Etnia, Religião e Política : Relações e deslocamento de fronteiras
Valdir Pedde
Doutorando em Antropologia Social
Universidade Federal do Rio Grande do Sul
Introdução
Nesse trabalho, buscarei fazer algumas análises a partir de uma história de
vida. A técnica de pesquisa baseada em histórias de vida possui uma ampla gama
de adeptos, sobretudo nas Ciências Sociais. O uso desta técnica de pesquisa
se torna possível pelo fato consciente de que o dever das Ciências Sociais não
é primeiramente classificar, mas compreender o fenômeno social. Por outro lado,
não se trata do descortinamento de uma psicologia intimista do entrevistado,
mas “de uma escavação no microcosmo para nele entrever o macrocosmo” (Cipriani,
1988 : 122). Contudo, é preciso destacar que esta metodologia de pesquisa obedece,
no presente trabalho mais uma função exploratória do que analítica. Em outras
palavras, a história de vida constitui-se um excelente meio de entrar no tema
e permitir o afloramento de questões essenciais dentro do tema em pesquisa.
Portanto, nossa intenção é permitir que a história de vida suscite questões
interessantes de serem aprofundadas, e não de possibilitar tipologias e construção
de alguma teoria (Bertaux, s/d).
Essa pesquisa tem como objetivo ingressar dentro
de um tema que intersecta três áreas de estudo: etnia, religião e política.
Trata-se de uma mistura deveras interessante. Entendo o presente estudo como
introdutório e exploratório.
Este trabalho desdobra-se em dois principais momentos. No primeiro, (re)tomo
aquilo que considero os principais pontos da trajetória de vida do entrevistado
e coloco-os de uma forma mais cronológica. Na segunda parte, trabalho com três
hipóteses interpretativas que, em maior ou menor medida, dão conta das três
áreas temáticas. Sem querer adiantar mais, vamos ao texto.
1 - Sucinto apanhado da história
de vida de nosso protagonista
Inicialmente, gostaria de (re)contar um pouco
da trajetória de Dimitri[1]. Penso que, com isso, retomo os
principais aspectos apontados pelo entrevistado como relevantes na sua trajetória
de vida e na confluência da religião, da política e da etnia.
Dimitri nasceu em São Gabriel. Seu pai era um
militar do exército. Aos 19 anos, chegou em Porto Alegre para estudar e
trabalhar. Na escola, engajou-se no movimento estudantil secundarista, mais
especificamente na União Gaúcha de Estudantes – UGEs. Nesta época, empregou-se
na editora da Livraria do Globo, onde foi aprendiz de impressor gráfico.
Mais tarde, trabalhou em empresas metalúrgicas, onde conheceu e tomou parte
do movimento sindical na década de 80. Participou ativamente na organização
do PT ao lado de outros sindicalistas, como Paulo Paim, hoje, deputado federal.
Mais tarde, prestou concurso e foi aprovado como
funcionário da Rede Ferroviária Federal. Dentro da empresa ferroviária,
integrou-se ao movimento sindical, mas na forma de oposição ao sindicato
existente. Naquele momento, o sindicato dos ferroviários era coordenado
por pessoas não ligadas à CUT e ao PT. Mesmo sem o aval do sindicato, juntamente
com outros funcionários, organizou greves por melhores condições de trabalho
e salário. Na segunda tentativa de eleger-se para a liderança do sindicato,
a chapa de oposição foi eleita para presidir o sindicato dos ferroviários.
Dimitri, no entanto, não aceitou fazer parte da diretoria. Sua vida matrimonial
e familiar estava em crise, devido a suas constantes ausências.
Como participante da CUT e por recomendação desta,
sendo negro, Dimitri foi convidado e tomou parte de discussões sobre preconceito
racial promovidos pela Central Sindical. Engajou-se mais profundamente nesse
tema. A partir desse vínculo, ele foi conduzido para a diretoria do CENARAB
(Centro Nacional dos Religiosos Afro-Brasileiros, que mais tarde alterou
seu nome para Centro Nacional de Articulação e Resistência Afro-Brasiliera,
sem, no entanto, mudar sua sigla). Dimitri tornou-se vice-presidente da
instituição.
"O CENARAB, apesar de ser uma entidade das religiões
afro, era também uma entidade do Movimento Negro. Basta dizer que a gente
teve uma participação bastante grande no Primeiro Encontro de Entidades
Negras, que aconteceu em 1990, em São Paulo. Esse encontro teve a participação
de 10 mil militantes do Movimento Negro do Brasil todo" (Dimitri).
Este também foi o período mais “conturbado” de
sua trajetória. Por volta de 1990, foi demitido da Rede Ferroviária Federal
e separou-se de sua esposa. Entrou em depressão, perdendo-se no alcoolismo
e iniciando o uso de cocaína. Em virtude de sua participação no CENARAB,
e por estímulo de muitos companheiros dessa organização, deixou-se aprontar
como babalorixá no ano de 1991. Neste mesmo ano foi convidado a participar
do governo de Tarso Genro, como assessor para assuntos de cultura negra
em Porto Alegre. Diminuiu o uso de drogas em virtude do trabalho como assessor.
Trabalhou como articulador para políticas da cultura negra em Porto Alegre
entre 1992 e 1996.
"Eu fui escolhido para assessorar o Tarso Genro
na assessoria de políticas públicas para a comunidade negra. A partir daí,
várias atividades foram realizadas, tendo como ponto de vista o resgate
da cultura afro-brasileira, mas também de preservação e valorização das
culturas negras, como o Carnaval, a música negra, a dança, a capoeira. Essa
assessoria articulava todos esses segmentos: de música, de dança, das religiões
afro, da cultura negra como um todo" (Dimitri).
