A
fluxização da umbanda carioca e do candomblé baiano em Terras Brasilis e a reconfiguração dos campos afro-religiosos locais.
Luís Felipe Rios[1]
Pensando o fenômeno
da globalização, alguns autores têm analisado o movimento de expansão das religiões
afro-brasileiras para outros países da América Latina (Oro, 1998; Frigerio,
1998; entre outros), América do Norte e Europa (Pordeus, 1998; Freitas, 1998,
1999a e 2000) e mesmo, para a sua mítica terra de origem, a África (Carneiro
da Cunha, 1985; Carneiro da Cunha, 1985; Olinto, 1980; Guran, 2000). Não obstante,
aqui mesmo no Brasil um outro movimento de expansão acontece. A umbanda carioca
e o candomblé baiano, religioscapes[2] eleitos
pela academia e mídia como modelos nacionais de religiões afro-brasileiras,
espraiem-se por todo o país, alcançando territórios bem marcados por modelos
próprios de religiosidades afro-brasileiras, como o tambor de mina no Maranhão,
o batuque no Rio Grande do Sul e o xangô[3] e
a jurema[4] em
Pernambuco.
Tendo o nosso olhar voltado
para este último território, examinaremos neste trabalho as trajetórias das
supracitadas formas religiosas e sua entrada em Pernambuco mais precisamente
no grande Recife, enfocando as determinações da chamada condição global
nas novas configurações apresentadas no campo religioso afro-brasileiro.
Conforme Appadurai (1999), embora os contatos entre regiões, culturas
ou sociedades não sejam nada novo[5],
o que vai caracterizar a dimensão cultural da globalização são a mediação eletrônica
e as migrações massivas; que, em conjunto, criam um novo campo de forças para
as relações sociais a nível global. Assim, diz ele, funcionamos em um mundo
caracterizado fundamentalmente por objetos em movimento; pela aceleração da
fluxização de bens/capital, idéias, imagens, pessoas/grupos e tecnologias. O
que em outro momento (Appadurai, 1994) chamou finançopanoramas , idopanoramas,
midiopanoramas, etnopanoramas e tecnopanoramas; aos quais, nos, na esteia de
Segato (1994), acrescentaremos os religiopanoramas. Continuando com o pensamento
de Appadurai (1994), vejamos como este caracteriza o que denominou como panoramas:
O bloco construtivo daquilo que, ampliando o que
afirmou Benedict Anderson eu gostaria de chamar de mundos idealizados, isto
é, os mundos múltiplos constituídos pelas imaginações historicamente situadas
das pessoas e dos grupos disseminados pelo mundo inteiro. (...) O sufixo panoramas
também nos possibilita apontar para as formas fluidas e irregulares dessas paisagens,
formas essas que caracterizam o capital internacional tão profundamente como
elas caracterizam as modas internacionais do vestuário. (Appadurai, 1994: 313).
Com
efeito, Prandi (1991) chama atenção para o fato de que durante os anos 60 uma
larga migração no sentido Nordeste-Sudeste fez com que o candomblé começasse
a penetrar nos territórios dominados pela umbanda. Os umbandistas abandonam,
então, os ritos da umbanda e se estabelecem como pais e mães-de-santo dos tradicionais
cultos aos orixás; verdadeira e original raiz, mais misteriosa, mais forte
e poderosa que sua moderna e embranquecida descendente a umbanda[6].
Conforme Prandi (1991), alterando o seu sentido sociológico, as velhas tradições
afro-religiosas preservadas no Nordeste encontram então excelentes condições
econômicas para se reproduzir e multiplicar.
De outro lado, é importante
pensar que os efeitos dos movimentos migratórios não atingem apenas o centro.
O fluxo e refluxo de imagens e informações e, sobretudo, de pessoas fizeram
com que a umbanda carioca e o candomblé baiano também viessem a se instalar
no campo religioso nordestino no caso em estudo, o pernambucano. Para pensar
estes movimentos expancionistas tomaremos duas perspectivas: por um lado buscaremos
na história das religiões afro-derivadas espalhadas pelas África e Américas
no entendimento dos processos de formação identitária dos diferentes grupos,
desde a constituição destas religiões aos dias de hoje, e das relações de força
estabelecidas no campo religioso global entre as várias denominações-localizadas
chaves para compreender a dinâmica estabelecida nacionalmente (Brasil); por
outro, buscaremos nas trajetórias da umbanda e do candomblé no Brasil, no perfil
sócio-econômico-cultural-racial de seus adeptos e na relação de forças estabelecidas
entre as religiões e a dinâmica social regional e nacional abrangentes, à luz
dos teóricos do fenômeno da globalização, elementos para entender a reconfiguração
do campo religioso pernambucano, que tem se acelerado a partir da década de
60.
