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QUANDO SE SENTIR NATIVA É UM PROBLEMA*
Lígia Dabul**
RESUMEN
Neste trabalho pretendo descrever e refletir sobre uma situação limite de observação participante: ao freqüentar a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, importante escola de artes do Rio de Janeiro, Brasil, para pesquisar a constituição de identidades de artista junto àqueles que começavam a envolver-se com a chamada arte contemporânea, deparei com total familiaridade com meu objeto. Diferente de todas as outras experiências de pesquisa que havia tido, tal como relatam diversos antropólogos que trabalham em área urbana, agora meu pertencimento era dado. Relacionava-me com indivíduos brancos, não pobres, e havia predominância de mulheres, muitas da minha faixa etária. Ao longo dos dois anos de investigação, ocupei lugares sociais já constituídos, todos eles viabilizadores das tarefas de pesquisa e da inserção necessária para a observação que pretendia fazer: freqüentadora do Parque Lage, pesquisadora, aluna de pintura. Além disso, pesquisava (e assim me interessava) o mundo da arte, crédito para ali estar fazendo o que fazia. Decorria destas cômodas posições a sempre incômoda sensação de nada estranhar, a disposição de aderir ao sociologizado discurso de diversos daqueles atores sociais atestando minha dificuldade de ultrapassar a teoria nativa (minha também) a respeito de aspectos cruciais do objeto que pretendia construir.
À dificuldade de estranhar somava-se a de acionar uma teoria da pesquisa que desse conta desta circunstância de sentir-me nativa, e dos tantos empecilhos para a investigação que percebia e antevia dela decorrer. Ao lado de intenso esforço de compreensão das relações sociais que estabelecia, do lugar social que ocupava e das facilidades que experimentava, apropriava-me contrastivamente de minhas experiências de trabalho de campo anteriores, e de outros antropólogos. O controle da familiaridade, e, assim, a constituição do estranhamento necessário para a pesquisa antropológica, contudo, só teve lugar ao experimentar uma fugaz situação de desinserção: quando, ao começar o curso de pintura, senti os constragimentos de não saber pintar, a condição, sempre passageira, de aluna novata, propiciando um lugar de onde podia então perceber múltiplas e nem sempre simpáticas maneiras dos indivíduos praticarem a pintura juntos e conviverem naquele ambiente, e as condições para que, em tão pouco tempo, voltasse a experimentar a familiaridade. Só que agora com controle, e num contexto prazerozo mas não mais de harmonia. O relato desta experiência de desinserção, e a sua importância para que pudesse observar aspectos do objeto e chegar a determinadas formulações sobre ele, constituem o eixo deste trabalho.
NOTAS*Este artigo é versão modificada de parte de No curso da pintura: a produção de identidades de artista, dissertação apresentada em 1998 ao Mestrado em História da Arte, Área Antropologia da Arte, da UFRJ, sob orientação do Prof. Antonio Carlos de Souza Lima.
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