Dentro do CENARAB, ainda,
encontrou grande visibilidade pública, participando da organização de um
seminário dentro da ECO 92 no Rio de Janeiro. Liderou movimentos para aumentar
a visibilidade das religiões afro, tendo auxiliado na organização da festa
de Ogum, ocorrida naquele evento.
"Este era um evento que reunia em torno de cerca
de trinta mil religiosos aqui próximo ao Gasômetro. Ele tinha a intenção
de resgatar a visão ecológica da cidade com o rio e do orixá Ogum com o
rio. Isso acontecia sempre no mês de dezembro, próximo ao dia 8 de dezembro.
Este é o dia em que os terreiros de religião festejam, comemoram, o orixá
Ogum" (Dimitri).
Finda a gestão de Tarso
Genro, como sua assessoria era cargo de confiança, colocou-a à disposição.
Ficou sem emprego e passou a aumentar seu consumo de drogas. A saída da
prefeitura conduziu Dimitri a um certo ostracismo. Perdeu praticamente todas
as possibilidades de manter uma visibilidade política, além de encontrar-se
em uma situação financeira difícil.
Diante do sofrimento, voltou-se à religião afro
na expectativa de encontrar uma saída, um rumo ou um sentido para sua existência.
Não encontrando respostas para sua situação, viveu uma vida desregrada e
com um acentuado consumo de drogas. Nessa situação, tanto a política quanto
a religião afro perderam a plausibilidade para dar um sentido ao seu mundo.
"Então, eu comecei a procurar explicação para
essa situação. Como é que aconteceram essas coisas todas? Fui buscar essas
explicações do ponto de vista espiritual. Comecei, através de reflexões,
através de consultas aos búzios, consulta aos oráculos, consulta às entidades,
aquelas entidades que eu cultuava e tudo, e eu comecei a ver que ali estava
o motivo desse fracasso do ponto de vista profissional, político e afetivo.
Então, eu acabei entrando num desespero muito grande. Me angustiei profundamente
com isso e procurava um apoio espiritual nas entidades do culto afro-brasileiro,
mas a resposta não vinha. Foi aí que eu comecei a questionar: Puxa! Mas
eu tô servindo há tanto tempo esses espíritos. Tô servindo há tanto tempo,
já quase vinte anos servindo aos espíritos, servindo aos Orixás, servindo
aos caboclos, tudo. Mas a minha vida tava dando prá trás. Depois de ter
chegado a um estágio de grande visibilidade pública, de prestígio, próximo
ao poder, porque eu era assessor do prefeito, eu vi tudo cair por terra.
Fiquei na rua da amargura. Daí eu comecei a pensar: pô, mas que poder têm
esses orixás? que poder tem essa religião? Por que eu, um servo, um seguidor,
hoje, estou nessa situação? Ai eu comecei a questionar. E fui buscar essa
resposta do ponto de vista espiritual e não consegui. Nesse desespero grande,
as facilidades começam. Aí eu comecei a beber muito, entrei no meu fundo
do poço. Comecei a beber, tive contato com drogas, usei drogas e acabei
me endividando, chegando ao ponto de pensar em suicídio. Mas aí, para honra
e glória de nosso Senhor Jesus Cristo, eu conheci Jesus. Eu tinha tentado
o suicídio depois de usar mais de 20 gr. de cocaína. Eu quase entrei em
overdose, mas, naquele momento em que eu senti que eu ia morrer, que eu
disse: Jesus! Foi quando eu me lembrei em dizer o nome de Jesus" (Dimitri).
Após sentir-se mal com
o ingestão de drogas, e a partir de sua crise de sentido, Dimitri encontrou
a IURD. Esse “encontro” deu-se inicialmente a partir de programas televisivos,
os quais o impulsionam a participar de cultos nessa igreja. Após a experiência
da conversão, empreendeu uma luta contra as drogas, tendo várias recaídas,
mas finalmente “libertou-se” da dependência do uso de drogas.
"A partir daquele momento, eu comecei a ter uma
outra visão. Comecei a ver a luz no fundo do túnel. Bom, a minha vida ainda
tem uma salvação. Eu não tenho mais um emprego, não tenho mais minha família,
não tenho mais um emprego federal, mas eu tenho capacidade, eu tenho inteligência,
eu tenho braço, tenho perna, posso trabalhar, posso ir à luta. Posso construir
o meu caminho. A partir daí, eu consegui fazer isso, e, hoje, já fazem quatro
anos que eu estou na Igreja Universal. Claro, a vida não é um mar de rosas.
A gente tem que lutar. Mas eu tenho conseguido, conseguido através do trabalho
autônomo que eu exerço: sou corretor de seguros, sou comunicador de rádio
também. Então eu tenho conseguido buscar vitórias e as coisas têm começado
a acontecer na minha vida. Claro, com muita luta. Mas sempre que surgem
as dificuldades, vem a certeza no meu coração que Jesus vai me dar a vitória"
(Dimitri).
Dimitri se engajou como
evangelista na IURD, sobretudo direcionando seus esforços aos drogaditos.
Saiu do PT. Sua saída se deveu fundamentalmente a duas razões. Elas foram
expressas assim pelo entrevistado:
"A minha razão para a saída do PT é porque eu
deixei de acreditar no PT. Primeiro, a partir do meu ponto de vista pessoal.
Foi na minha convivência com o PT que eu conheci as drogas[2].
Isso é uma coisa que poucas pessoas sabem, mas a grande parte da militância
do PT usa drogas. Existe uma certa liberdade para isso. Não que o partido
pregue, não é isso. Mas os militantes do PT, dentro de sua rebeldia e da
sua postura um pouco mais radical, também não sei por que, é um fenômeno
que tem, mas usam, né? Usam, usam muito, a juventude principalmente. E foi
lá, na minha convivência, lá que eu conheci. Conheci, porque eu vi isso
como sendo exercido de uma forma um tanto liberal, bastante aberta, diferente
de outros segmentos da sociedade. Esse foi um dos grandes motivos. Como
naquele núcleo de pessoas tinha um grande número de pessoas usuárias de
drogas, e eu precisava me afastar disso, eu disse: eu não quero mais esse
lugar, não quero mais participar de atividades nesse lugar” (...).
