Arquitectura Popular, Ruralidade e Património Construído
A Terra da Maia
José Augusto Maia Marques[1]
Esta comunicação pretende apenas apresentar um ponto de situação de
um projecto de investigação, lançado pela Câmara Municipal da Maia,
a propósito da recuperação, no Concelho, da designada «arquitectura
popular»[2].
Esse projecto assenta, basicamente, em três fases distintas, a
saber
A) Inventariação - O processo de inventariação encontra-se em fase
bastante adiantada, nomeadamente no que diz respeito às habitações
e edifícios adjacentes e aos moinhos de rodízio dos rios Leça e
Almorode, sobretudo aproveitando-se o esforço na concretização da
revisão do Plano Director Municipal. De igual modo outro trabalho
de campo, tal como entrevistas e recolhas de materiais está em bom
andamento. A recolha documental, incluindo a de documentação histórica,
está praticamente concluída[3].
B) Salvaguarda - Os primeiros projectos de salvaguarda aplicáveis
a este tipo de património serão submetidos aos vários programas
de co-financiamento permitidos pelo III Quadro Comunitário de Apoio
(Programa Operacional da Cultura e Programa Operacional do Norte
medida 1.4). Isto significa que as tarefas de recuperação propriamente
dita, para além de algum «tratamento preventivo» de emergência já
realizado, se iniciarão, o mais tardar, no primeiro trimestre de
2001.
C) Valorização - Os esforços de valorização do património da arquitectura
popular passam essencialmente pela atribuição de funções e de ocupação
de espaços. Assim, no caso dos moinhos, por exemplo, é nosso desejo
musealizar alguns exemplares que, pelas suas características, possas
ser considerados paradigmáticos, assim como transformar outros em
centros de interpretação e locais passíveis de apresentar exposições,
não só sobre os moinhos em si mesmos como sobre toda a problemática
da ruralidade na Terra da Maia. O mesmo se aplicará a alguns exemplares
da arquitectura doméstica e das construções adjacentes, sendo que
aqui o «objecto musealizável» pode ser utilizado para fins mais
vastos, desde que conservando a su8s identidade como construção.
Como é evidente, dadas as dimensões da questão (estamos a falar
de mais de centena e meia de imóveis classificados, preventivamente,
como de interesse municipal) não vamos recuperar todos os
moinhos, todas as casas, todos os anexos, etc., etc.
Há um trabalho de recolha de dados e elementos construtivos que
abarca a totalidade destes imóveis e, depois, uma fase de selecção
dos que importa musealizar (recuperar e pôr a funcionar tal como
acontecia), dos que importa recuperar arquitectonicamente (mantendo
a estrutura arquitectónica de base mas dando-lhe outra finalidade)
e aqueles de que importa apenas ou preservar informação ou preservar
elementos arquitectónicos e de construção.
Todas estas tarefas são levadas a cabo de acordo com um projecto
abrangente de estudo da problemática da ruralidade na Terra da Maia,
elaborado pelo Centro de Estudos da Ruralidade da Câmara Municipal
da Maia e executado pela sua Divisão do Património Histórico-Cultural
e do Turismo.
2.1. O âmbito temático - Arquitectura Popular
Um dos aspectos fundamentais de toda a problemática em apreço foi
estabelecer um consenso no que toca ao conteúdo do termo «arquitectura
popular».
Efectivamente o termo popular tem, no "nosso" português,
um conteúdo demasiado abrangente:«relativo ao povo; que é do povo;
que é próprio do povo; que é usado ou comum entre o povo; que é
do agrado do povo; que tem o afecto ou as simpatias do povo; promovido
pelo povo; que provém do povo»[4].
Por arrastamento «arquitectura popular» teria inevitavelmente a
mesma amplitude[5].
Aliás, toda a problemática da denominada «Cultura Popular» se encontra
numa encruzilhada de reformulações, de reposicionamentos e, sobretudo,
de redefinições de âmbitos e de estratégias. A Câmara Municipal
da Maia, consciente da importância de discutir essa problemática,
levou já a cabo dois grandes congressos internacionais, o de «História
Regional e Local», em 1998, e o de «Cuiltura Popular», em 1999,
cujas actas estão já publicadas, e prepara, como o culminar deste
esforço, um outro evento, para 2001 cujo título, provisório, «Buscando
as Raízes», espelha justamente essa preocupação.[6]
Decidiu-se, assim, utilizar, para caracterizar «arquitectura popular»,
o conceito de «arquitectura vernacular», «arquitectura anónima»
ou «arquitectura sem arquitectos», do modo como a caracteriza o
espanhol Pedro de Llano.
