Interpretação de Pinturas e Gravuras Rupestres: um estudo da estética
simbólica de nossos ancestrais.
Nina Teresa de Oliveira Dolzan
mestranda em Gestão do Patrimônio Cultural pela UCG-Universidade Católica
de Goiás.
Índice
1. Apresentação
2. Introdução
3. A Interpretação da Arte Pré-histórica
3.a. A Arte Pré-histórica
3.b. As Dificuldades de interpretação da arte pré-histórica
4. Gruta dos Pezinhos: um estudo das gravuras rupestres, fundamentado
pelas teorias de Gallay e Renfrew & Bahn
5. Considerações Finais
6. Bibliografia
1. Apresentação.
A arte pré-histórica não pertence à uma data específica, mas sim à uma
fase de determinada cultura. "A história tem como principal objeto de
estudo as sociedades que possuem ou possuíram a escrita, enquanto os
pré-historiadores se dedicam a obter informações sobre os grupos humanos
que não sabiam escrever". Marisa Afonso / USP
O presente estudo é uma reflexão sobre as discussões ocorridas em sala de
aula e leituras realizadas na disciplina Cultura Material e Identidade na
Perspectiva Arqueológica, no curso de Mestrado Profissionalizante em
Gestão do Patrimônio Cultural (MP-GPC), da universidade Católica de Goiás
(UCG).
Esta reflexão colocada em cotejo com possíveis vestígios arqueológicos
encontrados no leste mato-grossense, margeado pelo rio Araguaia e Serra do
Roncador, trouxe um grande interesse, na eventualidade de se conviver
nesta região, com sítio de tal envergadura, caso se comprovem os indícios
encontrados. Este paper oportunizará estudos posteriores sobre as pinturas
rupestres em Barra dom Garças e adjacências e um projeto de Educação
Patrimonial a ser desenvolvido nas escolas.
O principal objetivo deste estudo é apresentar as inúmeras dificuldades
que o arqueólogo encontra, na interpretação da arte proveniente da
pré-história. Além do contato bibliográfico, foram realizados contatos com
professores da região, e com os vestígios e fotos dos mesmos, que podem
representar cerâmicas, gravuras, pinturas rupestres e parietais no
município de Barra do Garças / MT e adjacências.
O aporte teórico deste ensaio fundamenta-se nas idéias dos autores Alain
Gallay e Renfrew & Bahn, estudados na disciplina Cultura e Identidade na
Perspectiva Arqueológica, elencados por darem conta com mais facilidade
de compreensão, de nossa iniciação arqueológica, há muito tempo sonhada,
apresentada nos anexos.
2. Introdução
"Pensemos apenas no reconforto em saber que, num estágio ainda elementar
da economia e da técnica, milhares de anos antes da agricultura, a
metalurgia e a escrita propiciarem o nascimento das civilizações da
antiguidade, o homem tenha sabido encontrar meios de exprimir a plenitude
de seu pensamento artístico e, portanto, a plenitude de sua humanidade."
André Lesoi Courhan, diretor do Instituto de Etnologia de Paris.
A arqueologia tem em Thomas Jefferson um de seus pioneiros, que mediu e
registrou fielmente os mínimos detalhes de seus achados. Atualmente, a
arqueologia com o apoio das ciências e da tecnologia, segue o mesmo
princípio: nada, por mais insignificante que possa parecer, deve ser
desprezado. Muitas vezes entretanto, os próprios arqueólogos,
acidentalmente destroem valiosas provas em suas escavações. O progresso,
em forma de rodovias, metrôs, usinas hidrelétricas e edificações, põem a
perder muitas informações, devido ás escavações realizadas às pressas, ou
outras que são descartadas por não terem "muita relevância" para a
história da humanidade.
Hoje, a arqueologia de profissionais é diferente da romântica aventura do
passado. Os arqueólogos atualmente, esbarram sempre em obstáculos como
escassez de tempo e de recursos, sem se falar na inacessibilidade ao
local, que muitas vezes sendo propriedade particular, não se dá licença de
estudo ao arqueólogo, mas se dá licença de exploração às empresas
extrativistas de calcáreo . A arte pré-histórica em todas as suas
expressões é peça rara de colecionadores, o que prejudica, ou melhor,
destrói as suas fontes de interpretação. O contexto onde se insere um
machado de pedra, conta a sua história. Mas se os colecionadores
compram-no, essa história se perde.