"A segunda razão foi política, e considero a mais
importante. Eu vejo o PT, hoje, com um bonito discurso, um discurso muito
forte, um poder de mobilização muito grande, mas uma prática totalmente
contraditória. O discurso é um, mas a prática é outra. Eu vejo o PT, hoje,
muito afastado das políticas sociais, que são as coisas que eu defendo muito.
Falta a inserção dos excluídos da sociedade, no trabalho, nos bens e serviços,
no acesso à moradia. Vejo o PT muito distanciado disso. O PT tem uma mídia
muito forte. Tem um discurso muito envolvente também, mas, na verdade, ele
não transforma a sociedade. Não vejo mais o PT como alternativa. Taí o exemplo
dos governos do PT. No início, foi muito bom, mas o governo do Estado, hoje,
a gente sabe como está. O funcionalismo público tá numa situação difícil.
Aumenta cada vez mais a população de rua. A insegurança aumenta cada vez
mais na cidade. O PT não trouxe uma resposta para isso" (Dimitri).
Apesar de sua saída do
PT, Dimitri continuou inserido no Movimento Negro, creio que em parte devido
a sua inserção dentro do PDT.
"Hoje, eu sou o secretário de movimentos sociais
do PDT. Tenho tido uma articulação com o movimento da juventude, o movimento
sindical, movimento de negros, movimento de mulheres, ecológico, onde a
gente luta por isso. Primeiro, para a defesa do patrimônio público e das
empresas estatais, e, segundo, políticas de geração de renda e políticas
sociais, para tirar as pessoas que estão na marginalidade, a fim de incorporar
essas pessoas na sociedade para terem uma vida decente, de trabalho, de
família. É isso que me encanta, hoje, no PDT" (Dimitri).
Com sua entrada na IURD,
ele não participa mais de movimentos negros com forte conexão com religiões
afro. A razão é evidente.
"As pessoas sabem da minha militância, sabem das
minhas atividades, tanto do ponto de vista profissional como do ponto de
vista político. É lógico que as pessoas do Movimento Negro, basicamente,
elas têm alguma resistência em me aceitar enquanto evangélico. Não é muito
fácil isso, até porque as igrejas evangélicas combatem muito os cultos aos
orixás, identificam muito, até com seu fundo de verdade, o culto aos elementos
sobrenaturais como culto aos demônios. Eu, particularmente, que já estive
no outro lado, eu identifico, não apenas identifico, hoje, eu tenho certeza
que esse tipo de culto é um tipo de culto ao demônio. Basta a gente fazer
um trabalho de pesquisa ou de observação. Basicamente, todas as pessoas
ligadas aos espíritos, às entidades sobrenaturais, elas, basicamente, acabam
morrendo por doenças incuráveis, tipo câncer, diabete, AIDS e também têm
suas famílias desestruturadas, muitas vezes pelo vício de alcoolismo ou
vício de drogas. E isto eu posso dizer com toda a certeza, que não é a atuação
de um espírito que venha de Deus, porque o espírito de Deus é um espírito
de vida com abundância. Essa é a atuação do espírito de Deus. Então, a partir
do momento em que tem todas essas referências de desestruturação da família
e de problemas de doenças, porque quem é de Deus, eu vejo assim, quem é
filho de Deus tem que ter um corpo saudável. Porque Deus é que criou toda
essa maravilha: a terra, os céus, criou a vida neste planeta. Então, tem
que ter vida" (Dimitri).
Atualmente, Dimitri, está militando no movimento
Unegro[3] -União de Negros pela igualdade - mas diz estar
saindo. Uma das questões mais interessantes foi que Dimitri disse pretender
formar um grupo de negros a partir de igrejas evangélicas. Já entrou em
contato com um pastor de uma outra denominação, o qual também é negro. Não
se sabe se conseguirá realizar seu intento, mas seria muito instigante para
um pesquisador acompanhar esse grupo, se realmente vier a se formar.
2 - Hipóteses interpretativas a partir da história de vida
Gostaria de fazer três inferências interpretativas
a partir dos relatos do entrevistado[4]
(entrevistas em anexo). Seguirá na direção de uma análise macro para
a micro. Como primeira inferência, sustento a possibilidade de compreender
a trajetória de Dimitri dentro de um contexto que é maior que o próprio
sujeito empírico. Assim, a primeira hipótese é a de que o sujeito em questão
tenha sofrido uma transformação identitária, que transcende apenas uma
crise pessoal. Parece tratar-se de uma síndrome[5]
que muitos ativistas experimentaram, especialmente políticos (Burity,
1997). A segunda hipótese, ligada à anterior, é questionar se não estamos
diante da hipótese de que a política perdeu sua plausibilidade para a
sustentação de identidade. Este fenômeno seria análogo ao ocorrido com
a religião, pelo menos se tomarmos como referência aqueles teóricos da
secularização que estudavam a religião cristã nas décadas de 1950 e 1960[6]? Uma última hipótese, desenvolvida no ponto 2.3, diz respeito
à sua permanência no movimento negro, apesar de seu afastamento das religiões
afro. Como compreender este fenômeno?
2.1 - Reconfiguração identitária
A primeira hipótese é a de um trânsito de uma
identidade coletiva para a disseminativa. Esta tese é defendida pelo cientista
político Juanildo Burity (1997). Para chegar a esta tese, Burity procura
analisar a construção da identidade na modernidade, bem como perguntar-se
sobre o que seria exatamente a propalada asserção de que vivemos uma época
de constituição de novas identidades. Para o autor, essa nova identidade
é desdobrada em três pontos.
