INTERNET, SAÚDE E RELIGIÃO: UMA NOVA ABORDAGEM
Universidade Federal de Santa Catarina- Brasil
Centro de Filosofia e Ciências Humanas
Programa de Pós Graduação em Antropologia Social
Mestranda: Suzana R. Coutinho Bornholdt
E-mail: sucoutinho@hotmail.com
Minha proposta para este Plano de Abordagem é unir três temas
aparentemente muito distintos dentro do campo antropológico: Internet,
Saúde e Religião. À primeira vista, pode-se perguntar "como"
e "porque" juntar essas três temáticas, considerando sua
diferenciação teórica e seu campo de atuação. E de fato o são.
O desafio está em pensar estas três temáticas como complementares,
“conversando” entre si, interagindo e reforçando seus
campos de atuação. Para isso, torna-se necessário construir um
olhar cuidadoso, reconhecendo ainda certa fragilidade e falta
de legitimidade principalmente do campo cyberantropológico,
que dirá do cruzamento entre estas três temáticas.
Para se pensar Internet, saúde e religião em termos “práticos”,
é preciso considerar a saúde não apenas como uma expressão física
de um bem estar ou falta dela. Passo a considerar o termo saúde,
especificamente para este trabalho, como vinculada e diretamente
relacionada à saúde espiritual dos indivíduos. O bem estar
espiritual passa a ser visto como resultado de uma busca de
relação e aproximação direta com a divindade. A busca de saúde
espiritual passa a ser vista como uma analogia feita com a busca
de saúde física. A especificidade deste trabalho reside na possibilidade
dos indivíduos buscarem (e muitas vezes encontrarem, conforme
veremos ao longo do texto) esta saúde espiritual na Internet.
Logo, é inevitável não transformar o campo da Internet não apenas
como espaço de sociabilidade [1] , mas agora também como espaço
de expressão da fé e cura. Ao longo deste trabalho, me detive
principalmente na forma como o aspecto virtual serviu de oportunidade
ao auxílio espiritual e as especificidades criadas em torno desta
relação, enxergando neste espiritual o aspecto “saúde”,
refletido não apenas no espiritual, mas também no físico dos indivíduos.
No sentido de oferecer uma sustentação teórica para esta argumentação,
vou dividir minha explicação em cinco partes: a Internet enquanto
espaço de pesquisa antropológica, a religião apresentada em um
espaço virtual e a busca de saúde expressa também no campo virtual.
Em seguida, através de um exemplo etnográfico, vou tentar mostrar
como este cruzamento entre as três áreas de conhecimento é possível,
e como a saúde e a religião podem ser expressas na Internet. Por
último, me lançarei nesta “difícil tarefa” de levantar
questões resultantes da breve análise de campo.
A discussão a respeito do reconhecimento da Internet enquanto
espaço antropológico “clássico” (pensando nos termos
Malinowskianos), apesar de já muito debatida, considero-a ainda
muito frágil, e sua legitimidade ainda é bastante discutida no
meio antropológico. Ainda que de forma breve, acredito ser necessário
expressar neste texto algumas colocações a respeito do campo cyberantropológico.
Atualmente a Internet já pode ser considerada como um espaço não
apenas de comunicação, mas de oferecimento de suporte simbólico
que abarca várias atividades de caráter societário e que “é
palco de práticas e representações de diferentes grupos que o
habitam” (Guimarães: 1998). Partindo destas considerações,
o termo “Ciberespaço” pode ser definido como “o
locus virtual criado pela conjunção das diferentes tecnologias
de comunicação e telemática, em especial, mas não exclusivamente,
as mediadas por computador" (Guimarães: 1998). Em geral, o
objetivo das pesquisas no ciberespaço não é esgotar as diversas
maneiras pelas quais ele pode ser utilizado, mas explorar o grande
potencial de transformação e de descoberta de novos usos que este
oferece. No caso deste trabalho, o olhar se volta para o aspecto
da religiosidade vinculado à saúde (ou vice-versa) e a forma como,
a partir da Internet, podemos encarar diversos eventos e transformações
neste meio. Outra discussão relevante neste aspecto está relacionada
não apenas ao ciberespaço e suas transformações, mas a pensar
a Internet como um não-lugar, proposto por Marc Augé. Como
conceito apresentado pelo autor para compreender o mundo contemporâneo,
o espaço por excelência da “supermodernidade” é o
“não lugar”: “Se um lugar pode se definir
como identitário, relacional e histórico, um espaço que não pode
se definir nem como identitário, nem como relacional, e nem como
histórico definirá um não lugar" (Augé, 1994:73). Este "não
lugar" é socializado e transformado em um "lugar antropológico"
clássico como Augé o define, com suas relações, com seus territórios
demarcados e sua ocupação por grupos de sociabilidade. É no espaço
dinâmico, sem limitações de distâncias físicas, onde as denominações
religiosas e os indivíduos se confundem. Este "lugar antropológico"
acaba se tornando uma especificidade deste trabalho, por transformar
o "espaço do sagrado" (Gouveia: 1999), o mundo religioso e seu
vínculo com a saúde em um novo lugar antropológico.
