IDENTIDADE PROFISSIONAL E A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO ANTROPOLÓGICO:
A QUESTÃO DA IMPLICAÇÃO
João Batista Martins[1]
Este trabalho é uma reflexão sobre o processo de construção do
conhecimento antropológico. Partimos da idéia de que tal conhecimento
se
caracteriza como interpretação da realidade, cuja teia de
significados; deve ser desvelada. Assim, o objetivo do trabalho
do
antropólogo seria o de desvelar os sentidos que circunscrevem a
realidade
social. O conhecimento antropológico, por sua vez, se estrutura
a partir
de um processo intersubjetivo estabelecido no campo, ou seja, sobre
uma
relação na qual o pesquisador está implicado social, ideológica,
libidinalmente. Isto significa dizer que à medida que o antropólogo
desvela a realidade, ele também está se conhecendo e construindo
sua
identidade pessoal e profissional. Tal perspectiva nos possibilita
compreender a relação e o trabalho antropológico como uma relação
terapêutica.
Palavras-Chaves: antropologia identidade profissional
epistemologia
IDENTIDADE PROFISSIONAL E A PRODUÇÃO DO CONHECIMENTO ANTROPOLÓGICO:
A QUESTÃO DA IMPLICAÇÃO
João Batista Martins
Certa vez, num de meus passeios, ao entrar na praia encontrei
várias pegadas na areia, as quais formavam várias trilhas. Escolhida
uma, passei a segui-la, colocando meus pés exatamente sobre as marcas
que ali se encontravam.
Em tal empreendimento, entretanto, defrontei-me com algumas
dificuldades: 1) na medida em que seguia a trilha, sentia um certo
desconforto, desequilibrando-me em certos momentos, pois o "balanço"
daquele que ali deixou sua marca era diferente do meu, e aí percebi
que eu não conseguia andar como ele; 2) outra dificuldade
se referia à escolha da trilha a ser seguida, pois não havia um
encontro perfeito entre o meu pé com a marca escolhida, o que caracterizava,
ainda mais, a nossa diferença.
Após caminhar alguns metros - pé ante pé sobre as marcas - olhei
para trás e vi que as pegadas iniciais - aquelas que escolhera para
seguir - já não existiam mais, elas desapareceram; e o que ficou
inscrito na areia não era nem as minhas pegadas, nem as pegadas
do indivíduo que ali passou anteriormente, mas o produto de nossa
relação. (Diário Campo)
Este "brinquedo", que denominei "seguir pegadas
na praia", experienciado durante meu trabalho de campo em minha
formação de antropólogo, serviu como ponto de partida para uma reflexão
sobre o processo do "vir a ser e estar antropólogo".
"Nadar em águas desconhecidas..." esta é uma imagem
que sempre me vem à mente quando penso no meu próprio processo de
"vir a ser antropólogo". Para mim foi bastante desconfortável
"nadar nas águas da Antropologia", pois a experiência
antropológica - na medida em que foi concomitante a uma série de
circunstâncias pessoais - emergiu como um conflito sobre a minha
identidade (pessoal/profissional).
Durante este processo, a novidade do "contato imediato"
com o "objeto de estudo" apesar de desejada - tanto em
nível pessoal como teórico - sempre me causou um certo "temor",
um pouco de "medo": angústia pela exposição pessoal, a
temida confusão entre pesquisador x objeto, rejeição, etc...
O processo de construção de conhecimento no universo da antropologia,
no entanto, o distanciamento não é possível, encontro é necessário,
pois é a partir do contato com os "nativos" que o antropólogo
construirá seu conhecimento. Este "encontro", por sua
vez, na medida em que envolve uma "relação intersubjetiva",
não possibilita somente ao antropólogo conhecer "o outro",
mas também a si - "conhecer-se" (Grossi, 1992).
Esta problemática sempre me acompanhou durante minha formação
em Antropologia. Inicialmente, atribuía como causa das minhas dificuldades
em compreender o que viria a ser a Antropologia e enxergar-me exercendo
a profissão de antropólogo a minha formação acadêmica - a de psicólogo.
Isto implicava, portanto, um problema que envolvia a minha identidade
profissional (o que tentei controlar, como veremos mais a frente,
quando me refiro ao processo de elaboração do meu projeto de pesquisa).