Primeiro: o novo, enquanto tal, está, na verdade,
enquadrada pelo olhar do observador. Este enquadramento do olhar sobre
a identidade pode estar percebendo o novo através da base analítica de
uma separação do que seja o estranho/familiar, ou do teorizado/teorizável.
A novidade colocar-se-ia, portanto, sobre o que parece estranho e ainda
por teorizar. Mas Burity recusa tal base analítica. Para ele, o novo não
é algo etéreo, mas a ele se acrescenta as “velhas” identidades. O novo,
portanto, não seria sinônimo de novidade apenas, mas uma identidade que
está em busca de um novo horizonte. Em outras palavras, a nova
identidade sempre esteve lá, como uma possibilidade, Por isso,
o novo nem sempre anuncia o inusitado. “O novo pode ser o mais antigo,
o mais irritante, o desde há muito aspirado” (Burity, 1997: 28).
A segunda questão levantada pelo pesquisador
é que as novas identidades testemunham um cansaço com os grandes projetos,
as meta-narrativas, com o adiamento do prazer, com a negação das emoções
como elemento “intrínseco às experiências da subjetividade da comunidade”
(Burity, 1997: 28).
A terceira questão, relaciona-se às duas precedentes,
sendo a que, nesse momento, já enquadrada teoricamente, mais nos interessa.
Para este pensador, é preciso distinguir, nestas novas identidades, uma
“dimensão de asserção coletiva e uma dimensão disseminativa” (Burity,
1997: 30). O que vem a ser isso?
A primeira dimensão aponta para identidades
ligadas a “projetos” de pessoas que, por sua vez, estão conectadas a movimentos
que têm o seu foco centrado no que ele chama de política de identidade[7]. A segunda dimensão consiste em modificações
de identidades experimentadas por sujeitos que pode levá-los para uma
inserção parcial em grupos. Burity chama a atenção para o fato de que
existem transformações identitárias tanto ao nível grupal quanto individual.
“O trânsito entre as duas dimensões está sempre em aberto” (Burity, 1997:
30). Essas duas dimensões se intercambiam de forma que
"a dimensão disseminativa detém-se por algum
tempo, o suficiente para produzir uma identidade coletiva ou para engrossar
as fileiras de outra(s) já existentes. Por sua vez, frustrações, insatisfações
ou crises podem acometer participantes dos novos movimentos sociais (culturais
ou sociais) - como efetivamente vem ocorrendo desde inícios dos anos 90
- lançando-os no campo disseminativo em busca de novos referenciais, projetos
e estratégias de construção do eu/nós" (Burity, 1997: 31).
Este parece ser o caso
de nosso entrevistado. Nós podemos inferir esta recomposição identitária
a partir do que Dimitri relata sobre sua atuação sindical e no PT.
"Eu tinha uma simpatia com o PT, pois, como eu
participava muito do movimento sindical e como o PT nasceu desse movimento,
isso me aproximou do PT. Ele sempre foi um partido que lutou por melhores
salários, melhores condições de trabalho, políticas sociais, políticas
que pudessem incluir as pessoas excluídas da sociedade, desempregados,
aposentados. Isto era uma coisa que eu sempre defendi dentro da minha
categoria de trabalho. No início do PT, ele tinha isso muito forte. As
próprias greves gerais, quando a CUT chamava as greves, o PT apoiava.
Isso ai me encantou no PT. Principalmente essa coisa, as lutas por melhores
salários e melhores condições de trabalho e também por políticas sociais.
Isso me atraía no PT".
De alguma forma, este
projeto inicial do PT, no entender de Dimitri, não se realiza mais, ou
ao menos enfraqueceu deveras. Justamente o que o encantava, em sua percepção,
esvaiu-se: “políticas que pudessem incluir as pessoas excluídas (...)
políticas sociais”. Houve, assim, a necessidade de uma recomposição de
seu mundo simbólico-ideológico. Mais adiante, voltaremos a esta questão.
No ponto 2.3, retomamos esta discussão da reconstituição identitária,
sob o enfoque dos três eixos temáticos que norteiam esse trabalho.
Outra questão passível
de ser assinalada é, se é correto pensar com Burity que as novas identidades
ancoram-se sobre as antigas, talvez seja possível, detectar, nas colocações
de Dimitri, algo que nos faça perceber a emergência dessa identidade ideológica
coletiva. Quando o entrevistado foi perguntado sobre se ele teria interesse
em tornar-se pastor, ele respondeu:
"Com certeza. Eu, psicologicamente e espiritualmente,
eu estou me preparando para isso. Não sei quando vai ser isso. Vai ser
no momento que o Espírito Santo me tocar, mas é claro que eu teria muito
prazer e me sentiria muito honrado o dia em que o Espírito Santo me escolher
para ser pregador da Palavra. E a coisa que mais gostaria de fazer é ir
para meu continente de origem. Se eu vier a [me] tornar um pastor, eu
vou orar para pedir a Deus que ele me mande lá para a África. Até porque
a gente vê pela TV e pelos jornais aquela miséria que é o continente africano,
aquelas situações de guerras, de doenças, de epidemias. Então, eu gostaria
que Jesus me desse de presente isso: ir para o continente africano ou
para um lugar no Brasil que realmente necessitasse ouvir a palavra".
Creio que duas questões se sobressaem. A primeira
é que Dimitri gostaria de voltar à cena pública, mas agora reorientado
identitariamente. Agora, o seu retorno ao mundo público seria como pastor.
