Fiéis virtuais: estudo antropológico sobre a presença religiosa na internet.
Autor: Jonatas Dornelles - mestrando
em antropologia social - Universidade Federal do Rio Grande do Sul/Brasil.
Contato: jonatasdornelles@terra.com.br
http://www.megabaitche.hpg.com.br/jonatas/jonatas.html
Elaborado em: Porto Alegre, agosto
de 2002.
Dentro do panorama amplo sobre estudos de sociedade e
religião cabe investigar uma situação específica: a penetração da religião
na rede mundial de comunicação entre pessoas que se estabelece a partir da
internet. De um lado temos o fenômeno religioso, ora mais próximo, ora mais
distante da sociedade. E essa discussão se estende, já que há divergências
sobre essa associação entre religião e sociedade. Alguns pensadores defendem
a dissociação entre uma e outra. Outros pensadores apostam na associação entre
religião e sociedade ou então que a presença religiosa estaria mais fortemente
presente em determinados setores sociais.
De outro lado temos a internet que, dentro de um conjunto
de avanços tecnológicos da humanidade, potencializa o processo de comunicação
entre pessoas. Nesse contexto, o acesso à informação torna-se cada vez mais
automático e simples. Através do processo de virtualização a sociedade cria
um "novo mundo”, o “on-line”. A sociabilidade não mais necessita da conexão
tempo-espacial característica do “mundo off-line”. É possível interagir socialmente
fora do mesmo tempo, fora do mesmo espaço, ou fora de ambos.
A presente investigação busca perceber de que maneira a
religião vai tomando seu lugar nesse novo mundo on-line. Será escolhido o
caso da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Devemos partir do princípio que o
“on-line” não é nada mais do que uma extensão da sociedade. Uma série de estudos
sobre fenômenos sociais intermediados pela internet parecem exaltar demasiadamente
a situação on-line como autônoma. Na verdade são trabalhos que pecam por não
levarem em conta a regra básica de que no mundo on-line nada se cria, tudo
se potencializa. A internet opera a partir do fenômeno de virtualização, que
é muito antigo na humanidade. Devemos compreendê-lo como uma desconexão tempo-espacial.
A partir dela uma série de outros fenômenos ocorrem. Mais adiante veremos
alguns deles.
Uma investigação sobre a presença religiosa na internet
deve partir de uma discussão ampla sobre a relação entre religião e sociedade.
Ou melhor, em uma discussão sobre secularização e dessecularização do mundo.
Antes de mais nada devemos tentar elucidar de que maneira a religiosidade
está presente modernamente na sociedade.
***
Berger sustenta a tese de que o mundo
atual não é secularizado. “O mundo de hoje, com algumas exceções que logo
mencionarei, é tão ferozmente religioso quanto antes, e até mais em certos
lugares” (Berger, 2001:10). Ele combate a idéia de que no mundo a modernização
tenha levado a uma diminuição da religiosidade na sociedade e na mentalidade
das pessoas. De fato ele considera que realmente a modernidade tenha alguns
efeitos secularizantes em alguns lugares mais que em outros, mas também motivou
fenômenos contrários à secularização.
Berger também diferencia dois níveis onde a secularização
pode operar: a nível societal e a nível da consciência individual. Nesse caso
podemos ter, por exemplo, a perda de poder e de influência das instituições
religiosas enquanto práticas, novas ou antigas, embora continuem fazendo parte
da vida das pessoas. Como resultado pode-se ter ou a institucionalização dessas
práticas, ou a manifestação de explosões de movimentos religiosos. Por outro
lado, uma instituição religiosa pode permanecer atuando socialmente ou politicamente
enquanto poucas pessoas manifestem adesão a ela.
Pierucci defende que não houve secularização
do mundo. Na verdade (Pierucci, 1997:101) os dados mostram que na Europa,
nos países tidos como mais secularizados, a porcentagem de pessoas que declaram
que crêem em Deus supera a de que se declara ateu. Esse quadro é ainda mais
nítido no final do século XX. No entanto, ele acredita no declínio da religião
no mundo moderno. A religião perdeu espaço indo parar na vida individual privada.
Pierucci critica a idéia de uma secularização
linear e evolutiva. Na verdade existem momentos de expansão do campo religioso
e de contração.
