-se alguns esquemas enunciativos da Antropologia Urbana
e da Antropologia Visual, o projeto de criação de um Museu Virtual
pretende disponibilizar aos usuários das redes eletrônicas e digitais,
as relações entre os acontecimentos ou incidentes vividos por grupos
e/ou indivíduos em Porto Alegre e a memória monumental da cidade,
na tentativa de investir na presença de comunidades interpretativas
no que se refere à apropriação das representações e das práticas
sociais referidas ao patrimônio etnológico local. A expressão comunidades
interpretativas é aqui empregada no sentido crítico a ela
atribuído por P. RABINOW (Antropologia da Razão, Rio de Janeiro,
Relume-Dumará, 1999, pp.92-98). Isto é, consideram-se, na produção
do texto etnográfico experimental pela via das novas tecnologias,
os atos interpretativos que a criação de um Museu virutal possibilita
entre as formas representacionais do patrimônio e da memória de
Porto Alegre e as práticas sociais locais. Nesse sentido, o autor
nos alerta, citando Weber, que o processo de museologização
do mundo tende a ignorar o perigo de obliteração das diferenças
dos significados culturais disponíveis social e historicamente,
acabando por confundir a experiência e o sentido no tratamento da
dimensão formal da representação.
A Antropologia Visual tem sido, tradicionalmente, um instrumento
de diálogo vigoroso entre as diferentes culturas que convivem em
nosso planeta, sendo hoje uma das principais vertentes dos estudos
sobre culturas contemporâneas, justamente por propiciar que os grupos
sociais estudados expressem a sua voz, alcançando assim uma ressonância
muito mais ampla do que a circulação restrita dos meios acadêmicos.
No que tange aos recursos multimídia, através da criação de um
Banco de Imagens e de Efeitos Visuais; desenvolvemos um Museu Virtual
da Cidade, com a finalidade de dinamizar a reflexão antropológica
sobre as produções culturais no mundo contemporâneo que tem por
base a construção da imagem do Outro, além de ampliar o processo
de divulgação dos resultados da pesquisa etnográfica nas modernas
sociedades complexas para além dos muros da Universidade.
A pesquisa com as novas redes eletrônicas e digitais orientada
para a criação de um WEB site do Banco de Imagens e Efeitos Visuais
e o desenvolvimento de itinerários virtuais na cidade de Porto Alegre
só tem sido possível graças a orientação do Prof. Luis Antônio Rocha,
do Departamento de Artes, UFRGS. Neste processo lento de construção
da arquitetura do site, estamos, atualmente, dedicando-nos ao estudo
mais detalhado das formas de tratamento documental de coleções etnográficas
no processo de patrimonialização do mundo urbano contemporâneo,
tendo como foco o uso de novas tecnologias digitais e eletrônicas.
Parte deste processo de reflexão faz parte dos objetivos do Projeto
Integrado Estudo antropológico de itinerários urbanos, memória coletiva
e formas de sociabilidade no mundo urbano contemporâneo, que
vem sendo financiado pelo CNPq junto ao Núcleo de Pesquisa sobre
Culturas Contemporâneas do Programa de Pós-Graduação em Antropologia
Social/UFRGS.
O referido Projeto Integrado reúne os dados de pesquisa dos projetos
individuais Antropologia do cotidiano e estudo das sociabilidades
a partir das feições dos medos e das crises na vida metropolitana
(Profa. Dra. Cornelia Eckert) e Coleções etnográficas, itinerários
urbanos e patrimônio etnológico: a criação de um Museu Virtual de
Porto Alegre (Profa. Dra. Ana Luiza Carvalho da Rocha). Ambos
os projetos individuais pesquisa tem como núcleo comum o estudo
do caráter temporal da experiência humana presente ao mundo contemporâneo
e as suas repercussões nas práticas e saberes que os indivíduos
e/ou grupos urbanos constróem em suas relações com a cidade.