Essa característica de liderar, estar à frente, fazer algo de cunho
público, é bastante perceptível na trajetória de Dimitri. O segundo aspecto
é que, na sua resposta, emerge todo o aprendizado étnico e coletivista
(agora, quem sabe?, transformado em solidariedade). Sua vontade é “ir
para o meu continente de origem”, pois é lá que se encontram as situações
de miséria que o sensibilizam. Emerge daí toda sua identificação com a
luta étnica, que, como expressa na entrevista, é mais do que apenas anti-racista.
Trata-se de uma luta por inserção dos marginalizados na sociedade.
"O que me motiva a permanecer dentro do Movimento
Negro é lutar pelos direitos humanos. Até um determinado momento da minha
vida, eu era um militante anti-racista. Quando eu estava só no Movimento
Negro, eu militava apenas com essa concepção: de lutar contra o racismo.
A partir do momento em que eu fui tendo interlocuções com outros segmentos
com outros setores, fui convivendo com outro tipo de pessoas. Eu comecei
a ver que era muito mais importante nós lutarmos por qualidade de vida,
quer dizer, não que seja mais importante que o racismo, mas seria muito
mais amplo lutar por melhor qualidade de vida e por direitos humanos,
que o direito de qualquer pessoa fosse respeitada, independente da sua
cor de pele" (Dimitri).
Quando se diz que as
novas identidades estão ancoradas nas antigas, isso não quer dizer que
o percurso de todas as pessoas de identidade coletivista se exprimiria
dessa forma, tomando o mesmo percurso. Contudo, creio que podemos dizer
que parte daquilo que Dimitri sempre achou importante comparece novamente
na sua identidade reconfigurada. A novidade encontra-se expressa em uma
“nova” linguagem. Em lugar de abandonar a política, insere-se em um partido
com uma ideologia menos totalizante e utopista, o PDT. Sua participação
na IURD lhe permite expressar, sob uma outra linguagem, um sentido totalizante
da existência. Sai do PT, mas continua inserido no Movimento Negro. Parte
da explicação para isso é sua filiação ao PDT. Esse partido aproveitou
seus conhecimentos como assessor de Tarso e o colocou como responsável
pela área de movimentos sociais. Com isso, não seria politicamente correto
separar-se dos movimentos negros. Entretanto, permanece a questão de sua
inserção em um partido político. Procuraremos, no ponto 2.3, um melhor
significado para sua permanência neste movimento social.
2.2 - Deixou a política de ter plausibilidade?
Conjuga-se a este processo de recomposição de
identidade grupal e individual a segunda hipótese interpretativa, que
também podemos observar no relato acima colocado. A necessidade dessa
recomposição de identidade nos questiona. Hodiernamente há alguma possibilidade
de a política[8] conseguir dar uma plausibilidade para a sustentação
da identidade? Estamos diante da perda da plausibilidade do político[9],
necessitando de uma outra linguagem? Estas questões merecem ser aqui
aprofundadas.
Uma primeira aproximação ao tema nos é oferecida
por Patrick Michel (1997). De forma sintética, podemos dizer que este
pesquisador sustenta sua argumentação na análise de que os regimes políticos
da modernidade (comunismo e democracia/capitalismo) foram pólos ideológicos[10]. A ideologia deve ser compreendida como um
sistema de crença, por ser (re)organizadora de universos de sentido. Michel
concebe o sagrado como expressão de uma totalidade na religião. Daí que
o crer é também uma expressão identitária, na medida em que ordena a memória,
iniciando uma reorganização ou reconstrução do mundo daquele que crê.
Mas o crer não consiste em uma prerrogativa exclusiva da religião. É neste
ponto que se encontram a política e a religião. As duas pertencem a uma
matriz comum, qual seja, a de organização de sentido. Assim, a política
enquanto fundamentada no eixo Leste-Oste (capitalismo/comunismo), possuía
um atributo mais transcendente: o de controle e organização de uma realidade
empírica. A política era teleológica. Quando, entretanto, ocorre o desmoronamento
do comunismo, um dos pólos de tensão da ideologia enfraquece. Disto decorre
a desideologização da política, a perda de seus referenciais ideológicos
e, portanto, de valores. Neste sentido, o autor entende que, hoje, ocorre
com a política justamente o seu desencatamento. Por outro lado, a religião,
que permaneceu arraigada à crença de um sentido para a mundo e para a
história, oferece uma possibilidade de reideologização da política. Em
outras palavras: a modernidade definitivamente avançou com seu processo
de secularização, deslocando a religião para uma esfera marginal da sociedade.
No momento em que a política não possue mais nenhum centro ideológico
como expressão de poder, ela alcança pouca expressão teleológica. A religião,
por outro lado, em virtude da referida matriz comum, oferece um espaço
de linguagem para a política desencantada. Assim, os movimentos de renovação
religiosa seriam menos um espaço de retorno à fé e mais um espaço de encontro
com uma identidade, mediatizada pela teleologia religiosa. De outra forma:
para este autor, não existe uma ruptura intransponível entre o campo da
política (tendo o ideológico com seu referente) e da religião. A aceitação
de uma matriz comum destes dois campos nos conduz a percebê-los como um
pêndulo que transita de um lado ao outro, numa constante troca de forças.
"Neste sentido, o momento decisivo é este, onde, sob o profundo esgotamento
da política, está-se passando a uma fase de recarga da política pelo religioso,
fase que faz seguir a uma religitimação do religioso por uma política
pervertida" (Michel, 1997: 15)[11].
É possível observar
que tanto Burity quanto Michel fundamentam suas reflexões sobre a questão
de recomposição ou trânsito de identidades. Ambos estruturam seus textos
baseando-se no argumento de que sujeitos e grupos sedimentam suas identidades
sobre alguma teleologia, sobre um sistema de sentido.
