Os Desafios da Educação: A Internet e os novos percursos da Aprendizagem
Introdução
Desde há cerca de duas décadas que vários autores (Toffler,
1984; Lévy, 1994; Castells, 2000) têm vindo a anunciar que as transformações
em curso na sociedade conduzirão a uma nova sociedade: a sociedade da informação.
Este conjunto de transformações económicas e sociais surge com a generalização
da introdução das novas tecnologias as quais estão a mudar a forma como trabalhamos,
como nos relacionamos ou como nos divertimos. A longo prazo, a nossa forma
de pensar está também a ser subtilmente transformada.
A transformação que se opera hoje a uma velocidade vertiginosa
é o resultado de um longo ciclo de mudanças iniciado com o aparecimento da
linguagem, que despoletou um processo de desenvolvimento das capacidades cognitivas
do homem (Goody, 1988). O aparecimento do alfabeto, na Grécia, após sucessivas
e “diferentes vagas de escrita que a humanidade conheceu” (Breton, Philippe;
Proulx, Serge, 1997:31) provocou, de acordo com Havelock (1982), a emergência
de um novo discurso conceptual e, logo, de um novo estado mental, que seria
alvo de uma reconfiguração com o aparecimento da imprensa. A revolução no
acesso à informação e a reelaboração da estrutura do livro provocadas pela
imprensa culminariam em grandes transformações nas esferas políticas, religiosas,
económicas e sociais.
Uma nova revolução se anuncia na Sociedade da Informação
relativamente ao acesso à informação, agora armazenada em novos suportes electrónicos
e em espaços não topológicos. Neste contexto, importa encontrar respostas
para as questões:
- Que novos
desafios aporta o uso da Internet ao indivíduo e às suas relações sociais?
- Que novas
culturas poderão estar a emergir nesta nova realidade?
- Como é que
o homem se (des)socializa neste contexto?
- Quais as implicações
advindas da utilização da Internet na aquisição de conhecimento?
- Que novas
práticas pedagógicas poderão emergir nesta sociedade em rede?
A Internet e os novos percursos de aprendizagem
Não raras vezes se infere que
desta sociedade repleta de auto‑estradas da informação resultará um
maior conhecimento para quem as percorre, sendo as ferramentas tecnológicas,
apenas e tão só, um meio de as percorrer. É nesta perspectiva que Dominique
Wolton define a Internet como a “rede constituída por diferentes redes interconectadas
à escala mundial. É o percursor das auto-estradas da informação” (2000:10).
Mas esta relação causa-efeito afigura-se como redutora, em primeiro lugar,
porque a informação não é automaticamente sinónimo de conhecimento uma vez
que este resulta de um processo de aprendizagem dinâmico e experiencial fruto
de uma construção pessoal. Em segundo lugar, o termo auto-estrada revela-se
inadequado num espaço não linear conhecido como Net (rede) ou Web
(teia), onde se tecem contínuas e permanentes ligações. A Internet é mais
que uma incomensurável tecnologia que permite o acesso à informação e na qual
os utilizadores são meros processadores individuais da mesma. Estes utilizadores
são seres sociais que constroem intersubjectividades no seu percurso de navegação,
transformando assim esta tecnologia em tecnologia social. E como uma “tecnologia
social utiliza os mesmos métodos de forma a permitir que indivíduos com interesses
similares se encontrem, falem, ouçam e construam um leque de sociabilidades”
(Cardoso, 1998:25), importa considerar a Internet enquanto artefacto cultural
e enquanto espaço de produção cultural (Christine Hine, 2000). Como artefacto
cultural, a Internet é mais do que um conjunto de computadores ligados em
rede, comunicando através de uma linguagem comum. Podendo estender-se a todo
o globo, em virtude da ligação técnica, a Internet não está em todo o lado
da mesma forma dado a sua utilização ser condicionada pelas construções sociais
e históricas dos contextos em que se insere. Como espaço de produção cultural,
a Internet revela-se um objecto de estudo de observação antropológica privilegiado
resultante das especificidades do ciberespaço. Assentando num locus
desterritorializado, a Internet potencia uma cultura acêntrica, dispersa pelas
suas redes e pontuada pela deslocalização do saber, em contraste com a cultura
hierarquizada da escola, herdeira de um saber uniformizado e estabelecido
na linearidade do livro.