O projeto de criação de um WEB site, e dentro dele, o vimos denominando
museu virtual ocupa, no corpo do Projeto Integrado de
Pesquisa acima mencionado, um dos lugares por nós destinados para
a construção do texto etnográfico, além dos recursos fotográficos
e videográficos que se utiliza no tratamento documental do percurso
de patrimonialização no mundo citadino local.
Partimos, portanto, de processos de transformação teórico-conceitual
que são inerentes ao movimento das diferentes tradições que fundam
a matriz da própria disciplina. Diante de uma realidade onde a informação
eletrônica e as redes digitais avançam a passos largos na liberação
da memória de seus suportes físicos imediatos (a voz humana, os
gestos, os rituais, o pergaminho, o papel, etc.) a disciplina antropológica
não pode se prescindir do estudo e da pesquisa acerca do instrumental
e a linguagem das tecnologias do pensamento na era da informática
como uma das formas de criação, produção e fruição de experiências
sociais e culturais as mais diversas. Uma das razões por nós apontada
trata-se da constatação de que as sociedades humanas se deslocam
no tempo e complexificam-se gerando sua história. Desse modo, quanto
mais o passado se condensa, mais se consolida na contemporaneidade
a consciência desse tempo passado e mais se destaca, em nossas modernas
sociedades industriais, a necessidade de conhecê-lo, de registrá-lo,
resgatando-se e reconstituindo-se os signos culturais configuradores
de identidades e pertencimentos de seus grupos urbanos.
Neste ponto, a cidade como testemunho de vida cotidiana e produto
dos jogos da memória de seus habitantes escapa, sem dúvida, ao tratamento
formal das análises usuais sobre patrimônio histórico e cultural
e aos seus critérios arquivísticos. Considera-se, aqui no caso,
que a busca obsessiva do pesquisador com os suportes materiais de
uma identidade cultural local tem produzido efeitos nocivos no âmbito
dos Museus, clássicos locais quase nunca pensados como lugares de
produção/geração e criação de memórias, isto é, como centro do interesse
de uma coletividade em termos de apropriação de um muthos
comum e de re-conhecimento de seus signos.
Desta forma, no mundo contemporâneo, conferir às práticas sociais
e aos conteúdos culturais, determinados sistemas de classificação
e nomeação com base no mito da Identidade como insularidade é não
perceber, no interior deste fenômeno, regularidades ou causalidades
universais que impõem, aos cientistas sociais, a explicitação dos
julgamentos ético-morais que conduzem a escolha do que é ou não
patrimônio de uma dada sociedade e/ou cultura. Portanto, anular
ou nuançar o ponto cego da Diferença, um dos pontos frágeis do tratamento
de coleções de documentos etnográficos nos Museus, no interior da
conformação da Identidade significa o perigo deste incorrer num
etnocentrismo por anexação, em termos lévi-straussianos.
Assim, entre a ausência da monumentalidade das estruturas espaciais
de conjuntos arquitetônicos e urbanísticos das cidades do país e
o tratamento estático de conjuntos documentais em Museus, a reinvenção
da tradição no interior das formas de vida social que configuram
o dia-a-dia das grandes metrópoles brasileiras desafia os pesquisadores
dedicados ao tema do patrimônio a repensarem antigas fórmulas de
tratamento documental da memória coletiva integrando-as às tecnologias
de simulação e à potencial imemorial e anônima dos moradores das
cidades. O debate no âmbito das políticas culturais de patrimonialização
a respeito da propriedade de uma Identidade (individual, social
ou coletiva) mobiliza, assim, tanto o tema do impróprio quanto
do próprio no que se refere às práticas culturais, isto porque
a noção de Identidade não dispensa a própria labilidade da configuração
do corpo social, fenômeno sempre desfeito e eternamente reconstruído
, à revelia do que antes afirmara a sociologia durkheimiana.