"Cientistas já haviam encontrado ferramentas de pedra em outros locais,
mas nunca fora possível fazer uma datação precisa. Na bacia de Bose isso
foi possível. Os pesquisadores retiraram pequenos minerais de vidro da
cratera, que são resíduos da rocha derretida pelo impacto do meteorito. Os
vidros estão na mesma camada de solo em que foram encontradas as
ferramentas. Eles foram datados em laboratório, e o resultado foi de 803
mil anos, com margem de 3.000 anos mais ou menos. (FOLHA DE SÃO PAULO,
03/03/2000)
Desde o século XVIII, os colecionadores assediam os intermediários, para
conseguirem aumentar suas coleções de peças pré-históricas e de fósseis.
Essas peças, afloraram pela primeira vez ao solo, quando máquinas
revolveram a terra para desmatar e/ou plantar. E é na zona rural, com o
desconhecimento deste acervo da humanidade pelos agricultores, que se
contam fabulosas histórias de potes enterrados, estatuetas, pedras
gravadas, "pedras de raio" (artefatos líticos), e muitos outros, cuja
oralidade deve ser investigada pela arqueologia.
3. A interpretação da arte pré-histórica.
"Mi trabajo consiste solamente en la documentación, no abordando
cuestiones interpretativas o investigaciones en general. Los relevamientos
realizados fueran hechos con la técnica de frotagge, se toman fotografías
y fundamentalmente se hacen dibujos; los bloques están numerados y tengo
la distribución de los mismos en los diferentes sitios, la idea es crear
un catálogo que pueda servir para futuras investigaciones". Luiz
Santillán, ponencia presentada en las Jornadas Internacionales de Arte
Rupestre, 1997.
3.a. A Arte pré-histórica:
"Mediante constatação, podemos afirmar que a arte é inerente ao homem,
desnecessária para muitos, mas fundamental para a sobrevivência da
humanidade, em tempos remotos." Abelardo de Carvalho
Há mais ou menos 35.000 mil anos, o nível cultural da humanidade é
caracterizado por técnicas mais aperfeiçoadas de trabalhar a pedra, os
ossos e chifres e a madeira. Além dos progressos nos planos social,
religioso e artístico. Deixou-nos as "deusas-mães" ou "Vênus" de
aproximadamente 11 cm. Pequenas esculturas da fertilidade, provavelmente
e representações em cavernas, em rochas ao ar livre e objetos decorados
com senso artístico. Os símbolos que nos legaram, parece remeter á uma
vida futura, pois comunicam. Esses sinais, feitos com pontas de ossos,
pedras e madeira, podem ir além das necessidades de sobrevivência, a arte
e a religião. Seu nível cultural explica seu sucesso e difusão pelo
planeta, com grande ímpeto criativo. A arte rupestre e parietal foi
encontrada em branco e preto e a cores, principalmente vermelho. Usava
pigmentos extraídos da natureza: misturava minerais moídos com gordura
animal, sangue, cera de abelha, resina de árvores, gema de ovos,
excremento de animais e água. Havia profusão de cores: nas épocas mais
antigas, usavam apenas o vermelho retirado da hematita (óxido de ferro);
depois, o cinabre vermelho, tirado do óxido de mercúrio; o amarelo, da
goetita; o branco, da kaolinita ou gipsita; a azurita azul e a malaquita
verde, tiradas do cobre; os ocres, tirados do óxido de ferro e o preto,
era conseguido com o manganês ou a cinza da queima de material orgânico.
As tonalidades mais claras, conseguiam concentrando menos os corantes.
Usavam também o urucum, outros vegetais e o carvão.
O homem ancestral ou contemporâneo, sempre se expressou através da arte.
No período Paleolítico, nômade, abrigando-se na entrada das cavernas,
pintava figuras em suas paredes, principalmente animais em cenas de caça e
pessoas em danças rituais. No Neolítico, iniciando-se na agricultura,
fazia belos e úteis potes de barro, e utensílios de osso, madeira e pedra
polida. E quase findando a pré-história, na Idade dos Metais, passou a
usar como matéria prima, o cobre, o ouro, estanho, o bronze e finalmente o
ferro, para fabricar utensílios e adereços.