"A secularização consistiria,
assim, em momentos em que os limites do campo religioso (muitas vezes arbitrários,
posto que sempre cambiantes) alternadamente se contraem e se expandem." (Pierucci,
1997:111)
Ao refletir sobre os secularização e dessecularização Campbell
nos apresenta uma outra perspectiva. Para o autor estamos vivendo contemporaneamente
um processo de “orientalização” do ocidente.
"Apresento
de imediato minha tese: ocorre atualmente no Ocidente um processo de "orientalização",
caracterizado pelo deslocamento da teodicéia tradicional por outra uma que
é essencialmente oriental na sua natureza." (Campbell, 1997:5)
Campbell trata da substituição, no ocidente, do paradigma
que caracterizou o mundo ocidental pelo paradigma oriental. Mais especialmente
ele trata das idéias orientais absorvidas ou assimiladas no ocidente com a
conseqüente transformação delas. Ele prioriza os desenvolvimentos culturais
e intelectuais orientais que se deram dentro do ocidente.
***
A característica principal para
se compreender o virtual está nele ser um processo que rearticula as noções
de espaço e tempo. Embora ser constantemente,
nos dias de hoje, associado à tecnologia informática, seu surgimento data
do surgimento da espécie humana. A humanidade surgiu a partir desse processo
de virtualização, segundo Pierre Lévy (Lévy, 1996). Para ele “a espécie humana
emergiu a partir de três processos de virtualização: desenvolvimento das linguagens,
multiplicação das técnicas e complexificação das instituições” (Lévy, 1996:71).
A linguagem virtualiza o “tempo real”. Às ferramentas coube a virtualização
da “ação” (Lévy, 1996:75), ou seja, do corpo e do ambiente físico. Com o crescimento
das relações sociais surge a “virtualização da violência” (Lévy, 1996:77),
que trata de ordenar o conjunto de forças e impulsos existentes na sociedade
humana.
Outra característica do virtual é não estar em oposição
ao real. Pierre Lévy considera o virtual como o oposto do atual. Critica a
oposição vulgar entre virtual e real. Pelo contrário, “a virtualização é um
dos principais vetores da criação de realidade” (Lévy, 1996:18), sendo que
quase sempre não está presente. Essa seria a primeira característica específica
do virtual. No caso de uma comunidade virtual essa característica fica clara
ao lembrarmos que há uma desterritorialização. O grupo existe, seus projetos,
afinidades e interações sociais, mas não está presente no aqui e agora, não
tem lugar estável.
Por não ser estável pode estar presente em qualquer lugar
a qualquer hora. Sendo essa a segunda característica do virtual: tempo e espaço
são substituídos, respectivamente, por interconexão e sincronização. O resultado
imediato é o surgimento da cibercultura, que deve ser considerada “como ‘movimento
social’ liderado pela juventude metropolitana escolarizada e guiado pelas
palavras de ordem: interconexão, criação de comunidades virtuais e inteligência
coletiva” (Lévy, 1999:123).
Uma característica importante do ciberespaço,
apresentada por Rocha, é a possibilidade que o indivíduo tem de escolher seu
papel (Rocha, 1996). Não fica exposto, é representado pelo seu imaginário.
O indivíduo tem o poder de estar, através da Internet, presente em todo o
mundo. Da mesma forma que todo o mundo pode acessá-lo, pois ele tem um lugar
só seu.
Rocha lembra do "sentido místico" do ciberespaço. Ele decorre
fundamentalmente do fato de nossas leis ordinárias (do mundo off-line)
não terem validade no lado de lá – on-line (Rocha, 1996). Há um certo
estado de falta de regras ou pelo menos, outras regras. Rocha também faz menção
à inexistência da fisicidade humana no ciberespaço. O computador fica sendo
uma “prótese do indivíduo” (Rocha, 1996:8). Um equipamento melhor, que tem
um componente de fetichismo e fascinação. Ele possibilita um relacionamento
melhor na rede. Pode ser diretamente responsável por uma comunicação melhor,
qualitativa e quantitativamente. Pode ser comparado ao universo competitivo
masculino, onde há a necessidade, em certos casos, de se ter o melhor carro,
o mais veloz, etc. (Rocha, 1996:8). No ciberespaço, para Rocha, existe um
desligamento do corpo. Ele se refere a uma nova cultura baseada na trindade
de elementos: usuário, portal e ambiente de existência momentânea (Rocha,
1996 ).