Investe-se, portanto, no território do museu virtual como espaço
resultante dos efeitos das revoluções tecnológicas do mundo moderno
e contemporâneo e as formas sociais de construção de conhecimento
elaboradas pela ciência. Integra-se as imagens produzida pelos jogos
da memória dos habitantes das grandes cidades aos recursos da tecnologia
da informática, tendo-se presente que processos de globalização,
na era das redes eletrônicas e digitais, caminha lado a lado com
sua fixação numa imagem, a da própria sociedade contemporânea e
os conteúdos culturais que ela veicula..
Nesse domínio, a intenção resultante da implementação do Banco
de Imagens é problematizar o lugar da etnografia e da etnologia
no mundo contemporâneo retomando-se a idéia de explorar, através
dos recursos da Antropologia Visual e da Imagem, as ambiências que
configuram a fisionomia da cidade como lugares onde se processa
não apenas a elaboração de uma história oficial e a sua produção,
mas a memória coletiva de uma comunidade através da participação
de seus agentes criadores anônimos.
Com a finalidade de recuperar e divulgar informações da comunidade
de experiências históricas ou de gerações, a criação do Banco de
Imagem e Efeitos Visuais da Cidade integra novas tecnologias aplicadas
aos serviços não só do processamento eletrônico dos dados documentais,
agilizando o processo de resgate de informações, mas constitui um
espaço virtual de interação dos habitantes da cidade com seus signos
culturais em função dos diferentes usos que fazem da memória de
seus territórios.
A partir de coleções de documentos escritos, sonoros, videográficos
e fotográficos que fazem parte da base de dados do Projeto Integrado
de Pesquisa já mencionado, e que tem como fundo de origem a cidade
de Porto Alegre, seus territórios de socialidades coletivas- (bairros,
ruas, avenidas, praças, parques, bares, teatros, shopping-centers,
etc.), seu patrimônio edificado (monumentos, prédios históricos
públicos e privados, pontes, viadutos, conjuntos habitacionais,
etc.), sua geografia natural (riachos, arroios, praias, ilhas, morros,
etc.), seus personagens urbanos (engraxates, mendigos, prostitutas,
michês, políticos, ambulantes, comerciantes, mães de famílias, meninos
de rua, etc.), seus rituais e práticas coletivas, seus cenários
e planos urbanísticos -, o Banco de Imagem e Efeitos Visuais/BIEV
busca integrar novas tecnologias no resgate e tratamento da memória
da sociedade urbano-industrial no sul do Brasil, ampliando-se aqui
o conceito de documento e de registro documental etnográfico ao
possibilitar a inclusão do conceito de documento enquanto série
ampla de manifestações culturais produzidas através de mídias diversas,
inclusive as que já co-dividem com o Banco de Imagem a digitalidade.
Longe de se adotar formas estáticas de apropriação e produção
de conhecimentos no âmbito da preservação patrimonial, e obedecendo
a ordenação criteriosa do conjunto documental de dados etnográficos
acerca da cidade de Porto Alegre, o BIEV atua em especial, na criação
de interfaces, através do Laboratório de Antropologia Social, entre
as produções recentes do Núcleo de Antropologia Social/NAVISUAL
e Núcleo de Pesquisas sobre Culturas Contemporâneas/NUPECs, pertencentes
ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social/IFCH/UFRGS.
Nossa atuação consiste, resumidamente, em desenvolver pesquisa
sobre:
* Coleções etnográficas e patrimônio etnológico no mundo urbano
contemporâneo
Nesse domínio, a implementação do BIEV se pauta sobre a necessidade
de conversão do olhar histórico sobre a Cidade à feição antropológica
da pesquisa etnográfica tendo os recursos das tecnologias da informação
e das redes eletrônicas como possibilidade de armazenamento e disseminação
de conhecimentos acerca de uma cultura urbana em mídias densas,
organizados e classificados a partir do estudo dos dados sensíveis
das formas de vida social presentes no meio urbano, tendo em vista
a importância do estudo de seus territórios como um dos lugares
de produção dos significados da história em nossas modernas sociedades
industriais.
