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PRÉ-HISTÓRIA DA REGIÃO CENTRO-OESTE DO BRASIL

Jorge Eremites de Oliveira [1]

Sibeli Aparecida Viana [2]

RESUMO

Este artigo apresenta uma síntese sobre o transcurso das sociedades indígenas pré-cabralinas na região Centro-Oeste do Brasil; ênfase especial foi dada à pré-história pantaneira. Apesar de ser iminente a necessidade da realização, retomada e revisão das pesquisas arqueológicas em grande parte do Centro-Oeste, à luz de novos problemas e novas perspectivas teórico-metodológicas, é possível dizer que o povoamento humano da região teve início com o estabelecimento de grupos caçadores-coletores em fins do Pleistoceno e início do Holoceno, por volta de 12.000 a 10.000 anos atrás. Nesse momento, a região apresentava uma situação ambiental diferente da atual. Desde o início do Holoceno até uns 1.000 anos a.C., período em que muitas áreas tornaram-se ecologicamente semelhantes em relação à sua atual configuração ambiental, grupos caçadores-coletores, portadores de tecnologias distintas e sistemas socioculturais complexos, ocuparam praticamente todo o Centro-Oeste. No milênio anterior ao início da Era Cristã, alguns desses grupos gradativamente desenvolveram ou adotaram técnicas de cultivo, geralmente associadas à produção de recipientes cerâmicos. Em verdade, o Centro-Oeste parece ter sido uma região de confluência para onde várias sociedades indígenas, sobretudo as agricultoras e ceramistas, se deslocaram por motivos variados. Assim, quando os europeus pisaram pela primeira vez na América do Sul, parte considerável do Centro-Oeste brasileiro apresentava-se com um extraordinário mosaico cultural. Porém, grande parte das sociedades indígenas que ali viviam foram completamente exterminadas ou assimiladas por povos de além-mar e seus sucessores ibero-americanos. Mas, ao contrário do que muitos imaginam, a conquista das sociedades indígenas no Centro-Oeste, a exemplo das que atualmente vivem em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, ainda continua a passos largos como parte um processo de barbárie contínuo e, aparentemente, sem fim.

INTRODUÇÃO

O Centro-Oeste do Brasil possui uma área de 1.602.133 km2, distribuídos entre os atuais Estados de Goiás, Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (ver Figura 1). Na região, o desenvolvimento de pesquisas arqueológicas sistemáticas e contínuas teve início em Goiás, através da execução de projetos de pesquisa junto à Universidade Católica de Goiás (UCG) e à Universidade Federal de Goiás (UFG), respectivamente em 1971 e 1974. Posteriormente, sobretudo a partir da década de 80, pesquisas desta natureza foram realizadas em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, em sua maioria por arqueólogos brasileiros vinculados a instituições de ensino superior. Antes dos anos 70, porém, alguns trabalhos podem ser enquadrados na categoria de pesquisas sistemáticas, embora em geral tenham sido realizados em curto prazo e, também, com o propósito de formar coleções ergológicas para museus sediados no exterior; este é o caso dos trabalhos de Petrullo (1932) e Schmidt (1914, 1940a, 1940b).

De início, tanto na UCG quanto na UFG, as pesquisas praticamente seguiram as mesmas metodologias para o levantamento de sítios arqueológicos: prospecções oportunísticas em áreas “indicadoras de sítios” (abrigos sob rocha, margens de rios, tipos específicos de vegetação etc.), onde a classificação ambiental teve papel destacado, sendo interpretada como um fator determinante no processo cultural de grupos pré-históricos [3] . A cultura material, por seu turno, foi interpretada com o objetivo de resgatar e compreender, através do método comparativo, traços culturais; ênfase maior foi dada às semelhanças tecnológicas para, a partir delas, serem criadas tipologias e seriações como recursos para a definição de tradições e fases tecnológicas, assim como para a explicação de migrações pré-cabralinas [4] . A reconstituição do passado arqueológico, portanto, foi feita a partir de uma visão linear de cultura, na qual as diferenças eram interpretadas como mecanismos de difusão e migração, sem necessariamente implicar na compreensão dos processos culturais inerentes a eles.

Em fins da década de 70 e início dos 80, surge em Goiás um grande número de projetos de pesquisa, todos tendo como um dos objetivos principais a formação de um quadro geral sobre a ocupação humana pré-colonial daquele Estado. Em Mato Grosso do Sul, projetos deste tipo tiveram início na década de 80. A maioria desses projetos estava distribuída em grandes áreas geográficas de aproximadamente 20.000 km2, as quais não chegaram a ser extensiva e exaustivamente prospectadas. Este é o caso do Projeto Paranaíba e do Projeto Alto Araguaia, respectivamente em Serranópolis e Caiapônia (Goiás), bem como do Projeto Alto Sucuriú, no nordeste de Mato Grosso do Sul. As intenções eram um tanto quanto pretensiosas e, não raras vezes, os projetos não proporcionaram dados primários suficientes a uma pesquisa de nível básico, ou seja, voltada às descrições, classificações, tipologias e generalizações que constituem, em primeira instância e segundo Schiffer (1988), os primeiros dados para atingir pesquisas de nível médio ou alto. Por outro lado, é inegável a contribuição desses projetos para o conhecimento da pré-história do Centro-Oeste, uma vez que, mesmo com as ressalvas apontadas, as pesquisas conseguiram produzir dados gerais sobre a ocupação pré-colonial da região, até então praticamente desconhecida em termos arqueológicos (ver Tabela 2).

No caso específico do Pantanal, a maior planície inundável do planeta e um dos últimos santuários ecológicos do mundo, durante décadas seu passado arqueológico permaneceu despercebido no cenário sul-americano. À exceção de algumas pesquisas realizadas na primeira metade do século 20, praticamente nada foi feito até fins dos anos 80. No entanto, é indiscutível a importância dessa região para o conhecimento da pré-história sul-americana, sobretudo pela sua posição estratégica na porção central do continente, entre diversos ambientes (Amazônia, Cerrado, Chaco e outros) dos quais tem recebido várias influências do ponto de vista ambiental (ver Figura 2); a mesma constatação é válida, em termos culturais e guardadas as devidas proporções, para o passado arqueológico.

Somente a partir de 1990, com o efetivo início do Projeto Corumbá, em Mato Grosso do Sul, o Pantanal foi definitivamente inserido nos círculos de debates sobre problemas referentes à Arqueologia Platina. Do ponto de vista teórico-metodológico, este projeto foi concebido de modo semelhante ao Projeto Paranaíba e ao Projeto Alto Araguaia, embora, em alguns aspectos e ao seu tempo, tenha sido executado de maneira mais refinada. Não obstante os avanços no campo das pesquisas sobre a pré-história pantaneira, muito ainda está por ser feito considerando que a região possui uma área de cerca de 140.000 km2, dos quais grande parte ainda não foi sistematicamente prospectada e devidamente compreendida do ponto de vista arqueológico.

Isto posto, é oportuno explicar que este artigo tem o propósito de apresentar, a um público variado, uma síntese sobre a pré-história do Centro-Oeste brasileiro. Como tal, foi pensado para ser o menos incompleto possível; daí o destaque dado ao Pantanal. Ainda assim, diante da complexidade e aridez do tema, é iminente o risco de sermos demasiado informativos na abordagem da diversidade da cultura material, inclusas aí questões adaptativas e socioculturais. Mais: aqui o Centro-Oeste é entendido como uma delimitação geográfica mais didática do que cultural, haja vista que no passado arqueológico não existiam as atuais fronteiras político-territoriais de origem ibero-americana. Por este motivo, tomamos a precaução de fazer uma digressão da pré-história regional sem omitir as áreas adjacentes, as quais, para alguns casos, extrapolam as atuais fronteiras nacionais. Finalmente, considerando que as interpretações teóricas são momentâneas e que a Arqueologia também é uma ciência acumulativa, é possível que muitas das idéias aqui apresentadas sejam refutadas em um futuro não muito distante, o que entendemos ser salutar para o desenvolvimento da Arqueologia Brasileira.

FIGURA 1 – Mapa do Brasil com destaque para a região Centro-Oeste (MT, MS e GO).