De alguma forma, parece ser esta a percepção
de Dimitri. Quando perguntado sobre as razões de sua saída do PT, a primeira
resposta, a mais rápida e instintiva foi dizer: “a minha razão para a
saída do PT é porque eu deixei de acreditar no PT". Essa falta
de crença foi desdobrada por ele em dois patamares: um moral e outro ideológico.
Na questão moral, ele apontou: "Foi na minha convivência com o PT que
eu conheci as drogas". Ideologicamente, ele sublinhou:
"A segunda razão foi política e a considero
a mais importante. Eu vejo o PT, hoje, com um bonito discurso, (...) mas
uma prática totalmente contraditória. O discurso é um, mas a prática é
outra. Eu vejo o PT, hoje, muito afastado das políticas sociais, que são
as coisas que eu defendo muito".
Isto nos faz pensar que, de alguma maneira,
o PT, enquanto partido ideológico, retinha (retém) um centro teleológico.
Entretanto, ao tornar-se um partido inserido na cena da política, teve
que esvaziar-se, em parte, do conteúdo ideológico, para poder realizar
a política (entendida como a arte do possível; e não, a do desejo). Na
ausência da tensão ideológica que articulava uma idéia de absoluto, a
política torna-se relativa do ponto de vista dos valores. Esse processo
implicaria no que Michel(1997) chamou de política desencantada. A política
desencantada constitui-se na ausência de crença na instituição política,
conduzindo à necessidade de uma redefinição da identidade humana.
Uma outra questão, que parece ser igualmente
importante e conjugada com as anteriores, pode ser depreendida dos estudos
de Corten. Apoiando-se numa análise de discurso, Corten defende a idéia
de que a participação pode ser colocada como utopia. Consiste em utopia,
porque a participação não pode ser esperada como efeito dentro
do modo de circulação discursiva da política. Para este autor,
“a participação pode influir tangencialmente a política quando mobiliza
uma ‘multidão’ que crê na verdade de uma versão narrativa. Essa mobilização
não é em si política mas religiosa” (Corten, 1996a: 193). A participação
não faz parte da circulação discursiva da política, porque ela pode entrar
em contradição com os procedimentos da política. O efeito de participação
é oriundo do mundo da religião, uma vez que este é quesito básico para
a identificação entre a pessoa e o divino. O efeito de participação liga-se
à circulação discursiva religiosa, pois este “fala à imaginação mais do
que a razão” (Corten, 1996a: 201). O principal efeito da circulação discursiva
do religioso é o entusiasmo, a paixão alimentada pela imaginação. Assim,
essa duas esferas, religiosa e política encontram-se. Esta também é a
tese de Carl Schmitt (1988), para o qual existem homologias de estruturas
nas categorias teológica e política. Diferentemente da circulação discursiva
do religioso, a circulação discursiva da política não visa aumentar a
paixão das multidões, mas contê-la e manipulá-la, pois sua preocupação
principal é manutenção do poder (Corten, 1999).
Creio que isso é fundamental
para compreender o processo da crise de identidade na modernidade. Quando
se passa do político para a política, a participação e a paixão tendem
a diminuir ou a serem manipuladas. Isto acontece também, porque o centro
ideológico do partido cede à pragmática, necessária para a manutenção
do poder.
2. 3 - Relação etnia-religião-política
A última questão a merecer atenção nesse escrito,
está articulada com o fato da permanência de Dimitri no Movimento Negro.
O primeiro aspecto a ser lembrado é a passagem de pessoas da religiosidade
afro para a pentecostal, em si mesma, não é algo tão surpreendente. Muitos
estudiosos têm defendido a tese de que essas duas religiosidades possuem
uma mesma sintonia, tem mais características comuns do que gostariam de
admitir (entre outros, Corten, 1996b; Oro, 1997; Oro, 1993[12];
Bobsin, 1994).
Entretanto, neste caso específico, gostaria
de trilhar um caminho distinto dos anteriores. Quero sugerir que a religião
afro nunca foi essencial para a identidade de Dimitri. Ela era constitutiva
de sua imagem política. Mesmo que o discurso atual de Dimitri seja o de
ter procurado ajuda nos orixás quando estava passando por dificuldades,
salientando que nada encontrou, a mim parece um discurso moldado pelo
seu novo mundo simbólico, a IURD, para a qual esta interpretação é muito
valiosa. A religião afro era somente algo interessante na constituição
geral da identidade de Dimitri, porque ela estava enquadrada em um contexto
de “paixão pela base”, que sobretudo, o Movimento Negro nele despertou.
Talvez seja por isso mesmo que não tenha encontrado nela as respostas
às suas demandas.
Por conseguinte, quando sumiu a sustentação
material e objetiva que Dimitri retirava do ambiente da política, o jogo
da política não lhe oferecia mais nenhuma paixão, nem mesmo um sustento
material. Aí terminou o encantamento com a política. Creio que se pode
dizer: era necessário que uma pessoa que nunca se desencantou totalmente
(isto é, não deixou de ser um utopista) encontrar-se em um outro discurso
no qual ele poderia referenciar seu encantamento (Corten, !996b). Parece
ter acontecido com Dimitri que ele foi buscar na religiosidade pentecostal
uma renovação de suas energias utópicas. Aqui, podemos voltar à segunda
característica das novas identidades, levantada por Burity (1997). Há
um esgotamento da postergação da realização do desejo, isto é, da paixão,
daquilo que move o mais profundo do subjetivo humano. Há um cansaço para
com os grandes projetos que postergam ad infinitum o prazer.
A sua saída das religiões afro, aponta, parece-me,
não para uma efetiva inserção religiosa, mas para uma busca de identidade
nas raízes étnico-culturais. Mas, neste caso, o objetivo étnico talvez
tenha sido pouco denso para a sustentação de uma identidade religiosa.