Muito já se falou sobre
a hegemonia do modelo nagô de culto (cf. Dantas, 1988) ou mais precisamente,
do modelo de candomblé baiano nagô-queto sobre as outras formas e fazeres
religiosos afro-brasileiros. Se uma vertente de estudiosos propôs uma explicação
evolucionista para a supremacia dos nagôs, em relação a, sobretudo, os bantus
alegando que os herdeiros daquela primeira etnia eram racialmente mais puros
e/ou culturalmente mais complexos, levando-os a imprimir os seus ritos e deuses
mesmo nas outras formas de religiosidades/modelos (Nina Rodrigues, 1945; Ramos,
1946 ; Landes, 1967; entre outros); outros interpretaram a supremacia do modelo
nagô ao fato de que foram estes os nagôs, ou yorubás os últimos a chegarem
no Brasil, tendo por isso mais chances de conservarem a sua cultura de forma
mais pura (Verger, 1987); outros ainda vêm a chamada pureza nagô como uma
construção elaborada em grande parte pela academia os cientistas de certo
modo ajudariam a criar tal hierarquização, corroborando as políticas de identidades
locais e nacionais (Dantas, 1988).[7]
Mais recentemente, a luz das novas teorias de identidade e da globalização,
surge uma terceira hipótese que nos parece bastante interessante por retomar
as dinâmicas de comunicação entre a África e as Américas, da época do tráfico
até os dias de hoje. Nesta hipótese a própria noção de nação nagô, ou
cultura yorubá se configuraria como fruto dos fluxos e refluxos de imagens,
idéias, bens e pessoas, entre a terra mítica a África e suas diásporas (Matory,
1998).
Conforme Matory (1998),
a nação nagô, ou a etnia yorubá, seria do âmbito das formações imaginárias
identidades ou tradições inventadas para dar conta de eventos culturais, políticos
e econômicos que neste caso, começou a tomar a configuração atual, entre os
anos de 1890 e 1940 uma identidade criada em uma sociedade crioula da
Costa, que estava em constante diálogo com as nações religiosas emergentes
da diáspora afro-latina (Matory, op. cit.: 272). O autor identifica alguns
vetores que contribuíram para a formação desta identidade/nação transatlântica;
vejamos, muito rapidamente, alguns:
a)
Expansão do império oyo cuja população os hausa e os fulani
chamaram de yorubá no final do século XVIII. Os reinos que os oyo vieram
a dominar, vieram também, em níveis diferentes, a falar dialetos muito similares
ao oyo e a praticar celebrações vinculadas a mitologia e ritual oyo. Embora
este império tenha caído por volta de 1830, líderes militares da etnia oyo,
passaram a dominar um território ainda maior, levando os seus deuses a tornarem-se
potente fonte de poder simbólico em toda a região.
b)
No final do século XVIII, Lagos, que estava firmemente
sob a influência de Benin e situada perifericamente ao imperialismo de oyo,
passa ao domínio Inglês; com o crescimento do tráfico de escravos, os mercadores
de Lagos tornaram-se mais ricos e poderosos e, pouco a pouco, independentes
do império de Benin. Grupos originários de Ilesa, Oyo, Egba e Ijbu foram tomando
conta de Lagos à medida que sua economia cresceu. A partir de 1861, a influência
de Benin teve o seu término com o início da colonização britânica, fazendo de
Lagos a Meca cultural e comercial de múltiplos grupos culturalmente diversos.
c)
De outro lado, por volta dos finais do sec. XIX, afro-descendentes
brasileiros começam a retornar à África e fundar comunidades, trazendo em sua
bagagem cultural o que constituíram no Brasil; um dos principais pontos de retorno
era precisamente Lagos estes brasileiros foram conhecidos como os retornados;[8]
d)
Alguns deles passam a intermediar comércio/comunicação
entre os dois continentes eram os viajantes.
e)
Na África a dinâmica de contatos entre as diferentes
etnias continua. Cativos de origem egba, egbado, ijesa, etc, carga de navios
negreiros apreendidos quando da proibição do tráfico, eram trazidos para Freetow,
Serra Leoa, onde também fundaram comunidades e negociaram entre si as marcas
de suas culturas, incluindo aí seus deuses e ritos a semelhança do que aconteceu
no Brasil e resultou na constituição das comunidades-terreiro. Missionários
ingleses estabeleceram programas para convertê-los e escolarizá-los, criando
uma influente classe de africanos com educação ocidental, cujas famílias originaram
aquilo que ajudaram a denominar Yorubaland eram chamados creoles e quando
chegavam a Lagos eram denominados saro.
f)
Nos finais do século XIX um projeto de construção de uma identidade
nacional foi implementado, sobretudo, pela elite local de Lagos que teve como
alicerce a invenção de uma língua nativa: o yorubá uma linguagem híbrida,
predominantemente oyo em sua morfologia e sintaxe, e mais egba em seus fonemas,
enriquecida por expressões idiomáticas cunhadas em Lagos e na diáspora da região;
língua atribuída a uma etnia local a etnia Yorubá. Este projeto envolvia
a todos: egbas, egbados, ijesas, oyos, creoles/saros, lagoanos, retonados, viajantes...
e também os afro-descendentes que ficaram no Brasil.
g)
No ideário que fomentou e fundamentou a imagem
de uma autêntica etnia Yorubá se juntaram as noções de raça pura[9], com um sistema religioso complexo e uma cultura evolutivamente superior
às demais culturas africanas.
Esse conjunto de idéias chega ao Brasil através daqueles homens que
faziam, eles próprios, o papel de mediadores e meios entre a África e as Américas,
promovendo as trocas de bens e também de imagens e idéias entre as diversas
culturas negras no Velho e no Novo mundo. Conforme Matory (1998), seriam
estes mesmos homens que ajudariam a formar as ortodoxias nas casas mais tradicionais
da Bahia e do Rio (p. ex. Martiniano Bonfim) e também do Recife (p. ex. Adão)[10] .