As mais conhecidas pinturas rupestre / parietais do mundo são:
· MONTNAC, LASCAUX e CHAUVET - França
· ALTAMIRA, CUECA DEL PINDAL - Espanha
· GRUTA DE RODÉSIA - Rodésia
· CALICO - E.U.A.
· MONTE VERDE - Chile
· MEADOWCROFT - E.U.A.
· CLOVIS - E. U. A.
No século XVI, o capitão-mor Feliciano Coelho descobriu o tesouro rupestre
de Minas Gerais. Essa pintura versava sobre animais, homens caçando,
pescando e coletando mel. Algumas mascaradas e até fantasmagóricas. Ou
totêmicas? Isoladas ou grupais, compondo cenas que a interpretação
correta, é a de cada um que a vê. No Brasil, foram encontradas muitas
cerâmicas. Potes de barro lisos ou decorados, sendo os maiores, urnas
funerárias, pois na maioria das vezes continham esqueletos. Além de
muitos artefatos de utilidade cotidiana, gravuras, estatuetas, pinturas
rupestres e parietais, representando pés, animais e sinais. Aparecem em
paredes rochosas de grutas, em lajes de pedra ao ar livre, em fragmentos
de rochas e em nichos pétreos.
As mais conhecidas pinturas rupestres / parietais do Brasil são:
· PEDRA PINTADA (PA) - Anna Roosevelt, arqueóloga, achou em 1996, pinturas
com cerca de 11.000 anos. · PERUAÇU (MG) - Exibindo espetaculares desenhos
geométricos, possue pinturas datadas de 2.000 a 10.000 anos. · LAGOA SANTA
(MG) - Exibe pinturas de animais conhecidas desde 1834 e sua datação está
entre 2.000 a 10.000 anos. · SÃO RAIMUNDO NONATO (PI) - Arte pré-histórica
interpretada pela arqueóloga Niéde Guidón, que as datou de 15.000 anos, e
aos vestígios humanos encontrados, 40.000 anos. · PEDRA DO INGÁ (PB) -
Conhecida desde o século XVII, exibindo um petróglifo muito importante aos
acervos arqueológico e etnográfico brasileiros. · FAZENDA DA PEDRA PINTADA
(MG) - Exibe grafismos rupestres. · LAPA PINTADA (MG) - Pinturas
rupestres. · MONTALVÂNIA (MG) - Sítio de abrigos. · PARQUE NACIONAL DA
SERRA DO CIPÓ (MG) - Sítio de abrigos. · SERIDÓ (RN) - Pinturas rupestres
· PEDRA FURADA (PI) - Instrumentos e fogueiras · SANTA ELINA (MT) -
12.000 anos
Em Barra do Garças / MT, supomos ter sítios arqueológicos líticos e
cerâmicos, gravuras e pinturas rupestres e parietais. Além de "cemitérios
índios", no centro da cidade, onde foram achadas muitas peças, quando
construíram em 2000 o CEPROTEC - Centro de Formação Tecnológica. Muitas
cavernas, abrigos e rochas na região, apresentam gravuras, pinturas e
ambos. Nos abrigos com gravuras, evidenciam-se desenhos de falos e vulvas
e marcas de pés de todos os tamanhos. E nos locais menos acessíveis, onde
aparecem as pinturas, a presença do homem pré-histórico na área é
percebida devido á temática astrológica, evidenciando cometas azuis,
(Abrigo da Estrela Azul) e estrelas-sóis avermelhadas (Gruta do Moreti).
Urge um estudo etnoarqueológico, para que o município possa criar
mecanismos de preservação, uma vez que o mito está levando agora, o homem
moderno, a depredar esses locais, de tanto são os visitantes.
"Todo o importante patrimônio arqueológico norte-catarinense encontra-se
atualmente ameaçado, especialmente devido às ações de vândalos
inconseqüentes: turistas mal-informados, que rabiscam indiscriminadamente
as gravuras indígenas com grafites modernos, e os caçadores de tesouros
imaginários. Em alguns casos, importantes petrógrifos foram destruídos
pelas picaretas dos perseguidores do "ouro dos jesuítas"... também ocorrem
fantasias envolvendo associações com os incas, fenícios e templários
perdidos... " (LANGER, 2003)
As mais conhecidas artes rupestres / parietais de Barra do Garças e
adjacências:
· Abrigo do Córrego Seco - Campinápolis (gravura rupestre)
· Gruta dos Pezinhos - Barra do Garças (gravura rupestre)
· Sítio Estrela Azul em Vale dos Sonhos - Barra do Garças - (pintura
rupestre)
· Sítio Cantilado - Barra do Garças - (cerâmicas)
· Sítio Moreti em Vale dos Sonhos - Barra do Garças - (pinturas e gravuras
rupestres) · Sítio da APV em Vale dos Sonhos - Barra do Garças - (pintura
rupestre) · Proximidades da praia da Rapadura (rio Garças) - (cerâmicas e
fogueiras)
3.b. As dificuldades de interpretação da arte pré-histórica.