* Poéticas visuais e sonoras no tratamento de memórias coletivas
Sem dúvida, o século XX foi o século da memória. A ciências, a
literatura, as artes, enfim, foram múltiplas as formas de tradução
da memória do mundo. O contexto das transformações na organização
das formas de vida social nos grandes centros urbano-industriais,
o industrialismo e as ilusões associadas ao progresso da técnica
como parte constituinte do agenciamento humano do tempo, corresponderiam
à invenção do cinematógrafo e dos experimentos com a técnica da
fotografia, em fins do séc. XIX. Sem dúvida, o século XX foi o século
da memória. A ciências, a literatura, as artes, enfim, foram múltiplas
as formas de tradução da memória do mundo. O contexto das transformações
na organização das formas de vida social nos grandes centros urbano-industriais,
o industrialismo e as ilusões associadas ao progresso da técnica
como parte constituinte do agenciamento humano do tempo, corresponderiam
à invenção do cinematógrafo e dos experimentos com a técnica da
fotografia, em fins do séc. XIX. Trata-se aqui não apenas de uma
preocupação legítima com a preservação cultural da diversidade de
pontos de vista que configuram a vida urbana local através da informatização
e digitalização de uma base de dados analógicos, mas de investir
no processo de criação de narrativas etnográficas, com base no registro
audiovisual (documentários etnográficos), tendo como preocupação
a dinâmica da produção dos jogos da memória do cotidiano entre os
habitantes de Porto Alegre
* Políticas e ações culturais no mundo contemporâneo
Da mesma forma que a fotografia relaciona-se a ambiência psicosocial
moderna, ao permitir que as formas do mundo pudessem ser perpetuadas,
copiadas, fabricadas, multiplicadas e distribuídas; o cinema é tributário
da manipulação das estruturas espaço-temporais criadas no bojo do
mundo contemporâneo: a eletricidade como fenômeno que orienta o
controle dos ritmos naturais do tempo nos grandes centros industriais,
a formação de grandes impérios coloniais e o encurtamento das distancias
que separavam o homem ocidental de povos e civilizações, antes longínquos;
o crescimento de consumo cultural do exótico e do bizarro e o desenvolvimento
da industria do turismo e sua sede voraz de novas paisagens humanas
e naturais, etc.
Um mundo que floresce à sombra de uma industria de entretenimento
cada vez mais sofisticada, cuja tendência colonialista disponibilizava
às elites o consumo cultural de povos e costumes exóticos, situados
em regiões insólitas, e que apresentados como novidades, apeteciam
o seu gosto pela erudição e pela informação. Com a criação do Banco
de Imagem e Efeitos Visuais/BIEV, investe-se na produção de novas
modalidades de narrativas etnográficas em Antropologia a partir
de hipertextos multidmídias com a intenção de expandir suas descobertas
para o domínio das ações culturais tendo em vista a gestão social
de memórias coletivas no meio urbano de Porto Alegre.
* Antropologia no cyberspace, a criação de um museu virtual
Cabe, assim, reconhecer-se, hoje, no âmbitos das formas de exposição
documentais de museus, que a fotografia, o cinema, o vídeo, as instalações,
etc. participam de uma cultura visual singular, cada
qual a seu modo, no que diz respeito ao nascimento das modernas
sociedades contemporâneas e de suas formas de tratamento documental
da memória, segundo seus suportes diversos.
O aspecto paradoxal das novas tecnologias é que, no caso da realidade
virtual (VR), a escala de representação esta na mesma proporção
do mundo humano pelo fato do espaço virtual simular o espaço físico.
