Os registros rupestres no Estado do Maranhão, Brasil, uma abordagem bibliográfica.1
1- INTRODUÇÃO
O que para
muitos autores já representou um “passatempo ocioso dos nossos índios”, os
registros rupestres apresentam aspectos que por si já poderiam muito nos informar
sobre sua significação e motivos de sua execução.
Segundo Prous, “a chamada arte rupestre é um dos temas mais populares entre
os leitores interessados pela Arqueologia. E, com efeito, são os únicos vestígios
deixados consciente e voluntariamente pelos homens-pré-históricos”.(Prous:
1992; 509).
A existência de sítios rupestres no Brasil vem sendo observada desde os primórdios
da colonização portuguesa em terras recém conquistadas, sendo que a primeira
referência deste tipo de vestígio data do século XVI, mais precisamente, segundo
Martin, “de 1598 quando o então Governador da Paraíba Feliciano Coelho de
Carvalho encontrou junto a um rio chamado Arasoagipe, gravuras que ele descreveu
como cruz e caveiras de defunto” (Martin: 1996; 209).
Na mesma época, Prous afirma “que bandeiras paulistas encontravam a Pedra
dos Martírios em Goiás e que desde então, a bibliografia sobre este tema tornou-se
amplíssima; sendo os vestígios facilmente encontrados” (Prous: 1992; 509).
A partir de então, com a maior circulação de periódicos científicos e o aumento
de instituições que dedicaram seus programas de pós-graduação ao estudo e
pesquisa do período pré-colonial brasileiro, fomos brindados com um grande
número de relatórios e artigos, ora publicados por revistas universitárias,
ora pela grande imprensa.
Neste sentido, o interesse pela arte rupestre ganha eco no público não especializado.
Prova disso é o grande número de visitações, que desde o início da década
de noventa, lotam o Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí, localidade
esta, em que segundo Martin, “encontra-se o extraordinário conjunto rupestre
de São Raimundo Nonato” (Martin: 1996; 209).
1 Estagiário do
Centro de Pesquisa de História Natural e Arqueologia do Maranhão
Graduando em História pela
Universidade Estadual do Maranhão
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Diferentemente de outras localidades,
o Estado do Maranhão ainda não despertou para o potencial arqueológico de
sua terra, bem como para a compreensão de sua história pré-colonial. E apesar
de estarmos tão próximos do Parque Nacional da Serra da Capivara, divisa com
o Piauí, a grande maioria da população desconhece inteiramente a riqueza arqueológica
de nossa região, inclusive valorosa no que concerne aos registros rupestres,
objeto dessa pesquisa.
Tal constatação é atribuída à falta de instituições que promovam estudos e
pesquisas sobre a história das populações que aqui habitaram o período anterior
à chegada dos colonizadores, casada com a omissão dos órgãos competentes em
todas as esferas governamentais, além de outros atributos que essa pesquisa
tentará expor.
Portanto, é objetivo desta pesquisa apresentar os resultados parciais obtidos
na realização de minha monografia no curso de História da UEMA, onde estou
mapeando os municípios maranhenses que possuem sítios arqueológicos que apresentem
registros rupestres em sua composição, para em seguida, elaborar um relatório
informando o potencial arqueológico das localidades com maior possibilidade
de ocorrência desses vestígios, além das localidades, onde esses vestígios
arqueológicos já foram identificados e mapeados.
Para tanto, estou utilizando bibliografia geral acerca do tema, relatos de
pesquisadores maranhenses que já abordaram a temática, fichas cadastrais de
sítios arqueológicos maranhenses catalogadas no IPHAN (Instituto do Patrimônio
Histórico e artístico Nacional), entrevistas com especialistas e por fim,
pesquisa de campo no intuito de comprovar a literatura estudada e/ou mapear
novos sítios.
Para uma maior compreensão dos leitores não ambientados com alguns termos
específicos utilizados pela Arqueologia, entende-se por registro arqueológico,
todo vestígio deixado pelo homem na sua passagem pela terra, estendendo tanto
para um período distante do tempo presente, como para períodos mais próximos
da atualidade, seja ele vestígio material ou simbólico.
2 -CONCEITUAÇÃO
Como na
maioria das disciplinas cientificas em constante construção, a conceituação
sempre se torna uma questão permeada de debates e visões interpretativas individuais
de cada pesquisador. Na Arqueologia, mais precisamente com o termo arte rupestre,
essa premissa se repete.
Não existe
ainda um consenso a respeito de termos e definições. No entanto, Martin, “atribui
grande importância ao trabalho da antropóloga francesa radicada no Brasil
Anne Marie Pessis, que na Serra da Capivara em São Raimundo Nonato no Piauí,
estuda o registro rupestre desde o ponto de vista da antropologia visual,
como um meio de comunicação, uma pré-escrita, ignorando-o como arte, embora
não exclua que possa também ser estudado no contexto das idéias estéticas”
(Martin, 1996:210).