"Simplesmente não sabemos o que levou aqueles caçadores a retratar animais
nas paredes das cavernas - podemos apenas formular hipóteses". Gombrich
A arte rupestre não tem uma fórmula única de interpretação. É um vestígio
arqueológico de fascinante estudo, porém de análise complexa. A percepção
de uma "certa ordem" nas coisas, implicíta-se na arte das cavernas, que
dependeu sempre da natureza. Sabemos que nela há um registro meticuloso do
mundo do caçador. A suprema importância do animal de caça pintado, para a
vida da comunidade está fora de dúvida. Argumentos vários, de acordo com o
conteúdo das pinturas, e por analogia com as práticas das sociedades
selvagens ainda subsistentes, lançam uma luz à interpretação da arte
rupestre.Esta arte revela forte ligação com outras peças portáteis
(enfeites, utensílios domésticos), o que facilita a datação, pelo local
onde foi encontrada. Mas isso não é tudo. É necessário uma análise acurada
do contexto, para que...
"as sociedades antigas ressurjam então com toda a sua complexidade, com
todas as suas cores, tal como poderia descobrir o viajante munido de uma
utópica máquina do tempo, graças à caneta do pré-historiador". (GALLAY,
1986.)
..."as pegadas de Australopitecíneos encontradas em Laetoli (Tanzânia),
deixadas há 3 milhões de anos, mostram que um indivíduo superpôs
intencionalmente suas pegadas às de outro, o que demonstra uma percepção
das pegadas enquanto marcas deixadas pelos pés." (CALDARELLI, 1991)
As pinturas e as gravuras de baixo relevo da arte pré-histórica,
superpostas em profusão na superfície das rochas e paredes das cavernas,
formam um "palimpsesto" do tempo, cuja datação e interpretação é muito
difícil, dado às várias manifestações artísticas, umas sobre as outras,
ainda adicionada de sinais simbólicos. Como uma pintura rupestre não pode
ser datada - a menos que seja arrancada da parede - é pelos estilos dentro
de cada tradição que os arqueólogos conseguem estimar a sua idade. O
período de cada estilo, por sua vez é calculado em relação aos vestígios
arqueológicos (como o carvão das fogueiras e ossos) encontrados nos
abrigos. É comum ver, lado a lado na mesma parede, um grafismo pintado ou
sulcado milênios depois de outro.
"neste momento, os grafismos da região da Serra da Mesa chegam até nossos
olhos, nossos sentidos e nossas tentativas de interpretações sem que ainda
se possa dizer a que propósitos e funções - se acaso tinham algum - os
homens e/ou as mulheres de Pedra Talhada os realizaram." (LAZARIM, 2000)
Segundo a arqueóloga Anne-Marie Pessis, da Universidade federal de
Pernambuco, posicionando-se ante as "Pedrinhas Pintadas" encontradas no
dia 13 de agosto de 2000 no Parque Nacional da Serra da Capivara, conclui
que estas pinturas rupestres funcionam como um código de comunicação entre
membros de um grupo humano ou entre diversos grupos. E que "o achado das
pedrinhas pintadas reforça a hipótese de que os desenhos expressavam esse
código, cujo significado se perdeu com o desaparecimento da cultura que o
criou". Infelizmente, esse é mais um dos dilemas da interpretação da arte
pré-histórica.