Tendo sido despojada do seu carácter
hierático, a escola vê-se agora perante um novo desafio: o de adaptar-se e
responder às necessidades de uma sociedade em permanente transformação, na
qual as mudanças, para além de não cessarem, se revestem de uma velocidade
vertiginosa. Habituada ao confronto de ideias, de movimentos profundos, a
instituição é, pois, confrontada com um objecto evocativo e mediador de comunicação
em redes onde se redefinem noções como tempo e espaço.
Em 1996, Umberto Eco afirmou
, numa conferência da Academia Italiana para os Estudos Superiores, na América:
“Penso frequentemente que as nossas sociedades irão, em breve, dividir-se
(ou estão já divididas) em dois tipos de cidadãos: os que apenas assistem
à televisão, que receberão imagens pré‑fabricadas e, portanto, definições
pré-fabricadas do mundo, sem nenhum poder de escolher criticamente o tipo
de informação que recebem, e os que sabem trabalhar com o computador e que
serão capazes de seleccionar e elaborar informação” (1996:11).
A instituição escolar que nasceu
para, entre outros objectivos, proporcionar informação e promover o conhecimento,
compete agora com várias fontes fornecedoras de informação (como a televisão
ou a Internet), cujo fim principal não é formar nem educar. A confusão entre
informação e conhecimento é aliás habitual. O conhecimento implica uma informação
seleccionada, elaborada, interiorizada e adequadamente integrada nas estruturas
cognitivas de um sujeito (Adell, 1997:8). De acordo com este autor, o conhecimento
é algo pessoal e intransmissível pois só podemos transmitir informação que
pode ou não ser convertida em conhecimento pelo receptor. Nesta vertente,
cabe colocar a seguinte questão: que espaço cabe à educação e que lugar ocupa
a escola, enquanto instituição vocacionada para a formação e educação, no
universo do conhecimento cada vez mais disputado pelos atraentes veículos
transmissores de informação, com o que Lévy (2000) denomina de “dilúvio de
informação”?
O problema provocado pelo "ruído"
da superabundância de informação relaciona-se, então, não apenas com a sua
aquisição mas com a selecção e produção da mesma. O que equivale a dizer que
"as diferenças se estabelecerão entre as sociedades capazes de produzir conteúdos
e as que se limitarão a receber informações" (UNESCO, 1998:57).
Mas um outro e importante factor
advém da sucessiva e rápida transformação das inovações tecnológicas, as quais
não podem ser ignoradas pela escola. Esta característica, aliada à mobilidade
humana, não só geográfica como profissional, faz emergir a necessidade de
uma educação ao longo de toda a vida. Cada vez menos, a escola forma indivíduos
que desempenharão, ao longo de toda a sua vida, uma única profissão. A via
de especialização adoptada pelo ensino deverá entrar (e nalguns casos, entrou
já) em processo de inversão, estando as preocupações do ensino actual centradas,
portanto, na forma de dotar os indivíduos de versatilidade, capacidade de
adaptação e de selecção de informação.
Face às transformações operadas
e ainda em curso na sociedade, a instituição escola corre o risco de ser já
aquilo que Anthony Giddens considerou uma “instituição incrustada”: “instituições
que se tornaram inadequadas para as tarefas que são chamadas a desempenhar”
(2000:29). Com uma estrutura hierarquizada, a escola continua a ser um espaço
excessivamente baseado na cultura oral e no texto escrito, subestimando, ou
até ignorando mesmo, outras linguagens como a plástica, a musical, a gestual
ou a cinestésica. É como se a escola se encerrasse na sua tradicional torre
de marfim e não considerasse que vivemos “num ecossistema comunicacional,
constituído por um conjunto de produtos e interacções dinâmicas, estruturadas
por fluxos informativos” (Ribeiro, 1993:9). O espaço e o tempo escolares estão
desajustados do espaço e do tempo a que os alunos cada vez mais se habituam:
“as metáforas centrais da relação com o saber são (...) hoje a navegação e
o surf, que implicam uma capacidade de enfrentar as vagas, os redemoinhos,
as correntes e os ventos contrários sobre uma extensão plana, sem fronteiras
e sempre variável” (Lévy, 2000:172). Aos espaços fechados e apelativos da
memória contrapõem-se, assim, os espaços interactivos e apelativos da inovação,
do fazer e da construção contínua de textos que se re-escrevem ao gosto e
necessidade do indivíduo.