"A palavra rupestre, com efeito, vem do latim rupestris
(rochedo); trata-se, portanto, de obras imóveis, no sentido de que não podem
ser transportadas (à diferença das obras móveis como estatuetas, ornamentação
de instrumentos, pinturas sobre peles, etc". (Prous, 1989:10)).
Outras denominações
também são empregadas no intuito de substituir o termo arte rupestre, não
raro surgindo embates conceituais. Silva citando E.R Perello, afirma que sua
“utilização, na Arqueologia, iniciou no século XIX, quando os primeiros etnólogos
e pré-historiadores começaram a analisar tais vestígios, sob o ponto de vista
estético e a partir dos critérios etnocêntricos de sua época” (Silva: 1996:
13).
Alguns autores,
segundo Prous, denominam “as figuras pintadas de pictografias” e as gravuras
“petróglifos”...A palavra tupi itacoatiara (= pedra pintada) é freqüentemente
usada para denominar rochedos decorados” (Prous: 1992; 510).
Um consenso
ainda encontra-se longe de ser alcançado, no entanto algumas diretrizes já
apontam para uma conceituação mais usual e abrangente no futuro. Para Martin,
“a discussão do valor como arte dos registros rupestres tem sido objeto
de polêmicas entre arqueólogos e historiadores da arte” (Martin: 1996; 211).E
sentencia que “essa discussão dificilmente pode acabar, pela razão muito simples
que ambos procuram respostas diferentes às mensagens que as pinturas e gravuras
rupestres proporcionam”.
Um outro
indicativo para as futuras pesquisas é dado por Prous, que afirma que “a abordagem
da arte rupestre não pode privilegiar análise estética. Talvez seria
até melhor renunciar à palavra arte para falar tão somente de grafismos
rupestres; porém a primeira expressão é por demais consagrada pelo uso para
ser abandonada. Pelo menos usemos consciente de sua ambigüidade” (Prous: 1992;
10).
Silva alerta
também para o uso consciente da palavra arte e afirma que “entre os arqueólogos,
o importante é que ao utilizá-la esteja implícita a nação de que tal palavra
pode significar coisas muito diferentes em tempos e lugares diferentes” (Silva:
1996; 14).
2.1- Terminologias utilizadas atualmente para o registro rupestre no
Brasil
É muito
importante um consenso de termos e tipologias no estudo dos registros rupestres,
pois é a partir daí que serão elaboradas as fichas de campo e todo material
classificatório será realizado. Apesar das divergências, já explicitadas no
capítulo anterior, existem alguns termos utilizados comumente pelos pesquisadores
no Brasil. Abaixo o padrão classificatório elaborado por Aguiar:
· Abstratos -
diz-se dos motivos que não representam formas reais na superfície da rocha-suporte;
· Alterações
- são modificações observadas na superfície da rocha-suporte;
· Corte - técnica
de elaboração de petróglifos pela ação de um artefato perfuro-cortante sobre
a superfície da rocha-suporte. A seção transversal do sulco apresenta-se na
forma de “V”;
· Córtex - camada
externa de intemperização de uma rocha;
· Culturais -
diz-se dos motivos figurativos que representam criações do homem. Podem representar
objetos, quando se referem à cultura material e não material quando representam
cenas (caça, pesca, duelos, etc);
· Esfoliação
- tipo de desagregação comum a certas rochas, produzidas por alterações climáticas
e ação mecânica, com desprendimento de lâminas da superfície da rocha. Essas
rochas são chamadas de repolho por sua esfoliação;
· Esquemático
- motivos figurativos em que há uma simplificação intencional na representação
do modelo, restando apenas as características mais evidentes;
· Figurativos
- diz-se dos motivos que copiam as formas existentes no espaço tridimensional;
· Geométricos
- motivos abstratos em que ocorrem predominantemente formas passíveis de redução
a uma equação, tais como triângulos, círculos, hipérboles, parábolas, espirais,
etc;
· Naturalistas
- motivos figurativos que representam motivos da natureza;
· Picoteamento
- técnica de elaboração de petróglifos por atrito de um artefato sobre a superfície
da rocha-suporte formando sulcos, cuja seção transversal apresentam-se em
forma de “U”;
· Rocha-Suporte
- rocha sobre a qual foram elaboradas as sinalizações;
· Sinalização
- toda e qualquer modalidade de testemunho gráfico deixado sobre rochas por
população pré – históricas.