Pensar a Internet como um lugar antropológico exige um certo
esforço intelectual. Mais ainda, para pensar a religião na Internet..
Expressa ela está, é um fato. O desafio aqui já não é mais questionar
se é possível uma religiosidade virtual nem se existe religião
na Internet. Pesquisas anteriores
[2] relatam com clareza este fenômeno, eliminando qualquer
possibilidade de dúvida a esse respeito. Deixando de lado os possíveis
questionamentos levantados a partir deste fato, o que ainda tem
exigido algum esforço teórico está colocado na perspectiva de
vincular a religião à saúde e, num segundo momento, como elas
têm sido expressas na Internet.
Penso este assunto partindo principalmente da perspectiva de
Laplantine, que ao estabelecer uma relação entre religião e saúde
e entre doença e sagrado, argumenta a favor da perspectiva de
colocar em evidência a doença como caso particular da desgraça
social e a saúde como obtenção da salvação. O autor, ao tratar
deste assunto, estabelece uma relação entre a fé, saúde e doença,
sugerindo dois modelos em diferentes momentos. Num primeiro momento,
a justificação pelas obras está relacionada com o aspecto
da doença vista como punição e a saúde como recompensa. Neste
modelo, a doença é vista como conseqüência de algo que o próprio
indivíduo provocou, sendo punido por uma negligência ou por excesso,
mas sempre por mau comportamento, logo, por uma falta com relação
à ordem social. Neste caso são identificáveis dois aspectos. Em
um aspecto, a doença é vista como uma transgressão coletiva de
regras sociais, sempre exigindo uma reparação. Em outro aspecto,
a doença é encarada como conseqüência do pecado coletivo e individual.
A justificação pelas obras foi uma postura desenvolvida
pelo pensamento cristão, e a medicina partindo desta perspectiva,
trabalha de forma correlata: o indivíduo que obedece as prescrições
médicas, “merece” a longevidade. Logo, neste aspecto
da justificação pelas obras, a doença é vista como punição,
enquanto que a saúde é vista como uma recompensa. Já num segundo
momento, Laplantine relaciona fé, saúde e doença não mais partindo
da perspectiva da justificação pelas obras, mas de outra
perspectiva, através da justificação pela graça. Neste
caso, o indivíduo não é mais responsável pelo que lhe acontece.
Aqui o ressurgimento da justificação pela graça, ou seja,
da predestinação (influência da perspectiva Calvinista, onde a
salvação independe das obras) assume atualmente a forma genética-
a ordem natural “salva ou amaldiçoa” independente
de sua obediência à lei. A doença aqui vem como uma vingança gratuita,
como um destino, uma fatalidade. A pessoa se considera vítima
de algo que não provocou. Assim como no caso anterior, aqui também
são identificáveis dois aspectos. Em um deles, a doença é atribuída
à onipotência da má natureza (por exemplo, o câncer). Em outro
aspecto, a doença é vista como expressão de uma relação entre
indivíduo e sociedade apreendida como má. Para Laplantine, vale
lembrar que essas representações são marcas de todas as culturas.
A percepção médica contemporânea dominante
(...) pode ser lida como o resultado de um processo. O
fato de se considerar as representações de saúde em uma
perspectiva ao mesmo tempo moral e religiosa contribui para
enriquecer (e também diferenciar) o que identificamos anteriormente
(...) como processos etiológicos e terapêuticos combinatórios
entre doença-castigo (maldição genética) e a doença-punição
(transgressão da normalidade preventiva) (251).