Neste caso, o advento da RV tem, assim, sua filiação, a uma cultura
visual de cunho museológico pois a obsessão com o naturalismo da
imagem projetada na tela do computador pode ser associada ao nascimento,
no século XIX, dos Museus de cera e a criação dos dioramas dos Museus
de história natural, ambos espaços que buscavam o mergulho do observador,
tal qual a viagem de Alice no país das maravilhas, numa
janela-paisagem imaginária cuidadosamente recriada em 3D, em escala
e proporção minuciosamente precisa. A realidade virtual continua
esta tradição de simulação onde se busca a conexão entre os espaços
físico e virtual, sendo o primeiro deles abandonado.
O BIEV, integrando recursos da multimídia e da informática, coloca-se,
aqui, num mundo de crescente complexidade, como uma possibilidade
de se criar, a partir dos estudos de universos de valores e de referência
da cultura urbana, uma nova forma de arranjo espaço-tempo na organização
e armazenamento de documentos e objetos de valor histórico.
A habilidade do observador em interagir com a representação, através
da tela do computador, está associada, portanto, a filiação das
sociedades moderno-contemporâneas à modalidades diversas de uma
singular cultura visual, da qual participa o ilusionismo da imagem
em termos de efeitos de realidade. A produção dos efeitos de simulação,
interatividade e telepresença característicos da imagem digital
e eletrônica reside, portanto, não só no advento das novas tecnologias
mas na obsessão da indústria da mídia com o comprometimento das
tecnologias da informática com o ilusionismo visual, ou seja, sua
capacidade de capturar e ultrapassar o antigo naturalismo e realismo
que pressupunha a fidelidade visual ao mundo dos objetos e das coisas.[1]
* Oralidade, escrita e redes digitais: modos e meios de escrita
etnográfica
A exploração de recursos multimídia e de recursos da informática,
rompendo com o "real" do fluxo discursivo espaço-temporal
das tecnologias da escrita e da impressão, permite o tratamento
de territórios existenciais das práticas e valores culturais na
forma de resgate de informações sobre uma comunidade urbana. Igualmente
permite a universalização de um conhecimento ativo e pluridimensional
que transforma a operação museal de acervos documentais da cidade
em eixo social da comunicação, de reapropriação de sentido e de
redistribuição de signos culturais.
O desafio do uso da imagem-síntese nas formas de exposição de
acervos documentos em Museus (Web sites, mundos virtuais, jogos
de computador e outros tipos de aplicações multimidia), esta associado,
portanto, ao próprio passado e ao presente da incorporação das imagens
fotográficas e cinematográficas nas formas usuais de tratamento
dos acervos documentais para o grande público.
Para o caso da criação de um museu virtual, há que se pensar que,
no ilusionismo provocado pela imagem-síntese, o observador interage
com a representação: clicar na imagem ou no menu, tomando decisões
ou selecionando, caracterizando-se por uma dinâmica temporal singular:
a relação do usuário com os atos artificiais, incompletos e desconstrutivos
da máquina do computador.
Neste ponto, a criação de um museu virtual não obedece a lógica
clássica das formas de exposição de conjuntos documentais, sem que
os mesmos estejam reunidos em um único e mesmo lugar, já que as
visitas virtuais assujeitam o espectador a diferentes tipos de atos
cognitivos: analisar diferentes conjuntos de informações, processar
uma busca, iniciar suas aplicações, navegar através das páginas
da tela, novamente iniciar outra busca, e assim sucessivamente,
num mesmo tempo, através de múltiplas telas abertas, que vão lhe
exigir sempre novas perguntas e novas respostas.[2]
Num museu virtual dedicado ao tema da Cidade, os recursos de montagem
e sincronização de imagens digitais de seu patrimônio etnológico
separada de seu suporte físico permitem ao usuário se direcionar
ao passado, explorando-o progressivamente com mais detalhe e de
acordo com seu fundo individual de sentido. As imagens-sínteses
permitem, aqui, em direção à contemporaneidade, explorar a instantaneidade
de encaixes de imagens portadoras de sentido convergente que se
cruzam para formar uma paisagem significativa para aquele que o
consultar.
