O canto sedutor do coquista Chico Antônio: Memória, Política e Turismo
Cultural
Gilmara Benevides
Mestrado em Antropologia
Cultural UFPE
gilmara_babirush@bol.com.br
RESUMO
Francisco Antônio Moreira (1904-1993) nasceu em Cortes, distrito rural de Pedro
Velho, município da região agreste do Estado do Rio Grande do Norte. A atuação
do mediador cultural Antônio Bento de Araújo Lima (1902-1988), na época Deputado
Estadual e crítico de arte, foi muito importante para a realização de um ‘evento
histórico’: ele provocou o encontro do artista popular, o embolador de cocos
Chico Antônio com o musicólogo Mário de Andrade (1893-1945) em janeiro de 1929.
A partir deste encontro, Chico Antônio ficou conhecido como o coquista ‘descoberto’
por Mário de Andrade, que o cita em suas pesquisas nos livros ‘Os Cocos’, ‘Vida
de Cantador’, ‘O Turista Aprendiz’ e ‘Danças Dramáticas’. Este trabalho é um
resumo de considerações elaboradas para a escrita de dissertação homônima para
o Mestrado em Antropologia Cultural, a partir do estudo de caso do evento cultural
Encontro de Cultura, Artes e Humanidades, a Semana Chico Antônio, que
aconteceu entre 26 e 29 de dezembro de 2002 analiso em campo as categorias teóricas
memória social e práticas culturais focando meu interesse em três grupos distintos:
a) os agentes culturais locais, b) os familiares de Chico Antônio e c) os críticos
do evento. Procuro interpretar estas categorias tendendo a aproximar
o ‘saber local’ representado pelos intelectuais regionais à ‘memória nacional’
o contexto histórico-cultural nacional. A especificidade desta prática social
revela a visão de ‘cultura’ elaborada por um grupo local e suas práticas demonstram
haver uma busca pela inserção através do turismo cultural regional. Enfim,
pretendo com este trabalho analisar a relação entre cientistas sociais e seus
interlocutores ‘nativos’, enquanto construção cultural democrática – utilizando-se
assim de políticas públicas, em especial as políticas culturais, como formação
de público cidadão, à responsabilidade social e a melhoria de vida dos habitantes
locais sem que precisemos cair em tutelas ou paternalismos, mas atuando como
intérpretes e agentes produtores de culturas.
1. Saber
local, Memória nacional: sobre intelectuais, artistas populares e políticas
de preservação do patrimônio artístico e cultural
O coquista Chico Antônio (1904-1993) trabalhava como agricultor no engenho
Bom Jardim, propriedade da família do então Deputado Estadual e crítico de arte
Antônio Bento de Araújo Lima (1902-1988). Em janeiro de 1929 ambos tinham idades
aproximadas e um profundo interesse em comum: a música. A expressividade da
cantoria de emboladas do coquista Chico Antônio interessavam ao mediador cultural
local, mas suas vidas tomariam caminhos opostos que os separariam pouco depois
da visita do musicólogo Mário de Andrade (1893-1945). Mário de Andrade pesquisava
sobre as artes populares no nordeste do Brasil quando foi convidado para conhecer
o embolador de cocos Chico Antônio. Este ‘evento histórico’ seria vivenciado
no pátio do engenho, tendo como testemunhas as pessoas da vizinhança, enquanto
o cantador e seus companheiros se reuniam em torno do botequim. Em entrevistas
posteriores ao encontro, Chico Antônio se referiria a Antônio Bento como sendo
o seu ‘compadre’ protetor e a Mário de Andrade como ‘um santo’ que estivera
ali para modificar sua vida, oferecendo uma oportunidade para cantar em São
Paulo.
"Quando nós chegamos na casa
do Coroné, aí Dr. Mário veio e falou comigo: - Então, você que é o Chico Antônio?
- Seu criado mesmo. Aí jantamos e tudo. Quando foi na hora, o pátio do engenho
não teve canto. Não cabia ninguém. Aí Dr. Mário disse: - Chico, você não bota
o ganzá nesse povo pobre em nenhum. Só bote no povo da casa, e eu e seu compadre
Antônio, o nosso que está reservado" (ESTRADA NOVA, 1983:6).