Como esta era uma questão que sempre esteve presente - o que me
faz pensar o tema de minha dissertação a questão da identidade
como um sintoma - e como a Antropologia é uma disciplina
que se funda na alteridade - ou seja, no encontro de duas identidades
entendemos o processo de construção de conhecimentos no âmbito
da antropologia como inerentemente vinculado à construção da identidade
do pesquisador, tendo em vista a implicação envolvida neste processo.
Tenho clareza que, colocar em pauta esse vai-e-vem
do processo, não esgota e não reduz as várias possibilidades que
a experiência de campo nos proporciona (seja enquanto reflexão teórica
ou sobre "nossa prática"), mas entendo esse meu empreendimento
como uma tentativa de aprender a olhar o mundo com
outros olhos.
A identidade e a implicação: o científico na Antropologia
Percorrendo os meandros das teorias antropológicas podemos levantar
algumas questões relativas à identidade da Antropologia - ou seja,
o que é que vai caracterizar a disciplina como tal e quais as implicações
que estão em jogo para um indivíduo vir a considerar-se (ou ser
considerado) como um antropólogo.
Tais considerações me parecem pertinentes pois, ora a Antropologia
se caracteriza como tal pela adoção de um método específico de pesquisa
- a observação participante; ora como uma ciência que estuda um
objeto específico: as sociedades primitivas (ampliado posteriormente
ao incluir as sociedades complexas como objeto de estudo); ora por
aquilo que os antropólogos produzem: etnografias (Malinowski, 1978,
Boas, [1920] 1960, Manners & Kaplan, 1968, Geertz, 1978).
Foucault (1966) nos aponta que as condições para o surgimento
das ciências humanas foram historicamente construídas a partir da
construção do conceito de "homem", processo este característico
da modernidade. Para esse autor, o homem não existia
nos séculos XVII e XVIII, e a emergência das ciências humanas se
dá quando o homem se constitui enquanto sujeito e objeto
do conhecimento.
Para Laplantine (1988) o projeto antropológico nos finais do séc.
XVIII, supunha
1) a construção de certo número de conceitos, começando pelo conceito
de homem; não apenas enquanto sujeito, mas enquanto objeto do saber
[introduzindo] a dualidade característica das ciências exatas (sujeito
observante e o sujeito observado), 2) a constituição de um saber
que não seja apenas reflexão (filosófico) e sim de observação (empírico),
o que implica na constituição de uma positividade sobre o conhecimento
do homem enquanto ser que vive (biologia), que trabalha (economia),
pensa e fala (filologia); 3) a problemática da diferença, que coloca
a questão da relação no impensado, os limites do saber, e as relações
de sentido e poder; 4) um método de observação e análise - o método
indutivo, onde os grupos são considerados como sistemas naturais
que devem ser estudados empiricamente, a partir das observações
de fatos, a fim de extrair os princípios gerais que hoje chamamos
de leis. (Laplantine, 1988:55)
Em outras palavras, a Antropologia se constitui como um campo
científico na medida em que estabelece seu objeto de estudo; um
conjunto de conceitos e teorias; e uma metodologia própria. Para
que o projeto antropológico alcance suas primeiras realizações,
para que o novo saber comece a adquirir um início de legitimidade
entre outras disciplinas, será necessário esperar a segunda metade
do séc. XIX, momento em que à Antropologia se atribuem objetos empíricos
autônomos: as sociedades ditas primitivas , ou seja,
exteriores às áreas em que se localizavam as sociedades européias,
possibilitando dessa forma - geograficamente - estabelecer-se uma
dualidade entre o observador e seu objeto. Esta dualidade, por sua
vez, nos remete à problemática do outro - e conseqüentemente
à da identidade.
Com uma perspectiva evolutiva da história, os primeiros estudos
antropológicos objetivavam - a partir da análise da diversidade
cultural, do outro, do diferente - compreender os estágios pelos
quais a sociedade européia havia passado, afirmando que o contato
dos nativos com a religião, com a moral cristã, com a escrita, com
a civilização enfim, tornaria esse diferente cada vez
mais próximo e semelhante. Assim, o que se verifica nessas análises
é a anulação do outro, do diverso, enquanto
tal .