Antes de seguir adiante rumo aos exemplos etnográficos, vale
buscar em Rodrigues & Caroso a idéia de sofrimento e a representação
cultural da doença na construção da pessoa. Ao pensar em identidade
pensa-se em histórias de vida, trajetórias pessoais e em visões
de mundo, remetendo à noção de pessoa, no sentido conferido por
Mauss. Logo, a noção de pessoa sugerido pelos autores corresponde
a um plano de realização da identidade, na medida que os autores
utilizam várias formas de discurso para construí-la quando falam
de si ou mesmo ao serem observados em diferentes situações
(138). Neste sentido, as narrativas são de importância vital
para o entendimento desta identidade. Ao pensar em narrativas,
os interlocutores utilizam categorias como doença, cura e sofrimento
para descrever sua existência como marcada pelo sofrimento, pela
dor ou por outros fatores, como por exemplo relações pessoais,
amorosas, situação econômicas ou afiliação religiosa. Ainda pensando
em narrativas, ela pode ser vista como fora de um contexto, rompendo
com um fluxo, criando condições para se falar da crise e criando
mecanismos para que dentro da crise haja possibilidade de superação.
A narrativa neste caso terá sempre um sentido de expressão de
conflitos e de relação. Além desta perspectiva, a narrativa é
vista como forma de ajudar no processo terapêutico, com sentido
de persuasão, convencendo mais que a explicação lógica, e de forma
muito eficaz. Ou seja, contar uma história pode ser um processo
terapêutico muito eficiente. Vale lembrar, ainda de que forma
breve, que é importante diferenciar narrativa de discurso. A narrativa
é vista como encerrando uma experiência, um evento. E este é o
grande diferencial do discurso. Já quanto à categoria de sofrimento,
para os autores ela parece constituir um “significante flutuante”,
abarcando contradições de significados, os quais se movimentam
entre os planos mais concretos (relacionados a doenças físicas)
e os mais abstratos (no sentido de cognitivos, determinando que
a pessoa sofredora construa sua identidade social a partir
do evento do sofrimento. Logo, o sofrimento é, ao mesmo tempo,
a experiência da fragmentação ou experiência de caráter negativo,
representada pela doença, mas é também o ponto de partida para
a construção ou reconstrução da identidade social.
Pensando nesta possibilidade de construção ou reconstrução da
identidade social, sou levada a pensar também em performance
ritual, expressa no texto de Rabelo. Considerando que o ritual
produz uma transformação da experiência dos participantes, Rabelo
cita Fernadez [3]
ao falar sobre o papel das metáforas na cultura. Rabelo explica:
As metáforas estendem a experiência informe
do sujeito a domínios mais concretos e reconhecíveis. Através
da atribuição de predicações metafóricas sobre si mesmos
e os outros, os indivíduos procuram se situar mais favoravelmente
em um determinado contexto relacional (48).
Ao explicar Fernadez, Rabelo argumenta que este autor parte
da analogia entre cultura e texto, teorizando sobre as estratégias
textuais das quais o ritual é capaz de orientar a atitude dos
seus participantes (e aqui a narrativa entra novamente). Já baseada
Kapferer [4] , Rabelo
argumenta que analisar o ritual é exatamente examinar como os
símbolos, significados e metáforas são manipulados em um contexto
de ação. A eficácia do ritual está baseado na eficácia que
o trabalho de transformação se realiza, e estudar o ritual acaba
sendo muitas vezes a tentativa de compreensão de como diferentes
modelos religiosos de cura são transformados em imagens e práticas
que possibilitam uma ressignificação da experiência do doente.
Vale lembrar que me refiro aqui à saúde e doença espiritual.
Caberiam aqui ainda outros autores e outras discussões que
despertam interesse quando são pensadas questões a respeito de
religião e saúde. Por agora, meu olhar se volta especificamente
para o enfoque da doença como desgraça social, a saúde como obtenção
da salvação e a relação da justificação pelas obras versus
a justificação pela graça, proposto por Laplantine; para a questão
do sofrimento e a representação cultural da doença, a forma como
as narrativas descrevem o sofrimento e expressam conflitos, sugerida
por Rodrigues & Caroso, e por Rabelo as questões sobre a performance
ritual, como produtora de transformações da experiência, pensando
na eficácia do ritual e como os modelos religiosos são transformados
em imagem e prática que permite uma ressignificação da experiência
do doente. Mas afinal, como podemos buscar a expressão da saúde,
pensada nos termos aqui propostos, no campo virtual?