O canto do coquista Chico Antônio despertou a curiosidade do musicólogo Mário
de Andrade, porém foi a expressividade de sua dança que o fez elogiar o caráter
‘inovador’ na arte da cantoria de emboladas. Mário de Andrade, mesmo tendo
perdido o contato com Chico Antônio em 1929 o perpetua em sua literatura – ele
personificaria a musicalidade de Chico Antônio transformando em ‘ficção’ a visita
do coquista a São Paulo em ‘Vida de Cantador’; a descrição de sua viagem etnográfica
pelo nordeste e seu encontro com Chico Antônio estão em ‘O Turista Aprendiz’;
os aspectos técnicos de sua pesquisa musical bem como o material coletado da
cantoria de Chico Antônio estão em ‘Os cocos’; aspectos sociais e psicológicos
do cantador são citados em ‘Danças Dramáticas’. Mesmo antes de encontrar-se
com o coquista no engenho Bom Jardim, os escritos do modernista Mário de Andrade
já apontavam na direção de uma preocupação com a criação de uma política de
preservação do patrimônio artístico nacional, que seria desenvolvida a partir
da década de 1930 e que lançou bases sólidas para a construção de um Anteprojeto
para a criação do Serviço de Patrimônio Artístico e Nacional – IPHAN, do qual
seria Diretor em 1936.
"E o homem, o cantador Francisco
Antônio Moreira, o que fora feito dele? Mário de Andrade diz ter tido ótimas
notícias 'logo depois da revolução de 30 (...) Depois disso parece não ter havido
qualquer registro de suas andanças; o próprio Mário de Andrade, em 1944, não
sabia mais dele: "... talvez ainda viva lá no Rio Grande do Norte" (ESCOREL,
1997:259).
Mário de Andrade aprimorou os estudos sobre o ‘folclórico’ apesar de tentar
escapar à denominação de folclorista, talvez porque até a segunda metade do
século XX os estudos sobre folclore levavam em consideração critérios que reforçavam
um caráter coletivo, as pretensas origens, a busca pelo puro e anônimo da criação
artística, imprimindo paradoxalmente um rótulo de ‘marginal’ às culturas populares
pesquisadas e até defendidas. O folclore perderia lugar nos centros acadêmicos
para os estudos antropológicos, mas continuaria ‘resistindo’ em espaços como
associações, centros, grupos e fundações culturais que se voltam ao estudo
das tradições: de cultura material, não material, mitologias, representações,
ideologias expressas nas artes populares (VELHO, 2000:9).
O trabalho do folclorista potiguar Deífilo Gurgel serve como um exemplo da mudança
de mentalidade do intelectual em torno do ‘folclórico’. A princípio fascinado
pela beleza plástica dos grupos de dança em apresentações de rua, Deífilo Gurgel
desenvolveu seu ‘gosto pelo folclore’ gradualmente, enquanto trabalhava como
Diretor do Departamento de Cultura da Secretaria Municipal de Educação em Natal,
na década de 1970. Por volta desta época, seu interesse se retraía sobre uma
tímida iniciativa protecionista em relação aos grupos de dança e aos folguedos
tradicionais. Nove anos depois, Deífilo Gurgel faria parte do quadro de funcionários
da Fundação José Augusto, órgão Estadual de fomento à cultura regional, onde
buscaria ampliar seus conhecimentos sobre artes populares. O trabalho desenvolvido
pelo folclorista potiguar seguiria os passos das pesquisas feitas pelo musicólogo
paulistano: foi através da literatura escrita por Mário de Andrade em ‘O Turista
Aprendiz’, que Deífilo Gurgel ‘descobriu’ as pistas que o levariam até Chico
Antônio cinqüenta anos depois de seu encontro com musicólogo.[1]
Deífilo Gurgel viajara pela região agreste do Estado do Rio Grande do Norte
em 1979 quando foi informado da existência do coquista Chico Antônio, o artista
popular continuava com sua cultura de subsistência, trabalhando como agricultor
e morando na localidade de Porteiras, zona rural do município de Pedro Velho,
residindo com a esposa Dona Amélia e alguns familiares.
A partir de então, o pesquisador Deífilo Gurgel centrou suas ações na elaboração
de projetos e planejamento de gastos e busca de fomento para pesquisas e criação
de encontros e pesquisas. Situadas em âmbito regional, seus estudos repetem
a projeção de um ‘saber local’ elaborado pelo intelectual interessado na memória
e identidade locais no cenário histórico-cultural da ‘memória nacional’. Coerente
com a perspectiva originária de proteção da expressão artística cultural, Deífilo
Gurgel procurou amparar Chico Antônio através da concessão pública de uma pensão
vitalícia, o que garantiu a compra de uma casa própria e sua mudança para o
centro da cidade de Pedro Velho em 1982.