Mas, se Matory (1998)
reconstroi e analisa este processo a nível global, a nível nacional um outro
joguinho de fliper estava, e ainda está, em andamento, e merece ser examinado
e analisado. Homens e mulheres circulando entre os vários estados brasileiros,
imagens e idéias veiculadas pela mídia, literatura científica e de divulgação,
vão promover os contatos entre diferentes formas de fazer religioso, alguns
deles, mesmo possuindo muitas diferenças, se auto denominando nagô.
Com efeito, provavelmente nos mesmos anos 60 em que, conforme Prandi
(1991), faz os seus primeiros filhos em terras paulistas, o 'candomblé baiano'
do Sudeste do país vem constituir suas primeiras casas em terras do xangô. Hoje,
articulado com outras formas de cultos locais, como o próprio xangô e também
a jurema, o candomblé se expandem rapidamente por toda a cidade do Recife.
Como o candomblé e o xangô são referidos como de
modelo nagô, em termos das matrizes míticas africanas (as nações), no Recife
talvez para que não reste dúvidas das diferenças entre o nagô baiano e o nagô
pernambucano o termo nagô é utilizado apenas para o xangô e para o modelo
baiano a denominação utilizada é o candomblé-de-nação.
Por volta da década de 60 (talvez antes) alguns sacerdotes já formados
no nagô recifense resolvem se reiniciarem no candomblé de modelo baiano. Contudo,
vale salientar, este chega ao Recife de modo transversal, através de um longo
percurso, vindo do sudeste do pais - Salvador-Rio/Rio-Recife, posteriormente
Salvador-Rio/Rio-São Paulo/São Paulo-Recife.
Na memória dos nossos informantes os precursores desta baianização
no mundo afro-recifense seriam Fausto da Oxum de Prazeres-Jaboatão, Raminho
de Oxossi de Vila Popular-Olinda e Mercival de Yemanjá do Jordão-Recife. Raminho,
sobre o qual temos mais informações, teve forte contato com o Axé das Tias do
Pátio do Terço do Bairro de São José, de quem a legendária Badia a Senhora
dos Carnavais recifenses foi uma das líderes. Raminho raspa[11]
novamente o santo, com Zezinho da Boa Viagem (este também pernambucano, radicado
no Rio de Janeiro e filho do Tata Fumutinho) e muda as folhas[12] para o jeje-marin[13] .
Sem dispensar os fundamentos[14] que aprenderam no xangô-nagô pernambucano, Raminho, Fausto e Mercival
introduzem no universo afro-religioso da cidade novos ritos e mitos. Introduzem
também novas hierarquias sacerdotais com equedis, babalossães, baba-efuns, entre
outros.
Se a bibliografia especializada
apontava o xangô-nagô e o xambá[15]
como referência de afiliação/nação para os que se diziam praticantes de religião
tradicional africana na cidade; hoje o campo se diversifica com os jejes, quetus,
angolas, alaquetus, ijeshas, entre outras.
Se este movimento de candombleização
parece ter sido percebido pela academia recentemente (embora tenhamos referência
dele em Carvalho, 1987, e Brandão, 1986), um outro, e ao nosso ver precursor
deste, está razoavelmente etnografado[16]
o movimento de umbandização - e que no olhar de Brandão (1986) e Motta (1991)
estaria relacionado, entre outras coisas, ao afastamento, por parte dos terreiros
que se umbandizaram, das matrizes simbólicas tradicionais.
Contudo, ainda não temos informações suficientes para datar com certeza
a época em que se inicia a umbandização no campo afro-religioso pernambucano.
O que é certo, entretanto, é que gradativamente terreiros de catimbó-jurema
e mesmo de xangô, começam a se auto-intitular centros ou tendas de umbanda.
Levanto alguns fatores e/ou processos que podem ter concorrido para o uso do
termo umbanda enquanto nomeador, a princípio, e depois mesmo matriz de formas
de culto tão diversas:
1)
A miaditização[17] do termo e imagens relacionadas a umbanda, que representará uma forma
de religiosidade popular que ganha aceitação nas classes médias de então, por
almejar ideais brancos/evolucionistas/progressistas, mas sem se desapegar, de
todo, do imaginário afro-ameríndio[18] .
2)
O advento das Federações Umbandistas, inspiradas
nas surgidas no sudeste brasileiro, oferecendo o respaldo institucional perante
a polícia/justiça para o funcionamento das casas de culto. Já por volta da década
de 60 Kloppenburg (citado por Ortiz, 1988) registra em Pernambuco a existência
de federações de cultos afro-brasileiros aos moldes das Federações Umbandistas
do Rio de Janeiro, Niterói, São Paulo e Porto Alegre. Contudo, se pensarmos
que a umbanda se constituí, no eixo formado por aqueles centros urbanos, e tendo
como expoente a Capital Federal, nas décadas de 20 e 30, e que, já nesta época,
a pressão exercida pelas grandes cidades do sudeste sobre os grupos empobrecidos
residentes nos estados do nordeste promovia ondas migratórias no sentido norte-sul
formando redes de sociabilidade nacionais; acreditamos que a umbanda, ou referências
a ela, devem ter alcançado Pernambuco muito antes dos anos 60.