Lèvi-Strauss (1987) nos indica a obra de Rousseau como fundadora
da etnologia. O "Discurso sobre a origem e fundamentos das
desigualdades entre os homens" de Rousseau, é considerado por
ele como o primeiro tratado de etnologia geral, pois além de tratar
do problema das relações entre a natureza e a cultura, estabelece
com clareza o objeto próprio dos etnólogos:
Quando se quer estudar os homens, é preciso olhar perto de si;
mas para se estudar o homem, é preciso aprender a dirigir para longe
o olhar; para descobrir as propriedades, é preciso primeiro observar
as diferenças. (Rousseau apud Lèvi-Strauss, 1987:43)
Para Lèvi-Strauss, tal regra metódica aponta em direção da superação
do que pareceria um paradoxo: a possibilidade do etnólogo estudar
os homens distantes e, simultaneamente, o homem particular que lhe
parece o mais próximo, ou seja, ele mesmo; por outro lado,
sugere que a vontade de identificação com o outro caminha lado a
lado com uma recusa da identificação consigo mesmo.
Vemos, portanto, que a questão da alteridade é emergente no trabalho
do antropólogo e que está sempre presente - nela se funda.
A relação pesquisador x objeto - ponto de partida para a construção
do conhecimento antropológico - implica, pois, num encontro intersubjetivo,
numa reflexão que envolve os dois pólos da relação, o que significa
afirmar a impossibilidade do distanciamento, como propõem os pioneiros
da Antropologia.
Nesse sentido, Zarur (1976), estabelecendo uma relação entre objetividade
e o envolvimento do antropólogo com o seu objeto de estudo, comenta
A grande diferença [entre o antropólogo e o sociólogo] é que a
objetividade para o antropólogo vem do próprio envolvimento. Novamente
somos levados a ver o trabalho de campo trazendo o aspecto distintivo
da Antropologia. O deslocamento puramente ideológico da maioria
dos sociólogos ... é substituído por um deslocamento concreto e
social, o trabalho de campo. A transformação em uma espécie de nativo
marginal uma vez que jamais será ele um nativo integralmente, a
busca intencional de uma ambigüidade, de uma situação intermediária
entre duas culturas, é exatamente o que faz da Antropologia, provavelmente,
a mais precisa e objetiva das ciências sociais. O envolvimento do
Antropólogo é portanto teoricamente indispensável. E assim, a não
neutralidade do antropólogo, neutralidade aqui considerada como
afastamento do objeto, é o que traz a precisão e a objetividade
da Antropologia. (...) Separar um envolvimento que busque informações
de um envolvimento de outro teor é impossível eticamente e só pode
culminar em uma péssima antropologia. É uma grande contradição com
o próprio método antropológico que não separa ideologia de relações
sociais. (Zarur, 1976:4)
O projeto da Antropologia se completa na medida em que estabelece
para si uma metodologia específica, o que também caracterizará o
exercício profissional do antropólogo. A legitimação da figura do
antropólogo profissional ocorre a partir da legitimação do método
para o conhecimento de outras culturas: a observação
participante.
Foi Malinowski (1978) quem sistematizou as regras metodológicas
para a pesquisa antropológica: a idéia que caracterizava o método
era a de que apenas através da imersão no cotidiano de uma outra
cultura o antropólogo poderia chegar a compreendê-la. O antropólogo
deveria passar por um processo de transformação através do qual
ele, idealmente, tornar-se-ia um nativo. No entanto, na medida
em que essa experiência não é sistemática, o antropólogo deveria
reelaborá-la, transformando-a numa descrição objetiva (científica?)
da cultura. O resultado desta "transformação" consiste
no texto etnográfico, onde o antropólogo apresenta uma re-elaboração
de suas experiências.
Tal re-elaboração, no entanto, deveria ser inspirada numa
teoria da cultura específica. Malinowski, por sua vez, inspirou-se
no funcionalismo, pois ele concebia as culturas como unidades discretas
existentes sob forma unitária e acabada, passíveis de serem observadas
e conhecidas desde que olhadas pelos olhos certos: os olhos treinados
do antropólogo profissional.
Mas, o que se passa com o antropólogo durante o trabalho de campo?
DaMatta (1987), ao tecer algumas considerações sobre o trabalho
de campo na Antropologia, faz uma comparação deste com os "rituais
de passagem" estudados por Van Gennep (1975) e Turner (1974),
vindo a considerá-lo como tal.