O critério de atuação desta pesquisa foi pensar estas questões
a partir de um lugar específico, ao considerar a Internet como
espaço antropológico. Optei por pesquisar páginas da Web
[5] , evitando desta forma um canal de bate papo evangélico
específico. Me desviei destes canais de bate papo pelo fato das
páginas da Web assumirem de forma explícita o caráter de Igrejas
Virtuais, diferentemente dos chats evangélicos,
que buscam e assumem para si outras particularidades e evitando
muitas vezes o rótulo de Igrejas. Como, para o momento,
o objetivo não realizar um relato etnográfico, vou buscar pontuar
algumas questões observadas e mostrar como a saúde é vista no
meio virtual.
A religião na Internet, muito mais que um ambiente de sociabilidade,
busca para si uma identidade diferenciada através da busca de
seu objetivo com o uso de ferramentas virtuais. Pelo simples fato
de se preocuparem em colocar nas Home Pages o seu "objetivo",
isto já expressa uma preocupação diferenciada de outros sites.
Não apenas proporcionar novas amizades, mas eu ousaria dizer que
em sua grande maioria o objetivo dos sites religiosos ou das Igrejas
Virtuais gira em torno da preocupação de evangelização, de
pregar o evangelho de Jesus Cristo. De acordo com minhas observações,
pude dividir os sites religiosos em duas categorias: um,
apenas como um ambiente de sociabilidade religiosa; outro, como
uma igreja virtual "institucionalizada".
O primeiro exemplo
[6] é menos comum de ser encontrado na rede. Apesar de se
autodenominarem como Igreja Virtual, eu os caracterizei como um
grupo de sociabilidade pelo fato de não possuírem uma liderança
institucionalizada, um Pastor. O que ocorre neste ambiente é o
caso do responsável técnico ser o responsável pelo aspecto virtual,
não do grupo, mas de um discurso explícito na Home Page.
O líder é o "proprietário" do site, criado e mantido
pela pessoa. Este tipo de ambiente foi categorizado apenas como
ambiente de sociabilidade por possuir uma diferenciação essencial
em relação ao segundo caso: as pessoas freqüentadoras e usuárias
desta página, fora da Internet, não formam um grupo institucionalizado.
Por outro lado, formam um grupo muito coeso dentro da Internet,
sendo expressa através de encontros reais, troca de e-mails,
recados, endereço, entre outras informações pessoais. Essas informações
suscitam muitos aspectos a serem pensados, mas no momento quero
me deter (e isso me exige um certo esforço) na busca do aspecto
saúde X religião dentro destes ambientes virtuais. No site
escolhido como exemplo neste primeiro quadro, a comunicação
primordial é dada através de e-mails entre o grupo (uma espécie
de lista de discussão), e as mensagens trocadas entre os usuários
ficam registradas nos arquivos que podem ser encontrados na própria
Home Page. Os serviços de chats ficam restritos
aos usuários que tenham acesso àquele tipo de serviço. Enquanto
site religioso, tem como principal propósito "PREGAR
A PALAVRA, GANHAR ALMAS E FAZER DISCIPULOS".
A pregação da palavra é dada através de arquivos de textos evangelísticos
enviados pelos próprios participantes, podendo ser consultado
de acordo com a necessidade de cada um. Os temas giram em torno
principalmente do relacionamento direto do indivíduo com Deus,
propondo uma "caminhada conjunta" com Deus no seu dia
a dia. Assim como em outros sites evangélicos, possuem
um espaço para "pedidos de oração", onde registram suas
necessidades. Este site, especificamente, possui uma característica
que facilita muito a observação: os pedidos de oração realizados
pelas pessoas ficam registrados na página, de maneira que todos
possam ler e ter acesso. Aqui, a saúde e a fé são expressas de
uma forma observável, estando intimamente interligadas. Segue
abaixo dois pedidos registrados no site:
AMADOS IRMÃOS
OREM PELA MARCIA, POIS ESTEVE POR PROCESSO DIFICIL, TEVE
UM ABORTO, ORE POR ELA PARA QUE POSSA SE CONVERTER..ACEITAR A
JESUS COMO SENHOR E SALVADOR.
Ou então:
OREM PELA VIDA DA MÃE DA JENNY ABECIA QUE
ESTA INTERNADA NA UTI ... OBRIGADO.