2.O artista popular na era da industrialização cultural ou ‘como
Chico Antônio chegou à TV Globo’
Mário de Andrade
vislumbrara no cinema “um importante meio de vulgarização da arte” e encontrara
na fotografia um “instrumento ideal para o desenvolvimento de suas atividades”
(CARNICEL, 1993:62). Chico Antônio foi fotografado pela primeira vez por Mário
de Andrade, sendo retratado segurando o ganzá ao lado de Antônio Bento de Araújo
Lima, a foto é o documento visual do encontro em janeiro de 1929. Em setembro
de 1982, o cineasta Eduardo Escorel filmou um documentário sobre o cantador,
chamado “Chico Antônio, herói com caráter” numa alusão ao livro homônimo do
musicólogo paulistano. Diferentemente do livro, a intenção do cineasta carioca
era a de captar o encontro entre o artista popular e seu compadre Antônio Bento
através da tecnologia da gravação em vídeo – desde a década de 1930 o crítico
de arte residia na cidade do Rio de Janeiro.
Mas voltemos
um pouco no tempo para compreender os motivos por trás deste ‘reencontro virtual’,
pois desde janeiro de 1929 Chico Antônio e Antônio Bento não mais se viram pessoalmente:
era 1982 e a notícia da ‘redescoberta’ de Chico Antônio foi um dos assuntos
da conversa informal em torno de uma mesa de bar na Avenida Atlântica, onde
estavam presentes Aloísio Magalhães (1927-1982), Carlos Augusto Calil e Eduardo
Escorel. Dez anos antes, Aloísio Magalhães ocupara diversos cargos na área
cultural do governo federal, procurando introduzir uma política de valorização
das referências culturais brasileiras partindo da necessidade de preservação
da memória e dos bens culturais, conseguindo converter suas idéias em diretrizes
políticas para obter recursos que viabilizariam projetos de resgate e preservação
da memória nacional. A contribuição dada por Aloísio Magalhães colocou no cenário
cultural brasileiro categorias opostas que convivem pluralidade da cultura brasileira
como ‘nacional’ e ‘estrangeiro’; ‘nação’ e ‘região’; ‘passado’ e ‘futuro’;
‘tradição’ e ‘modernidade’; ‘popular’ e ‘erudito’; ‘história’ e ‘memória’; ‘unidade’
e ‘diversidade’ (FONSECA, 2002).
Pois em 1982
Aloísio Magalhães estava envolvido na Secretaria de Cultura do Ministério da
Educação e Cultura e no mês de maio estivera com Deífilo Gurgel e Chico Antônio
em Natal. Em consonância com as idéias do cineasta Eduardo Escorel, Aloísio
Magalhães acreditava que seria necessário registrar em imagens ‘o grande cantador’,
“já alquebrado nos seus oitenta anos de idade. Essa conversa sem compromisso
mudaria de figura, criando uma obrigação, quando recebemos dias depois a notícia
que Aloísio partira numa viagem sem retorno ” (ESCOREL, 1997:257). Em setembro,
o cineasta chegaria à localidade de Porteiras acompanhando a equipe de pesquisadores
encarregados pelo Projeto “Estrada Nova: Chico Antônio e Seu Meio”. O projeto
utilizava métodos pioneiros como o uso de recursos audiovisuais e visava “contribuir
para reforçar a identidade cultural do Município” fazendo avançar a política
preconizada pelo Ministério da Educação, em busca da ampliação da ‘responsabilidade
social’ (ESTRADA NOVA, 1983:2). Com o pouco tempo disponível para realizar
seu próprio documentário, Eduardo Escorel conseguiria montar a homenagem ao
coquista através de “Chico Antônio, herói com caráter.”
A voz do cantador
seria também ´preservada´ na entrevista gravada para a série “Memória Viva”,
produzida pelo jornalista Carlos Lyra, na época veiculada pela TV Universitária.