Para Airton Jungblut há uma perda de referencial
no mundo on-line. Há uma certa fragmentação do eu no mundo on-line
(que já era constatado no mundo off-line). Tempo e espaço tornam-se
irrelevantes no mundo ciberespacial (Jungblut, 2000). Para esse autor, no
mundo ciberespacial há uma potencialização das ações individuais e a aproximação
do indivíduo com “poderes mágicos”. A possibilidade que se tem de ir e vir
em segundos a distâncias que antes eram quase intransponíveis, buscar informações
instantâneas e viver várias identidades faz com que o indivíduo tenha poderes
de onipresença, onipotência e onisciência.
Outra importante característica do mundo on-line
é a valorização do anonimato. “...o anonimato é um dos princípios mais valorizados
em sociabilidade via Internet” (Jungblut, 2000:137). No chat estudado
por Jungblut (“Cem Porcento Jesus”) os usuários recusam o anonimato em grau
mais elevado do que o geralmente observado nos demais chats. O motivo explicativo
a esse comportamento tem origem no mundo off-line: "como cristãos não
devem mentir e não devem ter nada a esconder" (Jungblut, 2000:137).
***
Os tipos de sites adventistas variam basicamente conforme
o segmento responsável pela sua manutenção. Existem os sites de fiéis, de
grupos de jovens/musicais, de igrejas/associações e de instituições anexas.
O conteúdo da informação que é vinculada e a abertura para a comunicação entre
os fiéis varia conforme esses tipos.
Os "sites de fiéis" podem ser assim chamados porque não
se identificam com grupos específicos. São sites que na maioria das vezes
apresentam alguma questão sobre a doutrina. Tentam polemizar algum assunto
entre os fiéis ou apresentam textos diversos sobre a religião adventista.
Nos sites mantidos por grupos de jovens da igreja a informação
é bastante pontual. Neles é informado sobre o grupo especificamente. Geralmente
não estão contidas informações gerais sobre a Igreja Adventista. Estão contidas
informações sobre endereço de reuniões do grupo, a que igreja está vinculado,
agenda de encontros e coisas do gênero. O canal de comunicação também é restrito.
Na maioria das vezes há apenas um endereço eletrônico para contato. Em poucos
casos existe um link para acessar uma sala de bate-papo (chat). Entretanto,
a sala de bate-papo estava sempre sem usuários.
Os sites de grupos musicais (corais da igreja) compartilham da mesma estrutura
dos de jovens. Existem informações sobre o grupo, nome dos componentes, história,
onde ensaiam, em que igreja estão vinculados, letras de músicas, músicas em
formato digital para download
[1] , e assim por diante. O canal de comunicação mantido também
parece ser muito restrito. Além do endereço eletrônico, em alguns casos existe
um “livro de visitas”. Ele é composto por uma lista de pessoas que visitam
o site e deixam uma mensagem que fica visível para que outros visitantes possam
ler. Esse livro de visitas assume a função de canal de comunicação, já que
geralmente um assunto é desenvolvido e tem a participação de várias pessoas
recorrentemente.
Tanto nos sites de grupos de jovens, quanto nos sites de
grupos musicais existem links para os sites das igrejas/associações e de instituições
anexas. A capacidade de integração dos sites de segmentos pequenos parece
ser de menor alcance. O canal de comunicação é pequeno. Além disso, eles se
referem a um grupo específico de uma determinada cidade. Estão muito atrelados
à situação off-line do grupo. Sua situação sugere que não conseguem estabelecer
uma rede ampla de comunicação entre os fiéis. Ao contrário dos outros dois
tipos, onde há, pelo menos, uma pretensão manifesta de se estabelecer um canal
amplo de comunicação entre fiéis e instituição.
Nos sites das igrejas (IASD de tal cidade, onde IASD significa
Igreja Adventista do Sétimo Dia) existem mais informações gerais sobre a instituição.
É comum obter dados sobre a fundação e desenvolvimento da igreja (ver http://www.asr.org.br/sobre.asp
, http://www.asr.org.br/nossahistoria.asp
e http://www.cpb.com.br/htdocs/adventismo/fradv.html).
Além disso, informações específicas sobre a igreja em questão: endereço, membros
da estrutura organizacional, história, etc. Nos sites das associações, a abrangência
é maior. Por serem departamentos mais gerais que as igrejas, a informação
divulgada segue a mesma linha. Além deles divulgarem a história da igreja
no mundo e no Brasil, divulgam os princípios adventistas (ver http://www.cpb.com.br/htdocs/frcrencas.html
). Também é possível acessar, a partir deles, as igreja associadas e os sites
das instituições anexas/paralelas.