Diz aquele autor que[7] "Longe do esquecimento académico, o conceito de arquitectura
abarcou [...] a contemplação de todo o conjunto de transformações
do meio realizadas pelo homem para lograr uma melhor qualidade de
vida, desde os muros, valos e alpendres até à própria casa de habitação".
E, mais adiante, "Esta é uma definição que, repudiando delimitações
«classistas», implica a inquestionável integração no domínio da
arquitectura de todas as construções. Edificações intimamente vinculadasa
gentes que, século após século, foram quem as ergueu, sem mais experiência
do que a tradição, nem mais ajuda do que a da própria comunidade.
Edificações que parecem nascer como um prolongamento da paisagem
e do carácter do homem que as vai habitar, dando lugar a uma arquitectura
que pela sua identificação com cada país e com as mais imediatas
necessidades do seu povo, constituirá um dos seus mais destacados
sinais de identidade"[8].
Assim, nesta relação privilegiada com o meio, nesta característica
«ecológica», reside uma dos principais características distintivas
da arquitectura popular. Arquitectura que, condicionada embora por
limitações de vária ordem, quer material (clima, matérias primas
disponíveis, conhecimentos técnicos...), quer sociocultural (economia,
família, religiosidade...), se desenvolve, tão harmonicamente quanto
possível, respeitando a natureza.
Daí que, tal como Pedro de Llano afirma, se trate, acima de tudo,
de uma arquitectura com raízes. Raízes profundas, diríamos nós,
quer no espaço quer no tempo. Raízes que chegam às nossas próprias
raízes...
2.2. O âmbito geográfico - Terra da Maia
A Terra da Maia tem, territorialmente, um sentido em nada condicente
com o do actual Concelho da Maia.
A Maia dos princípios do século era ainda um extenso território
que se alongava, no sentido meridional, desde as margens do Douro,
a Sul, até ao curso do Ave, a Norte. No sentido transversal ia da
costa a uma pequena linha de elevações de Bougado a Rio Tinto.
Significa isto que à Terra da Maia pertencia a totalidade do concelho
de Matosinhos, todo o concelho de Vila do Conde a sul do Ave, uma
parte de Santo Tirso, de Valongo e de Gondomar e até uma freguesia
do Porto.
Esta era a área da Terra da Maia medieval - 67 freguesias.Já haviam
sido 85.
As reformas introduzidas por Mouzinho da Silveira começam a beliscar
seriamente a unidade territorial da Maia.
Em 1835 o concelho compunha-se de 52 freguesias. Na segunda metade
do século desmembrou-se completamente. Freguesias que lhe pertenciam
engrossaram concelhos vizinhos, alguns dos quais inteiramente formados
à custa da Maia.
Ficou o concelho da Maia reduzido a 16 freguesias: Águas Santas,
Avioso (Santa Maria), Avioso (S. Pedro) Barca, Folgosa, Gemunde,
Gondim, Gueifães, Maia, Milheirós, Moreira, Nogueira, São Pedro
Fins, Silva Escura, Vermoim e Vila Nova da Telha. Só em Outubro
de 1985 se autonomizou, de Águas Santas, a freguesia de Pedrouços,
ficando então a Maia com a configuração geoadministrativa que hoje
tem.
Esta "sangria" territorial descaracterizou completamente
a velha Terra da Maia no que toca ao seu território.
Mas não no que respeita às características do homem e da vida quotidiana.
Toda a área entre o Sul do Ave e o Norte do Douro, dona de um passado
histórico muito rico é, ainda hoje, uma região eminentemente agricolo-piscatória,
com um viver, um sentir, um construir e um laborar extremamente
semelhantes, guardando, ciosamente, a herança da Terra da Maia.
Dentro do vasto e rico património rural da Maia avultam, quer em número
quer em importância, dois tipos construtivos: a «Casa Rural», conceito
cuja definição e taxonomia não é, como de seguida veremos, fácil de
estabelecer, e os moinhos de rodízio, protagonistas do que poderíamos
chamar uma «revolução industrial rural», verdadeiros motores de uma
economia muito característica de toda esta região.