Vemos aqui duas situações interligadas. No segundo caso, um
pedido de oração "puro e simples" relacionado à saúde
de uma pessoa. O primeiro, por sua vez, pede oração não somente
pela restauração física da pessoa, mas também pela sua conversão,
pela sua salvação. Os momentos difíceis são encarados pelos evangelizadores
como momentos oportunos de pregação da palavra de Deus, já que
estão "abertos" e mais sensíveis. A relação saúde versus
religião aqui expressa se dá nos termos pensados por Laplantine,
onde a doença (ou o sofrimento) é encarado como desgraça, e a
saúde como obtenção da salvação, da vitória. Estão relacionados,
e por isso a salvação é vista como grande "trunfo" nas
mãos dos evangelizadores virtuais, pelo fato de não oferecerem
apenas algo que eu diria "virtual" - a salvação. Oferecem
muito mais, oferecem saúde, oferecem vida. Não apenas "vida
eterna", mas também vida física, bem estar e saúde do corpo
aqui na Terra.
A segunda categoria dos sites religiosos
aqui propostos são as igrejas virtuais institucionalizadas.
Diferentemente da primeira, esta é resultado de uma institucionalização
"real". Explico. Pode-se pensar que o cristianismo,
assim como outras religiões, se utiliza de argumentos (espiritualizados
ou não) para justificar sua expansão e crescimento. No caso do
cristianismo, um argumento muito forte a ser considerado é a base
bíblica usada por um grupo para justificar essa orientação. A
ordem explícita de Jesus Cristo a todos os seus discípulos para
que sejam suas testemunhas "... tanto em Jerusalém, como
em toda Judéia e Samaria e até os confins da terra (livro
de Atos, capítulo 1, versículo 8) estabelece para o cristianismo
uma visão muito ampliada do seu campo de atuação e responsabilidade,
visando a expansão do "Reino de Deus" aqui na terra.
Resultado deste pensamento, as igrejas que aqui chamo de "institucionalizadas"
tomam para si, em função deste quadro, uma responsabilidade muito
grande de evangelização. E o fazem através do envio de missionários
(tanto para Brasil como para o exterior), através de trabalhos
sociais, visitação nas casas (geralmente nas proximidades do local
de culto), hospitais, entre outros. A reconfiguração do campo
religioso em função de aspectos virtuais aqui se mostra quando
a igreja institucionalizada vê na Internet um novo campo e uma
nova possibilidade de atuação evangelística e possibilidade do
ganho de "novas almas". E é o caso deste segundo exemplo
que aqui me proponho trabalhar
[7] . Uma igreja institucionalizada, com sede própria, de
"carne e osso" (parafraseando as linguagens do senso
comum), com suas áreas de atuação no mundo real, encarando a Internet
como uma possível possibilidade de atuação do campo missionário.
Sua especificidade está, diferentemente do primeiro caso, em ter
um líder, um pastor, uma pessoa responsável pelo aspecto espiritual.
Não é apenas uma Igreja Virtual, mas sim a Igreja "Assembléia
de Deus em Cidade Nova" no Rio de Janeiro que possui um trabalho
de evangelização na Internet, fazendo dela uma extensão do seu
trabalho off-line. O resultado final não é muito diferente
do site anterior, pelo fato de possuir os mesmos campos
temáticos. Apenas ressalto duas características que tornam este
exemplo muito peculiar. A primeira "novidade" é o fato
desta Igreja Virtual possuir um Pastor Virtual. Nada mais
óbvio, pode-se pensar num primeiro momento: uma igreja, ainda
que virtual, possuir um pastor, ainda que também virtual. Mas
se considerarmos que a maioria destes ambientes, apesar de possuir
um líder espiritual, não o vinculam a um nome específico (normalmente
o fazem por apelidos) nem a uma imagem nem foto, muito menos a
um número de telefone específico. No caso deste segundo exemplo,
há um Pastor Virtual, no qual temos acesso ao seu nome, sobrenome,
informações pessoais (sua formação, por exemplo) e telefone para
contato. Isto chama a atenção pelo fato da Internet, mesmo nos
casos de auxílio espiritual, ser e construir uma imagem muito
impessoal e "despersonalizada", seja dos participantes
ou seja do líder. Neste caso, o usuário é convidado a, em casos
de necessidade, entrar em contato com o pastor e a conhecer os
trabalhos da Igreja. Outro fator que chamou a atenção e cabe muito
bem para esta discussão da saúde e religião, é o de relacionar
como fator condicional a fé ao bem estar. Vejamos o texto, convidando
os Internautas a participar dos encontros de oração:
SE O SEU PROBLEMA É:
Enfermidade, Desemprego, Falência, Crise Familiar,
Causa na Justiça, Obra de feitiçaria, Vícios (álcool, drogas,
jogos), Sentimental, Inveja, Angústia, Depressão, Fraqueza Espiritual,
etc...