Os sites de instituições paralelas são aqueles com características
mais operacionais. Nesse caso estão os sites que disponibilizam a venda de
produtos de “mídia religiosa”. Produtos tais como CDs, DVDs, livros, etc.
Assim como um site não religioso de venda de produtos, a venda é efetuada
on-line, com cartão de crédito (ou boleto bancário) e entrega em domicílio.
Nessa categoria está o site do SISAC – Sistema Adventista de Comunicação (ver
http://www.sisac.org.br/site/default.cfm
). Nesse site é possível se informar sobre os horários dos programas adventistas
vinculados em rádio e televisão. Assim como as estações de rádio e canais
de televisão onde, em cada estado brasileiro, são apresentados tais programas.
No site "Bíblia On-line" é oferecido uma série de cursos
bíblicos (ver http://www.bibliaonline.net/
). Os cursos bíblicos são destinados ao estudo da bíblia. Anteriormente eles
eram realizados somente na igreja. Nesse site é possível para o fiel acompanhar
um curso bíblico on-line. Além disso, esse site abre um canal para comunicação
entre fiéis e pastores. É o “Aconselhamento OnLine”. Os pastores podem se
cadastrar no site e ficarem a disposição para consultas dos fiéis para que
esses possam tirar dúvidas. Através do “bibliaonline” o fiel pode encaminhar
uma pergunta que será respondida por um pastor. Basta “selecionar” a religião
e enviar a pergunta.
O site possui um acervo com perguntas
já respondidas. Atualmente há 435 perguntas e respostas cadastradas para consulta.
Antes de consultar um “Conselheiro Bíblico” o internauta é informado sobre
o acervo e orientado a consultá-lo antes de encaminhar a pergunta.
O site também possui demais canais de comunicação. A seção
“pedidos de oração” é descrita da seguinte forma:
"Peça aqui sua oração ao Pai que está nos céus em nome de seu Filho, Jesus
Cristo. Faça também, seu agradecimento a Deus de tudo que ele tem feito a
você.
Seu pedido de oração será enviado às pessoas e grupos de oração espalhados
no mundo inteiro, principalmente no Brasil.
Informe seu e-mail abaixo para que você participe de nossa corrente de oração.
Enviaremos um ou mais pedidos de orações feitas por outras pessoas para que
você possa orar por elas.” (<http://www.bibliaonline.net/>)
Também é possível dar um Testemunho on-line.
A seção “testemunho on-line” é descrita da seguinte forma:
"Você está feliz por algo de bom que ocorreu em sua vida fruto do amor e
cuidado de Deus?
Dê o seu testemunho sobre algo marcante que Cristo fêz em sua vida.” (<http://www.bibliaonline.net/>)
O "bíbliaonline" também promove encontros pessoais de fiéis.
O fiel interessado pode se cadastrar e ficar disponível para visitar algum
irmão morador da mesma cidade.
Além de estudarem a bíblia os adventistas estudam a “lição”.
A lição tem a aparência de uma revista. Ela contém ensinamentos bíblicos para
serem estudados diariamente. Para cada dia do ano existe um ensinamento. Os
textos não são bíblicos, mas remetem à passagens bíblicas. Cada lição dá conta
do período de três meses. Em um ano a pessoa utiliza quatro lições. Cada lição
possui a espessura de uma revista. Todas as lições - seus textos - são preparados
com quatro ou cinco anos de antecedência. Todo o material impresso da igreja
adventista (incluindo livros e lições) é editado pela Casa Publicadora Brasileira
(ver http://www.cpb.com.br ).
Em seu site é possível comprar todos os produtos editados
(inclusive as lições) e acessar o conteúdo da lição. Nessa modalidade existe
uma facilidade na consulta das passagens bíblicas. Na lição impressa é indicado
um determinado versículo da bíblia e a pessoa precisa pesquisar, folhar e
procurá-lo. Na “lição on-line” basta um “clique” em um link para o internauta
acessar, automaticamente, a passagem bíblica em questão.
***
O Pastor José Garcia coordena o setor de comunicação da
Associação Sul Riograndense da Igreja Adventista do Sétimo Dia, localizada
em Porto Alegre/RS. A entrevista com ele possibilitou enfocar de que maneira
a comunicação via internet é percebida e trabalhada pelo segmento de coordenação
da igreja. Mais do que definir a situação atual, serviu para indicar quais
os caminhos que a religião, nesse caso a adventista, toma no mundo on-line.