Assim sendo, e dado que mais não se pretende (e mais não é possível)
senão apresentar aqui primeiras abordagens à questão, é exactamente
destes dois tipos construtivos que iremos falar de seguida.
3.1. Os Moinhos de Rodízio.
A Terra da Maia é, por tradição e por factos historicamente documentados,
uma terra fértil. Já fértil na Pré-história. De proverbial fertilidade
entre os romanos. De comprovada fertilidade durante toda a Idade
Média.
Com o evoluir dos tempos, e das técnicas, aproveitando-se a força
da água. aparecem os moinhos de maiores dimensões, de utilização
"colectiva", onde, tal como afirmam Jorge Dias, Veiga
de Oliveira e Fernando Galhano (1959, pp. 21-28.) "A água ao
bater nas penas do rodízio, fá-lo girar accionando desta maneira
a mó que está fixada na extremidade superior do eixo vertical que,
na parte inferior, está cravado no centro do rodízio".
Os moinhos construídos nos rios são frequentemente de utilização
sazonal. No verão, com a diminuição dos caudais, a força da água
não é suficiente para fazer movimentar os rodízios.
á, na terra da Maia, várias soluções para o problema. A
adopção de um depósito de água com uma saída com um jacto forte,
a que se chama seteira; a construção de pequenos moinhos em pedra,
bem no leito dos rios, protegidos, por vezes, por talhamares, e
que, quase submersos no inverno, só funcionam no verão; a combinação
entre moinhos de rodízio e azenhas, sendo que a roda da azenha permite
aproveitar caudais mais pequenos.
O tamanho dos moinhos variava muito, não só tendo em conta
o local onde eram construídos, como também o regime em que seriam
utilizados, e, sobretudo, a produtividade e a acessibilidade do
próprio moinho.
Já na Idade Média a actividade moageira era muito importante na
Terra da Maia. Como afirma Carlos Alberto Ferreira de Almeida (1971,
Vol.I, pp. 73-78) "Em todos os aspectos, técnico, económico,
social e mental eles têm um lugar fundamental na vida medieval".
A grande importância económica do moinho pode demonstrar-se por
um documento de 1102 onde se vende a metade de um moinho por um
cavalo e dois bois. Ora, em circunstâncias normais, o valor de um
casal regularia por um cavalo e uma casa poder-se-ia comprar apenas
por um boi.
No Foral da Maia, manuelino, aparecem várias referências a moinhos,
normalmente associados a casais.
Por toda a Idade Moderna a fertilidade do solo maiato manteve em
funcionamento muitas e muitas dezenas de moinhos, alguns dos quais,
como vimos, de forma sazonal, mas com importância decisiva na economia
da época.
Algum tempo depois, no Inquérito Industrial realizado no Distrito
do Porto em 1855 (MAIA, 1997, pp. 15-16.) aparecem registados no
concelho 401 azenhas e moinhos de farinar o pão, 26 engenhos de
linho e 2 engenhos de azeite, todos eles utilizando a água como
único meio de propulsão.
Em 1880 surgem já dois moinhos a vapor e, no princípio do século,
um a gasóleo.
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| Parte inferior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano) |
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No rio Leça os moinhos atingiam grandes proporções, havendo vários
de dez, doze e quinze pares, e mesmo um de dezasseis.
Podemos já falar de verdadeiras unidades proto-industriais, que
davam trabalho, ao tempo, a cerca de quatrocentas pessoas, número
bastante significativo se atentarmos no total da população que andaria
por volta das dezassete mil almas. Hoje, há vestígios seguros de
48 moinhos, e referências documentais praticamente a outros tantos.
A actividade de um moinho baseia-se na força propulsora da água
que, impelida contra as penas do rodízio, o fazem girar, sendo esse
movimento giratório comunicado ao par de mós através de um sistema
algo complexo de um eixo central.
Há assim, podemos dizer, duas partes distintas num moinho de rodízio:
aquela onde pontificam as mós (parte superior) e aquela onde pontificam
os rodízios (parte inferior).