 

O CENTRO-OESTE À EXCEÇÃO DO PANTANAL

OS CAÇADORES-COLETORES

Os grupos caçadores-coletores pré-coloniais estabeleceram-se em paleopaisagens ¾ antigos ambientes com temperatura, umidade e precipitação pluviométrica mais reduzidas do que atualmente ¾ localizadas, em sua maioria, em regiões de planalto ou faixas de transição entre a zona do planalto e a do alto Tocantins, em altitudes entre 700 e 800 m. Esta localização, no entanto, pode estar relacionada a áreas mais prospectadas e não necessariamente representa uma preferência de grupos humanos por esses ambientes. Isto porque, geralmente, é difícil relacionar a localização dos sítios arqueológicos de grupos pré-históricos à exploração de um único estrato vegetacional, haja vista a necessidade de considerar não somente o local onde cada sítio está situado, mas também toda a área possível de captação de recursos, a qual pode compreender diferentes formações florísticas. Entretanto, dados paleoambientais sugerem uma preferência por vegetações abertas, entre as quais inclui-se o complexo sistema de áreas de cerrado, fundamental no sistema de abastecimento dos grupos (Schmitz 1976-1977; Schmitz et al. 1986; Simonsen 1975).

Ao que tudo indica, as primeiras ocupações humanas do Centro-Oeste estão vinculadas à presença de grupos caçadores-coletores que se estabeleceram na região entre o final do Pleistoceno e o início do Holoceno, entre 12.000 e 10.000 AP [5] . Existem, todavia, datas mais antigas, mas que, em sua quase totalidade, ainda devem ser vistas com cautela. Este é o caso, apenas para exemplificar, das datas mais antigas dos sítios Abrigo do Sol (19.400 ± 1.100 AP e 14.470 ± 140 AP) e Santa Elina (23.320 ± 1.000 AP e 22.500 ± 500 AP), ambos em Mato Grosso, respectivamente estudados por Miller (1983, 1987) e Vilhena-Vialou e Vialou (1994) (ver Tabela 1). A bem da verdade, uma discussão detalhada sobre as origens do povoamento humano do Centro-Oeste também passa por incluir esta questão na pauta dos acirrados debates acerca do início do povoamento de outras regiões do Brasil e das Américas, o que definitivamente não é o propósito do presente artigo [6] .

Os estratos inferiores do sítio GO-NI-49, no alto Tocantins, estão datados em torno de 10.750±300 AP; no mesmo período situam-se os do sítio GO-JA-14, em Serranópolis, Goiás, com uma data de 10.740±75 AP. Ao analisar sedimentos do sítio GO-JA-01, também situado em Serranópolis e com uma data de 10.580±115 AP, Schmitz (1980) aponta a existência de mudanças climáticas que indicam alternâncias entre períodos mais secos e mais úmidos, entre 10.500 e 7.250 AP. Posteriormente a esse momento, foi observado outro tipo de variação climática holocênica, entre 6.500 e 4.000 AP, para o qual é registrada uma expansão das vegetações de cerrado e mata [7] . Em Mato Grosso, caçadores-coletores estão representados por grupos portadores do Complexo Dourado, os quais ocuparam o vale do Guaporé entre 8.930 e 10.600 AP; também estão representados pelos grupos que ocuparam os sítios Santa Elina, em Cuiabá, e Morro da Janela, em Rondonópolis, respectivamente datados em 10.120 AP e 10.080 ± 80 AP (cf. Miller 1983, 1987; Villhena-Vialou e Vialou 1989, 1994; Wüst e Vaz 1998). Para o nordeste de Mato Grosso do Sul, região do alto Sucuriú, há uma data de 10.340 ± 110 AP para caçadores-coletores portadores da Tradição Itaparica (Beber 1994; Veroneze 1993); Goiás também está representado por esta tradição: no sudoeste há datas entre 11.000 e 9.000 AP, embora para o leste, bacia do Paranã, não haja quaisquer datações absolutas (Schmitz 1976-1977; Simonsen 1975).

Em fins da década de 60, a Tradição Itaparica foi inicialmente definida; instrumentos denominados lesmas (artefatos plano-convexos) foram estabelecidos como fósseis-guias; sua distribuição espacial abrange desde os Estados da região Nordeste até o sudeste de Mato Grosso. Em outro período, um pouco mais tardio, entre aproximadamente 9.000 e 7.000 AP, o clima tornou-se mais quente e úmido proporcionando a expansão da vegetação de mata; relacionados a este contexto climático há registros de novos grupos caçadores-coletores, representados pela Tradição Serranópolis, entre 9.020±70 e 6.690±90 AP (Schmitz et al. 1989). Em Goiás, esses grupos ocuparam várias regiões: vale do Paranaíba, alto Araguaia, alto e baixo Paranã, afluentes dos rios das Almas e Caiapó. Em Mato Grosso, há evidências de grupos portadores da Tradição Serranópolis na Chapada dos Parecis.

As origens desses grupos não estão claras; podem representar uma adaptação dos antigos caçadores-coletores, os portadores da Tradição Itaparica, a um novo ambiente e/ou representar a migração de novos grupos, dos portadores da Tradição Serranópolis, para o Centro-Oeste (Schmitz 1980). Também não está claro o período final de sua ocupação; acredita-se que grupos caçadores-coletores tenham ali permanecido até a vinda dos agricultores ou mesmo que tenham desenvolvido técnicas de cultivo na região. Sobre este assunto, Wüst (1990), ao constatar mudanças no padrão de assentamento, implantação e morfologia dos sítios existentes na região do rio Vermelho, considera a possibilidade de os grupos caçadores-coletores mais recentes terem participado de um processo de transição no qual, primeiramente, teriam adotado a prática do cultivo e, posteriormente, a produção de cerâmica, a da Tradição Una.

A maioria dos sítios de caçadores-coletores antigos, ao menos os até agora localizados, encontra-se em ambientes fechados: abrigos sob rocha em arenito e quartzito e grutas localizadas em maciços calcários com níveis que atingem até 3 m de profundidade e de 100 a 1.500 m2 de extensão (Schmitz et al. 1978-1980; Schmitz 1980). Ao que tudo indica, os caçadores-coletores estariam organizados em pequenos grupos, compostos provavelmente por algumas famílias, as quais tinham grande mobilidade espacial em um território imprecisamente demarcado (Schmitz 1984) [8] . Na região goiana de Caiapônia, especificamente nas áreas dos rios do Peixe e Vermelho, embora haja registros de sítios a céu aberto, seu número é reduzido; geralmente estão relacionados à exploração de matérias-primas. Para abrigos existentes na região de Serranópolis, Schmitz (1980) interpreta as camadas menos espessas e a concentração de materiais em determinados pontos como indicadores de baixa densidade populacional. A maioria destas idéias, ao contrário de sugerirem um padrão de implantação para os sítios, atestam o uso de prospecções voltadas para o estudo de basicamente um único tipo de ambiente, o fechado.

A busca de explanações mais amplas, que levem em conta a dinâmica do sistema de assentamentos, também passa pela descoberta e correlação das diversas classes de sítios, os quais também estão localizados em ambientes abertos e devem ser devidamente investigados, ainda que isso exija um maior gasto de energia por parte dos pesquisadores, conforme enfatiza Kipnis (1998). Ademais, escavações limitadas a um ou dois cortes estratigráficos do tipo cabina telefônica também limitam a obtenção de dados referentes ao tamanho, estrutura dos assentamentos e informações sobre a densidade de material e deslocamentos periódicos de abastecimento. Esta ausência de dados impossibilita explanações mais específicas relacionadas à demografia, natureza dos sítios e possibilidades de contatos extra-culturais. Ainda que vagas, as primeiras informações nesta direção apresentam uma classificação de sítios arqueológicos, com destaque o sítio GO-CB-01, de atividade limitada e caracterizado como oficina de lascamento (Simonsen 1975). Os sítios superficiais da área Centro-Sul de Goiás também estão correlacionados à exploração de matérias-primas (Andreatta 1985); no leste, bacia do Paranã, além da região de Caiapônia, há menção de sítios superficiais de exploração de matéria-prima que podem estar relacionados ao período de dispersão dos grupos em função da seca, indicativo de uma época de escassez de produtos alimentares (Souza et al. 1981-1982; Schmitz et al. 1986, 1989). Em Mato Grosso, região dos rios do Peixe e das Garças, há registro de sítios a céu aberto e em ambientes fechados, ainda sem uma análise funcional desses assentamentos. Na região do rio Vermelho, Wüst (1990), ao trabalhar com três sítios de caçadores-coletores, classificou-os em dois tipos: sítios habitação e acampamentos temporários.