Os termos acima
descritos servem pala ilustrar de forma padrão a descrição de um sítio na
sua forma preliminar ou superficial. No entanto, quando o registro arqueológico
é mapeado e estudado de maneira sistemática, os critérios de análises modificam-se
e o rigor na classificação deve obedecer a conceitos menos amplos. Para isso,
foram criadas as divisões de análise para os registros rupestres.
2.2- Os
padrões classificatórios para o registro rupestre no Brasil
A maioria das
contribuições que tratam dos registros rupestres pré-coloniais no Brasil são
descrições detalhadas sobre a natureza dos sítios descobertos e sobre aspectos
técnicos gerais.
Segundo Pessis,
“a passagem da fase de descrição à interpretação é ainda o ponto mais fraco
do processo analítico. Afirma ainda, que as conjecturas como forma de interpretação
não favorecem a pesquisa, pois as conjecturas só constituem intuições importantes
quando do início da reflexão, mas não podem ser confundidas com hipóteses
de trabalho na medida em que a falta de fatos concretos como fundamentos faz
com que todas as conjecturas tenham o mesmo valor” (Pessis, 1987:133).
Neste sentido,
faz -se necessário buscar um critério analítico que possibilite uma rigorosa
classificação, para não conjeturarmos tanto, como criticou Pessis.
Tal padrão classificatório
foi descrito por Martin, em 1996, no seu livro Pré-História do Nordeste, onde
distingue em princípio, as unidades de análises dos sítios rupestres e as
unidades picturiais rupestres de análise.
No primeiro
caso, Martin explica que “as unidades de análise são válidas para todo uma
região rupestre ou um mesmo horizonte cultural. Essas unidades de análise
podem ser a técnica, a temática, os pigmentos utilizados, o suporte, a escolha
dos sítios e o seu posicionamento espacial, etc. No segundo caso, a autora,
identifica as unidades picturiais rupestres existentes referindo-se a cada
sítio em particular, no qual escolhem-se os conjuntos gráficos significativos
e determinantes que filiam esse sítio a uma tradição determinada com as sub
tradições, estilo e, variedades em que o registro rupestre convencionou-se
dividir” (Martin, 1996:111).
Partindo do
pressuposto acima mencionado, convencionou-se criar padrões classificatórios,
levando em conta todos os aspectos já citados. Mais uma vez, o modelo atual
de análise, padece de inúmeras visões e do posicionamento teórico individual
de cada pesquisador, no entanto alguns parâmetros ficaram definidos e bem
estabelecidos, servindo de referencial para um quadro mais homogêneo na comunidade
arqueológica nacional.
Dentre alguns
padrões classificatórios com uma maior aceitação entre os pesquisadores citamos:
Tradição, sub-tradições e estilos, relatando Martin que “o termo tradição
já está bastante aceito no Brasil para as macro-divisões de registros rupestres”.(Martin:
1996; 214).
Segundo a mesma
autora acima citada, “o conceito de tradição compreende a representação visual
de todo um universo simbólico primitivo que pode ter sido transmitido durante
milênios sem que, necessariamente, as pinturas de uma tradição pertençam aos
mesmos grupos étnicos, além do que poderiam estar separados por cronologias
muito distantes” (Martin: 1998; 214).
Existem ainda,
outras subdivisões nascidas da necessidade de classificar o universo riquíssimo
dos registros rupestres no Brasil, dentre elas as sub-tradições, termo que
é utilizado para definir registros gráficos desvinculados de uma tradição.Citamos
ainda os termos estilo e variedades, que, no entanto, encontram problemas
no que concerne a sua utilização e definição.
Apesar das divergências
interpretativas que circundam os padrões classificatórios no Brasil, pois
na bibliografia específica do tema aqui abordado, cada autor cria seus próprios
padrões classificatórios, Martin afirma que “há unanimidade em reconhecer
como elementos chave identificatórios de uma tradição rupestre a temática
e como essa temática vem a ser representada, identificando-se nela certos
grafismos emblemáticos ou heráldicos que representam uma ação não reconhecível
que se repete em numerosos sítios” (Martin: 1996; 213).
3 - UM PANORAMA DOS REGISTROS RUPESTRES NO MARANHÃO
No Maranhão,
como em quase todo o Brasil, encontramos um tipo de vestígio arqueológico
denominado grafismo rupestre, que desde o século XVI vem despertando no país
o interesse de curiosos e pesquisadores, devido à sua origem e significação.
Em razão
da raridade de informações e à quase ausência de pesquisas envolvendo a arqueologia
em si e mais precisamente os grafismos rupestres no Maranhão, algumas publicações
inclusive ignoram a presença deste tipo de registro arqueológico na região:
"Os grafismos rupestres foram localizados até o momento
em quase todos os estados nordestinos, com exceção do Maranhão" (ECHTEVARNE:
1999; 126).