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Parte superior de um moinho de rodízio (des. Fernando Galhano) |
Assim, a água, vinda directamente do rio ou de um depósito, passava
pelo cubo, canal de descida, entrava a jorrar pela seteira (1) e impelia
o rodízio (2) na Maia frequentemente chamado "pela". A pela
era constituída por penas (3). Rodava sobre um aguilhão (4), tradicionalmente
constituído por dois seixos de quartzito, um deles estreito, rodando
sobre outro, largo, com um orifício. A pela transmitia o seu movimento
de rotação à haste (5) ligada ao veio (6). Deste modo a mó movente
(11) rodava sobre a dormente (12) graças a um entalhe adaptado à segurelha
(10), peça da extremidade do veio. A espessura da farinha controlava-se
graças ao aliviadouro (9) que através da sua trave (8) comunicava
com uma tábua, denominada ponte (7). Dado que o aliviadouro funcionava
em forma de cunha, consoante a cunha estivesse mais dentro ou mais
fora, assim a distância entre as mós seria maior ou mais pequena,
e, logo, a farinha mais grossa ou mais fina.
Na porção superior do moinho, tudo se articulava com este funcionamento.
Com o já referido aliviadouro (9) controlando a espessura da farinha
através da distância entre as mós (11), o ceral era colocado na
moega (13), que, o deixava cair na tremonha ou quelho, vibrando
graças ao movimento da rela ou chamadouro (15) roçando na mó. Este
movimento conduzia o cereal ao centro, oco, da mó, onde era triturado,
caindo depois numa caixa de madeira protegida por uma cortina (16)
para evitar a dispersão da farinha.
Da sistematização expendida na obra Sistemas de Moagem (1983),
podemos inferir que os Moinhos podem ser classificados em dois grades
grupos: Moinhos de Água/Azenhas e Moinhos de Vento.
O segundo, que não nos interessa por agora, subdivide-se em três
sugbgrupos: moinhos de vento fixos, moinhos de vento giratórios
e moinhos de armação em madeira.
Quanto aos primeiros, os moinhos de água, que mais nos interessam,
podem ser de roda horizontal (de rodízio, com penas ou de rodete
submerso) ou de roda vertical, chamados azenhas, sendo estas de
propulsão superior ou média.
Se bem que na Maia encontremos exemplares de ambos os tipos, predominam,
sem sombra de dúvida, os moinhos de rodízio.
Corteesquemático de um moinho de rodízio
da Terra da Maia
Legenda:
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a - MOEGA
b - TREMONHA ou QUELHO
c - RELA OU CHAMADOURO
d - MÓ MOVENTE
e - MÓ DORMENTE
f - SUPORTE
g - SEGURELHA
h - VEIO
i - HASTE
|
j - PELA
k - PENA
l - PONTE
m - TRAVE DO ALIVIADOURO
n - ALIVIADOURO
o - AGUILHÃO
p - CUBO
q - COMPORTA OU PEJADOURO
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3.2. A casa maiata
Casa é o lugar onde se vive com os seus. É como que um cordão umbilical,
espécie de prolongamento do corpo materno, onde habita, geralmente,
a família.
O conceito de «casa» envolve um duplo significado. Por um lado
o de uma construção para servir de habitação a um grupo familiar,
por outro lado o de uma construção simbólica, que se posiciona entre
o corpo e a paisagem (Aguirre, 1993: 96).
A casa possui uma simbologia extremamente rica. Como tudo aquilo
que tem tecto, ela é a materialização de um microcosmos, de um universo
à medida do homem.
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Casa e cozinha maiatas
óleos de Albino José Moreira |
É normalmente constituída, tal como as árvores e o corpo humano,
por três partes distintas (cave, zona de habitação e sótão), sendo
que a cave, tal como o inferno, está debaixo do solo. É um lugar
de reuniões secretas, de con spirações, de obscuridade, de castigo.
O sótão é um lugar misterioso, povoado de recordações e fantasmas,
habitado por boémios, penetrado pela luz do dia, onde guardamos
aquilo que já não nos serve, mas também as nossas recordações.
Entre um e outro situa-se a área de habitação, cujo epicentro
é o «focus» latino (lar, hogar, foyer...), zona dominada pelo fogo
da lareira ou do fogão (comida, calor, luz...), onde a mãe alimenta
os seus.
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Quarto e sala maiatas - óleos de Albino
José Moreira
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Outras duas áreas se apresentam como igualmente carregadas de simbolismo
- o quarto de dormir (locus da noite)e a sala de jantar (locus
do dia).