Quanto ao sistema de subsistência, é provável que os primeiros caçadores-coletores tenham utilizado técnicas de forrageamento na exploração de plantas e animais disponíveis em uma área. Esta idéia deve ser interpretada com cautela, pois, como explica Bird-David (1995), elementos como contatos extra-grupais, diversidade e flexibilidade econômicas devem ser considerados, uma vez que colocam em questionamento a ênfase dada à caça e à falta de recursos. Baseando-se nos remanescentes arqueológicos encontrados em Goiás, Schmitz et al. (1978-1980) e Schmitz (1980) consideram que a subsistência dos grupos baseava-se principalmente na caça generalizada. Este modelo foi recentemente questionado por Kipnis (1998), a partir de pesquisas realizadas no vale do Peruaçu, Minas Gerais; seus estudos revelam uma economia caçadora-coletora estruturada basicamente em produtos de coleta vegetal, haja vista que, conforme Neves et al. (1996), a alta incidência de cáries nos indivíduos indica uma dieta rica em carboidratos. Tanto a confirmação quanto a refutação desses modelos passam por um maior número de pesquisas extensivas, acompanhadas de grande detalhamento arqueológico e maior refinamento de dados paleoambientais.

Schmitz (1980) apresenta hipóteses sobre a utilização anual de abrigos na região de Serranópolis; sua idéia sustenta-se na diversidade de recursos, na preservação de materiais desta natureza no contexto estratigráfico dos sítios e na ausência ou raridade de sítios em ambientes abertos. Outra hipótese baseia-se em duas questões: a) impossibilidade de se ter, em todos os ciclos estacionais, recursos de subsistência nas proximidades dos assentamentos; b) limitação da produção de alimentos, o que muitas vezes favoreceu deslocamentos planejados como forma de garantir a sobrevivência da população (Schmitz 1984). Seguindo este raciocínio, Schmitz et al. (1989) propõem um modelo de assentamentos baseado na disponibilidade de recursos alimentares: os tempos de chuva representariam maior abundância de alimentos vegetais, obtidos através da coleta, o que garantiria a concentração dos caçadores-coletores em abrigos; em períodos secos, recorreriam a uma maior dispersão populacional, acampando a céu aberto ou em pequeníssimos abrigos, a exemplo dos existentes em Caiapônia e no alto Araguaia.

A subsistência dos grupos relacionados à Tradição Serranópolis, embora também esteja baseada em atividades de caça e coleta generalizadas, também está voltada para o consumo de moluscos terrestres, encontrados em grande quantidade face às novas condições climáticas holocênicas no interior do continente (Schmitz 1984). Contudo, a ênfase dada à utilização de moluscos na dieta alimentar deve ser vista com cautela, pois há possibilidade deles também estarem nas camadas estratigráficas por ação natural ou que tenham sido transportados por outros animais. Isto porque, com base em uma dieta alimentar estruturada no consumo de gastrópodes terrestres e fluviais, foi elaborado um modelo que considera o aumento da umidade como fundamental na multiplicação desses moluscos, o que, por conseguinte, teria levado os grupos caçadores-coletores a diversificarem sua dieta alimentar (ver Barbosa 1981-1984).

Sobre o sistema tecnológico dos grupos caçadores-coletores, de acordo com Fogaça (1991), muitos dos estudos realizados não tiveram a preocupação, por exemplo, com dados referentes a elementos envolvidos em uma cadeia operatória de elaboração do instrumento, estratégias de obtenção de matérias-primas, técnicas de lascamento, entre outros. Apesar disso, sabe-se que a tecnologia desses caçadores-coletores era simples e, com base nos materiais preservados, percebe-se o predomínio de instrumentos líticos e, em menor escala, ósseos; é também provável que tenham utilizado peles e tendões de mamíferos, penas de aves, madeira etc. No entanto, devido provavelmente à má preservação desses materiais, pouco restou como testemunho material.

A indústria lítica do Complexo Dourado, por exemplo, é caracterizada por lascas de percussão dura, ocasionalmente apresentando trabalho secundário por pressão; dentre os instrumentos, foram encontrados lâminas de bifaces e diversos tipos de raspadores (Miller 1987).

Na Tradição Itaparica, os artefatos de material ósseo estão representados por espátulas feitas a partir de restos de cervídeos e outros mamíferos. A matéria-prima para a confecção dos artefatos líticos e sua localização está ligada à disponibilidade local (arenito silicificado, quartzito e outros), já que foram encontrados nos alcantilados dos próprios abrigos ocupados (Souza et al. 1981-1982; Schmitz et al. 1989). A caracterização desta indústria lítica é enfatizada pela pouca quantidade de pontas líticas. Esta idéia levou à hipótese de que existiria no Brasil, mais precisamente nas regiões Centro-Oeste e Nordeste, um horizonte Paleoíndio com ausência, ou pouca quantidade, de pontas de projéteis; outro horizonte, com maior quantidade dessas pontas, estaria localizado no planalto meridional (Schmitz 1978-1980). Hoje em dia, com o desenvolvimento de novas pesquisas, esta tese vem se tornando cada vez mais insustentável: pontas de projéteis em sílex e quartzo foram encontradas na bacia do Paranã (Souza et al. 1981-1982; D. Martins 1998); para o sítio GO-JA-01, localizado em Serranópolis, Schmitz et al. (1989) mencionam uma ponta de projétil com armação de osso; no planalto de Maracaju e região do alto Paraná, em Mato Grosso do Sul, também foram encontradas pontas de projéteis (G. Martins 1996; Kashimoto 1997). Outros instrumentos podem ser destacados; todos foram confeccionados por percussão direta, a partir do uso de percutores duros, percutores pequenos discoidais, além de instrumentos alisados e picoteados; os artefatos mais freqüentes são os unifaciais que, de um modo geral, apresentam uma face plana, não-trabalhada, e outra convexa, transformada: faca unilateral e bilateral, furadores, buris, raspadores de bico plano-convexo, raspadores terminais plano-convexos, bifaces, bicos, picões, grandes raspadores, lâminas de machado lascadas, instrumentos bifaciais (Simonsen 1975; Schmitz et al. 1982; Schmitz 1984). Enfim, a discussão em torno da existência ou não de um horizonte Paleoíndio no Centro-Oeste, assim como em outras regiões do Brasil, ainda é motivo de muitas controvérsias, conforme enfocou Schmitz (1999a) em recente artigo.

Na Tradição Serranópolis, a tecnologia de instrumentos líticos é sensivelmente modificada, caracterizada por uma indústria lítica tecno-morfologicamente mais simples. Portanto, não está mais enquadrada no esquema tipológico proposto para a tradição anterior. O desaparecimento dos instrumentos anteriores é interpretado pelas modificações das variáveis ambientais do Altithermal, que exigiria, segundo Barbosa (1981-1982), um novo modo de adaptação tecnológica; esta idéia vale-se de um determinismo ambiental para explicar uma dinâmica sociocultural complexa. Neste período, não são mais observados os bem elaborados artefatos laminares, que passam a ser substituídos por lascas, usadas predominantemente sem qualquer retoque; ressalta-se novamente a raridade das pontas. Outros artefatos são destacados: goivas; bicos raspadores, pequenos laterais e terminais; perfuradores; pontas de entalhe; cunhas; plainas; buris; talhadores; formões; quebra-cocos etc. As espátulas de ossos também desapareceram, surgindo alguns anzóis e artefatos feitos a partir de carapaças de moluscos (Barbosa 1981-1982).

A hipótese de continuidade, dos caçadores-coletores tardios aos agricultores e ceramistas portadores da Tradição Una, já mencionada anteriormente e observada através de sucessões estratigráficas, é constatada apenas em algumas áreas do Centro-Oeste: alto Araguaia e bacia do rio Vermelho (Wüst 1990). Certas características presentes entre os grupos caçadores-coletores mais recentes corroboram esta hipótese, pois representam elementos de transição de grupos caçadores-coletores para agricultores: implantação em áreas de mata/cerrado, acesso a recursos mais diversificados e solos melhores e mais propícios ao cultivo. Moreira (1981-1984), baseando-se nos dados de um único corte estratigráfico feito no sítio GO-JA-01, explica que o declínio dos produtos alimentares de origem animal pode estar relacionado com o consumo dos produtos cultivados, os quais gradualmente teriam favorecido um aumento do tamanho dos assentamentos.