"o caminho que vai da realidade viva ao vestígio conservado no solo é
complexo. É primordial descobri-lo caso queiramos evitar os erros de
interpretação que vemos aparecer em certos trabalhos." (GALLAY, 1986)
Os artistas pré-históricos europeus preferiam pintar ao ar livre e não nas
"galerias" naturais formadas pelas cavernas. A descoberta das gravuras em
pedra às margens do rio Côa, em Portugal, demonstra tal fato. Na Ásia, o
menor rigor climático fez com que numerosas localidades ao ar livre, mais
vulneráveis que os abrigos sob as grutas, tivessem sido destruídas no
decorrer dos séculos. A arte rupestre sofre esta característica. Se
permanece, conta ainda com fatores climáticos e biológicos como chuvas,
sol, umidade, ressecamento, desbotamento, lodo, fungos, plantas rasteiras,
erosão, animais, outras culturas e o vandalismo moderno. Na França, onde
foram feitas as primeiras descobertas de arte rupestre, as pinturas em
exteriores não teriam resistido à erosão ocorrida durante a última era
glacial, que terminou há cerca de 10.000 anos.
"Por falta de uma análise sistemática dos polens fósseis, tal qual foi
praticada na Europa ocidental, o mesolítico, que corresponde ao
estabelecimento de novas condições climáticas, imediatamente após a última
glaciação, continua mal conhecido na Anatólia. Os micrólitos trazidos à
luz nas grutas, provam que a região conheceu uma fase "mesolítica", como a
européia". (CONRAD, 1979)
A arqueologia tem melhores condições de revelar-nos o passado, ao valer-se
de uma quantidade de disciplinas científicas em todos os estágios de seu
processo. O primeiro destes estágios, a prospecção, não fica só no que
encontra nos textos e tradições orais. Para um bom trabalho, necessita da
aerofotogrametria, única capaz de revelar vestígios imperceptíveis no solo
e desníveis da vegetação (dolmens, menires, esculturas como as da Ilha da
Páscoa, monumentos megalíticos e as "curiosas grandes pedras seqüenciais"
que margeiam a BR 158, próximo ao município de Piranhas / GO). Recorre
ainda, à geologia, à geomorfologia, e técnicas físicas e químicas para a
preservação de objetos. E em último estágio, para análise, datação e
interpretação, necessita do emprego do carbono 14 e das disciplinas:
zoologia, sedimentologia, petrografia, etnologia, etnografia, e nenhuma
pode ser omissível. Levantam-se então muitas hipóteses plausíveis, mas o
significado exato destas "artes arquitetônicas" líticas, ainda é um tema
controvertido. Muitas
...representações de animais, com muita freqüência repetidas, inúmeras
mãos humanas igualmente decoram as paredes dos santuários, sem que se
possa interpretar esta prática, que lembra estranhamente a já identificada
nas grutas do paleolítico superior dos Pirineus, em Gargas ou em El
Castillo. Estas diversas representações evocam sem dúvida, um sistema de
mitos ligados à fecundidade... sem que possamos conhecer os detalhes das
crenças ou ilustra-las. (CONRAD,1979)
Os desenhos pré-históricos em suas tradições, compreendem também figuras
geométricas ou sinais que deviam ser símbolos de um código que se perdeu
para sempre no transcorrer dos milênios. As tentativas de interpretação da
arte pré-histórica sem critérios deixam de ter valor científico, uma vez
que os homens pré-históricos usavam formas iguais em seus desenhos.
Entretanto, o seu significado varia de uma cultura para outra.
As análises da Arte Rupestre se dá por meio de parâmetros extremamente
simples de serem observados: técnicas de execução, temática e cor. A
dominância de um tema sobre o outro é estabelecida com base no maior
impacto visual e critérios semi-quantitativos. Assim, como para Moberg, "
o objeto que se vê contêm uma informação que pode ser transmitida de um
emissor a um receptor sem que eles se encontrem, sem mesmo serem
contemporâneos".
Assim, percebe-se que a ressurreição do passado depende muito dos
progressos da arqueologia. Somente ela poderá preencher as lacunas, as
incertezas e as imprecisões e permitirá um conhecimento coerente sobre a
arte pré-histórica. É tarefa paciente, uma vez que os arqueólogos de hoje,
deixam sempre para os do futuro, um pouco a descobrir.isso, porque
sabe-se: a arqueologia não é ciência praticada por pessoas apressadas...
4. Gruta dos Pezinhos: um estudo das gravuras rupestres, fundamentado
pelas teorias de Gallay e Renfrew & Bahn.
Existem vestígios da memória material dos povos do passado em vários
abrigos e cavernas de Barra do Garças e adjacências. Nesse vasto sítio
arqueológico, recortamos a Gruta dos Pezinhos, para a analisarmos à luz
das teorias de Gallay e Renfrew & Bahn. Planejamos ações, que oxalá
poderemos colocar em prática. A arqueologia dará uma dimensão temporal aos
vestígios, onde situaremos as mudanças e através delas entenderemos o
presente, que mutante, nem sempre é acompanhado pelo aspecto biológico.