Trata-se, assim, de se investir numa pesquisa sistemática em torno
da multiplicidade e do dinamismo da construção do conhecimento com
base na tecnologia intelectual oriunda das redes digitais e dos
seus efeitos correlatos para a apropriação e recriação de memórias
coletivas no mundo contemporâneo tendo em vista as novas formas
de expressão do patrimônio cultural que destilam imagens sobrepostas
de pessoas, ruas, lugares, prédios, etc enquanto paisagens da cidade.
Em termos metodológicos, considera-se aqui a necessidade de se
abandonar a fisicidade do registro histórico e etnográfico uma vez
que an analog medium receives and preserves traces of the
events imprinted through tools wielded by creative hands. Assim,
the message and the medium are melded into an expressive form embodied
in a physical material. The material of the medium is inseparable
from de message it conveys. (Binkley, T. 'Transparent technology',
in: Review Leonardo, vol. 28.)
A virtualização da informação por desconexão em relação a um meio
particular implicou, na história da humanidade, a transformação
do espaço-tempo ordinário das coletividades abrindo-as para novos
meios de interação cognitiva. Variabilidade de espaços e de temporalidade
fazem parte desse processo em que registros e sistemas de transmissão
(oral, escrita manuscrita, impressão, fotografia, filme, vídeo,
redes digitais) constróem diferentes ritmos e velocidades de integração
social.
O processo de tornar virtual um ato ou uma informação significa,
portanto, que eles se tornam "não-presentes", desterritorializando-se.
A narrativa clássica (oral), com o avanço da escrita e da imprensa,
foi confrontada a uma unidade de tempo sem lugar. O espaço-tempo
clássico, com o avanço da tecnologia da informática e das redes
eletrônicas (interações em tempo real, transmissões ao vivo, comunicação
por correio eletrônico), tende a constranger os lugares "realistas"
da memória ao confrontar os sujeitos modernos à ubiqüidade, simultaneidade,
distribuição irradiada e massiva de informações.
Um Banco de Imagem e Efeitos Visuais tendo como tema central a
cidade explora, portanto, através das interfaces de redes digitais,
a sincronização de informações como substitutivo da unidade de lugar
e as suas interconexões enquanto parâmetro de unidade de tempo.
Operar com a virtualização exige que se estabeleça a diferença entre
a realização e a atualização nos moldes de um processo de conhecimento.(
Cf. Lévy, P. L'idéographie dynamique vers une imagination artificielle?
Paris, La Découverte, l99l).
Metodologicamente, a criação de hipertextos de suporte informático
com base nos achados acumulados e armazenados (pluralidade de línguas,
de versões, de fatos, de acontecimentos e situações culturais) pelos
antropólogos a respeito de uma comunidade humana possibilita ao
mesmo tempo confrontar o antropólogo com as tradições e paradigmas
de sua ciência tanto quanto confrontar seu usuário( pesquisador
ou não) com a possibilidade de atualização textual de culturas,
povos e mundos os mais diferenciados.
Documentos com suporte diversificados da memória coletiva passam
a ser simulacros obtidos a partir da sua transformação em digital
media que by contrast, store and process symbols of numbers
rather than receiving and preserving traces of events. They function
as integral parts of systems that covert information from physical
properties into abstracyt symbols based on a system of measurements
that quantifies perceived qualities. (Binkley, T. 'Transparent...',
op. cit )
Assim, um Banco de Imagens e Efeitos Visuais que contemple, ao
mesmo tempo, na organização de seu conjunto documental, os caracteres
internos do documento e os jogos da memória de seus usuários, transforma
o suporte material da memória em suporte imagético permitindo a
sua reprodução e apropriação ilimitada por parte do usuário, através
da digitalização de dados e de registros históricos de base analógica,
apostando nas múltiplas disrupções da função identitária dos modelos
culturais adotados para a vida urbana.