Há ainda alguns aspectos sociais e ideológicos que merecem um breve destaque. Observa-se que os mais antigos esqueletos humanos do Centro-Oeste, provenientes de escavações controladas, são de grupos caçadores-coletores da região de Serranópolis. Ali, os enterramentos são primários: mortos eram enterrados em posição fletida, deitados sobre um dos lados e podiam ter o corpo coberto por blocos de pedras. Há dados de enterramentos de indivíduos adultos e, em menor proporção, de crianças; atestou-se ainda a presença de acompanhamentos funerários, como um conjunto de contas vegetais, sobre o corpo de uma criança e de um jovem pertencentes a caçadores-coletores mais recentes.

OS AGRICULTORES E CERAMISTAS: ASPECTOS GERAIS

No Centro-Oeste, à exceção do Pantanal e adjacências, a presença de grupos agricultores e ceramistas está caracterizada, até onde sabemos, por cinco tradições: Una, Aratu [9] , Uru, Tupiguarani, Bororo e Inciso Ponteada. Outras tradições, porém, podem existir, mas não foram detectadas até o presente momento. Este pode ser o caso das regiões do planalto de Maracaju-Campo Grande, planalto da Bodoquena e bacia do Paraná, em Mato Grosso do Sul, onde as pesquisas em grande parte iniciaram-se nos anos 90 e, por conseguinte, muitas áreas ainda não foram extensiva e intensivamente prospectadas.

Estudos recentes, como os de González (1996a, 1996b), baseados não somente em fatores geográficos, consideram grande parte da região Centro-Oeste como uma área de confluência para onde grupos ceramistas de regiões distintas se teriam deslocado. Dentre esses grupos, deve-se mencionar os portadores da Tradição Tupiguarani, comumente correlacionados a grupos lingüisticamente Tupi-Guarani, originários da Amazônia, que, ao atingirem o Centro-Oeste favoreceram a existência de uma situação de pressão diante de outros grupos já estabelecidos na região (ver Brochado 1984, 1989; González 1996a) [10] . Esta situação é observada em alguns fenômenos de sítios arqueológicos em Goiás e Mato Grosso, entre os quais pode ser destacada a pouca ocorrência dos sítios tipicamente Tupiguarani em relação aos assentamentos que apresentam elementos de fusão e/ou empréstimo de unidades socioculturais diversas, isto é, sítios multicomponenciais. Há ainda a ocupação ocasional do topo de elevados morros que indicam estratégias defensivas (Wüst e Vaz 1998). Interpretações sobre os deslocamentos dos Tupi, de caráter difusionista, consideram que o planalto central estaria cercado por rotas de grupos Guarani e Tupinambá, representantes da Tradição Policrômica da Amazônia, da qual se teria originado a Tradição Tupiguarani (Brochado 1984, 1989). Esses grupos se teriam deslocado, respectivamente, em direção norte-sul e nordeste, descendo pela faixa litorânea até o atual Estado de São Paulo. Há ainda a possibilidade de um outro deslocamento a partir do noroeste da Amazônia, dirigindo-se no sentido centro-sul e sudeste (Susnik 1975). Finalmente, a região do vale do São Lourenço representaria uma outra área de pressão dos portadores da Tradição Tupiguarani no Centro-Oeste.

Dentre as ocupações ceramistas mais antigas, merecem destaque as relacionadas aos grupos portadores da Tradição Una, no sudoeste goiano e na bacia do Paranã, com datações em torno de 1.000 AP (Souza et al. 1981-1982; Schmitz et al. 1989) [11] . Em Mato Grosso, a ocupação ceramista mais antiga está representada pelos sítios Ferraz Egreja e MT-SL-72, ambos localizados em Rondonópolis e com datas em torno de 2.000 AP (Vilhena-Vialou e Vialou 1994; Wüst e Vaz 1998).

Segundo González (1996a), as datações disponíveis para os grupos da Tradição Una apontam dois momentos distintos de ocupação: um, dos últimos séculos a.C. até o início da Era Cristã (alto Araguaia e médio Tocantins); outro, em um período mais recente, de 720 a 1.210 d.C. (Tocantins, vale do rio Vermelho e baixo Paranaíba). Esta tradição também está presente em diversas regiões circunvizinhas: Bahia, Tocantins e norte e sul de Minas Gerais (Schmitz e Barbosa 1985).

Em períodos mais recentes e, por conseguinte, com características ambientais peculiares, iniciaram-se as ocupações dos grupos portadores da Tradição Aratu, os quais foram parcialmente contemporâneos dos da Tradição Una. Os grupos portadores dessas duas tradições ceramistas, juntamente com os portadores das tradições Uru e Tupiguarani e grupos do alto Xingu, são genericamente caracterizados como grupos das grandes aldeias.

A Tradição Aratu localiza-se desde o litoral de Pernambuco, Bahia e Espírito Santo até o interflúvio dos rios Araguaia e Tocantins e, no sul, até o rio Paranaíba (Wüst 1990). Em Goiás e Mato Grosso esta tradição está representada principalmente nas seguintes regiões: partes central e oriental de Mato Grosso Goiano, altos afluentes do Tocantins, Paranaíba e Araguaia; regiões dos rios Uru e Corumbá (em Goiás); bacia do Paranã e município de Orizona [12] . O momento mais antigo apresenta datas ao redor do século 9 da Era Cristã, entrando em colapso muito antes do início da Conquista Ibérica.

A Tradição Uru, cujas origens podem estar relacionadas ao grupos do alto Xingu (Irmhild Wüst, comunicação pessoal, 1999), ocorre desde o vale do Araguaia até o sudeste de Mato Grosso, além de sítios localizados na bacia do alto Tocantins. Quanto às datações, em Mato Grosso são do século 8 d.C., enquanto em Goiás a data mais antiga é do século 12 d.C. Há hipóteses de que a Tradição Uru tenha chegado até o início da Conquista, podendo alguns sítios mais recentes estarem associados aos índios Karajá (Wüst 1975). Os sítios Bororo localizam-se em Mato Grosso (alto e médio Vermelho) e estão correlacionados a uma fusão de diversas matrizes e culturas étnicas, entre elas as dos grupos portadores das tradições Uru e Tupiguarani (Wüst 1990). Na região do alto Xingu, pode ser destacado o material da lagoa de Miararré, classificado como pertencente a grupos da Tradição Inciso Ponteada da bacia do Amazonas e relacionado às grandes aldeias estudadas por Henckenberger (1998), Becquelin (1993) e Simões (1967), cujas datações mais antigas são do século 11 d.C.

OS AGRICULTORES E CERAMISTAS: ASSENTAMENTOS, SUBSISTÊNCIA,

TECNOLOGIA E ASPECTOS SOCIAIS E IDEOLÓGICOS

A respeito da implantação de sítios dos grupos agricultores e ceramistas na paisagem, dados apontam que os portadores da Tradição Una estabeleceram-se em ambientes de relevo acidentado, com predomínio de áreas de cerrado, e ocuparam as camadas mais superficiais de grutas e abrigos rochosos, às vezes os mesmos utilizados pelos antigos caçadores-coletores. Há também registros de ocupações em áreas abertas, nas cercanias do rio Claro, próximo a Jataí, além de outros sítios existentes na bacia do Paranã. No entanto, observa-se que as idéias apresentadas também não consideram as áreas de entorno dos assentamentos, as quais, como já frisamos anteriormente, estão relacionadas à captação de recursos alimentares e matéria-prima.

O desenvolvimento do cultivo, bem como da tecnologia de produção de artefatos cerâmicos, contribuiu para o adensamento dos grupos pré-coloniais na região.