O Abrigo Moreti, situado no altiplano da Serra do Roncador, é um grande
abrigo com "portas e janelas", cercado por um exuberante cerrado. Quando o
programa "Globo Repórter" esteve em Barra do Garças, visitou a gruta e
difundiu-a entre estudiosos e interessados de todo o país, a tornou muito
visitada. Acompanhou-os o historiador prof. Wilson Ferreira de Oliveira,
que teceu comentários antropológicos sobre a área e os primeiros moradores
da região, pois como Gallay tem uma visão histórica do homem no tempo e no
espaço. A Gruta apresenta gravuras rupestres em baixo relevo, mostrando
pés pequenos, grandes e alguns com seis dedos; pegadas de muitos animais
que o homem pré-histórico registrou; círculos entrelaçados; e um
calendário primitivo, dando noções de estações de caça, de frutos e chuva.
Exibe ainda pinturas rupestres realizadas com vários pigmentos e sangue.
Os vestígios encontrados são os que puderam ainda se conservar, após
erosão na rocha sedimentar, que fez aparecer as entradas para o abrigo,
apresentando a cultura material dos ancestrais dos barra-garcenses. Urge
fazer falar esses vestígios, testemunhos de uma cultura antiga, para
compreendermos sua formação e o que representam em relação ao contexto
vivo de sua origem, para que sejam preservados e estudados orgulhosamente
por seus ancestrais.
"Num primeiro momento, nós tentaremos seguir o caminho que vai da
realidade viva aos vestígios descobertos e estudados. Esse caminho
apresenta vários patamares. A passagem de um patamar a outro, implica, a
cada vez, numa certa perda de informação. Um tanto simplificadamente, é
possível isolar quatro patamares: o objeto material, o vestígio
arqueológico conservado, o vestígio arqueológico observado e o vestígio
arqueológico estudado. " (GALLAY, 1986).
Os objetos manufaturados podem dar a impressão de serem melhor estudados.
Entretanto, temos o abrigo Moreti como habitação, o que confere á pesquisa
uma metodologia de campo oportunística. Seu solo consistente e batido pode
revelar reflexos de uma cultura viva, escondidos em suas camadas de
sedimentos. Suas paredes decoradas, repletas de vestígios materiais
conservados, podem resolver cronologicamente nossos problemas por
comparação de tradições ou análise de materiais orgânicos contemporâneos,
principalmente os descarte da cultura em questão. Fora do abrigo temos
muitos vestígios materiais a serem observados: os fenômenos erosivos de
várias naturezas, a cobertura quaternária, a vegetação, outros. Podemos
dizer que o abrigo em questão apresenta G- características geométricas
(forma dos desenhos nas pinturas), F -características físicas (material
lítico nas gravuras), e S -características semiológicas (onde o signo é
representado pelo desenho repetido de pés). Contamos também com uma
amostragem sistemática muito interessante, se compararmos as várias nações
primitivas que sempre habitaram a região do Roncador, sua exótica cultura,
com esses ancestrais que nos deixaram na rocha, mensagens.
Assim, é necessário buscar as características do povo que produziu a arte
e o contexto histórico e cultural em que apareceu. O pesquisador não só
concentra seus estudos na arte; na entrada do abrigo; na parte onde
habitavam as pessoas; onde, como, com o que e o que caçavam; onde, como e
o que plantavam; e se enterravam seus mortos. O registro deste conjunto de
estudos, pode estabelecer com segurança, as hipóteses esperadas.
Um dos passos mais importantes é ter um plano de objetivo claro, em um
estudo arqueológico desta natureza, devido ao grande número de pessoas que
se arregimenta neste projeto, composto de muitos passos, a saber:
· Delimitar a área e formular estratégias de investigação, cujas ações
satisfação as etapas do problema formulado, ou contrastem a hipótese ou
idéia inicial. · Recolher e registrar evidencias com as quais
verificaremos a hipótese, por meio do trabalho de campo de uma equipe
multidisciplinar de especialistas, como fotografias, filmagens,
descrições, reproduções e transporte até aos locais de estudo, pela
técnica relevé (decalcando em plástico). · Dar tratamento adequado e
analisar as evidências e sua interpretação por meio da constatação da
hipótese original (dados sobre as figuras, espessura dos traços, cores,
disposição do desenho, pigmentos, etc). · Publicar os resultados dos
estudos e o perfil estratigráfico da área.