Na mesma ocasião em que foi produzido o seu primeiro LP “Na Pancada do Ganzá”,
onde canta com seu companheiro de emboladas, o respondedor Paulírio Sebastião
da Silva. Foram depois convidados para uma apresentação em São Paulo, para
o programa Som Brasil, da TV Globo, na manhã dominical de março de 1982. O
coquista Chico Antônio deixou de cantar tão logo voltou da viagem para São Paulo,
cessando a cantoria no início da década de 1980. Nove anos depois, em janeiro
de 1989, o cantador estava morando na casa de um de seus sete filhos, Pedro
Francisco Moreira, quando recebeu a visita do jornalista Amarildo Carnicel
– que na época refazia o trajeto de Mário e Andrade em sua viagem etnográfica
pelo nordeste do Brasil. As fotos feitas por Amarildo Carnicel revelam um Chico
Antônio doente e silenciado, que morreria coincidentemente no mês de outubro
de 1993 em plena semana de comemorações do centenário de nascimento do musicólogo
paulistano Mário de Andrade, promovida pelas universidades federais dos Estados
do Rio Grande do Norte e da Paraíba. Somente em fins da década de 90 surgiriam
questões mais profundas em torno de ‘direitos autorais’ e de direitos de divulgação
do nome, canto e imagem do coquista Chico Antônio publicamente.
3. Etnografando a Semana Chico
Antônio: as políticas culturais e a preservação da memória e identidade
locais através do turismo cultural
Escolhi analisar um evento cultural devido a critérios objetivos: minha experiência
como estudante interessada em elaboração de projetos de cunho cultural, Produção
e Marketing Cultural; mas foram os critérios subjetivos me levaram a recortar
o problema e a criar possíveis respostas sobre as hipóteses levantadas durante
o Mestrado em Antropologia Cultural pela UFPE. Além do mais, estudar a produção
de um evento parecia uma forma viável de particularizar meus estudo sobre a
construção social da memória, sendo uma oportunidade de aplicar a análise teórica
de orientação geertziana, interpretativista, sobre fenômenos observados
em campo como as práticas culturais locais num determinado período. Depois
de visitar o município, procurei conviver com as pessoas entrevistadas durante
a produção do evento cultural, o Encontro de Artes, Cultura e Humanidades que
acontece anualmente no município de Pedro Velho[2] na região agreste do Estado do
Rio Grande do Norte, a 90 Km da capital do Estado, a cidade de Natal. Sem fins
lucrativos, o evento cultural foi elaborado e ainda é produzido pelo Grupo de
Estudos e Pesquisas Chico Antônio, formado voluntariamente em 1997 por estudantes,
funcionários públicos e demais interessados em pensar a identidade local a partir
da memória do artista popular conterrâneo, o coquista Chico Antônio. O evento
cultural etnografado teve a duração de quatro dias consecutivos, iniciados em
26 e encerrado no dia 29 de dezembro de 2002, ocasião em que pude exercitar
o trabalho de observar e anotar dados e situações de conflito entre os a) os
agentes culturais, os componentes do Grupo de Estudos e Pesquisas Chico Antônio,
b) alguns familiares do coquista e c) críticos do evento.
De acordo com o discurso dos agentes culturais, o evento surgiu da motivação
de seus criadores de ‘reacender’ a cultura local fazendo surgir do ‘esquecimento’
grupos folclóricos como o pastoril, o mamulengo e o boi de reis. A princípio
foi montada uma exposição fotográfica e um recital de poesias de artistas moradores
do município, ao passo que o Grupo crescia absorvia novas idéias como a criação
de um evento cultural que pudesse fazer parte do calendário turístico estadual.
O Encontro de Cultura, Artes e Humanidades passaria a ser chamado Semana
Chico Antônio tão logo da associação do nome do artista local Chico Antônio
ao cenário da ‘memória nacional’ representada pela literatura de Mário de Andrade.
É uma pequena minoria de críticos que se dispõe contra a permanência do evento,
dificultando a atividade de captação de recursos junto aos pequenos comerciantes
e órgão municipais como a prefeitura, que apóia o evento público favorecendo-o
em sua infra-estrutura. Ao contrário da atuação sócio-cultural dos participantes
do Grupo de Estudos e Pesquisas Chico Antônio, seus críticos são anônimos e
pensam de forma quase homogênea ao resumir a natureza do evento a duas questões:
a) por quê homenagear Chico Antônio? b) quem está ganhando dinheiro ‘em cima
do nome’ de Chico Antônio?