Em relação às demais tradições, o número de sítios da Tradição Una é bastante reduzido em relação ao total de sítios ceramistas registrados no Centro-Oeste. Assim como em outros casos, esta situação também pode ser explicada pela baixa visibilidade dos sítios em áreas de florestas e a adoção de prospecções oportunísticas no levantamento arqueológico (González 1996a). A localização dos sítios em ambientes fechados, os estratos arqueológicos pouco espessos e o material neles encontrado levaram os pesquisadores à apresentação de diferentes interpretações sobre a função desses assentamentos: cerimonial (Simonsen et al. 1983-1984); habitação semi-permanente (Schmitz e Barbosa 1985); habitação (Schmitz et al. 1986); de função não-residencial (Wüst 1990).

No que diz respeito aos sistemas de subsistência, os grupos da Tradição Una mantiveram uma agricultura incipiente iniciada por caçadores-coletores tardios (Wüst 1983). No sudeste de Mato Grosso, este período de transição, de caçadores-coletores para agricultores, é atestado por práticas agrícolas em um contexto acerâmico, também indicado pela mudança no padrão de assentamento; um exemplo é o sítio MT-SL-37, com uma data de 2.570±70 AP. Ademais, outras características dos sítios ¾ localização em áreas de transição entre mata e cerrado, morfologia, presença de solos argilosos e a esporádica ocorrência de artefatos cerâmicos e líticos polidos em sua superfície ¾ indicam ser de caçadores-coletores em transição para a agricultura. No sudoeste de Goiás, alguns sítios indicam que esses grupos cultivaram diversas plantas (milhos, cucurbitáceas, amendoim etc.) e, em escala considerável, mantiveram ainda atividades de coleta de vegetais, apanha de moluscos e caça de animais, em complementação à sua dieta alimentar (Schmitz 1976-1977; Schmitz e Barbosa 1985) [13] .

Na cerâmica da Tradição Una há recipientes pequenos, de contorno simples ou infletido, cor escura, forma de pratos rasos, tigelas e pequenas panelas com engobo branco ou vermelho e raras decorações dos tipos inciso e ponteado; a espessura das paredes varia entre 0,3 e 1 cm; o antiplástico predominante é mineral e, em menor proporção, cariapé e partículas brancas de origem animal, ainda não identificadas (Wüst e Schmitz 1975).

Posteriormente, aproximadamente no século 9 a.C., a região é ocupada por grupos numerosos, os da Tradição Aratu, que construíram grandes aldeias anulares. Os sítios desses grupos, por sua vez, localizam-se em ambientes abertos, de relevo ondulado suave a forte, geralmente em ambientes de mata e raramente nos de cerrado; não há registros de ocupações em abrigos para estes grupos. Em sítios da bacia do Paranã há registros de sepultamentos localizados em grutas próximas às aldeias, estas últimas situadas a céu aberto (Simonsen et al. 1983-1984).

Estudos mais recentes, também preocupados com a espacialidade dos sítios na paisagem e com o sistema de assentamento, interpretam o padrão ocupacional dos grupos ceramistas como um sistema amplo, ao qual estão vinculadas várias classes específicas de sítios (ver Wüst 1983, 1990; Mello et al. 1996). Exemplo disso são as investigações realizadas na região goiana de Corumbá, feitas por Mello et al. (1996), que localizaram sítios de grupos portadores da Tradição Aratu nas proximidades de rios de porte médio a grande, como é o caso do rio Corumbá (GO). Até há pouco tempo, a literatura arqueológica regional explicava a adaptação desses grupos basicamente a regiões de rios perenes e áreas de cabeceiras dos rios (Schmitz et al. 1981-1982; Schmitz et al. 1982).

Outrossim, as primeiras pesquisas no Centro-Oeste vinculam a ocupação dos grupos ceramistas das grandes aldeias a ambientes de solos propícios à agricultura, uma vez que sua dieta alimentar estava baseada em produtos cultivados. Todavia, pesquisas incluindo análises de solo e a implantação dos sítios na paisagem têm demonstrado que nem sempre os sítios ocorrem nesses locais. Atualmente, há o entendimento de que o deslocamento dos assentamentos não está necessariamente relacionado ao esgotamento de solos, o que implica em explicações alternativas para a mobilidade espacial dos grupos (Wüst 1983).

Com efeito, as abordagens mais recentes, ao considerarem a complexidade dos ecossistemas existentes no Centro-Oeste e, principalmente, as diferenciações socioculturais dos grupos agricultores que ali se estabeleceram, tendem a adicionar aos elementos ambientais (solo, relevo, vegetação, fauna etc.) dados relacionados à disponibilidade e ao potencial dos recursos de uma determinada área; consideram que seu aproveitamento segue processos de decisões estabelecidos por padrões socioculturais, nos quais o equipamento tecnológico e o contingente populacional constituem elementos que também devem ser levados em conta (Wüst 1983).

Para os grupos da Tradição Aratu, que ocuparam ambientes abertos, verificam-se grandes aldeias localizadas sobre encostas suaves de colinas nas proximidades de cursos d’água de porte variado. As aldeias, formadas por diversas concentrações de refugo, principalmente cerâmico, apresentam-se nas formas circular, oval ou em ferradura, em áreas que variavam de 13.000 m2 a 345.000 m2, formadas por dois ou três anéis concêntricos, sendo o interno o mais antigo (Silva et al. 1997; Wüst e Barreto 1999) [14] . Baseando-se nas áreas dos sítios grandes e pequenos, Wüst (1983) e Mello et al. (1996) supõem que o contingente demográfico seria em torno de 150 a 2.000 pessoas, segundo dados referentes às regiões de Sanclerlândia e do rio Corumbá, em Goiás. Também estão presentes sítios pequenos, constituídos por uma única mancha. Há várias interpretações sobre as diferenças de tamanho dos sítios: a) são contemporâneos e as aldeias grandes representam sítios de habitação, enquanto os menores estão relacionados a sítios de exploração específica, ocupados por algumas pessoas do grupo maior e por um determinado período, modelo este proposto para grupos da Tradição Aratu na região de Corumbá, em Goiás, e Mato Grosso Goiano (Wüst 1983; Mello et al. 1996); b) sítios de habitação pequenos representam um mecanismo de defesa, cisões grupais, contra as incursões dos primeiros colonizadores e/ou mesmo declínio populacional ou contato com outros grupos étnicos (Wüst 1983; Mello et al. 1996); c) as diferenças no tamanho dos sítios também podem indicar hierarquias entre aldeias, relacionadas a uma centralização política (Wüst e Carvalho 1996).

Na região de Mato Grosso Goiano, há registros de sítios de habitação, localizados no alto de colinas, sem características de assentamentos de exploração de matéria-prima ou de produtos alimentares, mas com conotação defensiva; sua posição estratégica no relevo também poderia representar a demarcação de território (Wüst 1983, 1990). Os depósitos arqueológicos com até 30 cm de espessura indicam uma relativamente curta duração ocupacional, ao passo que os de até 60 cm indicam uma permanência estimada de duas a três gerações. Com base nesses dados, Wüst (1983) avalia que na região Centro-Oeste o ambiente não foi determinante no tempo de permanência no sítio. Também de conotação defensiva destacam-se as grandes aldeias do alto Xingu, as quais apresentam estradas e valetas que contornam a periferia de algumas das aldeias pré-históricas da região (Heckenberger 1998).

O principal sustento dos grupos da Tradição Aratu esteve em produtos agrícolas, com destaque para milhos, feijões e tubérculos, embora com a ausência de mandioca amarga (Schmitz 1976-1977; Schmitz e Barbosa 1985). A presença de sítios de atividades limitadas pode, também, estar relacionada à existência de roças mais distantes da aldeia principal, bem como à exploração de produtos obtidos através das atividades de caça e coleta. Ressalta-se que dados sobre a função dos sítios devem estar acompanhados da análise da implantação dos assentamentos no ambiente, sua localização diante da compartimentação fitogeográfica da área, densidade do refugo e aspectos morfológicos do sítio (Wüst 1983).