A entrevista serviu para verificar três questões amplas:
de que maneira a igreja começou a utilizar a internet como meio de comunicação,
de que maneira ela está presente atualmente na igreja e quais são as expectativas
para o futuro. De modo geral o Pastor José explica que a internet se transformou
atualmente em uma forma de evangelização.
A internet se tornou em um dos meios de evangelização da igreja. Existem
pessoas que gostam disso, mas que não se sentem bem em ir visitar uma pessoa
e passar a nossa mensagem. Pela internet é virtual, tu não vê a pessoa. Há
pessoas que descobrem cinco, seis endereços de e-mail de amigos e passam diariamente
uma mensagem.
Na igreja Central de Porto Alegre e em Novo Hamburgo existem dois camaradas
que trabalham exclusivamente assim: mandando e-mails, mandando cursos. Existem
pessoas que até já se converteram a partir dessa forma de contato. Foi uma
maneira de evangelização exclusivamente pela internet.
Foram descobertos aleatoriamente e começaram a se comunicar, se corresponder
e acabaram aceitando a Palavra. É uma forma um tanto elitista. É uma conversão
lenta. Isso leva mais tempo que outros métodos, mas é visto com bons olhos
pela organização porque acessa pessoas que não teriam outra possibilidade
de contato.
Quando surgiu essa idéia de usar a internet como meio de
comunicação da igreja com seus fiéis?
Isso surgiu aos poucos. Não faz muito tempo que começou. Isso foi acontecendo
na medida em que foram sendo despertados certos segmentos da igreja. Isso
é feito por pessoas que gostam de navegar pela internet. Por quem gosta de
mexer com isso. Essas pessoas vão ganhado espaço na igreja através disso,
dando testemunho. Elas dizem: “Olha, estou fazendo esse trabalho e está sendo
legal. Tenho por exemplo trezentas pessoas as quais estou me comunicando”.
Elas fazem assim...elas pegam uns trezentos endereços de e-mail ao mesmo tempo
(banco de e-mail)...nós temos aqui em nossa seção esse banco de e-mails,
de funcionários, aposentados da igreja... e mandamos todo o nosso trabalho.
O pastor lá de São José do Norte recebe as orientações dessa semana. E assim,
então, existe banco de e-mail de irmãos da igreja e eles mandam nossos cursos
bíblicos, notícias da igreja...
Eu percebi que existem muitos sites de grupos de jovens
e de grupos musicais. Eu gostaria de saber se eles são incentivados a criarem
sites pela própria da igreja? Como é a relação entre esse segmento e a igreja?
A iniciativa parte desses grupos ou da igreja?
É assim. Nós temos na igreja, além da organização, onze departamentos.
Então, cada departamento incentiva atividades com o seu grupo que desenvolve
formas com o objetivo final de evangelização. Sempre é evangelização. Até
mesmo na educação (escolas). É a meta dos departamentos. Nas escolas
é feita de uma forma indireta, não se pode obrigar as pessoas a seguirem.
É feita por reuniões, semanas de oração, das leituras...enfim, é uma atividade
espiritual que é desenvolvida lá. Então o departamento dos jovens realiza
várias atividades com os jovens. E entre eles existem as próprias lideranças
que realizam atividades. Por exemplo as vigílias. E da internet eles criaram
um site dos jovens da igreja. Então eles mantém atualizado com tudo que se
refere aos jovens: mensagens, o que está acontecendo, com todas as atividades.
Isso partiu deles e aí a organização dava apoio. A coisa é feita em conjunto.
Muita coisa vem de lá pra cá, outras coisas vão daqui pra lá.
A entrevista com o Pastor José mostrou uma naturalização
grande em relação à utilização da internet. Os casos citados de evangelização
pela rede são aqueles em que o fiel já percebeu a potencialidade da internet.
A “timidez” citada pelo Pastor pode ser banida de um meio onde o anonimato
prevalece. E mesmo havendo uma identificação, comum entre os internautas cristãos
(Jungblut, 2000), a comunicação virtual favorece o contato.
Embora ser uma situação naturalizada, a evangelização virtual
é minoritária. Ainda existe o obstáculo da difusão do meio entre a população
geral. Porém, isso pode significar a penetração em uma camada que estaria
mais distante da igreja: universitários e empresários, por exemplo. A importância
da relação entre religião e internet, nesse caso, é significar uma abertura
à manifestação religiosa individual. Mesmo ainda não tendo se massificado,
é um campo novo que está sendo explorado devido à potencialidade que oferece.