A construção do conhecimento
não é um processo de aquisição de um saber enciclopédico, “totalizável e adicionável”
(Lévy, 2000) mas antes uma viagem por um labirinto onde, a exemplo da biblioteca
de Babel de Borges, o educando se desloca, em contínuos movimentos de avanços
e recuos, de construção em reconstrução, de elaboração e selecção de informação,
de interacção com os outros.
A consulta de informação na imensa biblioteca desterritorializada
que é a Internet articula-se com a exploração de percursos pessoais advindos
das características intrínsecas ao hipertexto. Landow afirma que “o hipertexto
(…) implica um texto composto por fragmentos de texto – o que Barthes denomina
de lexias – e os nexos electrónicos que os conectam entre si” (1995:15) e,
na mesma linha, Lévy define-o como “um texto estruturado em rede (...) constituído
por nós (os elementos de informação, parágrafos, páginas, imagens, sequências
musicais, etc.) e por ligações entre esses nós, referências, notas, apontadores,
«botões» que sinalizam a passagem de um nó ao outro” (2000:61). Estas características
do hipertexto, possibilitando o jogo da exploração, induzem o utilizador numa
sucessão de processos associativos e argumentativos conducentes à elaboração
de ferramentas cognitivas favorecedoras de um saber conhecer. O leitor transmuta-se,
assim, em autor de novos textos pessoais construídos num percurso de sucessivos
links cujo limite é ditado pelo agora autor/leitor. Tal como nas comunidades
virtuais em que o utilizador se insere em novas e diversas redes, o hipertexto
permite a inserção em novas redes de conhecimentos dado não ser “apenas uma
rede de microtextos, mas um grande metatexto de geometria variável” (Lévy,
1994:52) que possibilita uma multiplicidade de demandas e de itinerários individuais
através de um processo dinâmico de leitura.
Deste percurso labiríntico e aparentemente caótico emergem
configurações hermenêuticas originadoras de novos conhecimentos, confirmando
que “longe de ser por essência negativo, o caos é um horizonte dramaticamente
ampliado de possibilidades e, como tal, compreende como nenhum outro, possibilidades
progressivas e possibilidades regressivas” (Santos, 1996:38).
A metáfora do labirinto remete para um espaço acêntrico
e sem pontos nevrálgicos. Sadie Plant estabelece a ligação da configuração
da Internet como um labirinto com a experiência advinda da guerra do Vietname
e do uso dos túneis, galerias e encruzilhadas de caminhos, pelos Vietcongs.
A uma estratégia de centralização, os Estados Unidos adoptaram uma táctica
de “distribuição e de dispersão” (Plant, 2000:60) na transmissão de informação.
Assim como os jovens atenienses que podiam optar por vários
caminhos ziguezagueantes no labirinto de Dédalo, no intuito de evitarem o
Minotauro, os utilizadores da Internet têm à sua disposição uma infindável
variedade de opções de navegação. Uma vez interrompido e reiniciado o percurso,
este não terá as mesmas características. As opções podem ser outras e os percursos
terem sido renovados. As transformações constantes que Heraclito defendia
como sendo a verdadeira característica da natureza, readquirem o seu sentido
no labirinto electrónico. Se não podemos tomar banho duas vezes na água do
mesmo rio, porque entretanto as águas e nós próprios mudamos, uma situação
análoga tem lugar no ciberespaço.
Das catedrais, quais "grandes máquinas significantes" (Johnson,
2001), onde se traduzia a vida religiosa nos vitrais e gárgulas, à Bíblia
impressa de Gutenberg, mais do que uma transformação técnica foi operada uma
mudança hermenêutica e mental. Lévy refere que o livro impresso originou a
"possibilidade de folhear, de acesso não linear e selectivo ao texto, de segmentação
do saber em módulos, de ramificações múltiplas a uma infinidade de outros
livros graças às notas de pé de página e às bibliografias" (1994:44). Da mesma
forma que a imprensa criou uma nova relação com o texto e com a escrita, o
hipertexto afigura-se como promovendo alterações importantes nessa relação
que terão consequências importantes no processo de aprendizagem. Este processo
de aprendizagem, mais próximo do da vida real, afasta-se do "saber de cor"
e aproxima-se da "memorização a longo prazo" (Lévy, 1994).