3)
Mecanismos cognitivos vão entrar em ação, possibilitando
que crenças, ritos e mitos de uma diversidade de formas de religiosidade existentes
em locais de menor visibilidade nacional sejam, num processo de negociação
de sentidos, re-interpretados a partir de um destes modelos preteridos de religiosidade,
no caso em estudo a jurema e o xangô (este último já com um certo reconhecimento
acadêmico), e equiparados de um ponto de vista simbólico, em detrimento das
proposições doutrinárias (cf. Serra, 1995; Bastide, 1986);
Conforme Motta (1997: 10), não existe uma umbanda em Pernambuco, porém
muitas umbandas, com grande diversidade de crenças e rituais; com referentes
empíricos muito diversificados. Em alguns contextos chega mesmo a representar
um equivalente polido do xangô. Noutros, ainda, contrasta com xangô (ou candomblé),
designando, dentro do domínio afro-brasileiro, tudo aquilo que não é religião
dos orixás em sentido mais estrito e englobando, por conseguinte, o catimbó
e seus equivalentes noutras regiões do Brasil.
Assim, embora se intitulem umbandistas, o que vemos se configurar nos
terreiros pernambucanos, é, em geral, um culto articulado entre o modelo de
culto carioca e os pernambucanos, sobretudo a jurema. É comum em alguns terreiros
verificar-se a distinção entre toques de nagô dedicados aos orixás - e sessões
de umbanda dedicadas aos espíritos da jurema. Brandão (1986) e Motta (1991)
categorizaram este tipo mixado de casas de culto como xangô-umbandizado.
Brandão (1986) e Motta (1988)
notaram que muitos dos sacerdotes que constituíam suas casas com base em modelos
mixados de cultos, advinham daqueles que se encontravam alijados do processo
de passagem do saber tradicional.[19] Eram sacerdotes que realizavam
os rituais públicos imitando o que viam nas casas tradicionais, mas estavam
afastados das matrizes simbólicas tradicionais. Para supri-las reinventavam
fundamentos e assimilavam o que vinha do sudeste do país adequando a realidade
regional. Naquela época o novo era a umbanda, que se lançava como religião
nacional.
Retomemos, então, algumas das análises feitas sobre o xangô-umbandizado,
tomamos o candomblé-de-nação como um tipo moderno daquela forma paradigmática
antropológica.
Como nos toque e danças descritos em relação ao xangô-umbandizado das
décadas de 70 e 80, no candomblé-de-nação continua-se a observar uma exacerbação
do ritual, que, conforme Motta (1997) disfarça o afastamento do modelo icônico
das casas tradicionais
Ao que parece, o exagero ritual a nível público
dos toque e festas, com a exacerbação do gestual e, acrescentaríamos, cenográfica,
coreográfica, na riqueza e detalhes das vestes, no abusos do uso da língua
Yorubá, etc., tenha alcançado também os aspectos rituais mais privados como
o sacrifício. Segundo Motta (1991), embora os rituais concernentes ao culto
aos orixás no xangô-umbandizado siga na aparência a tradição afro-brasileira
mais ortodoxa, haveria uma acentuada diminuição do sacrifício, que tenderia
a tornar-se apenas simbólico ou vestigial. Contudo, nossa recente experiência
no campo mostra que esta tendência não se cumpriu. Seja nas casas mais próximas
a descrição de xangô-umbandizado feitas nas décadas de 70 e 80 - como no Palácio
de Iemanjá do famoso Pai Edú[20] - seja nas que caracterizamos como candomblé-de-nação, o que tem se
apresentado é uma exacerbação da prática do sacrifício.
O sacrifício, como mostrou Motta
(1991, 1997), é característica fundamental dos cultos tradicionais do xangô
e elemento que por muito tempo foi considerado como demarcador de diferenças
entre práticas umbandistas e xangozistas. Com a revalorização dos ideais de
africanismo em detrimento do embranquecimento umbandista/kardecista, o sacrifício
foi recolocado em voga e com muito mais força (número de animais, qualidades,
gostos das entidades, fundamentos e axés), extrapolando os ditos preceitos
tradicionais. Vale salientar que nesta modalidade de culto, um dos indicadores
de que a casa é próspera em axé e fundamento é a quantidade de animais sacrificados.
Para além de tradicionalismos, (re)articulações
e (re)invenções, acredito que as hipóteses levantadas por Carvalho (1987) referentes
a recorrência a outras matrizes de culto para sanar as lacunas no fazer religioso
do xangô, causadas pela insistência no segredo, parece se confirmar e pode ser
tomada como uma das motivações para a candombleização do campo religioso afro-recifense.
No entendimento dos nossos informantes, no candomblé-de-nação o mundo afro-religioso
do Recife se renova, ganha fôlego e, sobretudo, fundamento. Afirmam que as
Mulheres do Sítio, do Pátio do Terço, as mãezinhas dos tradicionais xangôs,
não passavam (e não passam) o conhecimento/fundamento. O candomblé-de-nação
daria aos ávidos de saber/poder, instrumentos para construir e legitimar as
suas trajetórias religiosas. Mas esta não parece ser a única motivação...