Sobre a tecnologia dos grupos ceramistas que ocuparam o Centro-Oeste brasileiro, a inter-relação dos diversos elementos apontados, como o cultivo de plantas e o crescimento populacional, exigiu novos acréscimos ao sistema tecnológico então conhecido. A manipulação da argila para a confecção de recipientes cerâmicos é um exemplo desta nova realidade. No que diz respeito à indústria lítica, percebem-se vários acréscimos necessários à prática da agricultura, sobretudo a utilização da técnica de polimento e o surgimento de novos instrumentos (Schmitz et al. 1986). Entre as tradições Aratu e Uru, por exemplo, notam-se vários elementos comuns em sua indústria lítica: percutores de seixos, quebra-cocos, polidores, raspadores laterais, lâminas de machado polidas com garganta e semilunar, mãos-de-pilão polidas e martelos. A indústria de lascas é reduzida e geralmente limita-se ao uso de lascas sem trabalho secundário (Wüst 1983). Essas semelhanças correspondem a instrumentos líticos básicos e característicos de grupos agricultores. Por outro lado, há diferenças sutis como talhadores uni e bifaciais, furadores, entre outros, para a Tradição Uru, e mãos-de-pilão picoteadas, tembetás de corpo médio e longo, entre outros, para a Aratu (Schmitz et al. 1982).

Cabe ressaltar que, na maioria das pesquisas realizadas no Centro-Oeste, sobretudo em Goiás com os primeiros programas de pesquisa arqueológica, a análise dos instrumentos líticos não acompanhou a ênfase dada às peças cerâmicas. Em campo, a coleta de material arqueológico foi direcionada ao recolhimento de material cerâmico. É certo, porém, que esta abordagem não reflete a situação atual das pesquisas na região, embora dificulte as interpretações mais apuradas sobre o sistema tecnológico e as inter-relações existentes nas sociedades agrícolas pré-coloniais. Entretanto, as coleções cerâmicas existentes em acervos de instituições de pesquisas são grandes, assim como o número de publicações a respeito, embora suas interpretações mereçam ser revisadas à luz de novas propostas metodológicas.

Na Tradição Aratu, grande parte dos recipientes é maior que os dos grupos anteriormente tratados. Foram confeccionadas vasilhas periformes, esféricas ou elipsóides grandes. As bordas dos recipientes não apresentam reforço e as bases apresentavam-se arredondadas, côncavas ou furadas. São comuns as formas grandes, que comportam de dezenas a centenas de litros, embora sejam quase inexistentes os grandes pratos ou assadores. Uma outra forma característica é um pequeno vasilhame geminado [15] . Destacam-se ainda rodelas de fuso, carimbos e cachimbos tubulares. As decorações são poucas: inciso, entalhe, ungulado, ponteado, borda acastelada, asa, aplique mamilonar, banho vermelho e pintura preta. O antiplástico predominante é o mineral, que é substituído gradualmente pelo cariapé (Schmitz 1976-1977; Schmitz e Barbosa 1985). Segundo Mello et al. (1996), esta relação temporal não está presente em toda a região Centro-Oeste, de modo que os aditivos cerâmicos devem ser utilizados com cautela na pesquisa arqueológica, podendo contribuir ocasionalmente para a identificação de grupos culturais, mas não necessariamente serem utilizados como parâmetro cronológico.

Os grupos portadores da Tradição Uru geralmente assentaram-se ao longo dos principais rios, em ambientes abertos e de relevo pouco acidentado; destacam-se as chapadas próximas às margens de lagos de barragem e córregos perenes, com o predomínio da vegetação de cerrado, em solo de baixa fertilidade e altitudes mais baixas (200-600 m) em relação aos assentamentos dos grupos da Tradição Aratu (Wüst 1990). Quanto à sua subsistência, tinham no cultivo da mandioca amarga e nos produtos da pesca os principais sustentos; as atividades de caça e coleta complementavam, em menor escala, sua dieta alimentar (Schmitz e Barbosa 1985).

Sítios da Tradição Uru foram encontrados em ambientes abertos e fechados. Os sítios apresentam formas diversas: concentrações cerâmicas que representam casas plurifamiliares, dispostas em sentido linear. Podem formar até duas fileiras duplas com até 630 m de extensão ou ter formas circulares e elípticas, formadas por diferentes concentrações, de um a três anéis concêntricos com cerca de 500 m de diâmetro e cujo depósito arqueológico não ultrapassa uns 30 cm de profundidade (Schmitz et al. 1981-1982; Wüst 1983, 1990). Em alguns desses sítios, constatou-se uma deposição arqueológica na parte central que poderia corresponder à chamada casa dos homens, local onde foram encontrados artefatos cerâmicos distintos daqueles localizados nas supostas unidades residenciais (Wüst 1990). As aldeias maiores expressariam contingentes demográficos em torno de 1.000 indivíduos, enquanto as menores em torno de 200 pessoas (Wüst 1992).

Os grupos da Tradição Uru confeccionaram vasilhas com formato de pratos e assadores, grandes tigelas rasas de borda reforçada, características do processamento de mandioca, e jarros necessários para estocagem de água, fermentação e conservação de bebidas. As decorações são limitadas, ocorrendo pequenas incisões, ungulações ou entalhes nos lábios ou bordas, apêndices ou apliques, suportes de panelas, pinturas pretas sobre vermelhas, bordas acasteladas, asa ou alça e carimbos. O antiplástico é predominantemente cariapé (Schmitz 1976-1977; Schmitz e Barbosa 1985).

Finalmente, sobre os grupos portadores da Tradição Tupiguarani, sabe-se que eles são de origem amazônica e estiveram presentes em praticamente todo o território nacional e demais países platinos. Observa-se que em Goiás e Mato Grosso há maior predomínio da decoração pintada sobre a plástica (Fensterseifer e Schmitz 1975; Schmitz e Barbosa 1985; Wüst 1990; D. Martins 1996) [16] . Em Mato Grosso do Sul, sobretudo na região da bacia do Paraná, predominam sítios com cerâmica de decoração plástica (Kashimoto 1997; Martins e Kashimoto 1998, 1999a; Veroneze 1993); ainda hoje em dia ali vivem milhares de índios Guarani, distribuídos entre as etnias Kaiowá e Ñandeva.

Os sítios da Tradição Tupiguarani, ao menos os até agora localizados, situam-se em ambientes de mata-galeria ou cerrado, em terrenos aplanados ou em declives suaves, próximos a grandes rios utilizados para atividades de pesca e transporte (Schmitz e Barbosa 1985; González 1996a). Há registros de grupos em ambientes fechados nos Estados de Goiás e Mato Grosso, nos quais fragmentos cerâmicos são observados nas camadas mais superficiais de abrigos e em ambientes abertos; os materiais indicam casos de uma única concentração, a da casa comunal, como é o caso dos sítios encontrados na região da bacia do Paranã (ver Simonsen et al. 1983-1984; Ribeiro 1988; Schmitz et al. 1989; Wüst 1990; D. Martins 1996). É importante ressaltar que os sítios Tupiguarani, se por um lado são poucos e bastante dispersos em certas áreas do Centro-Oeste, por outro estão muito bem representados quando se trata de sítios multicomponenciais. Estes sítios estão localizados em locais habitados, contemporaneamente ou não, por grupos portadores de tradições distintas; isto não significa necessariamente que grupos da Tradição Tupiguarani estejam enfrentando dificuldades em ocupar espaços que, também, estão preenchidos pelos grupos das grandes aldeias que ali já estavam estabelecidos (Schmitz e Barbosa 1985). Acredita-se, no entanto, que esta questão é bem mais complexa, pois a interação grupal, entre os portadores da Tradição Tupiguarani e outros grupos, não pode ser pensada, necessariamente, como de caráter negativo ou unilateral (Mello et al. 1996). No Centro-Oeste, apesar da condição minoritária, grupos tecnologicamente Tupiguarani ocuparam parte da região; formaram sítios exclusivamente Tupiguarani ou sítios multicomponenciais; neste último caso, mantêm presentes suas características culturais, observadas através da continuidade de elementos tecnológicos, mesmo ocupando uma área de território contíguo.

No Estado de Goiás, os portadores da Tradição Tupiguarani subsistiam da agricultura, com destaque para a mandioca (Schmitz e Barbosa 1985). Desenvolveram um sistema tecnológico que claramente os distingue dos demais grupos. Sua cerâmica caracteriza-se pelo emprego do antiplástico de cacos moídos, decoração pintada, com destaque para a policromia, além de uma decoração plástica mais caracterizada pela ocorrência de corrugado e inciso. Os recipientes característicos são vasos rasos e com ombros, bases convexas ou planas e bordas com reforço. Instrumentos líticos lascados também são freqüentes nos sítios; apresentam marcas de técnicas de polimento, além do lascamento uni e bipolar (Schmitz et al. 1989).