A figura do artista popular Chico Antônio está envolta em preconceitos que são
deflagrados nas críticas de cunho moral, que ressaltam sua pouca instrução escolar,
a prática de uma expressão musical ‘ultrapassada’ como o coco de embolada, e
o reduz à figura perturbadora de um ‘velho cachaceiro’. Seus principais defensores
são pessoas da terceira idade, muitos desenvolvem trabalho na agricultura, não
são escolarizados e associam a bebedeira geralmente à função do artista como
‘animador’ do público:
"Pra onde ele ia cantar, eu
ia também, gostava muito de ir olhar. Ele cantava demais!"
"É, aqui ele na cidade alguém
fala mal dele, eu acho que está enciumado com as honras que dão a ele, né?
Com ciúmes porque ele nunca desacatou ninguém, nunca brigou, não tinha nada
que desabonasse a conduta moral dele... Ele tomava umas pingas, porque muita
gente toma, mas essa estória de dizer que ele vivia caído nas calçadas bêbado,
não acontecia isso não! Pelo menos eu conheci ele muitos anos, desde menino
que eu conheço ele, eu menino e ele já homem..."
Por sua vez, as críticas levantadas por alguns familiares de Chico Antônio têm
um caráter especificamente ético, diretamente ligadas ao evento cultural Semana
Chico Antônio e à responsabilidade social. A questão “quem está ganhando dinheiro
‘em cima do nome’ de Chico Antônio” fez aumentar o conflito entre os três segmentos
caracterizados a partir da pesquisa em campo, e fizeram dos agentes culturais
alvo preferencial da acusação de ‘exploração’ da memória do cantador Chico Antônio
e de estarem sendo favorecidos financeiramente. O Grupo começou a se dispersar
devido a divergências entre os componentes e atualmente conta com aproximadamente
três participantes efetivos e dois eventuais. O argumento utilizado para que
não mais haja evento cultural é significativo: um dos filhos de Chico Antônio,
idoso e doente mental, mora de forma precária na mesma casa em que Chico Antônio
fora visitado pelo pesquisador Deífilo Gurgel em 1979. Isto quer dizer: o evento
não está favorecendo a quem mais precisa, senão a outras pessoas... Mas afinal
quem são estas pessoas? “Quem está ganhando dinheiro ‘em cima do nome’ de Chico
Antônio”?
A crise se agravou em 2002, quando o Projeto enviado para o Ministério da Cultura
pedindo recursos para o evento foi reprovado, apesar de tudo, o evento foi produzido
precariamente. Durante e depois da semana do evento cultural percebi como agiam
seus críticos, analisando negativamente o trabalho desenvolvido voluntariamente
pelos agentes culturais, a voz do ‘senso comum’ repetia em coro que aquelas
pessoas estavam ficando ‘ricas’ com o dinheiro que viera de Brasília para o
evento. Mas o dinheiro não fora liberado, e como explicar que ainda assim o
Grupo pagara ‘à vista’ a todos os artistas populares que ali se apresentaram?
A mim pareceria óbvio que acreditassem que o dinheiro fora arrecadado: a) pelo
patrocínio dos pequenos comerciantes locais, b) por alguns políticos, talvez
de forma ‘espontânea’, c) por pessoas simpáticas à causa e, finalmente, d) pela
venda de camisetas produzidas para serem comercializadas durante o evento.
Meu papel ali não era o de ‘dar respostas’, por isso me contive e naquele momento
eu apenas observei os fatos para tirar minhas conclusões posteriormente. Segui
as palavras de Clifford Geertz:
"o etnógrafo não percebe - principalmente
não é capaz de perceber - aquilo que seus informantes percebem. O que ele percebe,
e mesmo assim com bastante insegurança, é o 'com que', ou 'por meio de quê',
ou 'através de quê (ou seja lá qual for a expressão) os outros percebem" (GEERTZ,
2001:89).