A transformação de um acervo patrimonial (objetos, vestígios da
cultura material, fragmentos visuais, textos históricos) da cidade
em dados digitais capazes de atualizar o suporte material da memória
de seus herdeiros urbanos gera uma mudança significativa não só
na forma plástica com que tais dados/documentos são arranjados como
conjunto de informações em Banco de Imagem e Efeitos Visuais mas
coloca ao pesquisador-usuário uma nova possibilidade de interação
e apropriação dos paradigmas e tradições de sua matriz disciplinar.
(Yates, F. L'art de la mémoire. Gallimard, Paris, l975)
Enquanto um museu virtual, o BIEV tomado paradigmaticamente como
uma espécie de cyberspace, pode ser então aqui visto igualmente
como um dos "lugares" onde se processa o estudo da memória
da contemporaneidade, espaços de criação virtual e de simulacros
como os arquivos, as bibliotecas e os museus; lugares monumentais
como os cemitérios ou as igrejas; lugares simbólicos onde se concentram
as comemorações, as peregrinações, os emblemas; lugares funcionais
como os manuais, as autobiografias ou as associações.
A exploração de tais experimentos etnográficos e das diferentes
possibilidades de construções imaginárias de captar os dados sensíveis
da vida social que se processa no meio urbano pode esclarecer os
critérios do diálogo entre o real, o virtual e o atual como recurso
de composição das interfaces entre o domínio da imagem e o da informática
no plano da construção de conhecimento em Antropologia.( Cf. Jencks,
C. (org.) Visual Culture. Routledge, Nova York, l995).
Baseando-se nas novas tecnologias interativas, o Banco de Imagem
proposto acolhe, em seu processo contínuo de criação e recriação
de imagens da cidade (A inspiração vem da obra de White, H. Trópicos
do Discurso, ensaios sobre a crítica da cultura. São Paulo,
EDUSP, l994), a produção de novos registros visuais e sonoros da
vida urbana local a partir da investigação de narrativas etnográficas
baseadas nos efeitos de poésis das imagens passadas e presentes
(Cf. Debray, R. Manifestes médiologiques. Gallimard, Paris,
l994) e nas memórias do amanhã, realizando uma condensação espacial
e temporal na equivocidade do sentido das diferentes tradições que
configuram o "viver a cidade".
Situações discursivas, hipertextos multimídia, "comunidades
interpretativas", telepresença, "interlocutores individuais",
interatividade, "convenções e operações textuais", universalismo,
são termos que podem ser empregados para o estudo dos novos suportes
da memória com base nas redes eletrônicas e digitais se remetermos
tais estudos a uma reflexão a respeito dos novos velhos lugares
de "subjetividades interiorizadas e suas relações com normas
e relações definíveis no âmbito das políticas das representações"
nos termos amplamente empregados por Paul Rabinow (Cf. P. Rabinow,
op. cit., p. 98).
Por tudo o que vimos comentando é que se considera aqui que a
pesquisa antropológica em torno de formas mais integrativas, criativas
e interativas de operar e recuperar os conjuntos documentais, versando
sobre o tema do patrimônio etnológico do mundo urbano contemporâneo,
torna-se um espaço privilegiado de construção de novas narrativas
etnográficas justamente porque através delas obtém-se uma importante
chave de interpretação dos seus tempos e espaços sociais.
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[1] Acredita-se que a tendência é que o próprio
computador se torne invisível quando as interfaces com o homem
atinjam sua feição completamente natural. Imagens
computadorizadas avançaram, nos anos 70, para sua feição cada
vez mais representacional e fotorrealismo, através do fotorealismo
de imagens-síntese, em 3D, com programas de pintura, de texturização,
de sombreamento, etc. até chegar-se no Photoshop, que manipula
a fotografia através de uma imagem criada em computador, nos anos
80.
[2] Cf. Manovich, ????, o ilusionismo vincula-se
a ações tanto quanto a profundidade relaciona-se à superfície,
a janela para o mundo ao painel de controle, etc..
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