Aqui desejo simplesmente observar que a iniciação na antropologia
social pelo chamado trabalho de campo fica muito próxima
deste movimento altamente marcado e consciente que caracteriza os
rituais de passagem. Realmente, em ambos os casos, antropólogo e
noviço são retirados de sua sociedade; tornam-se a seguir invisíveis
socialmente, realizando uma viagem para os limites do seu mundo
diário e, em pleno isolamento num universo marginal e perigoso,
ficam individualizados (...). Finalmente, retornam à sua aldeia
e os novos laços sociais tramados na distância e no individualismo
de uma vida longe dos parentes, podendo assim triunfalmente assumir
novos papéis sociais e posições políticas. (DaMatta, 1987:151 -
assinalamentos no original)
Esta experiência - a de sair de um "status" e inserir-se
"em outro" - é que vai possibilitar ao antropólogo o encontro
com a diversidade, com a diferença, o que implica um
encontro entre identidades, marcado, portanto, pela alteridade:
seja a pesquisa realizada em um espaço fora do cotidiano do pesquisador
- o que implica seu deslocamento - seja em seu próprio meio.
Tendo em vista essas duas possibilidades, o trabalho do antropólogo
consistiria, enfim, em transformar o "exótico" em "familiar"
(quando o antropólogo estuda sociedades que não a sua) e o "familiar
em exótico" (quando ele estuda sua própria cultura) (DaMatta,
1987:157).
É no universo de pesquisa, portanto, que a questão da alteridade
é constantemente recolocada. É o que podemos deduzir das palavras
de Lèvi-Strauss:
Cada vez que está em seu campo de ação, o etnólogo vê-se abandonado
em um mundo onde tudo lhe é estrangeiro, freqüentemente hostil.
Não tem senão este eu (...) para permitir-lhe sobreviver e fazer
sua pesquisa; mas um eu física e moralmente abatido pela fadiga,
fome, desconforto, choque com os hábitos adquiridos, o surgimento
de preconceitos dos quais nem sequer suspeitava; e que se descobre
a si mesmo (...) Na experiência etnográfica, por conseguinte, o
observador coloca-se como seu próprio instrumento de observação.
Evidentemente, precisa aprender a conhecer-se, a obter de um
si mesmo, que se revela como outro ao eu que o utiliza, uma
avaliação que se tornará parte integrante da observação de outras
individualidades. (1987:43/44 - assinalamentos no original)
Tal possibilidade, no entanto, toma novas dimensões quando o antropólogo
pesquisa sua própria cultura, problematizando-se a questão da relatividade
cultural. DaMatta (1987) assinala que, neste caso, o problema é
"tirar a capa de membro de uma classe, e de um grupo social
específico para poder - como etnólogo - estranhar alguma regra social
familiar e assim descobrir o exótico no que está petrificado dentro
de nós." (DaMatta, 1987:157 - assinalamentos nossos). Isto
significa dizer que o antropólogo - quando trabalha em sua própria
cultura - coloca em jogo o seu próprio sistema de classificação
que, construído a partir de seu processo de socialização, se reestrutura
nas relações que estabelece no fazer antropológico.
Considerando que a construção da identidade dos indivíduos se
dá a partir do processo de internalização (Vygotsky, 1991) de um
sistema de classificação através do qual ele passa a se sentir parte
da sociedade em que vive; e, à medida que o trabalho de campo impõe
ao antropólogo - principalmente quando está trabalhando em sua cultura
- uma constante reelaboração deste sistema, podemos considerar que
tal experiência implica numa reestruturação, também, da identidade
do pesquisador .
Os riscos implícitos neste processo de relativização, no entanto,
não estão presentes somente para quem estuda os grupos próximos,
pois o fato de se estudar grupos ou sociedades distantes não "significa
que (...) não estejamos sempre classificando e rotulando de acordo
com princípios básicos através dos quais fomos e somos socializados."
(Velho, 1987:128, Velho, 1980).
Se, por um lado, a introdução do trabalho de campo como um método
de estudo para a Antropologia vai possibilitar ao pesquisador entrar
em contato com seu objeto de estudo, abordá-lo epistemologicamente;
por outro, o antropólogo ao escrever sua monografia, deveria
estabelecer uma distância entre ele e a sua cultura, e a cultura
do grupo estudado. Tal distanciamento expressa a forma pela
qual os pioneiros da Antropologia enfrentaram a questão da subjetividade,
em prol da constituição de parâmetros legitimadores de um conhecimento
objetivo (Cardoso de Oliveira, 1988) - característica fundamental
das Ciências no início do século.