Mesmo que neste caso específico, o evento cultural Semana Chico Antônio,
os agentes culturais locais pareçam estar fazendo sua parte e agindo corretamente
enquanto sociedade civil organizada, as críticas apontam para falhas que poderiam
ser debeladas. Nas palavras de uma ex-integrante do grupo podemos perceber
que inexiste uma orientação técnica adequada: “olha, sabe qual é o defeito que
eu vejo na equipe? Me incluindo, claro... É que este já é o sexto encontro
e nós... A gente continua sendo muito amador, ta entendendo?” Parece não haver
sinal de política cultural favorável ao desenvolvimento social de pequenas sociedades
situadas na periferia do Brasil, cuja diversidade e riqueza fazem com que se
tornem “a grande alavanca de sustentação dos mais variados grupos sociais e
comunitários, garantindo a manutenção desse tecido social, que mesmo depauperado
segue firme e coeso” (BRANT, 2002:18). À memória e identidades locais caberá
um papel secundário em torno das políticas culturais que em muito poderiam ajudar
a desenvolver um projeto respeitando os agentes culturais locais, formando-os
adequadamente? Em relação ao poder público:
"...é possível até mesmo dar
um passo fundamental, que é ter um sentido de política pública; uma política
pública que parta do ponto de vista e dos valores desses grupos a que chamamos
de populares, mas que abra espaço para que esses grupos - sem os violentar,
sem os tutelar - tenham oportunidades de fazer determinadas escolhas e de se
relacionar de modo mais amplo (...) criar condições para que esses grupos e
indivíduos - indivíduos produtores e indivíduos artistas - possam, de algum
modo, ter a oportunidade de escolher o que querem fazer. Para isso, entretanto
é preciso dar condições mínimas de trabalho e acesso à informação e a circulação"
(VELHO, 2000:10).
Acredito que o papel do cientista social está intimamente relacionado com a
interpretação destas realidades locais, que representadas em suas práticas culturais
estão imbuídos os seus valores, seu ethos, sua visão de ‘cultura’. Ao
interagir, buscamos juntos uma lógica por trás do sistema cultural para além
de um mero estudo, mas por uma ‘responsabilidade social’, solidariedade social,
ampliando as condições favoráveis à expressão artística e da melhoria de vida
destas pessoas.
Referências bibliográficas
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de. 1983. Vida de cantador. São Paulo / Brasília: Duas Cidades.
BAYARDO, Rubens.
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lido em jul 2002.
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prático para gestão e venda de projetos. 3. ed. São Paulo: Escrituras.
CARNICEL,
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ESCOREL, Eduardo.
1997. O canto da sedução. In: Múltiplo Mário: ensaios. João
Pessoa, Natal: UFPB-UFRN, p. 257-269.
ESTRADA NOVA:
PROJETO CHICO ANTÔNIO E SEU MEIO. 1983. Rio de Janeiro: Instituto Nacional
do Folclore – FUNARTE.
FONSECA, Wellington.
Resgate de Aloísio Magalhães. Texto retirado do site http://www.unb.br/acs/acsweb/noticiasdaunb/resgate.htm
lido em nov 2002.
GEERTZ, Clifford.
2001. O saber local: novos ensaios em antropologia interpretativa. 4.
ed. Petrópolis: Vozes.
VELHO, Gilberto.
2000. Identidades nacionais e cultura popular: o diálogo entre a antropologia
e o folclore. Rio de Janeiro: FUNARTE.
[1] O encontro entre Mário de Andrade e Chico Antônio
é comparado ao encontro de duas esferas da sociedade distintas, duas classes
sociais opostas, dois universos culturais que se encontram na ‘missão’ de tornar
híbrida a cultura brasileira através da consagração do ‘saber local’ inserido
numa ‘memória nacional’: “um encontro carregado de emoção entre um mestre erudito
e um mestre popular. Um, sulista, outro, nordestino ambos de estatura elevada,
muito acima da média de seus conterrâneos. Todos dois com a capacidade de despertar
paixões” (ESCOREL, 1997:258).
[2] O município de Pedro Velho foi reconstruído depois
do transbordamento do rio Curimataú no ano de 1890, a princípio com o nome de
Vila Nova de Cuitezeiras, devido às tendência políticas republicanas locais
depois da morte do político Pedro Velho o município passou a adotar o novo nome
como forma de homenagem ao ex-governador do Estado do Rio Grande do Norte em
1907. Tramita na Câmara dos Vereadores local um projeto de lei de mudança de
nome, aceito pela maioria dos munícipes, a mudança de nome da cidade. Se houver
plebiscito em 2004, os votantes poderão optar entre ‘Cuitezeiras’ e ‘Vila Nova
de Cuitezeiras’, tornando assim ao topônimo originário.
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