De fato, o modelo tradicional
de religiosidade afro-brasileira do Recife em muito diverge do baiano. No discurso
dos que se converteram ao candomblé e mesmo nos dos convertidos da academia
o xangô-nagô aparece como mais simples: seja em termo de categorias e hierarquias
sacerdotais, nas divindades do panteão, vestimentas, etc.. Fato que é relacionado
pelos adeptos quando questionamos os motivos para a passagem do xangô para o
candomblé-de-nação:
Eu acho que o candomblé-nação tem mais fundamento,
coisas pragente aprender, entendeu? Apesar de no nagô também. É muito bom.
É raro. (...) A diferença da nação pro nagô, só é que o santo dagente ele fecha
os olhos, ele vira (...) sem agente sentir. No nagô sente a irradiação, pra
poder o santo virar. É só por isso que há uma diferença. A diferença das bênçãos.
Do paó. No nagô não existe paó. Na nação existe.
Nesta
fala a questão do saber/fundamento aparece em primeiro lugar, embora venha logo
com a ressalva de que no nagô também existe muito fundamento. As diferenças
no modo como o transe se dá vem como uma outra categoria de diferenciação. O
ritual também é elemento diacrítico.
Contudo, outros aspectos, para além da questão da passagem do fundamento,
já analisados acima, e da complexidade ritual do discurso dos fieis, entram
em cena no processo de conversão individual e na reconfiguração do campo religioso.
A crítica de Matory (1998) aos modelos teóricos que interpretam a suposta relação
a superioridade dos nagôs frente aos bantus em termos de complexidade cultural,
pode ser reeditada quando pensamos que a sedução exercida pelo candomblé em
relação aos adeptos do xangô está ligada a suposta complexidade dos rituais
do primeiro frente ao segundo. Nada nos leva a crer que religiões mais complexas,
míticas ou institucionalmente, atraem mais adeptos que as religiões menos complexas.
(Matory, op. cit.: 265)
Outros fatores devem ser analisados;
alguns deles na linha do que propomos para a umbandização, acima descrita. A
mídia, a academia, a literatura de divulgação, as migrações são importantes
elementos neste complexo jogo de (re)articulação do campo.
Acreditamos que foi a forte rede criada entre a Bahia e o Rio de Janeiro,
com a grande leva de migrantes-do-santo para este local-centro já no início
do século (Moura, 1995) e reforçada por uma segunda leva, na década de 60 (Prandi,
1991), que proporcionou o imperialismo do candomblé frente as outras denominações
razões que, ao nosso ver, contribuem para se ver o candomblé como mais complexo
que o xangô. Instalado no Rio de Janeiro e Baixada Fluminense, e mesmo que considerado
religião marginal de negros, pobres e mulheres (sem falar dos homossexuais);
o Candomblé enquanto sinal da exoticidade e sensualidade nacional[21] , ganhou, em detrimento do xangô, batuque e mina para citar os modelos
hegemônicos regionais, o estatuto religião afro-brasileira que melhor conservou
as sobrevivências africanas, nicho do saber e cultura africana. Quem queria
o fundamento, deveria, então, busca-lo alí, no Candomblé. De fato, a Bahia é
considerada a Meca afro-brasileira; contudo no Rio-Centro estão constituídas
filiais das principais casas baianas. O fluxo se deu, então, nesta direção,
mas não só por isto...
Além do mais, como têm mostrado os estudos sobre migrações, os motivos
para sair são de diferentes ordens, e muitas vezes encontram-se imbricados
fatores tais como a busca por melhores condições de vida e trabalho, liberdade
sexual, e carreiras afetivas, etc. Vale ainda lembrar, como propõe Sassen (1998),
que além das demandas pessoais, a ação das cidades centro as grandes cidades
sobre a periferia não deve ser descartada quando investigamos a dinâmica migratória;
o imperialismo econômico, político, militar e cultural, vão determinar os trajetos
migratórios. No caso em estudo, a influência viria, então, do grande centro
político, econômico, intelectual e cultural o Rio de Janeiro, onde, imaginariamente,
oportunidades de trabalho e anonimato confluíram na dinâmica que possibilitou
o fluxo de imagens e crenças do centro para a periferia atraindo migrantes
e/ ou adeptos e o refluxo de pessoas da periferia para o centro; concomitante
ao fluxo de pessoas da periferia para o centro, o refluxo imagens e crenças
do centro para a periferia. Nestes fluxos e refluxos, se propagaram religiopanoramas
que possibilitaram a formação de uma umbanda e candomblé-de-nação genuinamentes
pernambucanos.
Assim, lembro quando levei um amigo, e também estudioso
das religiões afro-brasileiras sobretudo do candomblé da Bahia e do Rio,
para assistir rituais de xangô e candomblé-de-nação. O fato é que ele estranhou
os rituais de xangô o que era de se esperar; mas estranhou muito mais os rituais
de candoblé-de-nação. Não reconhecia toadas e ritmos, estranhava o modo e a
freqüência do transe os iaôs[22] incorporavam a todo o momento, etc.
etc. etc. Na verdade, o que temos no Recife está longe (mas nem tanto) do que
temos como candomblé na Bahia e no Rio.