VISITE
A IGREJA DO MONTE
PARTICIPE DAS CAMPANHAS DE ORAÇÃO
TODOS OS DIAS 19:00hs
Segunda, quarta e sexta a partir das 15:00hs (igreja
sede)
Penso nas palavras de Rodrigues & Caroso, argumentando que
o sofrimento é, ao mesmo tempo, a experiência da fragmentação
ou experiência de caráter negativo, representada pela doença,
mas é também o ponto de partida para a construção ou reconstrução
da identidade social. Desta forma, acaba sendo construído um discurso
de identificação entre as pessoas, não apenas em função do sofrimento
e das necessidades buscadas neste tipo de ambiente, mas também
o discurso que a Internet promove em torno da saúde e da religião,
identificando-as.
Fazer análises a respeito desta discussão ainda é muito cedo.
A metodologia de trabalho, por exemplo, ainda é frágil e exige
um maior aperfeiçoamento. Por agora, a análise se concentrou no
discurso já expresso e registrado no site. Penso que, no intuito
de tornar esta proposta mais completa, posteriormente seja necessário
buscar dar voz ao próprio usuário ao longo do texto, estabelecendo
uma relação direta com as pessoas que buscam saúde na Internet.
Acredito, sim, ser possível levantar questões para, com certeza
mais adiante, prosseguir e aprofundar as pesquisas a respeito
desta interessante relação entre Internet, saúde e religião. Considerar
a saúde e a religião sendo expressas no campo virtual é uma tarefa
delicada e ainda exige maiores análises. Muito mais árduo, porém,
é identificar, nos discursos e nas narrativas onde as saúde e
a doença está representada, e a forma como são expressas. O desafio
está lançado!
BIBLIOGRAFIA:
Augé, Marc. "Não Lugares: Introdução a uma Antropologia
da Supermodernidade". Campinas, SP: Papirus, 1994.
Cardoso, C.A. & Rodrigues, N. "Idéia de 'sofrimento'
e Representação Cultural da Doença na Construção da Pessoa".
In: Duarte e Leal (orgs.). "Doença, Sofriemento, Perturbação:
Perspectivas Etnográficas". Rio de Janeiro, RJ: Ed. Fiocruz,
1993.
Gouveia, Eliane H. "Comunidades Eletrônicas de Consolo".
Revista da Associação dos Cientistas Sociais da Religião do Mercosul.
Porto Alegre, RS, ano 1, vl.1, 1999.
Guimarães, Mário José L. “O ciberespaço como Cenário para
as Ciências Sociais”. Trabalho apresentado no Grupo Temático
“A sociedade da informação e a transformação da sociologia”,
do IX Congresso Brasileiro de Sociologia.
Helman, C. "Cultura, Saúde e Doença". Artes Médicas,
Porto Alegre, 1994.
Laplantine, F. "Antropologia da Doença". Vozes, 1991.
Rabelo, M.C. "Religião, Ritual e Cura". In: Alves
e Minayo (orgs.) "Saúde e Doença: Um Olhar Antropológico".
Rio de Janeiro, RJ: Ed. Fiocruz, 1993.
[1] Vide, por exemplo, Guimarães, M.J.L. "Vivendo
no Palace: Etnografia de um ambiente de sociabilidade no Ciberespaço".
Dissertação de mestrado em Antropologia Social- PPGAS, UFSC, 2000.
[2] Vide, por exemplo, Coutinho, S.R. "Jesus
On Line: Comunidades Religiosas e Conflitos na rede", Florianópolis,
UFSC, 2000. E também Gouveia, E.H. "Comunidades Eletrônicas de Consolo",
Revista da Associação Brasileira de Cientistas Sociais do Mercosul, ano 1,
n.º 1, 1999, entre outros.
[3] Fernadez, James, 1986. Persuasions and Performances:
the play of tropes in culture. Bloomington, Indiana University Press.
[4] Kapferer, B. 1979. Introduction: Ritual Process
and the transformation of context. Social Analysis, 1:3-19.
[5] A seleção dos sites se deu através do site de
busca Google (www.google.com.br), onde realizei as buscas
através dos termos "Igrejas Virtuais".
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