5. Considerações finais
Não chore pelas coisas terem terminado; sorria pó que elas existiram. Luiz
E. Boudakian
Independentemente de todo o rigor científico que deve cercear a
interpretação da arte pré-histórica, é necessário um projeto de
investigação inicial, que possa abranger todos os passos planejados no
processo de trabalho arqueológico. Assim,
Los arqueólogos tratan de explicitar, al inicio de la investigación,
cuáles son sus objetivos y cuál será su plan de campaña. (RENFREW & BAHN).
Para uma melhor interpretação, o projeto de investigação deve ter como
objeto de estudo, um recorte da realidade, para uma análise contextual
clara e precisa, que possa levantar elementos de sustentação ou contraste
da hipótese original.
Uma interpretação de arte pré-histórica para ter eficiência deve seguir
alguns passos, que lhe confere cientificidade aos resultados. Assim, um
achado arqueológico sozinho, isolado de sua área original, fora de seu
contexto, não tem história para contar. Entretanto, para denominarmos uma
área de sítio arqueológico, devemos observar e "ler" as relações de todo o
ecossistema com o objeto.
É imprescindível sabermos se o vestígio com o qual o arqueólogo trabalha,
realmente tem a ver com a cultura passada, que pretende escrever. A
ambigüidade ronda as interpretações de arte pré-histórica. Por isso, a
cientificidade dos estudos é necessária, embora não se deva desprezar as
bases empíricas onde repousa o conhecimento.
Assim, o arqueólogo faz um trabalho de detetive. Não tem a pretensão de
"adivinhar" o que significa essa ou aquela peças encontradas, mas de
expor, por meio de escavações, uma parte dos acontecimentos que ocorreram
ali, no local de origem da peça ou de vestígios. O trabalho mais demorado
não é a escavação. É o estudo do que se encontrou. Aos poucos, eles irão
recompondo uma parte de nossa pré-história, desconhecida para nós.
6. Bibliografía.
"O arqueólogo não escava objetos, mas civilizações."
Sir Mortimer Wheeler
· ACQUAVIVA, Marcus Cláudio. Lendas e Tradições das Américas: arqueologia,
etnologia e folclore dos povos latino-americanos. São Paulo: Hemus, 1980
· A Pré-história no Brasil.
http://www.deltainformatica.com.br/piagetpre.htm
· CALDARELLI, Solange. Existe fronteiras culturais separando os estágios
da evolução humana?. Revista Humanidades, UnB, 1991
· GALLAY, Alain. L'Archeologie Demain. Paris, Pierre Belfont, 1986
· GEERTZ, Clifford. A Interpretação das Culturas. Rio de Janeiro, RJ: LTC,
1989.
· Lei nº 3.924 de 26 de Julho de 1961 que Dispõe sobre os Monumentos
Arqueológicos e Pré-históricos -
http://www.iphan.gov.br/legislac/lei3924.htm
· MOBERG, Carl-Axel. Introdução à Arqueologia. Lisboa: Edições 70. 1968.
· PROUS, André. Arqueologia. Revista Ciência Hoje, vol. 25, nº 149
· RENFREW, C. & BAHN P. ¿Donde? Prospección y excavación de yacimientos y
estructuras, 1993
· SAPIR, Edward. Culture genuine and spurious. In SAPIR, Edward. Culture,
Lamguage and Personality. University of California Press. Berkeley, 1992.
· VARJÃO, Valdon. Barra do Garças: migalhas de sua história. Brasília:
Senado Federal - Centro Gráfico, 1985.
· Fase 1 - Depoimentos - Entrevista.htm
(entrevista com prof. Wilson Ferreira de Oliveira)
· http://www.araguaia.net/barradogarcas/
· http://www.hoteldisconauta.com.br/
· http://www.babyschmitt.com.br/mini.htm (telas com pinturas
cromoterápicas)
· http://www.babyschmitt.com.br/trilhasastrais.htm
·
http://www.gsdr.dc.ufscar.br/~wesley/fotos/barra/junho_julho2003/Eu%20no%2
0discoporto%20de%20madrugada.jpg (visitante no
discoporto)
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