Quanto ao primeiro, possuindo como peça central a cama e,em contexto
católico encimada por um crucifixo, é não só o lugar do amor e da
vida, através da concepção e do nascimento, mas igualmente o lugar
da morte, do amortalhamento, da ausência.
No que toca à sala, ela estende-se à volta da mesa, lugar colectivo
da alimentação.
A casa tem uma inegável importância económica e urbanística. O
processo dasuaconstruçãomexe coma burocraciaadministrativa, comacriação
artístico/arquitectónica e, após a sua construção, continua ligada
a questões financeiras, fiscais e administrativas.
Dá-se até o caso de, por trás do fluxo migratório que, nos anos
60, assolou a Europa do sul estar a falta de (e a necessidade de)
dinheiro para construir uma casa.
As implicações sociais, psicológicas e mesmo comportamentais da
casa não podem ser descuradas. Para não falar da simbologia e da
semiótica das casas.
A casa-residência é, dessa forma, um elemento determinante no ritmo
vital de uma pessoa ou de um grupo. E se estamos minimamente habituados
a considerar a casa nas suas implicações estéticas, urbanísticas,
económicas, etc., já não é hábito observarmos as suas implicações
nas interacções dos seus ocupantes.
Curiosaé a perspectiva de Abrahams e Dean (1970: 256) que explica
a dicotomia de carga simbólica da palavra «casa» (onde o peso negativo
da falta de casas condignas e a falta de equipamentos é notório)
e da palavra «lar» (o conceito aconchegante, o seguro refúgio).
Segundo aqueles autores, a palavra «lar» compreende diversos elementos:
- pode ser aquela estrutura onde se investem o «ego» familiar e
as suas receitas;
- pode ser um lugar onde é possível exprimir o gosto e a propriedade
pessoais, não só aos olhos dos demais como aos olhos da sua família
e aos de si próprios;
- pode ser uma máquina para facilitar a vida pessoal, realizar
as actividades familiares e aligeirar a rotina quotidiana;
- pode ser um lugar de retiro para a vida privada, para um relaxamento
espontâneo e para uma expressão autêntica, desinibida, dos sentimentos;
- pode ser um bastião emocional contra as ameaças e as inseguranças
de um mundo demasiado grande, demasiado complicado, onde os homens
devem competir com outros homens para abrir caminho;
- pode ser o centro das actividades familiares e da interacção
com os amigos. Pode por isso estar rodeado da atmosfera ligeira
das recordações de infância, dos «velhos costumes» ou de algum outro
significado ainda mais profundo.
Eis uma panóplia enorme de possibilidades, variantes e significados
que nos mostra bem a riqueza do tema. Tema que seria talvez despropositado
aprofundar aqui, mas que, mesmo assim, não quisemos deixar de aflorar,
em chamada de atenção.
De todo o modo, a «casa»/edifício e o «lar»/refúgio, segurança,
conforto, são o locus de habitação do grupo doméstico.
Grupo doméstico que tem como função principal primeiro sobreviver,
depois estruturar-se e reproduzir-se.
Torna-se óbvio, do que fica dito, e do que é sabido, que no que
diz respeito ao aspecto arquitectónico, não há, em Moreira
uma «casa» mas sim várias «casas».
A maior parte das construções, eram térreas ou de andar, de dimensões
médias ou pequenas. As médias, mais abundantes, possuíam geralmente
dois corpos em L de braços desiguais, cobertos por telhados de quatro
águas. Quando existia o andar, o rés-do-chão era utilizado para
guardar alfaias, carros, palha, fruta, vinho, etc., no que se chamava
as "lojas" Por vezes alguma dessas lojas era empedrada.
Também era normal que a cozinha se situasse no rés-do-chão.
O andar possuía normalmente um quarto grande e uma sala ampla,
ao fundo da qual havia uma ou duas alcovas, sem porta, tapadas apenas
com um cortinado.
Era tradicional da Terra da Maia uma escada alpendrada, ou em
linha recta ou em dois lanços fazendo ângulo recto, e com o alpendre
sustentado por colunas, dando acesso ao andar.