Por outro lado, a identidade étnica não é necessária como instrumento
religioso. Em outras palavras: ao sair das religiões afro, Dimitri permaneceu
com aquilo que ele considerava realmente importante: sua identidade negra
e a luta pública que isso implica. É por isso que tentará, apesar de todas
as dificuldades que deverá encontrar no meio evangélico[13],
organizar um Movimento Negro a partir deles.
Para Dimitri, o partido era o valor encompassador
de todo o seu mundo simbólico. Ou seja: a utopia que era carregada pela
ideologia política era, de fato, o que mobilizava sua inserção em outros
campos, como, por exemplo, a militância no Movimento Negro e seu envolvimento
nas religiões afro. Creio que podemos notá-lo em suas palavras, quando
diz:
"A partir do momento em que comecei a participar
da primeira entidade de Movimento Negro - o CENARAB (Centro Nacional dos
Religiosos Afro-Brasileiros e que, depois, passou a se chamar Centro Nacional
de Articulação e Resistência Afro-Brasileira), isto foi por 89 e 90, por
aí. O CENARAB, então era basicamente uma entidade nacional que articulava
pessoas de vários estados do país. Como a grande maioria dos integrantes
do CENARAB eram integrantes das religiões afro, então isso fez com que
eu começasse a me encantar um pouco com aquilo. Tinha aquelas roupas
afro e eu sempre achei bonito aquilo. Eu achava bonito aquilo, sobretudo
pelo resgate da cultura ancestral africana e tudo. A partir daí, então
que eu comecei a me envolver" (Dimitri).
A política (nos termos de Michel), portanto,
era o elemento sagrado e de valor. No momento em que ela ruiu, os outros
elos se enfraqueceram. Conforme Michel (1997), ao retornar ao político
via linguagem religiosa, isto é, novamente alcançar um referente sagrado
e encompassador, teve que desistir completamente da religião afro, por
pertencerem a lados opostos de um mesmo campo - tão opostos que
se tornam semelhantes -, não necessitando, pelo menos até o momento, deixar
completamente de lado sua militância no Movimento Negro.
Pode-se perguntar: estaria aqui uma possibilidade de colocar o pentecostalismo
como um fator que eventualmente contribua com a democracia[14]? Creio que sim. Ela contribui
com a democracia, sem, no entanto, aprofundar esta questão, uma vez que muitos
que nela entram, não tem um projeto coletivista e nem tampouco pouco a igreja
consegue aprofundar muito este espírito[15]. O máximo a que ela consegue chegar nesse projeto é desenvolver
um espírito de solidariedade com os menos favorecidos (Corten, 1996b). Por isso,
creio ser correto dizer que o pentecostalismo tem afinidade com a cultura democrática,
sem, entretanto, ser um veículo de aprofundamento dessa democracia (Burity,
1997).
3 - Considerações Finais
Creio que as ponderações aqui expostas nos
apontam pistas concretas para entender a reconfiguração da identidade
no mundo hodierno, sobretudo na interseção entre religião e política.
Como já dito, o presente texto tem a pretensão
de ser exploratório do tema acolhido: etnia, religião e política. Entendo
que além de várias questões terem sido analisadas, surgiram outras.
Isto torna o tema sedutor.
Uma das linhas mestras
da análise foi a de verificar como se consolida a relação binômica do
público/privado, tendo como pano-de-fundo a religião. Para alguns teóricos
da secularização, a religião confinou-se à esfera do privado. Creio
que foi possível demonstrar, mesmo de forma introdutória, que, se não
há o esmaecimento dessas fronteiras, há, sem dúvida, o seu deslocamento
(Burity, s/d). Vimos como um elemento central na trajetória do entrevistado
grande insatisfação ou frustração com o discurso modernizante. Dimitri
manifestou ter imaginado que o partido com qual tinha afinidade ideológica,
ao chegar ao poder, poderia efetivamente dignificar as pessoas por sua
atuação. Queria ver essa dignificação em melhores salários e condições
de trabalho, inserção dos excluídos dentro do sistema e, portanto, maior
justiça social, segurança e educação para todos. Estas questões tornam-se
um problema político para pessoas como Dimitri. Esses temas merecem
ser tratados como políticos, pois mobilizam formas de ação coletiva,
como os Movimentos Negros.
Podemos notar, a partir da referência identitária
de Dimitri, uma perspectiva que aponta a inserção do pentecostalismo
(como religião) na esfera pública? Isto é: dentro da esfera pública,
é possível notar influências comportamentais que sejam mais que mera
privatização do sagrado? Creio que sim. Se efetivamente Dimitri conseguir
organizar um grupo de reflexão étnica dentro do mundo evangélico, não
teremos apenas uma influência do mundo político na religião, mas também
seu contraponto. Em outras palavras: esse movimento pode servir como
referência, no mundo evangélico, para a luta anti-racista, uma luta
que se faz na esfera pública. O que isso pode desencadear na sociedade?
É claro que esse discurso precisaria ser assumido igualmente pela instituição
religiosa. Porém, nada indica que isso seja improvável.
Penso que, assim, foram abordados alguns temas
de profundidade teórica, que, pelo menos por ora, estão para ser melhor
equacionadas. Considero que esta monografia evidenciou no mínimo duas
questões instigantes. Primeiro, onde estabelecer a distinção entre a
religião e a política, o público e o privado? Por um lado, não há como
negar que a religiosidade é da ordem do privado. Entretanto, há claros
indícios de uma volta de instituições religiosas à esfera pública. Isto
pode ser verificado seja pelo aumento da bancada de evangélicos nos
mais diversos fóruns da democracia representativa, seja pela linguagem
que ela oferece e que pode contribuir para energizar as concepções utópicas
de uma sociedade mais justa e igualitária na vida de muitos (ex)militantes
de movimentos sociais contestatórios, ou ainda, seja na questão levantada
neste trabalho, pela tentativa que Dimitri está por fazer: criar um
grupo de reflexão étnica dentro do movimento evangélico. Isto pode significar
um avanço e uma pluralização na concepção de atuações de políticas anti-racistas,
bem como um questionamento à sociedade a partir de um segmento social
até bem pouco tempo tido como alienado e autoritário.