Este controle, no entanto, expressa-se nas monografias como uma
re-elaboração da experiência de campo, ou seja, as experiências
ocorridas no campo deviam se submeter às regras que circunscrevem
o valor científico da disciplina - organização dos dados, fotos,
terminologia impessoal, etc. , o que, enquanto produto científico,
descartaria as experiências subjetivas do observador, processo individual
do estar ali . Entretanto:
uma domesticação [da subjetividade, da história e do indivíduo]
não é o mesmo que uma pura e simples exclusão. No máximo se trataria
de uma exclusão metódica quando, na hipótese de uma difícil
domesticação, os elementos seriam submetidos a uma certa epoche,
isto é, seriam postos em colchetes, neutralizados... negar a proeminência
da subjetividade, do indivíduo ou da história é ter esses elementos
ao menos sob controle. (Cardoso de Oliveira, 1988:94 - assinalamentos
nossos)
No entanto, a presença do antropólogo, tanto no trabalho de campo
quanto no texto etnográfico, foi essencial para a constituição do
conhecimento antropológico.
Baseando a sua produção de conhecimento na experiência pessoal
de uma outra cultura, a antropologia legitimou seus enunciados na
fórmula eu estive lá, vi e portanto, posso falar sobre o outro.
(Caldeira, 1988:134)
Assim, o trabalho do antropólogo - sujeito que experimenta e traduz
- proposto pelos teóricos da disciplina circunscreve uma ambigüidade,
pois o pesquisador precisa, ao mesmo tempo, mostrar-se (revelando
a experiência pessoal) e esconder-se (garantindo-se a objetividade).
Tal ambigüidade marca a presença do antropólogo nos textos etnográficos
(Caldeira, 1988).
Com a emergência do paradigma hermenêutico no campo da Antropologia
- que fundamenta a Antropologia Interpretativa - a questão da objetividade
da disciplina é recolocada. Ao considerar que o trabalho do antropólogo
é fazer etnografias e que estas são descrições densas que objetivam
apreender uma cultura; e ao considerar a etnografia como uma leitura
- no sentido de construir uma leitura de -, tal perspectiva
coloca em pauta a postura do pesquisador no fazer antropológico,
a qual se expressa no texto etnográfico, pois
...no estudo da cultura a análise penetra no próprio corpo
do objeto, isto é, começamos com as nossas próprias interpretações
do que pretendem nossos informantes, ou o que achamos que eles pretendem,
e depois passamos a sistematizá-las ... (enfim) os textos antropológicos
são eles mesmos interpretações e, na verdade, de segunda e terceira
mão. Trata-se, portanto, de ficções; ficções no sentido de que são
algo construído, algo modelado. (Geertz,
1978:25-26 - assinalamentos nossos)
Sob a perspectiva da Antropologia Interpretativa, os pressupostos
de cientificidade que a Antropologia tomou emprestado das ciências
físicas e naturais são rediscutidos, pois o produto do trabalho
do antropólogo - o texto etnográfico - é visto como o resultado
da interação que se estabelece entre o pesquisador e seu objeto
de estudo, durante a pesquisa de campo: uma interpretação que se
elabora a partir da posição histórica do pesquisador na relação
com seu objeto de estudo, ou seja, a posição histórica do pesquisador
é considerada como condição de conhecimento.
Como sugere Cardoso de Oliveira (1988), a Antropologia Interpretativa
abre seu espaço negando radicalmente o discurso exercitado pelos
paradigmas racionalista, estrutural-funcionalista e culturalista,
e por uma reformulação dos elementos que haviam sido, por eles,
"domesticados", ou seja,
...a subjetividade ... toma sua forma socializada, assumindo-se
como inter-subjetividade; o indivíduo ... toma sua forma
personalizada, e não teme assumir sua individualidade; e
a história ... toma sua forma interiorizada, e se assume como historicidade.
(Cardoso de Oliveira, 1988:97 - assinalamentos no original)
DaMatta, a partir destes pressupostos considera que, em princípio,
a Antropologia é uma ciência da "comutação e da mediação",
pois
Em antropologia é preciso recuperar esse lado extraordinário e
estático das relações entre pesquisador/nativo. Se este é o lado
menos rotineiro é o mais difícil de ser apanhado da situação antropológica,
é certamente porque ele se constitui no aspecto mais humano de nossa
rotina. (...) Essa descoberta da Antropologia Social como matéria
interpretativa segue, por outro lado, uma tendência ... que parece
marcar sua passagem de uma ciência natural da sociedade, como queriam
os empiricistas ingleses e americanos, para uma ciência interpretativa,
destinada antes de tudo a confrontar subjetividades e tratar delas.