A região do alto Xingu, em Mato Grosso, assim como a região Amazônica como um todo, tem sido abordada em diversos debates relacionados à possibilidade de essa área proporcionar ou não recursos para uma base econômica estável, necessária para o sedentarismo e o crescimento populacional. Nesta perspectiva, destacam-se duas possibilidades: uma, defendida por Meggers (1954), considera certos fatores ecológicos, a exemplo da infertilidade dos solos, como barreiras para o desenvolvimento da produção econômica e intensificação dos recursos; outra, elaborada por Carneiro (1956), considera que o cultivo da mandioca, possível mesmo em solos de baixa fertilidade e localizados em terra firme, quando combinado com recursos aquáticos, poderia proporcionar uma base econômica estável e nutricional segura para suportar grandes populações.

As aldeias do alto Xingu apresentam datas ao redor do século 11 da Era Cristã, havendo possibilidade de estarem relacionadas a grupos Arawak, representantes mais antigos da cultura xinguana contemporânea. Os sítios situam-se em áreas selecionadas que proporcionam acesso a diversos cenários ecológicos, como as florestas de terras altas e rios. Os grupos dessa região, diferentemente de muitos outros da Amazônia, particularmente aqueles que utilizam estratégias de deslocamento sazonal e permanente, estão estruturados em grandes e permanentes aldeias, cujas dimensões estão em torno de 800 metros de extensão, sendo ocupadas por cerca de 2.000 pessoas. As aldeias xinguanas geralmente apresentam valetas e elevações artificiais, contornando sua periferia; essas construções refletem um modelo concêntrico de organização espacial, onde o caráter defensivo é notável, enquanto elementos estéticos e simbólicos também devem estar presentes (Heckenberger 1998). Todavia, nas aldeias estudadas por Becquelin (1993), as valetas são de contorno sinuoso e não delimitam totalmente os sítios; isto coloca em dúvida seu caráter defensivo.

Na tecnologia cerâmica, observa-se o emprego do cauixi e cariapé, com associações específicas de areia, conchas e cacos de cerâmica. Como tratamento de superfície, destacam-se decorações pintadas e plásticas, cujas formas relacionam-se com o processamento da mandioca (Heckenberger 1998). Os objetos da lagoa de Miararré parecem não constituir material utilitário, estando relacionados provavelmente a depósitos rituais (Simonsen e Oliveira 1978).

Os sítios Bororo, por sua vez, estão implantados ao longo de rios de maior porte (navegáveis), com elevada piscosidade e solos férteis, próximos às matas ciliares. Em situações não-freqüentes, devido ao contato, estabeleceram-se em cabeceiras de rios e áreas de cerrado. Tinham no cultivo do milho seu principal sustento, complementado pela caça, coleta e pesca (Wüst 1989). Apresentam aldeias de morfologia circular ou elíptica. Na época dos primeiros contatos com os conquistadores europeus, estima-se que a população estava em torno de 10.000 indivíduos e que nos anos 90 contavam com aproximadamente 800 pessoas (Cook 1908 apud Wüst 1990).

A cerâmica Bororo é caracterizada por recipientes predominantemente utilitários, semi-esféricos, de contornos simples, diversas formas com gargalos e bases redondas. A espessura dos fragmentos varia de 0,5 a 0,9 cm; a superfície apresenta tom enegrecido, tendo como antiplástico diversos tipos de cinzas vegetais (Wüst 1989).

Por último, mas não menos importante, é oportuno tecermos algumas considerações sobre aspectos sociais e ideológicos dos grupos ceramistas que ocuparam o Centro-Oeste em tempos pré-cabralinos.

Nos grupos ceramistas e agricultores, os aspectos sociais estão marcados por vários elementos, entre os quais pode ser destacada a própria forma das grandes aldeias anulares. A morfologia desses sítios reflete um padrão particular de sistema social, onde é possível perceber várias esferas sociais ¾ a praça central, as casas ou a periferia ¾ e os universos feminino e masculino (Wüst e Barreto 1999). As concentrações cerâmicas são entendidas como locais de habitação ou áreas próximas a estes. Neste sentido, estas áreas estariam relacionadas a atividades de preparo de alimentos e, portanto, vinculadas ao universo feminino, enquanto a produção de artefatos líticos estaria relacionada ao universo masculino. O pátio central, na maioria das vezes sem evidência de deposição arqueológica, seria um local público, onde eram realizadas atividades não relacionadas à economia e onde categorias femininas e masculinas teriam papéis específicos. A presença de urnas funerárias, em áreas situadas atrás dos espaços residenciais, indica uma função relacionada à prática de sepultamentos (Wüst 1983).

Dados sobre a proporção de ordem de grandeza e do espaçamento dos sítios indicam que no universo social dos grupos agricultores e ceramistas não havia uma centralização na organização sócio-política e econômica. Cada comunidade local estaria representada por um grupo econômico e político autônomo, sem especialização artesanal, ou seja, havia um sistema segmentário, ocasionalmente expresso por uma divisão de trabalho, em nível de unidades domésticas, que valorizavam extensas redes de relações extra-culturais (Wüst e Carvalho 1996). A presença ocasional de artefatos intrusivos indica a existência de redes extra-comunitárias e extra-culturais. Isto demonstra que os grupos do Centro-Oeste não eram unidades fechadas, mas propensas a constantes fluxos não só de bens como de informações e pessoas (Wüst 1983, 1990). A intensidade do contato entre grupos portadores de tradições tecnológicas diferentes pode ser observada pela presença de sítios multicomponenciais, a exemplo de sítios onde há elementos Uru com Tupiguarani, Bororo com Uru, entre outros (Fensterseifer e Schmitz 1975; Wüst 1990).

Ademais, interpretações sobre organização cultural do espaço, em nível intra-sítio, têm apresentado padrões de disposição da cultura material que normalmente não seriam percebidos por análises arqueológicas usuais (ver Mello et al. 1996; Viana 1996; Wüst e Carvalho 1996). Os dados obtidos reforçam um novo paradigma para a pré-história do Centro-Oeste: demonstram que as sociedades agricultoras e ceramistas não podem ser interpretadas, de forma generalizada, como simétricas e igualitárias, mas que explanações acerca das diferenças e da complexidade de formas possíveis de concepção do espaço vão além de uma adaptação ao meio ambiente; refletem expressões hierárquicas, ou seja, classificações internas entre os membros do grupo, dotados de valores regidos pela dinâmica cultural.

Nesses grupos, as características das práticas de enterramento e o tratamento diferencial entre os sepultamentos atestam uma preocupação com o mundo sobrenatural e uma distinção social entre as pessoas envolvidas. Não obstante, são pouco conhecidas as práticas de enterramento, pois a acidez do solo não permite boas condições de preservação; raramente permitem a identificação de sexo e idade. Outro fator relacionado à escassez de dados é o extravio desses materiais, ora por leigos, ora por encontrarem-se fora do país (Wüst 1990). Foram registradas formas diferenciadas de tratamento com os mortos: enterramentos primários, secundários diretos e secundários em urnas (Schmitz et al. 1989, 1986). Esta variedade de tratamento pode estar relacionada a diferenças no sistema social.

Para a Tradição Una, há um maior número de informações sobre práticas de enterramentos. Isto porque grande parte dos sítios levantados encontra-se em abrigos sob rocha, locais mais favoráveis à preservação de esqueletos humanos. Os dados indicam o predomínio de enterramentos primários, em posição fletida ou estendida, semelhantes aos de grupos caçadores-coletores anteriores. Também existem enterramentos cercados por pedras e cobertos por uma laje, em posição fletida, com ossos marcados de ocre vermelho. Acrescentam-se ainda prováveis sepultamentos secundários diretos, de natureza coletiva e pertencentes a indivíduos jovens. Destaca-se também um enterramento de criança em posição fletida, coberta por grande quantidade de contas de sementes, tendo fincada sobre ela uma marca, interpretada como um possível indicador do local do enterramento. De um modo geral, a forte flexão dos corpos ¾ cabeça muito junto ao corpo, coluna dobrada em arco e pés às vezes em posição forçada, acomodados ao espaço disponível ¾ sugere enterramentos envoltos, como fardos, sempre deitados de lado, preferencialmente o esquerdo (Schmitz et al. 1989). Na região da bacia do Paranã, os dados disponíveis são de sepultamentos em decúbito dorsal, localizados sobre um leito de cinzas, com a cabeça rodeada de blocos calcários e toda a área recoberta por cacos cerâmicos. Ademais, como acompanhamento, registram-se colares de sementes e pingentes sobre placas de moluscos (Simonsen et al. 1983-1984).