Contrariamente a muitos discursos, que defendem a aprendizagem
activa e que relegam para um plano menor a memorização, o relatório da UNESCO
explicita que “aprender para conhecer supõe, antes de mais, aprender a aprender,
exercitando a atenção, a memória e o pensamento” (1998:79), acrescentado que
“o exercício da memória é um antídoto necessário contra a submersão pelas
informações instantâneas difundidas pelos meios de comunicação (1998:79).
Assim, e através de exercícios associativos tendentes à selecção das informações,
a memória apresenta-se como um “celeiro de informações” (Flusser, 1998:24)
a ser cultivado e cuja utilidade é inegável uma vez que retemos melhor “aquilo
que pesquisámos ou a informação que foi objecto de um esforço activo de interpretação”
(Lévy, 1994:105).
Conclusão
Continuando a privilegiar a transmissão e a difusão de
informação como objectivos principais, a instituição escola caminha para a
plena definição de “instituição incrustada” de Giddens (2000). Na perspectiva
de Castells, as escolas são as instituições “menos afectadas pela lógica virtual
embutida na tecnologia da informação” (2000:422). Pese embora a crescente
informatização das escolas, as transformações sentidas não revelam o mesmo
grau que as de outros sectores porque, de acordo com Castells, as escolas
revelam ser, frequentemente, “centros de atendimento infantil e/ou repositório
de crianças na mesma proporção em que são instituições educacionais” (2000:422).
Estes estatuto dual, centro de acolhimento em virtude dos crescentes imperativos
profissionais dos pais dos alunos e instituição educativa à qual se incumbe
a formação de cidadãos, tem encerrado a escola num espartilho e remetido os
professores para o papel de funcionário executor de políticas educativas emanadas
superiormente.
Enquanto se debate nessa teia de objectivos contraditórios,
a discrepância entre uma escola de tradição oral-livresca e a realidade audiovisual,
mediática, instantânea e global é cada vez mais ingente pois é uma realidade
insofismável que a Internet está a transformar a forma como trabalhamos, como
aprendemos, como nos relacionamos com os outros. O desafio colocado à educação
na sociedade em rede consiste na utilização das redes informáticas de uma
forma sinergética e na passagem de uma estrutura de ensino vertical, em que
o professor assume o topo da pirâmide e “distribui” informação para a base
da mesma, os alunos, para uma estrutura de ensino rizomática. Neste quadro,
emergiria “um novo estilo de pedagogia, que favorece ao mesmo tempo as aprendizagens
personalizadas e as aprendizagens em rede” (Lévy, 2000:168) e, no qual, o
professor mais que um difusor de informação assumiria o papel de “animador
da inteligência colectiva” (Lévy, 2000: 169). Guiando e acompanhando, o professor
passaria do papel de “solista” ao de acompanhante, “aquele que ajuda os seus
alunos a encontrar, organizar e gerir o saber” (UNESCO, 1998:133). Insistir
nas relações verticais de poder seria insistir na desarticulação e confronto
com a experiência dos alunos que, navegando na Internet, imergem num espaço
plano, aparentemente utópico, sem fronteiras e sem hierarquias.
Às primeiras teorias entusiastas, que atribuindo um papel
primordial às tecnologias em detrimento do factor humano, previam o desaparecimento
da sala de aula e da presença do professor, o distanciamento e aprofundamento
dos estudos da nova realidade contrapuseram a importância do papel central
da educação e do professor no processo de ensino-aprendizagem e de construção
do conhecimento. O centro deste processo não se situa nas tecnologias, nos
artefactos, mas nas relações interpessoais estabelecidas. Por outro lado,
à “tirania do «tempo real» opõe-se o tempo diferido, o tempo do amadurecimento,
que é o tempo da cultura e da apropriação dos saberes” (UNESCO, 1998:57).
É neste “tempo diferido” que as relações professor‑aluno se revelam
essenciais para a passagem da obtenção de informação à aquisição e apropriação
de conhecimento. Esta passagem, realizada num contexto educativo com uma estrutura
rizomática, favorece a centralidade do aluno como agente do seu próprio processo
de aprendizagem e como organizador da informação que recebe. Estimula-se,
assim, uma cultura de convergência e de cooperação, a exemplo do que acontece
na navegação na Internet, e uma acção crítica, criativa e activa por parte
do aluno.
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