(DaMatta, 1978:11/12)
Velho (1987), afirmando o caráter aproximativo do conhecimento
devido a uma certa dose de subjetividade do pesquisador,
afirma:
A realidade ... sempre é filtrada por determinado ponto
de vista do observador, ela é percebida de maneira diferenciada.
(...) não estou proclamando a falência do rigor científico no estudo
das sociedades, mas a necessidade de percebê-lo enquanto objetividade
relativa, mais ou menos ideológico e sempre interpretativo. (Velho,
1987:129)
Estas questões levam-me a pensar que a construção do objeto em
Antropologia implica, simultaneamente, na construção do observador
- o antropólogo. Tal possibilidade é assinalada por Tedlock (1987)
quando caracteriza as Ciências Sociais. Para ele
...domínio das Ciências Sociais caracteriza-se como um repertório
de conhecimento e expectativas ou cultura comum, que foi compartilhado
com os participantes e foi criado a partir da interação dos mesmos.
(Tedlock, 1987:184 - assinalamento nosso)
Tais perspectivas nos remetem à idéia principal implícita no jogo
"seguir pegadas na praia" que descrevi no início deste
trabalho; pois o produto do trabalho de campo - o texto etnográfico
- se constrói a partir da relação pesquisador x pesquisado que ali
se estabelece. E na medida em que tal relação é um "encontro
intersubjetivo", nela também estão envolvidos aspectos da construção
da identidade tanto do antropólogo como de seu objeto de estudo,
constituindo-se, portanto, faces de uma mesma moeda. Ou seja, o
antropólogo está implicado com o seu próprio objeto de pesquisa.
Laplantine (1988), ao considerar a relação pesquisador x objeto
no fazer antropológico, aponta:
...a antropologia ... só começa a adquirir um estatuto científico
a partir do momento em que integra, para analisá-lo, esse envolvimento
do pesquisador...as voltas com a diferença. (Laplantine,
1988:197/198 - assinalamento nosso)
Tal perspectiva vem afirmar a especificidade da prática antropológica
- não mais através de um objeto empírico constituído, mas através
de uma abordagem epistemológica constituinte. Ou seja, quando o
antropólogo se insere no campo ele só não observa, mas também participa
com os seus interlocutores nas várias situações sociais que circunscrevem
o universo social que está pesquisando, o que implica num constante
confronto de identidades. Assim, podemos dizer que o objeto teórico
da Antropologia deixa de estar ligado a um espaço cultural ou histórico
particular, pois a Antropologia passa a caracterizar-se como uma
maneira de olhar o outro e a si mesmo - em relação.
Assim, podemos dizer que esta perspectiva epistemológica rompe
com as perspectivas epistemológicas tradicionais, à medida reconhece
que o conhecimento se realiza na relação mesma entre sujeito e objeto
na relação intersubjetiva (conforme propõe Cardoso
de Oliveira). Isto significa dizer que no lugar de ter um objeto
que se quer objetivo, nós iremos, na verdade, ter um objeto que
é ao mesmo tempo sujeito (Ardoino, 1998).
Cabe salientar, no entanto, que, no âmbito da pesquisa, os seres
vivos, especialmente os humanos, quando submetidos a quaisquer que
sejam os determinismos (econômicos, sociais, culturais etc.) que
condicionam e podem explicar seus modos de funcionamento, têm em
si um poder de negação, de contra-estratégia que lhes dá, ao menos
em parte, a inteligência destes determinismos e uma certa capacidade
de reagir e de adaptar-se, senão de transformá-los. Ardoino denomina
esta capacidade de negatricidade, o que significa o reconhecimento
de uma certa opacidade própria dos objetos que estão sob investigação.
Ardoino entende negatricidade como a capacidade que o outro
possui sempre de poder desmantelar com suas próprias contra-estratégias
aquelas das quais se sente objeto. (Ardoino, Barbier e Giust-Desprairies, 1998, p. 68). Isto quer dizer
que o homem tanto individual como coletivo não é indiferente
às produções de saber que lhe concernem e reagirá diante delas,
interferirá constantemente com os dispositivos de análise e de investigação
que lhe serão aplicados, perturbando seu funcionamento.