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Casa na Refonteira (desenho
de António Matos)
e Planta-tipo
de uma casa da Maia
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Para o patamar dão normalmente duas portas, a da sala e a do quarto
grande. Por vezes este patamar era fechado com um taipal possuindo
uma janela
Só as grandes casas de lavoura fugiam a este padrão. Nestas, era
tradicional o portal em arco, abatido ou de volta redonda, localizados
normalmente na própria fachada da casa, tratando-se, no mais das
vezes, da entrada para o quinteiro. Muitas vezes possuíam, inscrita
na parte superior do arco, uma data e eram dotados de banquinhos
laterais em pedra.
| uturação de uma Casa da Maia (desenho de
Fernando Galhano) |
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Oliveira e Galhano (1992) publicaram vários artigos sobre estas
típicas construções da Terra da Maia.
As casas de categoria média-alta formavam já verdadeiros «complexos
agrícolas». Tratava-se normalmente de propriedades que se desenvolviam
em quatro espaços diferentes.
Um primeiro, a parte da casa de habitação propriamente dita.
Depois, imediatamente a seguir, e normalmente formando um conjunto
murado, toda a panóplia de arrecadações, alpendres, casa da eira,
espigueiro, poço e outras estruturas afins.
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| Casas maiatas - óleos de
Albino José Moreira |
Ainda de seguida ficava, normalmente, uma grande extensão de terra
arável.
Finalmente, espalhados pela freguesia, e até às vezes em freguesias
vizinhas, ficavam os outros campos, bouças, lameiros, etc
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Quinteiro e vista parcial de uma eira
maiata - óleos de Albino José
Moreira
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Um dos elementos de distribuição espacial, e de vivência doméstica,
mais significativos era o quinteiro. O outro era a eira. Mestre
Albino José Moreira retratou-os com uma vivacidade espantosa.
Enquanto no primeiro se desenrolava uma parte das actividades intra-muros,
servindo, aliás de armazém para alfaias, utensílios e outros instrumentos
de trabalho, a segunda era, frequentemente, o verdadeiro coração
das tarefas agrícolas «domésticas», local de reunião e de interacção
não apenas familiar como de vizinhança. E, também, local de diversão,
de poesia, de música, de dança, de namoro, quem sabe mesmo de casamento.
Este esquema, que apresentamos para as casas de lavoura, era seguido,
de perto, pelas casas «urbanas» da classe média. Isto, claro, se
é que, nas condições das aldeias da Maia, e no século XIX e princípios
do século XX podemos falar de casas «urbanas».

Casa no largo da Feira em Moreira - óleo
de Albino José Moreira
No mais das vezes tratava-se, isso sim, de casas construídas à
face da rua e habitadas por famílias que se dedicavam a actividades
não agrícolas.
Mas quer o espírito da construção quer os construtores eram os
mesmos. O resultado final, em termos de distribuição espacial e
cultural não era, por isso, muito distinto.
Como no início referimos, é nossa intenção trazer aqui apenas as
primeiras abordagens a um problema vasto, complexo, apaixonante
e urgente.
Apenas levantamos o véu.
Apenas sugerimos pistas.
Fica por abordar, por exemplo, a problemática das construções anexas,
das construções efémeras e de outras estruturas congéneres

Fica por abordar, por exemplo, o riquíssimo património popular
que são as denominadas casas «de brasileiro», isto é, a arquitectura
dos emigrantes que, no séc. XIX, regressam do Brasil e aqui constróem
os seus «palacetes».
Fica por abordar, por exemplo, a existência de uma «interpretação
local» da Arte Nova, de que é produto o edifício da Cooperativa
Popular de Moreira da Maia.
Esperamos, no entanto, ter demonstrado a importância deste trabalho.
Esperamos, sobretudo, críticas, sugestões, ideias.
ALGUMA BIBLIOGRAFIA
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de Entre-Douro-e-Minho, Vol. I, Para uma perspectivs ecológica,
económica social e mental do Entre-Douro-e-Minho dos séculos XI
a XIII. Porto, Faculdade de Letras (Dissertação de Doutoramento,
policopiada).
CAAMAÑO SUAREZ, Manuel (1999a) - A casa popular.
A Coruña, Museo do Pobo Galego.
CAAMAÑO SUAREZ, Manuel (1999b) - As construccións
adxetivas. A Coruña, Museo do Pobo Galego.
CARVALHO, José Vieira de; MARQUES, José A. Maia (1997) - "A
Comarca da Maia -Uma questão com séculos" in Domvs Ivstitiae.
Maia, Câmara Municipal.
DIAS, Jorge (1964) - "Moínhos" e "Moagem Tradicional",
in Dicionário de História de Portugal, dir. de Joel Serrão,
Vol. III, Lisboa, Iniciativas editoriais.