Ao invés de uma homogenização cultural com base no modelo baiano, o
que temos é um culto articulado, indigenizado se quisermos usar do conceito
de Appadurai (1994). Uma articulação dinamizada pelo fluxo dos panoramas acima
citados, panoramas que, conforme Appadurai (op. cit.), não são, entretanto:
...relações objetivamente dadas que têm a mesma
aparência a partir de cada ângulo de visão, mas antes, são interpretações profundamente
perspetivas, modeladas pelo posicionamento histórico, lingüístico e político
das diferentes espécies de agentes: os estados nacionais, os multinacionais,
as comunidades diaspóricas, bem como os grupos e movimentos subnacionais (religiosos,
políticos ou econômicos), e até mesmo os grupos intimamente relacionados, com
as vistas, os bairros e os grupos familiares. (Appadurai, 1994: 312).
Assim, o que observamos é que a assimilação entre o modelo do xangô-nagô
e baiano é, implicitamente, bem mais forte do que a propagada oposição entre
os dois modelos do discurso identitário. Mudam-se folhas, mas o conhecimento
adquirido anteriormente não é descartado, sempre que preciso é agenciado. Nesta
perspectiva, como sugere Appadurai (1994), o agente individual, último local
do conjunto de panoramas disponíveis, imprimem seu próprio sentido naquilo que
as paisagens oferecem.
Assim, estes panoramas são agenciados, em acordo com o posicionamento
e inserção social dos atores no mundo, na formação concreta, no nosso caso,
dos grupos religiosos de candomblé-de-nação. Posicionamento que inclui no caso
do candomblé-de-nação pernambucano, entre outras coisas, pertencimento racial
e orientação sexual.
Com efeito, vale salientar que muitos dos primeiros a se converterem
do xangô ao candomblé eram homens homoeroticamente inclinados, que precisavam
ter invisibilizadas as suas orientações sexuais, no âmbito das casas de xangô.
O fato é que nestes terreiros, embora haja um sistema de gênero e de sexualidade
que proporciona a uma maior aceitação das pessoas em detrimento de suas orientações
sexuais (Segato, 1995); estas pessoas não podiam tornar visíveis suas orientações
sexuais, sob pena de serem mau vistas ou até expulsas dos terreiros. Em conversa
pessoal, M. C. Brandão (antropóloga e professora do departamento de ciências
Sociais da UFPE) nos falava da rigidez de um falecido pai-de-santo do Sítio
Obá Ogunté[23] , em relação a presença de homossexuais efeminados nas rodas de dança
durante os toques. Também nossos informantes corroboraram esta imagem falando
da hostilidade dos pais de santo do xangô frente aos homossexuais. (cf. Rios,
1997)
Conforme o depoimento de alguns informantes, Fausto de Oxum um dos
precursores do candomblé-de-nação em Pernambuco após reiniciar-se no candomblé,
foi o protagonista-elegun[24] , da primeira Oxum incorporada em um homem, a botar saias em um terreiro
recifense. Hoje o fato do homem vestir saia quando incorporado está bastante
disseminado, mesmo nos terreiros de xangô. Mas o tempo em que isso não era permitido
ainda é, discursivamente, elemento diacrítico entre o xangô e o candomblé na
memória dos adeptos. Ao lado das vestes vêm a possibilidade de uma coreografia
mais sensualizada, diferente daquela prescrita para os homens nos terreiros
de xangô mais tradicionais. Mesmo no discurso dos mais jovens, a possibilidade
de assumir-se com mais visibilidade que inclui vestes (dos santos e de si
próprios os kafitas rendados por exemplo), a gestualidade e o discurso oral
são elemento importante na explicação da mudança de folhas.
De fato, em algumas casas tradicionais da Bahia e do Rio de Janeiro,
os cenários/enredos sexuais[25] ,
que orientam a visibilidade das orientações sexuais, são muito semelhantes
(talvez até mais rígidos que) aos dos terreiros tradicionais de xangô. Em alguns
terreiros ainda é vetada a iniciação aos homens, ou, mesmo quando iniciados,
estes são impedidos de dançar, a menos que incorporados fato que nunca aconteceu
no Recife onde os homens sempre puderam dançar (independentemente das orientações
sexuais). Contudo, os religioscapes de candomblé bainano-carioca que alcançaram
o Recife, parecem ser os de terreiros onde os sistemas de sexualidade eram mais
afrouxados quanto a estes cenários. Afinal foram homens que fazem sexo
com outros homens que fizeram o papel de intermediários na transposição e articulação
deste modelo de culto para as terras do xangô.
Vale ainda retomar aqui o caráter de identidade de resistência (Casttels,
1996; mas também Bastide, 1986) das comunidades-terreiro, no princípio compostas
apenas por afro-descendentes e que, cremos nós, como estratégia mesmo de resistência,
abriam-se a afiliação de pessoas integrantes de outras categorias raciais e
minorias sociais. Como sugerem Vogel e colaboradores (1994) as religiões foram
a estratégia de resistência que deu certo:
À fatalidade da diáspora, os africanos responderam
com o banzo, com os quilombos e com os cultos. Este últimos revelaram-se, finalmente,
o mais bem-sucedido esforço dos cativos para remediar a dispersão e a solidão.