Aqui engata-se a segunda questão. Tem o pentecostalismo
a possibilidade de contribuir com a democracia? A resposta não é unívoca.
Evidentemente, a resposta dependerá de fatores internos e externos das
instituições religiosas. Um fator interno que merece ser melhor explorado,
pesquisado e analisado é se a organização das instituições evangélicas
pentecostais é ou não (potencialmente) democráticas? Discussão que há
muito se vem fazendo, tendo posições em ambos os lados.
Referências Bibliográficas
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SCHLEGEL, Jean-Louis. Introduction. In: SCHMITT, Carl. Théologie Politique.
Paris: Gallimard, 1988. p. 1-17.
[1]
O nome foi alterado em respeito ao entrevistado.
[2]
Numa conversa informal, perguntei a Dimitri como ele tornou-se um
drogadito. Ele respondeu que tudo começa com o “beber socialmente”.
Depois disso, conheceu e usava maconha com alguma regularidade já
antes de entrar no partido. As drogas a que ele se refere aqui, portanto,
seria principalmente a cocaína.
[3]
A sede Nacional dela é em São Paulo, mas tem secções no Brasil inteiro.
A partir de março, a Unegro se muda para o edifício Cacique, na rua
dos Andradas 15° andar.
[4]
Tive a oportunidade de entrevistá-lo em dois momentos. Isso foi muito
útil na complementação de questões e melhor enquadramento do valor
das afirmações de Dimitri.
[5]
No uso figurado da palavra, ela expressa o conjunto de características
ou de sinais associados a uma condição crítica, suscetíveis de despertar
reações de temor e insegurança (Aurélio Eletrônico – Século XXI –
versão 3.0).
[6]
Para Perter Berger, autor de O Dossel Sagrado (1966), a secularização
instala-se objetivamente em toda a vida cultural da sociedade, resultando
numa diminuição crescente da influência da religião, o que gera uma
crise de plausibilidade nas tradicionais definições da religião sobre
a existência no mundo.
[7] Estes seriam os
projetos que defendem o direito à diferença, que tem como seu projeto
buscar responsabilizar a sociedade para que esta não discrimine grupos
sociais, seja pela sua origem étnica, preferência sexual ou seu lugar
subalterno na posição social e política.
[8]
Aqui entendida no sentido restrito, isto é, no âmbito das relações
de poder institucionais.
[9]
Neste trabalho, distinguiremos política de político. Para Corten,
a política refere-se às “instituições políticas, [que] realizam as
atividades políticas” (Corten, 1999: 37). O político, apesar de seu
sentido indefinido, é por ele usado quando se trata de “uma construção
da realidade a partir da qual (no limite) se estabelece a ‘discriminação’
entre amigos e inimigos” (Corten, 1999: 39). Para Burity, “o político
é o nome da dimensão instituite de toda prática e identidade”, enquanto
“a política diz respeito à explicitação de uma lógica da ação coletiva
que demanda a definição de programas e projetos e que implica na institucionalização
de práticas e normas de alcance coletivo” (Burity, 1997: 23-24). Há,
portanto, uma esfera do exercício de poder a partir de instituições
políticas e existe o político como um campo mais amplo, mas que está
fundamentalmente relacionado à constituição de identidade, estando
ligado, portanto, com a questão da ideologia.
[10]
Para Michel, a palavra francesa politique parece expressar
tanto a política quanto o político. Apesar de o autor usar, no francês,
o artigo masculino definido le, considero que ele esteja se
referindo ao que nós aqui chamamos de a política, mas com fundamento
ideológico. Isso, contudo, faz-nos transitar nos dois campos de sentido.
Dizendo de forma diferente: a política a que se refere este autor,
é a política como resultante de um confronto ideológico.
[11]
Corten defende a tese de que a religião carrega uma linguagem potencialmente
política. O círculo discursivo, seja político ou religioso, não ocorre
no registro de verdadeiro/falso, mas de aceitável/inaceitável. Hoje,
a religiosidade pentecostal opera sobre o registro do inaceitável
para o discurso da política, mas não significa que isso não possa
se alterar (Corten, 1996b).
[12]
Neste texto, entre outras análises, é realizada uma comparação entre
as religiões afro e a religiosidade católica popular, mostrando que
as fronteiras não são tão nítidas como os religiosos nos querem fazer
pensar.
[13]
Novaes e Floriano (1985) abordam a dificuldade de um Movimento Negro
articular-se a partir de evangélicos, uma vez que exporia a diferenciação
no tratamento das pessoas. Isso conflita com o discurso dos evangélicos
que procuram explicitar mais suas relações de igualdade do que de
diferença.
[14]
A religião pentecostal, de cunho teológico ocidental (para não dizer
norte-americano), é veículo e pregadora de uma igualdade entre todos,
a qual, de fato, pouco se percebe nas estruturas hierárquicas dessas
denominações, onde as posições-chave normalmente são ocupadas por
brancos. Pelo discurso, o pentecostalismo tem conseguido, em parte,
camuflar esta questão. Por outro lado, não se pode deixar de reconhecer
que as denominações pentecostais têm como seus principais freqüentadores
uma ampla maioria de pessoas pobres e negras (Novaes, Floriano, 1985).
[15]
Trata-se de uma colocação um tanto superficial, mas que, no momento,
me vejo impossibilitado de entrar mais profundamente neste tema da
relação entre pentecostalismo e democracia.
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