Entre os grupos das tradições Aratu, Uru e Tupiguarani, há o predomínio de enterros secundários em urnas, localizadas em áreas de habitação, cemitérios a céu aberto ou em abrigos rochosos, como é o caso da bacia do Paranã. Os acompanhamentos funerários variam desde tembetás a vasilhas cerâmicas, entre outros. Os enterramentos secundários sugerem maior complexidade do universo simbólico; exigem maior dedicação e sofisticação de práticas rituais, as quais representam o fortalecimento de laços sociais e rituais (Wüst 1990).

As manifestações artísticas, por sua vez, também estão diretamente relacionadas ao universo simbólico de grupos pré-coloniais. A análise das manifestações artísticas pré-históricas no Centro-Oeste é bastante complexa e polêmica, pois, ao buscar relacionar as técnicas de execução e o tema representado em tradições já estabelecidas para outras regiões do país, foram estabelecidas associações frágeis, baseadas em números reduzidos de elementos semelhantes. Há, todavia, uma exceção: a Tradição Geométrica, que está bem representada em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul (ver Wüst 1990; Veroneze 1993; Beber 1994; G. Martins 1996).

Sobre a Tradição Geométrica, é importante dizer que ela está caracterizada pelo predomínio de figuras geométricas com a utilização da policromia; figuras zoomórficas e antropomórficas são raras. A distribuição espacial desta tradição compreende os seguintes Estados: Bahia, Pernambuco, Piauí, Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso e talvez Mato Grosso do Sul.

Em Goiás, dominam os estilos Caiapônia e Serranópolis, os quais representam manifestações artísticas com características regionais. O Estilo Caiapônia, localizado no sudoeste de Goiás, está caracterizado pela predominância de figuras em movimento, sobretudo as antropomórficas e, em menor proporção, geométricas e zoomórficas. As figuras geralmente são apresentadas em perfil, sendo que em alguns antropomorfos observa-se o destaque de certos detalhes anatômicos, a exemplo de nádegas, e a ausência de outros, como pés e mãos. Também é comum a representação de instrumentos e indumentárias. Figuras fitomórficas também estão representadas, embora em pouca quantidade. No Estilo Serranópolis, situado um pouco mais ao sul, a maioria das manifestações é de figuras geométricas; são raras as figuras antropomórficas e zoomórficas, geralmente representadas de forma estática em relação ao Estilo Caiapônia (ver Schmitz et al. 1978-1980; Schmitz et al. 1997; Schmitz et al. 1986; Silva 1992).

É importante ainda mencionar os petroglifos presentes no Estado de Goiás, localizados nas regiões de Serranópolis, Caiapônia, bacia do Paranã, região de Jaraguá e Itapirapuã (Schmitz 1981-1982; Souza et al. 1979). Em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, ocorrem petroglifos nas áreas dos rios Araguaia, São Lourenço, Xingu, Guaporé, Negro, Itiquira, Teles Pires, Sucuriú e no planalto Maracaju-Campo Grande (Vilhena-Vialou e Vialou 1989; Wüst 1990; Beber 1994; Pardi 1995; G. Martins 1998; Wüst e Vaz 1998).

Embora seja bastante complexo relacionar manifestações artísticas a determinadas tecnologias líticas ou ceramistas, alguns autores apontam para a possibilidade de grupos caçadores-coletores terem produzido arte. Neste caso, estariam aproveitando os suportes rochosos de abrigos (Simonsen 1975; Schmitz 1984; Vilhena-Vialou e Vialou 1987; Schmitz et al. 1989; Wüst 1990). Nesta perspectiva, a Tradição São Francisco é associada, em Minas Gerais, a grupos agricultores e ceramistas. Os petroglifos, por sua vez, também por serem posteriores às pinturas, foram genericamente associados aos grupos agricultores das grandes aldeias; este é o caso de algumas tentativas de correlação, por exemplo, das gravuras dos abrigos do rio do Peixe aos grupos ceramistas portadores da Tradição Uru. Schmitz et al. (1982) também associam as gravuras sobre os lajedos da bacia do Araguaia aos portadores dessa mesma tradição; a área de maior dispersão dos sítios com petroglifos abrange porções do alto Araguaia, médio Paranã e alto Tocantins.

Enfim, sobre a arte rupestre existente no Centro-Oeste, muito ainda está por ser feito paralelamente ao estudo dos grupos caçadores-coletores aceramistas e agricultores ceramistas que se estabeleceram na região.

CONTINUA EN LA SEGUNDA PARTE



[1] Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – Campus de Dourados (Brasil).

[2] Universidade Católica de Goiás – Instituto Goiano de Pré-história e Antropologia (Brasil).

[3] Os termos pré-história, pré-colonial e pré-cabralino são aqui empregados para referir-se às populações ameríndias anteriores ao contato com os conquistadores europeus.

[4] Os conceitos tradição (grupo de elementos ou técnicas com persistência temporal) e fase (qualquer complexo tecnológico relacionado no tempo e espaço)são aqui utilizados no sentido restrito à tecnologia, seja cerâmica, seja lítica (ver Souza 1997).

[5] AP significa anos Antes do Presente, onde o presente é considerado o ano de 1950.

[6] Maiores detalhes sobre esta questão, ver Prous (1992), Anais da Conferência Internacional sobre o Povoamento das Américas (1996), Lahr e Neves (1997) e Tenório (1999).

[7] Este período corresponde, em parte, ao do Optimum Climaticum ou Altithermal, isto é, a uma fase planetária de aumento de calor em que houve a dissolução de geleiras polares e de cordilheiras (Ab’Saber 1994).

[8] Estudos de ecologia humana indicam que a densidade populacional entre grupos caçadores-coletores é aproximadamente de 35 a 75 indivíduos. Esta idéia leva em conta que o número de indivíduos deve ser abaixo do nível de exaustão dos recursos naturais existentes em um determinado nicho.

[9] A Tradição Aratu corresponde às antigas tradições Aratu e Sapucaí; alguns arqueólogos a citam como Tradição Aratu-Sapucaí.

[10] Tupiguarani (sem hífen) refere-se a uma tradição tecnológica ceramista. O termo Tupi-Guarani (com hífen), por sua vez, é empregado para denominar uma família lingüística.

[11] A datação mais antiga desta tradição é de 410 a.C., no médio Tocantins. Há também uma datação de 2.920 AP, referentes a grupos ceramistas não-pertencentes tecnologicamente à Una, na região de Caiapônia, que, segundo Schmitz et al. (1986), não é confiável por haver a possibilidade de mistura de carvão das camadas mais antigas do sítio.

[12] Há controvérsias sobre a presença de grupos portadores da Tradição Aratu no norte de Mato Grosso (ver Pardi 1995). Uma data obtida por termoluminescência de 1.779 ± 170 AP, para um sítio no sudeste de Goiás, e uma outra de 2.280 ± 60 AP, para a região goiana de Corumbá, sugerem uma antigüidade maior do que a convencionalmente aceita, porém não sendo totalmente confiáveis (ver Andreatta 1985; Mello et al. 1996). Há ainda a hipótese, não-comprovada através de dados arqueológicos, de que grupos portadores da Tradição Aratu tenham dado origem aos Kayapó do Sul (cf. Schmitz 1982; Ataídes 1998).

[13] Até o presente momento, as evidências botânicas mais antigas de milhos e cucurbitáceas foram encontradas na Lapa do Gentio II, Minas Gerais; para este sítio há datas em torno de 1.540 a.C. (Dias 1981).

[14] A forma da aldeia também pode ser observada através de manchas pretas, formadas por acúmulo de material orgânico oriundo das unidades residenciais.

[15] A forma dupla poderia ser um elemento guia na identificação da Tradição Aratu; está representada na Fase Mossâmedes. No entanto, em casos isolados, esta forma ocorre na Tradição Uru e no sítio GO-CA-03 (Schmitz et al. 1982).

[16] Não há dados dessa natureza para a região do Alto Paraná.

 

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