Além disso, do ponto de vista do pesquisador, Ardoino considera
que, além de ele não dominar (no sentido de controle) seu objeto
(em função da negatricidade que lhe é inerente), ele está implicado
com (n)ele. A implicação é entendida aqui como
... engajamento pessoal e coletivo do pesquisador em e por sua
práxis científica, em função de sua história familiar e libidinal,
de suas posições passadas e atual nas relações de produção e de
classe, e de seu projeto sócio-político em ato, de tal modo que
o investimento que resulte inevitavelmente de tudo isso seja parte
integrante e dinâmica de toda atividade de conhecimento. (Barbier,
1985, p. 120)
A idéia de implicação nos sugere que o processo de construção de
conhecimento não se efetiva sob a égide exclusiva de uma determinada
racionalidade. Pelo contrário, o conhecer se estabelece a partir
de outros vários planos: das motivações mais profundas do pesquisador
(inconscientes?), de seus desejos, de suas projeções pessoais, das
suas identificações, de sua trajetória pessoal etc. Nesse sentido,
podemos dizer que a relação entre sujeito e objeto propicia tanto
o desvelamento do objeto como o desvelamento do sujeito.
Com a idéia de implicação assume-se que o conhecimento produzido
no âmbito da antropologia é da ordem da intersubjetividade,
o que significa reconhecer que a produção de conhecimento implica
um processo de negociação entre as múltiplas referências
que compõem o conjunto das representações de cada indivíduo envolvido
no processo, ou seja, o conhecimento se produz a partir da heterogeneidade
implícita nas relações que se estabelecem no campo da pesquisa.
Queremos dizer com isso que a relação entre sujeito e objeto, entendida
como um encontro intersubjetivo, requer o reconhecimento
de dimensões que não estão relacionadas nem com os aspectos teóricos,
nem com os aspectos metodológicos, que utilizamos quando da realização
de nossas pesquisas. Tais dimensões estão circunscritas pela ordem
do psíquico, do desejo, da vontade, que implicam afetos nem sempre
dizíveis em nosso cotidiano acadêmico, mas que emergem
durante a construção do conhecimento.
Muitas vezes as informações provenientes deste tipo de experiência
são registradas em nossas anotações, em nossos cadernos de campo,
e lapidados e re-elaborados sob o prisma
da razão.
Numa perspectiva psicológica, podemos dizer que a heterogeneidade
intrínseca na relação entre sujeito e objeto se caracteriza como
processo de alteração, já que ela é circunscrita por um jogo
de influências mútuas. A interação (alteração) desencadeia jogos
próprios das vontades, dos desejos, da angústia, das manifestações
de uma vida inconsciente, de um funcionamento imaginário, que
suscitam tantas estratégias, resistências, ambivalências, opacidades:
expressões de uma negatricidade que permanecem ininteligíveis
para um aparato racional. Tal situação, em função de sua complexidade,
geralmente, nos levam para os caminhos das incertezas e do
inacabamento, condições impensáveis na ótica de uma epistemologia
tradicional - cartesiana, positivista.
As perspectivas acima, enfim, nos abrem a possibilidade de traçar
um novo caminho no processo de elucidação dos fenômenos sociais,
rompendo com a posição epistemológica desenvolvida ao longo da Modernidade.
Podemos dizer que este rompimento restaura o espaço de sentido de
cada participante da relação e nos permite pensar esse espaço restaurado
como circunscrevendo o discurso de um sujeito falante - tanto
para aquele que se diz pesquisador como para aquele que é olhado
como objeto - libertando o homem da sua condição de objeto.
Sob a perspectiva que aqui defendemos, a análise dos fenômenos
sociais, assume outra dimensão. Para Ardoino
... o tipo de análise em questão não tem mais grande relação com
a análise entendida etimologicamente (decomposição, redução do complicado
em elementos mais simples) É mais uma sagacidade (perspicácia),
vinculada a um processo de acompanhamento numa duração, a intimidade
partilhada, donde (...) os exemplos: psicanalítico, sócioanalítico,
etnológico, etnográfico, e até etnometodológico, podem nos dar alguma
idéia. (Ardoino, 1990, p. 38)
Tal perspectiva, tanto para o plano da pesquisa como para o plano
das práticas sociais, permite-nos um reconhecimento mais profundo
de elementos até então desconsiderados (principalmente no que se
refere à pesquisa) sobre os processos relacionais, possibilitando-nos
uma reapropriação da experiência pela abertura ao desconhecido,
pela disponibilidade para a alteração (e por conseqüência da heterogeneidade),
para a escuta do inefável.
Considerações finais
Em janeiro de 1995, antes de eu terminar minha dissertação de
mestrado, mexendo em meus papéis - cadernos de campo, anotações
esparsas - encontrei um escrito que gostaria de retomar, pois ele
me parece bastante interessante para esclarecer algumas questões
referentes a este trabalho - a questão da mudança e da identidade.