***
As informações coletadas na presente investigação nos possibilitam
fazer algumas considerações finais, separadamente e em conjunto. No caso do
espaço ocupado pelos sites religiosos é interessante observar ele é proporcionalmente
maior no caso da religião evangélica/protestante. A religião evangélica historicamente
sempre esteve mais aberta às novas tecnologias (Jungblut, 2000). Essa maior
receptividade em relação às novas tecnologias comunicativas está relacionada
com sua expansão no Brasil e no mundo. O Censo 2000 mostrou um crescimento
na ordem de 80% no número de fiéis evangélicos em comparação com o ano de
1991. Berger se refere ao crescimento do islamismo em países islâmicos e do
evangelismo em âmbito mundial. No caso observado da Igreja Adventista isso
ficou claro. A instituição já utilizava a comunicação via programas de rádio
e televisão. A utilização da internet foi apenas um passo. O Pastor José fala
em uma necessidade de se utilizar de todos os meios disponíveis de comunicação.
As opções ao acesso dos fiéis são bem amplas. No caso da
Igreja Adventista verificamos uma série de possibilidades de comunicação entre
fiéis e entre fiéis e igreja. A internet potencializa a divulgação de informações.
Em vários sites foram encontrados os textos referentes à história da religião
no mundo e no Brasil. São informações que estão disponíveis tanto para os
fiéis, quanto aos não fiéis. Além dessas informações referentes à instituição,
a pessoa pode fazer contato com igrejas de outros locais, corais, grupos de
jovens, etc. Para um não-adventista, as informações expostas na rede dão conta
de toda a dimensão da instituição. Pode, inclusive, iniciar um canal de comunicação
com fiéis. Para os fiéis parece ser uma possibilidade a mais para realizar
a “evangelização”. Utilizando a potencialidade da internet o fiel pode fazer
contato com uma série de pessoas.
Estamos diante do encontro de religião e internet. A união entre a duas é
facilitada a partir das características de cada uma. Parece haver
um consenso entre os autores em localizar modernamente a religião.
Para eles ela passa a crescer como motivação individual. Se na
esfera social há uma maior secularização, na individual ela é
menor. O “encantamento” continua a fazer parte da
vida da maioria dos indivíduos. Dessa forma, a religiosidade continua
fortemente presente no mundo moderno. Não devemos nos surpreender
ao observarmos a religião tomando espaço através da tecnologia.
Aliás, as características dessa forma de tecnologia de comunicação
– internet – favorecem a “religiosidade moderna”
por potencializar, justamente, as manifestações individuais.
O mundo on-line, com suas características, favorece a expansão individual
na direção de uma onisciência, onipresença e onipotência. Nesse
caso, se Berger, Pierucci e Campbell, por exemplo, estão corretos
em afirmar que a religiosidade está fortemente presente a nível
individual, é de se esperar que ela se manifeste em um meio onde
o indivíduo tem diante de si uma poderosa ferramenta. Voltamos
à regra de que na internet nada se cria, tudo se potencializa.
Essa investigação tratou de perceber de que maneira a religiosidade
se manifesta no mundo on-line. Antes de mais nada devemos ter
claro que ela decorre de uma situação off-line. Ela é caracterizada,
basicamente, por um crescimento do evangelismo e uma forte religiosidade
individual. Embora não ser utilizado por maioria dos fiéis, o
canal de comunicação proporcionado pela internet oferece amplas
possibilidades para a evangelização e até conversão. Mais do que
estudar isoladamente a presença religiosa na internet, um estudo
sobre conversão e evangelização poderá ter uma parte destinada
à discutir essa relação. Aqui tentou-se perceber de que maneira
a “religião” toma espaço no mundo on-line. Foi surpreendente
observar que ela está disponível a “um clique” do
indivíduo.
Como uma contribuição para a discussão entre secularização
versus dessecularização, podemos perceber que a religiosidade toma seu espaço
mesmo no campo da tecnologia. Dessa forma, contrariamente à idéia secularista
de que com o avanço da razão e da ciência a religião ocuparia um lugar a parte
e diminuído na sociedade. A melhor maneira de percebermos a presença da religião
no mundo moderno é partirmos da premissa de que a “razão” e a “ciência” são
“feitas” pelos indivíduos. Não há como a religiosidade acabar se os indivíduos
continuam percebendo o mundo, também, de uma forma encantada.
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