(Voguel, Mello e Barros, 1994: 157)
Investigações
ainda precisem ser realizadas afim de identificar a inter-relação entre o Movimento
Negro e as religiões afro-brasileiras em Pernambuco, sobretudo quando sabemos
que na Bahia e no Rio de Janeiro, houve uma retomada dos cultos como fonte de
indentificação/ou valorização das raízes africanas e do ser negro. Como em alguns
segmentos da cultura gay no Brasil, onde termos e jargões próprios ao universo
afro-religioso são utilizados como parte da linguagem que demarcará as fronteiras
do grupo, o Movimento Negro também se apropriou dos panoramas religiosos afro-brasileiros
sobretudo os do candomblé baiano-carioca para a construção/invenção de uma
imagem de negritude tipicamente brasileira, sinais de uma afro-brasilidade[26].
O que é certo é que, no discurso dos adeptos, o candomblé, como nicho da cultura
africana no Brasil, também se presta por vias diversas a espaço de resistência
de outras minorias nacionais; vejamos um episódio do campo que bem ilustra
este argumento.
Certa ocasião fomos encarregados de levar um sacerdote do candomblé-de-nação
para oficializar uma entrega de presentes a Oxun: Sr. Lula da Oyá-Balé, um antigo
e benquisto pai-de-santo um destes que já migrou pelas diversas formas de
religiosidades afro-brasileiras (da umbanda ao candomblé, passando pelo xangô
e a jurema) e hoje articula em sua casa as várias formas de cultos encontradas
na cidade. Ao chegar em sua casa, ele já estava paramentado: kafta, contas as
mais diversas, pulseiras africanas, ... Lembramos, então, de uma outra ocasião
quando, ainda enquanto estudante de Psicologia, o havíamos escutado em um dos
muitos congressos psis os quais havíamos participado na cidade do Recife.
Conversando no correr da viagem entre a sua casa e o outro terreiro, ele me
falava de como, ao se vestir publicamente com o káfta, estava, ao mesmo tempo
em que se assumindo enquanto um sacerdote de culto afro-brasileiro, confrontando
também a sociedade que tanto discrimina essas religiões. Dizia ele que as religiões
afro-brasileiras são socialmente discriminadas por terem origem negra, serem
freqüentadas por pobres e por homossexuais (sic.). (Rios, 1997)
Nesta medida, suas vestes podem ser concebidas como se constituindo
em uma ação política demonstrar para a sociedade abrangente sua existência
e resistência; confronta-la com três de seus outros - negros, homossexuais
e pobres. Confronto que tem sido permitido por intermédio destes grupos religiosos,
como é o candomblé-de-nação.
Com efeito, hoje, em outros
contextos histórico-culturais, a luta dos descendentes de africanos e seus terreiros
permanecem. Juntaram-se a eles outras minorias: homossexuais e pobres advindos
de outras origens raciais. O candomblé já vai à rua e não apenas nos dias
em que as inversões sócio-culturais são permitidas como nos carnavais e seus
afoxés, caboclinhos e maracatus; mas também com as romarias religiosas ao mercado
e às igrejas católicas[27]; ou através da simples assunção
de si próprio enquanto pai-de-santo (pobre, negro e homossexual) e da coragem
de vestir-se enquanto sacerdote e ganhar o mundo (Rios, 1997).
O campo religioso afro-recifense é mais plural
do que nunca dantes. Agregaram-se deuses; novos ritos foram introduzidos; novas
identidades religiosas surgiram. Nesse processo o xangô tradicional, em muitas
interpretações antropológicas fadado a desaparecer frente as demandas da modernização
ou a concorrência do mercado religioso, parece estar ganhando novos influxos
de axé e ressurgindo com bastante força, acompanhando os novos tempos, também
articulando-se e reconfigurando-se em diálogo com as novas demandas sociais
e culturais. Assim, as casas da tradição xambá, já praticamente extintas, se
reestruturam à partir dos filhos-de-santo remanescentes; a Casa das Tias do
Pátio do Terço está em vias de retornar suas atividades religiosas; o Sítio
de Pai Adão, após décadas sem realizar iniciações, fez recentemente um barco
de novos iaôs; terreiros tradicionais de pouca visibilidade, como o de Mãe Beta
de Iemanjá no Brejo, são reconhecidos na mídia e na academia, sendo procurados
por intelectuais que desejam mudar as folhas e tornarem-se, também, filhos-de-santo.
Mesmo enfocando o campo religioso afro-descendente interno brasileiro,
queremos enfatizar que esta dinâmica interna está dialogando demandando e
respondendo as demandas com a internacional. A nação transatlântica, continua
a re-inventar-se, atendendo ao espírito do tempo, obedecendo as novas regras
inerentes as reconfigurações das relações entre espaço-tempo, conseqüências
da modernidade tardia[28] , no jogo de influências entre as suas principais metrópoles, onde,
no olhar de Matory (1998: 264), se afiguram: Lagos, Ibadan e Oyo na Nigéria;
a Havana, Cuba; Ouotunji (na Carolina do Sul), Nova Iorque, Chicago, Los Angeles
e Maiami nos Estados Unidos; e, no Brasil, Salvador, Recife, Rio de Janeiro
e São Paulo. (Grifos nossos)
Assim, em meio as paisagens flutuantes e fluxizadas[29] ; em uma sociedade em rede[30] , que possibilita o contato em tempo-real entre grupos geograficamente
afastados; em uma veloz constituição e (re)construção de identidades, nações
e tradições; a busca por fundamentos/saberes/poderes começa novamente a mudar
de rota: da Bahia via o Sudeste, retorna a África.[31]
O ciclo de trocas entre a terra mítica e suas diásporas permanece, tendo agora
como mais uma de suas mediações a Internet e seus sites e listas (cf. Freitas,
2000 e Castor, 2000). Este candomblé re-africanizado é denominado, e por que
não, nação Yorubá e faz os seus primeiros filhos nas terras do xangô-nagô.