Era meio engraçado explicar para as pessoas o porquê do meu
interesse por esse esporte - pois não tenho "pinta de surfista",
"não surfo", então porque?
No terceiro passo para pegar meu remédio para o estômago tive
um insight - e eu acho que a coisa vai por aí - talvez o surfe represente
a "solução" superação de meu "trauma infantil"
com o mar. Eu sempre fui fascinado pelo mar, até o dia em que meu
pai quase morreu no mar de Soarão (SP). Neste dia, uma menina passava
o canal em direção do alto mar e quando ela vinha em direção à praia
caiu no "buraco" e acabou morrendo. Eu me senti uma formiga,
impotente. Meu pai me havia dito para ficar na praia, e eu fique,
olhando a coitada berrar, sem poder fazer nada. Voltei à praia depois
de 10 anos - aos 19 anos - e, desde então, vejo o mar como um fim
ou começo, sei lá?
Tenho a impressão de que a prancha do surfista vem a ser um
tipo de tábua de salvação, na qual eu depositaria meus medos e andaria
sobre a água dominando-a. Nadar, mar aberto, vem com essa conotação
em minhas fantasias - o suspense da volta, a vontade de me perder
no mar e conseguir vencê-lo no braço. (Diário de Campo - setembro/1989)
Durante nosso aprendizado na carreira de antropólogo nós aprendemos
várias técnicas, várias estratégias para podermos nos segurar durante
nosso trabalho de campo: são os gravadores, as entrevistas roteirizadas,
os diários de campo, a pergunta certa na hora certa, o que devemos
observar e o que devemos deixar de lado. Enfim, nos preparamos tecnicamente
para não nos confundirmos com nosso objeto de estudo, pois devemos
"estranhar" a realidade em que estamos interessados, principalmente
se estamos pesquisando nossa própria sociedade (Velho, 1980).
O contato, que posteriormente será objeto de nossas análises,
implica uma série de variáveis que, por mais que seja possível explicar
sociologicamente, articulam e atuam sobre biografias que interatuam
no campo de relações. Assim, há sempre algo irredutível devido
a uma combinação única de fatores psicológicos, sociais, históricos,
culturais etc... impossível de ser capturada pelos nossos olhos
tão bem treinados.
Sob tal perspectiva, aceitamos o desafio de interpretar esta realidade
social que é muito complexa e, para explicitá-la, devemos tentar
levar em consideração, em nossa aproximação com o objeto, tanto
os aspectos relacionados com a condição objetiva da relação sujeito
x objeto como com os aspectos subjetivos que acompanham esta relação.
Mas a indagação que gostaria de enfatizar - e é isso que o texto
reencontrado e re-editado acima me faz pensar - é a seguinte: considerando
que a identidade do antropólogo se constrói a partir do encontro
estabelecido no campo de pesquisa, encontro esse que implica
sua subjetividade (o que nos faz pensar que este encontro
promove subjetivações), teria o "encontro antropológico"
características terapêuticas? Acho que em parte sim, pois ele permite
ao antropólogo trabalhar com questões relativas sua identidade social.
Como assinala Grossi (1992), devemos considerar na construção do
conhecimento antropológico as vicissitudes do encontro intersubjetivo
que ele supõe, ou seja, nesta construção devemos levar em consideração
também nossas motivações, nossos desejos, nossas "pirações"
- os aspectos psicológicos que nele emergem. Tal fato significa,
portanto, reconhecer que o encontro que se estabelece no campo -
e o que se estabelece com os dados quando da escritura do texto
etnográfico - circunscreve uma situação que implica elementos outros
- não relacionados com a técnica (observação participante ou de
redação) nem com os processos cognitivos emergentes do aprendizado
em antropologia.
A emergência desta experiência - a do conhecer-se - no trabalho
do antropólogo, portanto, só se torna possível quando inserido num
campo de relações - ali estamos colocando em jogo nossa identidade
e as formas pelas quais ela se expressa, conseqüentemente, estamos
sujeitos às mudanças que porventura estas relações exigem.
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[1] Prof. Departamento
de Psicologia Social e Institucional da Universidade Estadual
de Londrina. Doutor em Educação pela Universidade Federal de São
Carlos, Mestre em Antropologia Social pela Universidade Federal
de Santa Catarina. End.: Rua Anísio Figueiredo, 476 CEP
86065-800 Londrina/PR Brasil Email: jbmartin@onda.com.br.
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