O Estado
do Maranhão tornou-se praticamente um “hiato arqueológico”, constatação que
deve ser feita e refletida, principalmente quando observamos os resultados
significativos obtidos na pesquisa arqueológica de dois estados vizinhos e
limítrofes, como no Piauí, através da Fundação e Museu do Homem Americano
e no Pará, com o Museu Paraense Emilio Goeldi.
Carneiro
afirma ainda que “O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional
é o órgão responsável pela segurança, cadastramento e licenciamento de pesquisas
arqueológicas, embora nesses 40 anos de vigência da Lei (Lei Federal n 3.924
de 26 de julho de 1961) nenhuma política concreta de gerenciamento dos sítios
tenha sido implantada em nosso estado, havendo total descontrole e negligência,
ocasionando a perda irreparável de suportes da memória pré-histórica maranhense”
(Carneiro: 2001; 13).
3. 1 - As pesquisas arqueológicas no Maranhão, evidenciando os grafismos
rupestres:
Apesar
do Maranhão figurar em relatos de naturalistas e viajantes desde o século
XVII, Prous afirma que “que o capuchinho francês Yves d’Evreux reproduz o
discurso de um pajé indígena que faz provavelmente referência a gravuras no
Maranhão” (PROUS: 1992; 509).Costa também faz uma breve referência quando
afirma que Alfredo de Carvalho em sua Pré-História Sul-Americana, publicada
em 1909, indica que “os litoglifos encontram-se no Maranhão, no Ceará, no
Piauí, no Rio Grande do Norte, na Paraíba, deles se ocuparam o autor de Diálogo
das Grandezas do Brasil, o padre Yves d’evreux, o padre Francisco Correia
Teles de Meneses” (COSTA: 1959; 163), as primeiras informações precisas sobre
os vestígios rupestres maranhenses vieram aparecer na literatura acadêmica
somente a partir da década de 1970, quando o professor Olavo Correia Lima,
junto com sua equipe, baseado nas informações de Olimpio Fialho, desenvolveu
uma série de viagens, objetivando comprovar as informações obtidas sobre os
grafismos rupestres no Estado.
O resultado
das incursões foi o mapeamento, descrição e as primeiras sínteses sobre a
ocorrência de vestígios rupestres no município de São Domingos no Maranhão,
nas imediações da Serra das Alpercatas e Serra da Boa Vista, onde segundo
LIMA, “A cultura rupestre maranhense acompanha exclusivamente os incidentes
espeleológicos. O Maranhão só possui formações rochosas à medida que sobe
o alto Sertão, onde mesmo assim, revelam-se mais ferruginosas e calcárias
que magmáticas. A cultura rupestre de São Domingos foi encontrada em cavernas:
Elida, Olímpio Fialho e Casa da Pedra” (LIMA: 1984; 90). No entanto, as primeiras
intervenções arqueológicas sistemáticas ocorrem com o levantamento realizado
pelo Arqueólogo Deusdediti Carneiro através do Departamento de Patrimônio
Histórico, Artístico e Paisagístico do Maranhão-DPHAP-MA, quando:
"Em 1990, através de contatos mantidos entre a Prefeitura
Municipal de Carolina e o DPHAP-MA, efetuou-se um levantamento preliminar
na região do Rio Farinha onde foram localizados os sítios Morro das Figuras,
caracterizado pela existência de gravuras com motivos antropomorfos e representações
de pegadas e pontilhados e o sítio Morro das Araras, com painéis geométricos,
ambos inseridos na região de fauna e flora típicas do cerrado e em suportes
areníticos" (CARNEIRO: 1998; 8).
Em 1992
é publicado pela Secretaria de Cultura do Estado do Maranhão, através do DPHA-MA
o resultado do Programa de Cadastramento e Documentação dos Sítios Arqueológicos
existentes na região do Rio Farinha em Carolina, Sul do Maranhão.
Após 10
anos passados da primeira documentação publicada de gravuras rupestres realizados
sistematicamente no Maranhão, realizaremos através de futuras pesquisas comprovações
em cima da literatura analisada, objetivando a localização e o mapeamento
de novos sítios, entre eles “Lajeado do Escrivão, no município de São João
Sóter, sítio Pedra da Letra, no município de Gonçalves Dias” (CARNEIRO: 1998;
08), além de sondagens sobre as informações dispersas sobre a ocorrência
de vestígios rupestres nos municípios de Mirador, Colinas, Imperatriz, Açailandia,
entre outros.
Neste sentido
e pelo que ficou exposto na comunicação, carecemos com a máxima urgência de
implementação de políticas que possibilitem oferecer condições mínimas para
a localização, mapeamento e pesquisa de novos sítios, muitos já em vias de
destruição, bem como de políticas de conservação e proteção dos sítios já
cadastrados.
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