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[1] Doutorando em
Saúde Coletiva pelo IMS-UERJ. Bolsista FAPERJ. E-mail: fipo@ig.com.br.
[2] Segato (1997),
vide também Appadurai (1994).
[3] O xangô tradicional é a
forma de religiosidade pernambucana onde as tradições africanas são tidas
como melhor preservadas. Diferentemente do culto a jurema só os orixás, os
deuses, podem incorporar em seus filhos, sendo vetada a manifestação de eguns,
os espíritos dos mortos. Cf. também Ribeiro (1975), Carvalho (1987 e 1993)
e Motta (1991), Segato (1995), Pereira (1994).
[4] A jurema é um
culto que possui uma forte base ameríndia, mas onde também vê-se aparecer
traços do catolicismo popular e seu culto aos santos, da magia européia e
outros de origem afro. A base do culto é a crença na árvore sagrada da jurema,
da qual se extrai poderes mágicos religiosos que permite aos iniciados alcançarem
a ciência espiritual e seus encantos. Além disso, através do transe de possessão
os adeptos podem se comunicar com antigos juremeiros - os mestres e os caboclos,
que hoje habitam no Juremá, o mundo espiritual, em uma de suas inúmeras cidades.
Cf. Pinto (1995) e Brandão e Rios (1998).
[5] E o modo como
Matory (1998) descreve o surgimento do que ele chamou nação transatlântica
(a ser abordada na próxima sessão) demonstra bem isso.
[6] Para mais sobre
a formação da umbanda e a sua relação com a modernização nos grandes centros
urbanos, vide Ortiz (1988) e Prandi (1991).
[8] Vide também
Olinto (1980), Carneiro da Cunha (1985), Carneiro da Cunha (1985) e Guran
(2000), entre outros.
[9] Noção claramente
de influência inglesa.
[10] Sobre o contato
entre Martiniano e Adão, cf. Carvalho (1993).
[12] Termo utilizado
pelo povo do santo para se referir ao processo de mudança de nação.
[13] Matory (1999) faz uma
análise específica para a constituição da naçào jeje, à semelhança de que
fez para a nação yorubá, aqui esboçada. Rara efeitos deste trabalho des-consideraremos
as especificidades da constituição transatlântica destas duas nações, e pensando
que, no Recife, poucas distinções podem ser feitas entre os terreiros que
se dizem jejes e quetos, tomaremos todos como integrantes do modelo nagô bainao
de culto, chamado de modo genérico pelo povo de santo recifense de candomblé-de-nação.
[14] Os conhecimentos
mais secretos da religião.
[15] Esta até recentemente
já quase extinta, hoje em processo de resgate pelos herdeiros das antigas
casas.
[16] Motta (1991,
1997), Brandão (1986), Fonseca (1999), Pinto (1996), Rios (1994), entre outros.
[17] Lembremos que
o Rio de Janeiro, além de Capital Federal, era, também, o principal centro
cultural, intelectual e informativo do País. As bases religiosas e os primeiros
livros de divulgação umbandistas surgem de lá.
[18] Cf. Ortiz (1988)
e Prandi (1991).
[19] Sobre a questão
da relação entre segredo, história e modificações no xangô do Recife, vide
também Carvalho (1987).
[21] Vide Freitas
(1999b).
[22] Iniciados com
menos de sete anos de obrigações cumpridas.
[23] Considerado
Matriz da tradição nagô no Recife.
[24] Elegun: cavalo,
médium.
[25] Simon e Gangnon
(1999)
[26] Cf. Freitas
(1995), Gomes da Cunha (1999), entre outros.
[27] Na interpretação
que fizeram do ritual da romaria, Voguel, Mello e Barros (1994) propuseram
as romarias ao mercado e a Igreja Católica - ambas figuras imaginárias da
sociedade abrangente, como uma ação para a busca de reconhecimento de si pelo
outro/sociedade. Nesta lina de raciocínio, a apresentação dos iaôs na igreja
seria, em verdade, um confronto entre deuses, o orixá ao incorporar na Igreja
atestaria sua força frente ao Deus Católico: estou manifestado e não fui destruído.
[31] Conforme Carvalho
(1987), alternativa inscrita no próprio padrão de tempo histórico constituído
pelos grupos do xangô. Contudo não podemos esquecer que esta é a recorrência
a África é também utilizada pelos candomblés paulistas, de onde parece advir
a inspiração para a busca pela África para as casas consideradas como as não
tradicionais, os candomblés-de-nação que temos investigado.
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