DIAS, Jorge (1993) - "Moinhos Portugueses" in Estudos
de Antropologia, Volume II. Lisboa, Imprensa Nacional - Casa
da Moeda, pp. 173-219.
DIAS, Jorge; OLIVEIRA, Ernesto Veiga de; GALHANO, Fernando (1959)-
Sistemas primitivos de Moagem em Portugal, I - Moinhos de água
e azenhas. Porto, IAC,.
LLANO, Pedro (1996). Arquitectura Popular en Galicia - Razón
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LISTE FERNÁNDEZ, Aracelli (1991) - Funcionalidad y Estética
en el Museo Etnográfico Liste. Pontevedra, Diputacion Provincial.
LOURES (1994) - Moinhos e Azenhas do Concelho de Loures.
Loures, Câmara Municipal.
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Anegia Editores/Câmara Municipal da Maia.
M.A.R.N., 1994 - Caracterização e Directrizes de Planeamento
dos Recursos Hídricos do Norte - A Bacia Hidrográfica do Rio Leça
(Documento de Trabalho). Porto, Direcção Regional do Ambiente e
Recursos Naturais do Norte/Ministério do Ambiente e Recursos Naturais.
MARQUES, José Augusto - Casas e Grupos Sociais, Braga, Universidade
do Minho, 1999 (dissertação policopiada)
MOUTINHO, Mário (1995). A Arquitectura Popular Portuguesa.
Lisboa, Estampa.
OLIVEIRA, Ernesto Veiga de; GALHANO, Fernando; (1992) - Arquitectura
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OLIVEIRA, Ernesto Veiga de; GALHANO, Fernando; PEREIRA, Benjamim
(1983) - Tecnologia Tradicional Portuguesa - Sistemas de Moagem.
Lisboa, INIC.
PRATS, Llorenç (1997) - Antropología y patrimonio. Barcelona,
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SILVA, Eduarda Moreira da Silva e SILVA, Maria Antónia (1987) -
"Moinhos do rio Sousa no Concelho de Paredes, Revista de Ciências
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VITERBO, Francisco de Sousa "Archeologia industrial Portuguesa
- Os moinhos", O Archeologo Português, Vol. II, Nºs
8 e 9, pp. 5-16
NOTAS
[1] Da Câmara Municipal
da Maia e do ISMAI - Instituto Superior da Maia
[2] Os meus estudos sobre
esta temática devem muito a várias colaborações. Em primeiro lugar
aos óleos ingénuos de Mestre Albino José Moreira que são como
que um verdadeiro retrato vivo de um tempo que já passou, pelo
qual ele passou, e que, graças à sua perspicácia e criatividade,
não deixou que passasse por nós. Depois, a alguns desenhos do
amigo António Matos, brilhante ilustrador e aguarelista. Finalmente
ao labor do André Tomé Ribeiro, companheiro incansável destas
lides. Este trabalho não é excepção àquela regra.
[3] Tanto quanto, como
é evidente, podemos considerar concluído qualquer tipo de recolha.
[4] Veja-se por exemplo
o Dicionário Enciclopédico Alfa, Vol. II. Lisboa, Publicações
Alfa, 1992, p.945.
[5] Isto para não entrarmos
pela discussão, praticamente infindável, mas que aqui sem dúvida
não cabe, do conteúdo significativo da palavra «povo».
[6] Sobre esta temática
é fundamental e indispensável o trabalho de Augusto Santos Silva,
Tempos Cruzados. Um estudo interpretativo da cultura popular.
Porto, Afrontamento, 1993, nomeadamente o capítulo "Construção
social e reconstrução sociológica da Cultura Popular", pp.
97-140.
[7] Pedro de Llano. Arquitectura
Popular en Galicia - Razón e Construcción. Santiago, Colexio
de Arquitectos de Galicia, 1996, p. 15.
[8] Este papel, fundamental,
da arquitectura popular como factor de identidade, está bem presente
na Maia, quer através da sua arquitectura «tradicional» quer,
por exemplo, da arquitectura «dos brasileiros», a que aludiremos,
muito brevemente, no decorrer do texto. E é, por outro lado, cada
vez mais importante à medida que a nossa identidade se vai diluindo
na progressiva europeização e consequente globalização a que estamos
sujeitos.
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